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31/10/2008 - 13:07

Chegou no outlook: as cidades dos meus amores

Casas coloridas à margem do canal em Burano, Veneza
 

Deve ter alamedas verdes,

a cidade dos meus amores…

Acabaram-se as eleições para prefeitos e a gente torce para que todo mundo esteja compartilhando da mesma pressa…a cidade dos nossos amores, como na música do Chico Buarque, há que começar rapidamente a construí-la, certo? Queremos todos viver em cidades mais acolhedoras, mais generosas de verde, mais fáceis, mais amigáveis, onde as pessoas se sintam ao mesmo tempo próximas umas das outras, ma non troppo…o bastante para afugentar o medo da solidão, o suficiente para preservar a autonomia, o direito a calma, o lazer, sem atrapalhar nem ser atrapalhado por ninguém. Queremos cidades onde a gente possa andar sem medo, homens, mulheres, novos e velhos, sozinhos, em bandos, a dois. Queremos ir da casa para o trabalho o mais rápida e confortavelmente possível, e queremos voltar para casa com tempo e disposição para estar com nossos filhos, e amá-los…Tantas coisas a gente quer da cidade da gente. Sim, devem ter alamedas verdes, as cidades dos nossos amores, mas talvez possam ter alamedas de água ou de paredes azuis…

Chegaram essas duas apresentações no meu outlook esta semana, uma da Lélia, outra da Re, amigas, quem sabe companheiras, se um dia eu conseguir conhecer uma dessas cidades, Burano e Chaouen. Porque que dá muita vontade, isso dá. Veja só se você não concorda que essas são duas cidades fortes candidatas ao título de “as cidades dos nossos amores”?

 

Chaouen
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Burano Venecia
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Aqui você tem o restante da música do Chico Buarque, Cidade Ideal

A foto lá em cima é da GettyImages/Medioimages

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Estilo ecológico Tags: , ,
06/10/2008 - 07:00

Homo cordialis

Quando começaram a construir um condomínio horizontal no terreno baldio que havia atrás de casa, nós e nossos vizinhos entramos em pânico. Condomínios horizontais seguem regras peculiares em relação a recuos e espaços, as casas ficam muitíssimo mais próximas umas das outras. “Vai desvalorizar nosso bairro”, dizia uma. “Vamos precisar vender nossas casas”, apavorava-se outro. Saí daquela reunião triste, por mim, por todos. Cheguei no dentista, abri uma revista e…fui abduzida pela foto dourada de uma vila na Sicília: casas, umas sobre as outras, cobrindo uma colina cercada de mar de humanidades empoleiradas…

Comecei a rir…houve um tempo em que a noite era escura, de um jeito que a gente hoje nem imagina. Nesse tempo, dormir era uma ousadia e o corpo do outro, a respiração quente do outro, a única proteção. As cidades medievais são todas assim, casas grudadas umas nas outras, idênticas, enfileiradas nas ruas minúsculas, tortas, labirínticas, tudo truques, para driblar o medo da noite e do inimigo desconhecido que vivia em algum lugar, fora dos muros, do outro lado, depois da floresta, atrás das montanhas, no horizonte do mar…

Nada de novo debaixo do Sol, como diria o salmista. Já vivemos empoleirados. O outro nos acompanha sempre, desde sempre. Há que se viver com isso.

Mas como?

A revista européia Monocle  fez um estudo entre seus leitores para descobrir como seria o bairro ideal. Juntou tudo com algumas idéias bem modernas sobre autosustentabilidade e economia de recursos naturais e chegou a algumas conclusões. O bairro ideal deve ter casas de tamanhos e estilos variados, misturadas com lojinhas, pelo menos um bar ou restaurante aconchegante, serviços 24h para emergências e esquecidos, supermercado, evidente, um parque, um lago, bondes, janelas em vez de ar-condicionados, escola, abastecimento de frutas e legumes através de produtores locais ou, no mínimo, próximos.

Sim, o bairro ideal…um sonho que a gente começa a construir sendo…o cidadão ideal. E é aí que entra o homo cordialis.

Uma espécie que já esteve ameaçada de extinção, mas que, a julgar pela quantidade de cursos e workshops e livros sobre “empatia”, “rapport”, “comunicação não-verbal”, parece que anda procriando, em cativeiro, mas…!

 E como seria esse homem/mulher cordial, vizinhos perfeitos, cidadãos do futuro, habitantes impecáveis de um mundo apinhado e tolerante?

Vamos ver…

- dizer por favor, muito obrigado/a, com licença, básico

- respeitar filas, à pé, de bicicleta, de carro

- ser generoso com os sorrisos

- e muito econômico nas críticas

- saber quando oferecer ajuda…

- e quando manter distância

- conhecer o mundo o suficiente para apreciar seus múltiplos aspectos

- e tolerar conviver com seres diferentes de si mesmo

- não deve se intimidar com costumes exóticos, ao contrário, encontrar o vizinho tailandês caçando grilos ao entardecer para fritá-los no jantar deveria no máximo provocar nesse ser cordial um sorriso de cumplicidade e, eventualmente, com graça e elegância, ele poderia oferecer uma lanterna

- precisa dominar a arte de conversar, sobre o tempo, economia, política, futebol  e até religião sem perder a expressão afável e, sobretudo, jamais, nestas situações, ameaçar seu interlocutor com a possibilidade de, a qualquer momento, transformar-se num missionário furioso

- e saber ouvir é fundamental, numa proporção de, digamos, três perguntas realmente interessadas sobre o outro, para cada minuto de conversa sobre si mesmo

- manter sua vida privada, privada, o que pode parecer óbvio, mas não é, algumas pessoas insistem em compartilhar suas preferências e hábitos mais íntimos, incluindo nessa longa lista de coisas para fazer apenas entre quatro paredes, singelezas, como coçar-se e arrotar, só para dar dois exemplos banais

- evitar compartilhar com os vizinhos seus gostos musicais também é bom preceito, mas compreender que existem festas para as quais não somos convidados e elas podem acontecer bem do lado da nossa janela também é…

- exercitar o olhar direto, amistoso, ao cruzar com outros seres humanos, ousar um cumprimento: bom dia, boa tarde, boa noite! Ser gentil não é obrigação apenas dos políticos…

- entender que a rua, o bairro, a cidade não são exatamente “seus”, são de todos, agora, o seu cachorro, ele é só seu… (isso, aliás, vale para todo o seu lixo e para o seu carro quando ele está parado na frente da garagem do outro ou em um lugar proibido, por exemplo)

- agradecer, sempre e pedir desculpas, quando for o caso, o outro nem ligou? O ser cordial sabe que a maior parte das vezes em que somos de fato cordiais não é por causa do outro, é para alimentar uma sensação gostosa de que afinal estamos longe das selvas…

Tudo isso porque, você sabe, não basta escolher o prefeito e o vereador, você, e cada um de nós, precisa começar já a escolher o tipo de cidadão que gostaria de ser.

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Estilo ecológico Tags: , , ,
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