Se é verdade que cada um de nós tem um estilo único, inconfundível, um jeito só seu de estar no mundo, também é verdade que não é nada fácil reconhecer-se com tamanha intimidade.
O privilégio da vida é ser quem você é, disse Joseph Campbell. Mas quem é esse eu que olha para mim no espelho? O que ele diz de mim, das escolhas que eu fiz, da vida que levo, dos meus sonhos…
Duas amigas, consultoras de estilo e de comunicação, resolveram dar forma a uma espécie de Manual de Estilo. Um guia passo a passo para criar uma “declaração de estilo” que fale com clareza de você, do seu projeto de vida e expresse exatamente quem você é em tudo que faz.
O livro, Questão de Estilo, é resultado de muita pesquisa das autoras, Carrie McCarthy e Danielle LaPorte. Um farta exploração de idéias sobre as inúmeras maneiras que usamos para enxergar o mundo. Como você se relaciona com seu lar e suas coisas? E com a moda e a sensualidade? O que inspira você e o que motiva você a aprender? Que idéias você usa para pensar em dinheiro, em trabalho? Amigos, romance, família, colegas, que recursos você usa para se comunicar? E que idéias, imagens, conceitos provocam sua criatividade? Como você usa seu corpo? E o que faz você se sentir bem como um gato? A Natureza chega como até você? O que faz você se acalmar? E como você definiria descanso e relaxamento?
Não existem respostas certas, evidente, mas a cada página surgem provocações, palavras-chaves que fazem a gente tomar consciência das coisas em nós que ficam escondidas na correria e na afobação do cotidiano.
Um livro interessantíssimo para começar o ano!
O site das duas é inspirador, cheio de dicas para quem invariavelmente se perde nos estilos e nos provadores das lojas…mas é em inglês!
E antes que você se aborreça comigo por isso, o livro está traduzido para o português, Questão de Estilo, da Larousse.
Quando começaram a construir um condomínio horizontal no terreno baldio que havia atrás de casa, nós e nossos vizinhos entramos em pânico. Condomínios horizontais seguem regras peculiares em relação a recuos e espaços, as casas ficam muitíssimo mais próximas umas das outras. “Vai desvalorizar nosso bairro”, dizia uma. “Vamos precisar vender nossas casas”, apavorava-se outro. Saí daquela reunião triste, por mim, por todos. Cheguei no dentista, abri uma revista e…fui abduzida pela foto dourada de uma vila na Sicília: casas, umas sobre as outras, cobrindo uma colina cercada de mar de humanidades empoleiradas…
Comecei a rir…houve um tempo em que a noite era escura, de um jeito que a gente hoje nem imagina. Nesse tempo, dormir era uma ousadia e o corpo do outro, a respiração quente do outro, a única proteção. As cidades medievais são todas assim, casas grudadas umas nas outras, idênticas, enfileiradas nas ruas minúsculas, tortas, labirínticas, tudo truques, para driblar o medo da noite e do inimigo desconhecido que vivia em algum lugar, fora dos muros, do outro lado, depois da floresta, atrás das montanhas, no horizonte do mar…
Nada de novo debaixo do Sol, como diria o salmista. Já vivemos empoleirados. O outro nos acompanha sempre, desde sempre. Há que se viver com isso.
Mas como?
A revista européia Monocle fez um estudo entre seus leitores para descobrir como seria o bairro ideal. Juntou tudo com algumas idéias bem modernas sobre autosustentabilidade e economia de recursos naturais e chegou a algumas conclusões. O bairro ideal deve ter casas de tamanhos e estilos variados, misturadas com lojinhas, pelo menos um bar ou restaurante aconchegante, serviços 24h para emergências e esquecidos, supermercado, evidente, um parque, um lago, bondes, janelas em vez de ar-condicionados, escola, abastecimento de frutas e legumes através de produtores locais ou, no mínimo, próximos.
Sim, o bairro ideal…um sonho que a gente começa a construir sendo…o cidadão ideal. E é aí que entra o homo cordialis.
Uma espécie que já esteve ameaçada de extinção, mas que, a julgar pela quantidade de cursos e workshops e livros sobre “empatia”, “rapport”, “comunicação não-verbal”, parece que anda procriando, em cativeiro, mas…!
E como seria esse homem/mulher cordial, vizinhos perfeitos, cidadãos do futuro, habitantes impecáveis de um mundo apinhado e tolerante?
Vamos ver…
- dizer por favor, muito obrigado/a, com licença, básico
- respeitar filas, à pé, de bicicleta, de carro
- ser generoso com os sorrisos
- e muito econômico nas críticas
- saber quando oferecer ajuda…
- e quando manter distância
- conhecer o mundo o suficiente para apreciar seus múltiplos aspectos
- e tolerar conviver com seres diferentes de si mesmo
- não deve se intimidar com costumes exóticos, ao contrário, encontrar o vizinho tailandês caçando grilos ao entardecer para fritá-los no jantar deveria no máximo provocar nesse ser cordial um sorriso de cumplicidade e, eventualmente, com graça e elegância, ele poderia oferecer uma lanterna
- precisa dominar a arte de conversar, sobre o tempo, economia, política, futebol e até religião sem perder a expressão afável e, sobretudo, jamais, nestas situações, ameaçar seu interlocutor com a possibilidade de, a qualquer momento, transformar-se num missionário furioso
- e saber ouvir é fundamental, numa proporção de, digamos, três perguntas realmente interessadas sobre o outro, para cada minuto de conversa sobre si mesmo
- manter sua vida privada, privada, o que pode parecer óbvio, mas não é, algumas pessoas insistem em compartilhar suas preferências e hábitos mais íntimos, incluindo nessa longa lista de coisas para fazer apenas entre quatro paredes, singelezas, como coçar-se e arrotar, só para dar dois exemplos banais
- evitar compartilhar com os vizinhos seus gostos musicais também é bom preceito, mas compreender que existem festas para as quais não somos convidados e elas podem acontecer bem do lado da nossa janela também é…
- exercitar o olhar direto, amistoso, ao cruzar com outros seres humanos, ousar um cumprimento: bom dia, boa tarde, boa noite! Ser gentil não é obrigação apenas dos políticos…
- entender que a rua, o bairro, a cidade não são exatamente “seus”, são de todos, agora, o seu cachorro, ele é só seu… (isso, aliás, vale para todo o seu lixo e para o seu carro quando ele está parado na frente da garagem do outro ou em um lugar proibido, por exemplo)
- agradecer, sempre e pedir desculpas, quando for o caso, o outro nem ligou? O ser cordial sabe que a maior parte das vezes em que somos de fato cordiais não é por causa do outro, é para alimentar uma sensação gostosa de que afinal estamos longe das selvas…
Tudo isso porque, você sabe, não basta escolher o prefeito e o vereador, você, e cada um de nós, precisa começar já a escolher o tipo de cidadão que gostaria de ser.
Pesquisas…meu sogro costumava dizer que se alguém conseguisse cruzar todas as pesquisas que saem nos jornais descobriria que o mundo está muito longe de fazer algum sentido!
Minha amiga, Lélia me manda uma notícia: o número de suicídios aumentou 60% nos últimos 45 anos! A informação vem de uma pesquisa divulgada essa semana pela Organização Mundial de Saúde, como parte de uma campanha de conscientização lançada no Dia Mundial de Prevenção do Súicídio, 10 de setembro.
A cada dia, informa a OMS, cerca de 3 mil pessoas se suicidam no mundo. Para cada suicídio, no entanto, contam-se algo como 20 tentativas frustradas. O objetivo da campanha da OMS é justamente sinalizar a necessidade de políticas de saúde pública que incluam o acompanhamento de pessoas que tentaram se matar logo na primeira vez. Fingir que não aconteceu nada e varrer o problema para debaixo do tapete é, sem dúvida, a pior opção, alertam os autores do estudo.
O suicídio é a terceira causa de morte entre pessoas de 25 e 44 anos e, em 90% dos casos, está relacionado a problemas mentais. Questões familiares e crises sócioeconômicas também podem ter aí um certo papel, mas o fato é que a maioria das pessoas que resolvem tirar a própria vida, faz isso sem uma razão externa aparente, ou seja, as estatísticas não dizem que em zonas de guerra as pessoas se suicidam mais, por exemplo. Nem tampouco informam que nas favelas do mundo a taxa de suicídios é maior. Nada disso, o aumento do número de suicídios aparentemente tem a ver com países desenvolvidos ou em desenvolvimento e afeta cada vez mais os jovens.
E como a gente junta isso com a pesquisa da semana passada, da World Value Survey Organization, que concluía que as pessoas andavam mais felizes?
Meu sogro diria: “cuidado, ler pesquisas não é coisa tão simples”, e ele teria razão…
Porque veja só. O estudo da WVS foi feito com foco nos países, tentando relacionar felicidade da população e nível sócio-econômico. O estudo da OMS, ao contrário, olha para as pessoas e para suas razões individuais.
Isso nos deixa com algumas perguntas penduradas: será que esse aumento do número de suicídios não estaria ocorrendo justamente nos países nos quais as pessoas se disseram menos felizes? E isso teria algo a ver com aquele tal “tédio de consumo” sobre o qual falavam os autores do estudo da WVS? Por que os jovens? Lembram que no outro estudo os especialistas relacionavam oportunidades pessoais, capacidade de realizar alguns sonhos e o senso de pertencer a uma família, a um grupo, como sendo das coisas importantes para se medir a felicidade? Será que os jovens estariam perdendo esse vínculo com suas comunidades? Seria esse um fenômeno geral ou ele estaria relacionado, por exemplo, às grandes cidades, aos países mais desenvolvidos…será que essas coisas todas estão relacionadas: tédio, jovens, perda de vínculos, falta de horizontes, suicídio?
Pesquisas, para mim, elas trazem mais perguntas do que respostas, meu sogro diria: “é para isso que elas servem”, e ele teria razão…
Não, talvez no formato como hoje os conhecemos, mas fico imaginando o espanto da primeira criatura que ao ver a imagem refletida numa poça d´água gritou para si mesmo: “esta sou eu!”
De lá para cá, as poças guardaram extraordinários reflexos de nós mesmos, mas, muitas vezes nos aprisionaram, como aconteceu com o jovem grego, Narciso. A lenda, cheia de versões, fala que Narciso era filho de um deus da natureza, um rio chamado Cefiso e uma ninfa, Liríope. Assim que o bebê nasceu, seus pais consultaram o adivinho cego Tirésias para descobrir o que o destino reservava para o menino. Descobriram que ele viveria até ser velho, desde que não olhasse para si mesmo. E Narciso cresceu, belo e indiferente ao amor que inspirava nos outros. Dizem que a ninfa Eco, desesperada de paixão, retirou-se para a solidão e emagreceu tanto que em pouco tempo não lhe restava senão a voz , um eco… Indignadas, as jovens desprezadas por Narciso pediram vingança à deusa da Justiça Divina, aquela cuja função é fazer os mortais perceberem os limites de sua própria humanidade, Nemêsis, uma das filhas da Noite. E a deusa fez com que um dia, depois de uma caçada, Narciso se abaixasse sobre uma fonte para beber da água fresca. Lá no fundo estava seu rosto, tão inacreditavelmente belo…Imediatamente, ele se apaixona pela imagem que vê e, por ela, deixa-se consumir junto à fonte, até morrer…Dele restou a flor, que herdou seu nome…
É, espelhos não são só um problema feminino. Ao contrário, estão entre os mais expressivos símbolos que nós criamos. O que diz o espelho mágico das histórias? Sempre a verdade, a verdade mais profunda de nós, aquela que muitas vezes, preferíamos que ficasse escondida, tanto dos outros quanto de nós mesmos. Meu dicionário de símbolos me conta que um antigo espelho chinês, que está no museu de Hanói, traz a inscrição: “Como o Sol, como a Lua, como a água, como o ouro, seja claro, brilhante e reflita aquilo que existe dentro do seu coração.”
Tão poderoso era o efeito deste reflexo na consciência dos humanos que em muitas tradições a imagem no espelho acabou sendo vista como o rosto de Deus e das coisas divinas e perfeitas que povoavam o mundo acima das nossas cabeças. Sim, tão belas, mas, um detalhe: a imagem que surge na superfície brilhante está sempre invertida, apontando para uma semelhança que no final é pura miragem, ilusão. O espelho mágico nem sempre fala a verdade, afinal, e muitas vezes cabe a nós corrigirmos aquilo que vemos refletido.
Em tempos de anorexias desfilando nas passaleras, obesidades epidêmicas e meninas enchando consultórios de cirurgiões plásticos, talvez a gente precise urgentemente corrigir nossa imagem de beleza. E nos vermos refletidos na poça assim belos, extraordinários, de novo…
Escrevi esse artigo há tanto tempo…ainda para o Delas…
Mas hoje, quando recebi de uma nova amiga muito querida um artigo falando de mulheres, de espelhos, fiquei pensando: que bom que tem gente colocando no You Tube mulheres tão belas…porque a beleza, a gente sabe, é feito os espelho, tem muitas, muitas faces…
Pois é, apesar do salário baixo, da corrupção dos políticos, dos desmandos da economia, apesar das guerras, dos relatos de crianças que são maltratadas, apesar até das manchetes dos jornais e das imagens aterrorizantes da TV, as pessoas no planeta estão encontrando boas razões para afimar: sim, eu sou feliz!
A conclusão é de uma pesquisa realizada pela World Value Survey Organization, uma ong dedicado ao estudo das mudanças sócio-culturais e políticas do mundo.
De tempos em tempos essa organização promove estudos sobre o comportamento das criaturas do planeta. No estudo divulgado este ano, foram questionadas 1400 pessoas em 52 países. A compilação de resultados dos últimos 25 anos, publicada na revista New Scientist e reproduzida nos principais jornais revela: os índices de felicidade aumentaram em nada menos do que 45 países!
A análise dos resultados revela que o crescimento econômico aumenta os níveis de felicidade, sim. Mas antes que você saia por aí dizendo que o dinheiro compra a felicidade afinal, os pesquisadores do WVS alertam: “o desempenho econômico afeta a felicidade apenas (APENAS, vejam bem!) nos países nos quais a renda per capita anual não ultrapassa os $12 mil dólares.
Explicando, uma vez que você tenha atingido níveis considerados mínimos de sobrevivência, o dinheiro deixa de ser um fator de felicidade. Ou seja, nos países ricos, as pessoas não se sentem mais felizes, nem mesmo com a conta bancária recheada, nem mesmo pilotando um iate, nem mesmo enchendo prateleiras e prateleiras do armário com sapatos de Manolo Blahnik!
A equação da felicidade é bem complicada avaliam os cientistas envolvidos na pesquisa. “O que o progresso democrático e os melhores desempenhos econômicos têm em comum é a sensação de liberdade pessoal que eles garantem”, afirma, Robert Foa, da Harvard University, co-autor do estudo. Assim, as pessoas da Europa Oriental se sentem muito mais felizes hoje do que há 25 anos atrás, apesar da situação econômica dos países onde vivem ter até piorado desde a transição do comunismo para o capitalismo.
Existem as exceções, evidente, o povo de Belarus, apesar da falta de abertura política se considera feliz e os chineses, apesar do crescimento econômico andam mais tristes. A Índia também vai assim, assim, em matéria de felicidade…os pesquisadores falam até de uma espécie de “epidemia” de tédio que ameaçaria os paises assim que eles alcançam níveis exagerados de consumo!
Na onda da felicidade, uma surpresa: os paises latino-americanos sempre se saem bem nas pesquisas. Não somos os mais ricos, mas o México, por exemplo, é um campeão de felicidade! A razão? A valorização dos laços familiares e o orgulho que têm do seu país. Essa felicidade só aumentou nos últimos anos com maiores oportunidades de trabalho e de expressão, proteção aos direitos das mulheres e das crianças, mais tempo para o lazer…
E a última boa noticia sobre a felicidade planetária: as pesquisas comprovam que um gatilho importante das emoções negativas é o individualismo. O que ajuda a explicar porquê alguns países ocidentais têm níveis tão baixos de felicidade. Nações da Ásia e da América Latina seriam menos suscetíveis aos sentimentos negativos porque, em geral, as pessoas consideram que as necessidades coletivas são mais importantes do que as razões individuais.
Agora, cá para nós, se você fosse um dos entrevistados da pesquisa o que responderia? Você é feliz? Vale a pena tentar responder porque talvez nenhuma outra pergunta seja tão importante!