Aprender a morrer
Morremos mal hoje, escondidos, envergonhados, atrás das portas automáticas das UTIs; morremos sozinhos, feito aparelhos velhos, ligados inutilmente nas tomadas.
Morremos de morte morrida, fatal, trágica, de susto, morte de motoboy. Morremos de doenças cujo nome não ousamos pronunciar porque elas vem insinuadas de culpas, morremos como castigo…
Morremos desajeitados, fora de contexto: qualquer um que já tenha se internado num hospital sabe que ali não se vai para morrer, ao contrário, médicos e enfermeiros são treinados para salvar vidas, soldados de uma guerrilha feita de vitórias sempre provisórias. Os que vão morrer que desculpem, saiam da frente, por favor, desocupem os leitos, são tantos para salvar…a morte nos hospitais chega invariavelmente com jeito de derrota! Deus é o grande adversário ou o grande ausente!
Morremos mal hoje, perplexos e desconfiados, e tudo que podemos desejar é que não doa!
Essa morte de todos os dias, corriqueira, tão desnecessária, apavora e desconcerta, entendemos as desgraças, as grandes tragédias, sobretudo porque elas são plurais, anônimas: morte de bando, contada às dezenas, centenas e milhares parece menos morte…
Será que é possível morrer bem? Não falta quem aposte que sim.
Não que a morte deixe de nos meter medo, fim e finitude são palavras que usamos para definir nossa humanidade, reservamos a eternidade, a imortalidade, aquilo que é ilimitado, para além de qualquer fronteira e de qualquer experiência possível, para os deuses, nós, os homens, sabemos que vamos morrer, mais dia menos dia…A morte, como diriam os budistas, não é uma questão de SE, é uma questão de QUANDO…
“A vida e a morte são vistas como um todo, onde a morte é o começo de um novo capítulo da vida, um espelho no qual o inteiro significado da vida é refletido”, ensina Sogyal Rimpoche, no Livro Tibetano do Viver e do Morrer.
Incluir a morte dentro da vida, tirá-la deste “não-falar”, trazê-la para a luz, é um desafio, um aprendizado e um exercício de amor incondicional!
Há muito trabalho a fazer…e muita gente trabalhando para ajudar as pessoas a morrerem uma “boa morte”. Três pistas para ajudar na sua pesquisa sobre o assunto.
Para começar: conheça Elisabeth Kübler-Ross
Na década de 80, Elisabeth Kübler-Ross, uma psiquiatra suíça, lançou um livro revolucionário: On death and dying. Elisabeth foi uma pioneira, estudiosa dos meandros da morte e do morrer (o nome grego complicado é tanatologia, de thanatos, morte e logia, estudo) e ativista dos direitos dos pacientes terminais em relação à própria morte. Foi eleita uma das cem personalidades do século pela revista Time, escreveu dezenas de livros sobreo tema e passou a vida ensinando médicos e enfermeiros que, para lidar com a morte dos outros, é preciso antes elaborar suas próprias questões espirituais: “Para aqueles que buscam compreendê-la, a morte é uma imensa força criativa. As mais profundas reflexões espirituais sobre a vida, têm sua origem nas reflexões e estudos sobre a morte”.
Para saber mais, visite o site da ERKFoundation
Um lugar para morrer
Ajudar a morrer, virou um ramo da medicina, chamado medicina paliativa e, embora ainda haja muito a fazer para tornar esse assunto menos tabu, a situação já foi pior. Nos anos 1970 e 1980, a psiquiatra Cecily Saunders lançou o Movimento Hospice. Hospices são lugares especiais onde as pessoas podem ir para morrer em paz, num ambiente tranqüilo e espiritual, cercadas da mais moderna tecnologia para aliviar a dor e dar conforto a quem se prepara para morrer (em alguns países você também pode optar por ficar na sua própria casa e receber o atendimento de um Hospice). O nome é emprestado da Idade Média. Era assim que os monges chamavam o lugar onde recebiam os viajantes cansados e doentes.
Em alguns países, como Inglaterra, Espanha e Canadá os hospices estão se tornando comuns, no Brasil as iniciativas ainda são raras, mas no Sítio Vida de Clara Luz, por exemplo, fundado em 2004, por Bel Cesar, psicóloga e budista, que desde 1991 dedica-se a acompanhar pessoas com doenças terminais, existem espaços destinados a funcionar como Hospice. Mais informações você consegue no site do Centro de Dharma.
Aprenda: um curso para ensinar a morrer
O dr. Franklin Santana Santos é médico e professor na USP da cadeira de “Tanatologia – Educação para a Morte”. Graças a ele muitos esforços e reflexões isoladas sobre o tema estão confluindo e o resultado são os dois volumes do livro A Arte de Morrer, compilação de trabalhos de especialistas em diversas áreas, da medicina à religião, relacionados à morte e ao morrer.
Essa abordagem multidisciplinar ele também adota no Curso de Tanatologia da FMUSP – Educação para a Morte – Uma Abordagem Plural e Interdisciplina. O objetivo é sensibilizar os profissionais das várias áreas para a questão da morte e ajudar a construir uma cultura que ajude as pessoas em geral e os pacientes terminais dos hospitais do país a morrerem com mais dignidade. A boa notícia é que você pode fazer o curso presencialmente, caso esteja em São Paulo, ou online, da sua casa, em qualquer lugar.
Para conhecer esses trabalhos, navegue pelo site Saúde e Educação
E descubra o jeito budista de ver a morte no Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, publicado pela Palas Athena.
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A foto é de Adrian Mohedano, mexicano, e foi tirada em durante os festejos do Dia dos Mortos, em 2007. No México o Dia dos Mortos é uma festa de luzes (para guiar os espíritos que vem visitar suas famílias), muitas flores, boa comida, bebida farta e muitos amigos em volta!

