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15/12/2008 - 13:22

Simplificando o Natal

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Você conhece um conto de Mario de Andrade, chamado O Peru de Natal? Não, desta vez não vou recontá-lo aqui para você, por absoluta certeza de que jamais conseguiria reproduzir a irreverência refinada das frases, dos pontos, das pausas… Esta história você deve ler inteira, de preferência agora, nas vésperas do Natal.
Sim, porque você sabe, nosso Natal anda meio bambo, meio morno, assim sem paixão. Ao contrário do que prometem, as alegrias de consumo nos deixam mais ou menos anestesiados. E compramos mais do que podemos, gastamos, cá prá nós, muitas vezes sem razão nem necessidade. E lá se vai aquela mini-saia azul, comprada num impulso “irresistível”,  indo parar no colo assombrado da sobrinha tímida, que se cobre de moleton até no verão… Isso para não falar no Papai Noel e nas loucuras que conseguimos fazer com o cartão de crédito apenas para que nossos filhos tenham a ilusão de que a felicidade pode vir sim embrulhada num papel de presente. E não é à toa que eles nos olham sem entender quando, no dia seguinte, já fartos, resolvem abrir o boneco que fala para ver o que tem dentro e a gente quase enfarta: “como, você não dá valor para o dinheiro, menino?”. É isto mesmo, mais sábios talvez do que nós, eles sabem que brinquedo é para brincar e que esta história de brinquedo sinônimo de status é coisa destes adultos esquisitos!!!
Janeiro chega com jeito de ressaca e, à medida em que vão se amontoando as contas do cartão e dos crediários, a gente se pergunta, o que aconteceu que o Natal ficou estranho? Como foi que a grande celebração da generosidade virou a festa planetária do consumo?
E se a gente fizesse uma coisa diferente neste Natal? Algo louco, como diz o personagem do conto de Mário de Andrade? Tão louco que no final a gente pudesse se reconhecer na frase que encerra o conto:

“Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar para nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.”

 

Da minha parte, vou engrossar o coro dos valorosos defensores de um Natal mais simples, cujas fileiras, acredite, estão engrossando no mundo todo! Com a crise planetária, frugal é chic! Pensei em algumas idéias, você pode acrescentar outras e fazemos uma grande lista!

 

Dê presentes que façam sentido. Lembram que eu dizia que muita gente compra presentes não pelo prazer de dar, mas pelo prazer de comprar? Cá para nós, consumir virou um passatempo… Poucas vezes guarda realmente alguma relação com o gesto generoso de fazer outra pessoa feliz. E se a gente expressar nosso amor de uma outra forma? E se, apenas este ano, a gente só comprasse aqueles presentes que realmente vão significar algo para quem recebe? Ou seja, não vou dar presentes para “todo mundo do trabalho” só porque senão “fica chato”. E ponto! Isso deve reduzir sua lista de presentes pela metade!

Tamanho não é documento. Depois do segundo dia de shopping frenético, lista na mão, horários contados no relógio, mesmo os seres humanos mais saudáveis são presas fáceis das maiores fantasias de consumo. Por exemplo, acreditar que o valor de um presente é medido pelo tamanho do pacote. Quer mentira maior? Mas a gente às vezes cai nessa e sai por aí desfilando pacotes gigantes de coisas sem graça nenhuma. Uma única meia do mais puro cashmere não pode ser muito mais interessante do que duas bermudas ”bobinhas”? Pegue carona num estilo de ser mais “bobo” — mistura de duas palavras em inglês, bohemian – bourgeois (boêmios-burgueses), cunhada por um escritor americano, David Brooks, e que serve para falar de gente que detesta excessos, curte as idéias por trás das coisas e paga muito caro apenas pelo que é exclusivo, faz bem para o planeta e é “uma obra de arte” . E ouse pensar pequeno e diferente.

Seja criativo. Um presente pode ter muitas caras. Quer presente melhor para sua avó do que sentar junto dela, oferecer-se para preparar um cafezinho e ouvir com atenção amorosa as suas histórias de outros natais? Ou comprar para sua amiga os ingressos para aquele show que ela vive dizendo que não pode perder? Pense em presentear com cursos, atenção, companhia, idéias de programas para fazer junto, enfim, subverta a idéia de que presente de Natal se compra em loja, muitas vezes, não precisa ser assim.

Crie doze dias de presentes realmente significativos. Li isso certa vez e desde então adotei! O tempo entre o Natal e o Dia de Reis, que na verdade, é o tempo que o Natal dura para a igreja cristã, inspirou um música chamada Os doze dias de Natal, cuja letra fala de apaixonados que dão presentes extraordinários aos seus verdadeiros amores, como perdizes que nascem em árvores. Esta é uma canção muito tradicional nos EUA, embora as origens deste costume de celebrar doze dias de festas nesta época se percam nas memórias dos povos europeus. Então, e se em cada um destes dias sagrados, a gente convidasse os filhos, a família, os amigos para dar presentes de alegria para o mundo!. No primeiro dia, o presente seria fazer as pazes com alguém. No segundo, tornar a vida de uma outra pessoa mais alegre. No terceiro, nada de implicar com as crianças nem de reclamações (isto vale para elas também ..ah, e para seu parceiro também!) No quarto dia, faça uma cesta com coisas gostosas e entregue num asilo ou num orfanato. No quinto dia, sorria para todo mundo que cruzar o seu caminho…e por aí vai, que idéias para ser gentil é que não faltam, não é?
O que você adora no Natal? Muitas vezes fazemos as coisas apenas por hábito ou porque sempre fizemos daquele jeito e mudar traz uma sensação esquisita de desconforto. Ou, ainda, mantemos tradições nas quais não acreditamos só porque “todo mundo faz” e não queremos ser diferentes. Mas não existe melhor época do que agora para avaliar o que realmente faríamos com o Natal se fossemos nós os inventores da festa. Nem todos os lugares do mundo comemoram o Natal da mesma forma. Existem tradições em outros países que talvez respondam de modo mais sincero aos desejos do nosso coração. Penso, por exemplo, nas Missas do Galo das pequenas aldeias portuguesas ou no hábito que ainda perdura em muitas cidades do sul da França de deixar a mesa posta com as sobras das iguarias da ceia do 24 para os anjos e os ancestrais se deliciarem, enquanto a família dorme. No dia seguinte, a toalha é dobrada em uma trouxa com todas as comidas e entregue num asilo ou num orfanato ou, então, vai alegrar o almoço de alguma família mais necessitada. Era assim na casa da minha avó e até hoje gosto de pensar que quando todos dormem, os espíritos dos antepassados se reúnem para beber e comer, se alegrar e, talvez, encher de bençãos a mesa dos vivos…
Reinventar o Natal é um grande desafio. Mas se não tivermos coragem de fazer isto nas nossas casas e nas nossas almas, talvez, em alguns anos, ninguém consiga mais reconhecer atrás da avalanche de pacotes o autêntico Espírito de Natal, feito de compartilhar afeto e agradecer pelas bençãos que sempre recebemos do Papai Noel!

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver Tags: ,
08/12/2008 - 10:36

Chegou no outlook: Abram alas para o homem transbordante!

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Revoada de pássaros no mar

As comunidades na web surgem de muitas maneiras. Faço parte de um fórum de apaixonados por orquídeas — só como ouvinte-leitora-espectadora, porque sou tão iniciante no assunto que morro de medo de abrir a boca — são dezenas de e-mails por dia, troca de informações, conselhos, segredos, avisos…até de falecimentos!

Compartilhar, esse é o mote da web. Dividir, sentir-se próximo, parte.

Mas tem algo novo ainda. Venho recebendo todos os dias e-mails de Fábio Oliveira, dono do blog do mesmo nome. São verdadeiros “toques de alma diários” com idéias, inspirações, belos artigos. Não é uma newsletter, não é um fórum, é pura generosidade…

E, como a raposa da historinha do Pequeno Príncipe — lembram dela? — a gente se apaixona e começa a esperar, as manhãs ficam diferentes, tem sabor especial, o que será que vai chegar no outlook hoje?

Pois é, hoje chegou no outllok, o “homem transbordante”.

Eu lhes ensino o homem transbordante. Na verdade o homem é um rio poluído. É preciso ser um mar para receber um rio poluído sem ficar impuro. Eu lhes ensino o homem transbordante. Ele é o mar. Ele é um relâmpago, um frenesi. O homem é uma corda amarrada entre a besta e o homem transbordante – uma corda sobre o abismo. O que há de grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele é uma abertura e um mergulho. Eu amo aqueles que não precisam primeiro olhar atrás das estrelas para encontrar uma razão para mergulhar e se transformarem num sacrifício, mas que se sacrificam livremente pela terra… Eu amo aquele que não quer ter muitas virtudes. Uma virtude é mais que duas… Eu amo aquele que tem um espírito livre e um coração livre porque assim sua cabeça nada mais é que as entranhas do seu coração… É chegado o tempo para o homem plantar a semente de sua esperança mais alta. O seu solo ainda é rico o bastante. Mas um dia o solo ficará pobre e domesticado e nenhuma árvore alta será capaz de crescer nele. O tempo está chegando em que o homem não mais será capaz de lançar a flecha da sua nostalgia além de si mesmo e a corda do seu arco se esquecerá de como vibrar. O tempo está chegando quando o homem não mais será capaz de dar à luz uma estrela. Nenhum pastor! Um grande rebanho. Todos desejam a mesma coisa. Quem quer que tenha sentimentos diferentes vai voluntariamente para o hospício de loucos. Eu vim para seduzir muitos a sair do rebanho. Veio-me então uma iluminação: preciso de companheiros – não de companheiros mortos e cadáveres que carrego comigo por onde quer que eu vá. Preciso de companheiros vivos que me seguem porque desejam seguir a si mesmos… Nunca mais falarei ao povo. Não sou boca para esses ouvidos. Falei pela última vez aos mortos…

Friedrich Nietzsche – Assim falou Zaratustra

Com os cumprimentos de Fábio Oliveira, que você pode visitar no blog: http://fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Chegou no outlook, Toques de alma Tags: , , , ,
06/12/2008 - 19:29

Chegou no outlook: toque para mudar

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Adoro a web! Adoro viver neste tempo! Imagine quando teria sido possível assistir músicos do mundo inteiro tocando a mesma canção, cada um sentado no seu banco, na sua rua, cada um tocando junto com todos os outros…sem sair da sua cidade!

Playing for change é um movimento cujo objetivo é conectar pessoas de todo o planeta através da música. E Mark Johnson, o autor da idéia, também é o diretor e produtor do documentário “Toque para mudar” (numa tradução bem livre), que usa as técnicas mais modernas e muita improvisação para fazer músicos nos quatro cantos do planeta tocarem juntos aquelas canções antigas, que atravessam fronteiras, como Stand by Me, “darling, darling, stand by me...”, lembram dela?

Mark Johnson levou 10 anos para fazer o filme: “Tocar música com pessoas de diferentes culturas, religiões, culturas, economias e políticas é um exemplo poderoso”, diz ele numa entrevista para Bill Moyers (lembram quem é Bill Moyers, o jornalista que tinha aquelas deliciosas conversas com Joseph Campbell?). E continua: “Isso ilustra o fato de que é possível encontrar caminhos para trabalhar juntos e compartilhar nossas experiências uns com os outros de forma positiva. Antes de sermos diferentes, somos seres humanos, iguais”.

Os documentários deram origem a uma fundação, a The Playing For Change Foundation, que provê ajuda material, educação e troca de informações entre músicos e apoio para centros de estudo de música, como o Mehlo Arts Center e a Ntong Music School, ambos na África do Sul.

E como vivemos nestes tempos de “teia”, todos os filmes estão disponíveis online para a gente se deliciar, no site da fundação 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Chegou no outlook Tags: , , ,
27/11/2008 - 11:07

Vamos inventar o Dia de Ação de Graças

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Já importamos tanta coisa! Hambúrgueres, sons, jeitos, Halloweens, até aquela terrível compulsão pelos excessos…Temos quase tudo por aqui: shoppings, fastfoods e, inclusive, aqui e ali, uns toques daquele puritanismo so wasp (white anglosaxon protestant ou brancos, anglosaxões e protestantes: os “verdadeiros americanos”), tingem nosso tecido social, tecido com as cores mais ao sul do Equador….
 
Então se é assim, se mesmo em tempos pré-globalização nosso sonho irrequieto e escondido sempre foi Park Avenue, por que não importar mais um aspecto do american way of life? Só mais unzinho, vai?
 
É que hoje é Thanksgiving Day, o Dia de Ação de Graças, feriado favorito dos americanos e que é celebrado na quarta 5a. feira do mês de novembro. E eu fico achando que não podemos perder esta chance de tirar um dia inteiro só para contar bençãos: obrigada Deus, por ter me feito irmã dos pássaros; obrigada pelo café da manhã com as crianças; obrigada pela orquídea gratuita e selvagem que de repente iluminou o jardim; obrigada pelo pulo maluco do gato Salem que me fez rir hoje de manhã, justo na hora em que eu estava tão preocupada; obrigada pelo riso de hoje de manhã; obrigada por todos os risos…

Nós até temos este dia garantido na agenda oficial, mas é assim murchinho e nem de longe evoca a abundância e a generosidade que deveriam ser as convidadas de honra da festa.
 
Nos EUA, tudo começou com a chegada de 102 colonos exaustos, que vinham fugidos da fome e das perseguições religiosas na Europa. Faziam parte de um grupo reformista da Igreja da Inglaterra, que buscava a pureza original da fé, daí o nome, puritanos. Chegaram num navio que alguém feliz batizou de Mayflower, mas, ao chegar, descobriram que a vida no Novo Mundo não tinha nada de fácil. A história conta que no primeiro inverno, em 1620, muitos morreram. Na primavera, os índios da região  que hoje é a Nova Inglaterra, algonquins da tribo Wampanoag, ensinaram os recém-chegados a cultivar o milho e a pescar. A colheita do outono de 1621 foi tão boa que todos comemoraram juntos, colonos e índios, com um grande banquete dos frutos da terra. Estava nascendo o Thanksgiving, com seus perus e tortas de abóbora e milho.  Foi pena que a paz entre colonos e índios não tenha durado muito, mas a idéia de um dia de trégua, dia de agradecer a Deus pela colheita farta, pela comida na mesa, pelas bênçãos recebidas, foi se impondo, apesar de tantos pesares….
 
Aprendo na Internet que nosso Dia Nacional de Ação de Graças foi instituído em 1949, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. E que a lei que oficializou a quarta 5a.feira de novembro para a celebração é do presidente Castelo Branco. Mas como alegria não nasce de decretos e ofícios presidenciais não fazem brotar a tolerância e a gratidão no coração de ninguém, nós mal nos damos conta do dia de Ação de Graças até hoje…
 
Mas ainda podemos mudar isto. Não seria bom aproveitar este nosso tempo de primavera para renovar o prazer de estarmos vivos? De olhar o mundo através dos desencantos e das feiúras e enxergar o núcleo luminoso que existe em todas as coisas, em todas as criaturas?
 
Por isso é que na quinta-feira, dia 27, — não, na quinta não, que nem tem graça celebrar uma coisa assim desta importância num dia no meio da semana –, vou subverter e lei e celebrar na 6a. feira um dia especial de Ação de Graças.

Não sei se não troco o famoso peru por uma galinha caipira ensopada com polenta mole e quiabos sem baba — como meu pai mineiro ensinava a fazer — acompanhando tudo. E quem sabe usamos a palha do milho para embrulhar uns pedacinhos de queijo de minas meia-cura ou aquele queijo tão bom que se come no norte, queijo de coalho, colocamos os embrulhinhos no forno, só uns minutos, hummm, será que não ia ficar bom? Podemos fazer uma salada com delícias da terra, da nossa terra, da terra de todos, que hoje, todas as terras podem ser abençoadas, se a gente não enchê-las de minas subterrâneas, bombas ou de lixos tóxicos… E pra adoçar as almas, doces de avó: mamão-verde de rolinhos, goiaba, abóbora e coco…minha tia Loló fazia um doce de carambola que as crianças apelidaram de Doce de Estrelinha da Branca de Neve. Pois então vamos acabar nossa refeição lambuzados de estrelas… Quem aceita um cafezinho?
 
Mas como este vai ser um dia tão especial, antes de comer, prepararíamos o espírito. Pensei na frase do monge cristão, Thomas Merton: “seja como for, o Senhor brinca e se alegra no jardim de sua Criação e se conseguíssemos nos livrar da obssessão que temos em querer dar um sentido a tudo, talvez pudéssemos ouvir Sua voz chamando-nos e poderíamos segui-Lo então em seu misterioso bailado cósmico”. 

Rindo e brincando, convidaríamos Deus para sentar-se entre nós e se fizéssemos um instante de silêncio ouviríamos o brinde que Ele proporia: Filhos Amados do Instante e do Sonho, alegrai-vos hoje na Minha música, porque “escondido no coração mortal, o eterno vive; Ele vive recôndito na tua alma. Uma luz brilha lá que nenhuma dor ou sofrimento pode apagar”.  É claro que Deus não precisaria citar ninguém a não se a si mesmo, mas nós, aqui, pegamos emprestadas as palavras do filósofo hindu Sri Aurobindo para nos ajudar no brinde.
 
Ficaríamos em volta da mesa, rindo e bebendo à saúde de todas as criaturas até de manhã. E assim apascentados, veríamos o dia nascer e o universo inteiro se fazer em puro encantamento.
 
E deixo você com minha crônica favorita de Ação de Graças há anos e o Salmo 19, talvez o mais festivo de todos e que, com certeza, há de iluminar nosso dia de hoje…

1 – Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 – Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
3 – Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
4 – A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o Sol,
5 – O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.
6 – A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.
7 – A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices.
8 – Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos.
9 – O temor do Senhor é limpo, e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.
10 – Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.
11 – Também por eles é admoestado o teu servo; e em os guardar há grande recompensa.
12 – Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.
13 – Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim. Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.
14 – Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade Tags: , , , ,
25/11/2008 - 12:57

Hábitos zen: seis segundos para relaxar

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Existem alguns lugares na internet que são como jardins: páginas onde você pode descansar e quase aspirar um ar mais puro — sim, com um pouco de imaginação até dá!

Um desses lugares para mim é o blog zenhabits. Um sucesso na blogosfera com quase 80 mil visitantes registrados, o blog é um porto seguro, onde você sempre encontra uma dica, uma idéia, uma inspiração para transformar sua vida…agora!

O autor, Leo Babauta, vive em Guam, uma ilha da Micronésia, no Oceano Pacífico, tem seis filhos e em vez de se apresentar através de títulos, cargos ou funções, prefere contar das suas conquistas, coisas simples, mas quase impossíveis, como emagrecer, exercitar-se, organizar-se, controlar as finanças, realizar sonhos, escrever, relaxar…essas são as qualificações que tornam Leo Babauta um mestre…do cotidiano!

E como o site é em inglês, vou convidar vocês para visitarem, mas adianto um artigo muito oportuno para gente afobada como eu: Seis segundos para relaxar.

Não tem nenhuma desculpa, para manter a mente tranquila, ensina Leo, experimente ao longo do dia fazer pausas de 6 segundos para respirar: 2 tempos inspirando pelo nariz bem devagar e 4 tempos expirando pela boca bem devagar. Faça isso a cada vez que tiver que realizar alguma tarefa rotineira, como atender o telefone, escrever um e-mail, entrar numa aula… Pronto, eis você mais perto do ideal budista: mente limpa e coração tranquilo!

Então complete já a frase: sou…… (jornalista, no meu caso) e vou respirar a cada vez que…….(escrever um e-mail — são milhares por dia!)

Pode começar e não desista: “Somos o que fazemos repetidas vezes. A excelência, portanto, não é um ato, é um hábito”, ensinava Aristóteles.

Nos vemos pelo caminho!

Se quiser ler o artigo (em inglês), clique aqui

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Toques de alma Tags: , ,
23/11/2008 - 09:41

Chegou no outlook: o povo que se veste de Natureza

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Vale do Omo, África

Uma amiga me envia a apresentação que você vê lá embaixo e eu me pego muito tempo depois grudada na tela, clicando, assombrada…

As imagens são puro deslumbramento, como fazer caber na imaginação esses seres, vivendo ali ao lado, hoje ainda, tão magnificamente entrelaçados na Natureza?

A parte mais baixa do Vale de Omo, no sudoeste da Etiópia, isolada pelas montanhas etíopes ao norte, os pântanos do rio Nilo a oeste, e o deserto do Quênia, ao sul, é um  dos lugares mais selvagens do planeta. Aprendo que o vale foi tombado pela UNESCO, para preservar a quantidade de achados arqueológicos encontrados na região, e não estou falando de artefatos, coisa recente, não. No subsolo do Vale do Omo escondem-se vestígios de nossos ancestrais, hominídeos de 4 milhões de anos!

O que me leva a imaginar que um dia, há milhões de anos, o vale deve ter sido uma espécie de esquina do mundo, onde se encontravam e conviviam humanos de todos os tipos, andarilhos caminhando pela terra recém-nascida. Uma espécie de Nova Iorque pré-histórica…

Nova Iorque, sim, porque ali até hoje convivem (e brigam) uma imensa variedade de grupos étnicos. Leio que numa área de menos do que 15 mil quilômetros quadrados, são faladas mais do que 10 línguas diferentes, fora os dialetos!

O fotógrafo alemão, passou muitos meses entre algumas destas tribos, os Mursi e os Surma, para compor seu Ethiopia: Peoples of the Omo Valley, dois grandes volumes com as fotos que você viu lá em cima e textos explicativos dos rituais e das artes envolvidas na confecção dessas obras de arte humanas.

Embora pareçam saídos de alguma “Semana de Moda” de Paris, embora exibam-se tão modernos diante de nossos olhos ávidos de “propostas” que nos chacoalhem a alma, esses povos estão ameaçados. Viver no vale é um exercício duro de sobrevivência, as mudanças climáticas alteram o regime dos rios, as diferenças transformam-se facilmente em guerras, os olhares estrangeiros dos turistas enchem de furos a trama delicada e frágil da existência.

Preservá-los, como? Incluí-los no quê? Somos tão arrogantes de achar que nosso jeito de viver é tão melhor que todos, você também não acha?

Deixá-los lá, cobertos com um manto de invisibilidade, brincarem com as folhas, as flores, os galhos e todas as cores do planeta!

 

Tribus Del Omo
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Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Estilo ecológico Tags: , ,
19/11/2008 - 19:00

Kwanzaa, final de ano à moda pan-africana

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Kwanzaa, festa pan-africana 

Já falei sobre Maya Angelou neste blog. devo ter falado, sim, porque já até esqueci quantas vezes seu poema, Fenomenal Woman, me ajudou a manter o queixo erguido e o peito aberto…

Maya Angelou é uma grande poetisa americana, mas, sobretudo, é uma mulher que se envolveu nos problemas do seu tempo e conseguiu ser ouvida numa época em que ser mulher, e negra, era, fundamentalmente, calar-se. Nascida em 1928, em St. Louis, no estado de Missouri, dá para imaginar como sua história esta costurada na história dos EUA, e, sobretudo, na história das relações entre negros e brancos, nos EUA.

Foi ela que fez o discurso de posse do ex-presidente Clinton, e, se você observou, ela estava lá ouvindo o discurso do presidente recém-eleito, Obama. E chorou, dizem. Também, pudera!

Pois tudo isso só para você entender porque me entusiasmei ao descobrir que é ela, Maya Angelou, a narradora do documentário The Black Candle, um filme inspirador, sobre famílias, comunidade e cultura negra, tudo girando em torno de uma celebração típicamente afro-americana: Kwanzaa.

Kwanzaa é uma festa que dura sete dias. O nome “Kwanzaa” deriva da expressão “matunda ya kwanza“, que significa “primeiros frutos” em swahili, a língua mais falada entre as centenas de línguas tribais que existem na África. A festa dos “primeiros frutos” é típica dos povos ancestrais, a origem do Natal cristão seria uma celebração desse tipo, a festa da vitória da vida contra a morte, da luz contra as trevas, da colheita farta que garantia a continuidade da tribo contra a ameaça da fome e do extermínio. Não é pouca coisa…Na África, segundo leio no site oficial, os rituais associados à colheita existiram no passado e existem ainda hoje: “Estas celebrações eram comuns nos tempos antigos, mas também existem hoje, cultivadas por imensos grupos sociais, como os zulus, tanto quanto por pequenos agrupamentos, como os matabelos, os thonga e os lovedus, todos do sudeste do continente africano”.

A idéia de criar um feriado “pan-africano” é atribuída a um professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga, num tempo difícil, que ficou conhecido como “o movimento pelos direitos civis americanos”, mas que durou mais de uma década, teve ares de guerra civil e virou a sociedade racista dos EUA literalmente de cabeça para baixo. Kwanzaa foi celebrado pela primeira vez de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro de 1967, Martin Luther King seria assassinado um ano mais tarde e os negros americanos brigavam pelo direito de voto.

Suponho que na época tenha sido um grito de protesto e de dor e nem deve ser mera coincidência os dias da festa dos primeiros frutos serem coladinhos no Natal e no Ano-novo, mas hoje, em tempos outros, tempos de Maya Angelou e de Obama, o tom também é outro. E os 7 valores propostos pelo professor Karenga em 1966, Umoja (unidade), Kujichagulia (auto-determinação), Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), Ujamaa (cooperação econômica), Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé)  convidam à união das famílias, à reverência ao criador e à celebração das bençãos da vida.

Este ano, quem não comemorava, talvez se anime. Estamos longe ainda da igualdade racial, mas devemos estar muito perto, é tempo de celebrar, com certeza!

Visite o site e assista o trailer do filme, The Black Candle

Navegue pelo site oficial do evento

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , ,
05/11/2008 - 11:04

Lições do medo

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Imagino que todos os tempos são tempos de violência. O sofrimento que causamos uns aos outros não é novo, nem nasceu nas telas de TV. O que talvez seja novo é, como ensinam os especialistas, a escala. O que talvez seja novo é a visibilidade planetária que ganham os atos de violência que os humanos (poucos, temos que acreditar nisso e as estatísticas ainda devem estar a favor dos seres pacíficos!!) andam cometendo por aí.

Será que é possível se proteger da violência? Talvez. Segundo Gavin de Becker, que, de especialista virou uma celebridade, desde que Oprah Winfrey disse que “esse é o maior entendido do mundo em comportamento violento”, a única coisa que pode evitar que sejamos vítimas da violência é… nosso medo!

No livro The Gift of Fear, Gavin de Becker explora várias situações de violência, tentando demonstrar como, naqueles momentos, as pessoas envolvidas tinham sido assaltadas por inúmeras indicações do perigo iminente — arrepios, intuições, impulsos “irracionais” — e, nos piores casos, não tinham reagido a esses sinais. Nos melhores casos, essas pessoas forneceram indícios preciosos para o estudioso do comportamento formatar suas teses sobre o “presente do medo”.

“Ouvir um pequeno sinal de advertência pode salvar a sua vida”, afirma o especialista “assim como não seguir outros acabam nos colocando em situações de risco”. Nada a ver com paranóia. Apenas pesquisa aplicada na vida diária. Veja só os sinais que ele relaciona:

Pensamentos persistentes

Variações de humor

Ansiedade sem explicação

Curiosidade

Sensações estranhas “na boca do estômago”

Dúvidas

Hesitações

Apreensões

Suspeitas

Palpites

Todas essas reações cheias de informação são enviadas para nós pelo nosso maior aliado, o medo.

Mas como distinguir essas reações na hora “H”? Aprender a reconhecer esses sinais é um tremendo exercício de autoconhecimento. Nada fácil, ao contrário, mas simplesmente começar a pensar nisso já é alguma coisa.

Todos nós já trombamos alguma vez com alguém que nos faz sentir “esquisitos”…talvez até tenhamos prestado atenção, mas grandes são as chances de termos sacudido os ombros num “que bobagem!”. Demos sorte, provavelmente.

Todos nós também já desconfiamos injustificadamente de alguém. E nos arrependemos depois. “Puro preconceito”, dizemos. Provavelmente.

E ninguém quer viver em estado de vigilância eterna contra nossos semelhantes. Então, o medo pode ser educado, ensina De Becker, reconhecer e exercitar “a intuição confiável é exatamente o oposto de viver com medo”.

E talvez a gente tenha mesmo desaprendido a ouvir esses sinais protetores. A moça Eloá, por exemplo, poderia ter usado esses recursos para evitar um envolvimento maior com o rapaz que a matou.

O medo, puro, dos animais, não é aquela coisa ansiosa que inventamos para nós mesmos. Nada tem a ver com fantasias e pavores imaginários. O medo é coisa de bicho. De sobrevivência.  Aprender a não ter medo do medo é a primeira regra. Até porque “quando temos medo, não está acontecendo”.  O medo é sempre medo de algo que pode acontecer. Se um ladrão entrar na sua casa, você não vai ter medo de que um ladrão entre na sua casa, esse medo você já teve. Agora, seu medo é do que ele vai fazer em seguida, entende? Ou seja, o medo sempre antecipa alguma situação de perigo. Cabe a cada um checar as origens deste medo, examiná-lo de todos os ângulos possíveis, ouvir as intuições agregadas a ele e depois tomar uma decisão: evitar, fugir ou atacar. O medo nos dá tempo para pensar e agir.

Não ter medo do próprio medo pode parecer uma idéia polêmica, mas se a gente parar para pensar, não faz sentido? Afinal, nem sempre a gente pode confiar nos versos da música “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”…

Em português, o livro chamou-se As Virtudes do Medo, na Livraria Cultura você compra online
 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver Tags: , ,
02/11/2008 - 14:40

Dia dos Mortos no México, dia de festa

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Dia dos Mortos no México
Pessoas visitam o túmulo dos parentes no cemitério de San gregorio Atlapulco, na cidade do México. A foto é de Henry Romero/GettyImages/IG

 

Que tal celebrar a morte com flores e muita festa? Se isso para nós parece estranho, no México, ao contrário, ninguém fica triste no Dia de Finados. Os mexicanos brincam com a morte e transformam todos os símbolos tradicionalmente associados com ela em motivo de riso e diversão. Começando com a comida. De todas as iguarias que são preparadas especialmente para a ocasião, a mais apreciada são pequenas caveiras sorridentes feitas de açúcar ou de chocolate, decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos parentes falecidos de cada família. Aliás, as caveiras estão por toda a parte, exibindo seus enormes sorrisos e sombreros enfeitados com flores e plumas.

E se, nos povoados, o povo dança e canta nas ruas, nas cidades a festa é transferida para os cemitérios mesmo. É onde os amigos se encontram para passar o dia comendo, bebendo e cantando em homenagem aos seus “muertitos”. A alegria e irreverência, no entanto, não tiram o caráter religioso do Dia de Muertos. “Em poucos lugares do mundo se pode viver um espetáculo parecido ao que acontece durante as grande festas religiosas do México”, afirma o escritor Otávio Paz, em seu livro Labirinto da Solidão. E o Dia de Muertos é, sem dúvida, a maior celebração religiosa desse povo festeiro.

As manifestações populares que acontecem nos dias 1 e 2 de novembro são o resultado de uma forma de sincretismo, que mistura elementos do catolicismo popular, com rituais antiqüíssimos, típicos dos povos que habitavam o México milênios antes da chegada dos espanhóis: os olmecas, os teotihuacanos, os maias, os zapotecas, os mixtecos, os toltecas e os mexicas.

Visões do paraíso

Os mexicanos da época pré-hispânica se consideravam imortais. Para eles, a morte era apenas um jeito diferente de viver. “Os antigos diziam que os homens, quando morriam, não desapareciam, mas começavam a viver de novo, como se despertassem de um sonho, transformados em espíritos ou em deuses”, conta o historiador Bernadino de Sahagun, no clássico História Geral das coisas da Nova Espanha. Esses espíritos imortais habitavam um mundo paralelo ao dos vivos e, em muitos aspectos semelhante a ele.

A noção de que existe um mundo “do outro lado”, reservado para os mortos é compartilhada por quase todas as tradições religiosas. De modo geral, pegar o melhor ou o pior lugar é uma questão de mérito e das boas ações que praticamos em vida. O que torna tão original o pensamento dos antigos povos mexicanos, é que essa escolha está relacionada com a causa física da morte de cada um. Daí existirem nesse mundo espiritual vários paraísos. Um deles, por exemplo, correspondia ao deus Tláloc e chamava-se Tlalocan. Ali eram recebidos os que morriam afogados ou por qualquer outra razão que se relacionasse à água. Contava-se que haviam muitas árvores e alimento abundante para a alegria de seus habitantes.

É claro, que sempre haviam os casos em que a causa da morte refletia a vida. Os guerreiros, por exemplo, iam para um lugar especial, assim como os prisioneiros de guerra, que costumavam ser oferecidos em sacrifício para alimentar com seu sangue o deus-sol Tonatiuh. Essa distinção também era reservada às mulheres que morriam de parto, chamadas cihuateteos.

Quem morresse de causas naturais tinha lugar reservado em Mictlán, o reino de Mictlanteculi e Mictlancihualt , senhor e senhora dos mortos. Contava-se que, quando o sol se punha na terra, nascia em Mictlán. Estava longe de ser um local de castigo, mas o caminho até lá era cheio de perigos. Rios profundos, altíssimas montanhas e animais selvagens aguardavam os viajantes. Para que pudessem vencer tantos obstáculos, as pessoas eram enterradas com facas de obsidiana, oferendas e comida e bebida para a viagem.

Os mortos-crianças iam para Chichihualcuahtli, onde o leite para alimentar os pequenos escorria das árvores. Esse cuidado típico de mãe parecia natural para esses povos que acreditavam que gerar a vida e tirá-la eram dois atributos do feminino e, de fato, muitas deusas-mães povoavam seu universo espiritual.

A Mãe-Morte
“A representação da morte no México é sorridente”, ensina o escritor Fernando Salazar Bañol, “ chama-se Coatlicue, ou Mãe-Morte e também é conhecida como a deusa da terra. É ela que gera todas as coisas e também as devora”. Essa idéia nasce da observação dos ciclos da Natureza, onde tudo está sempre nascendo, morrendo e renascendo. Cecílio A. Robelo, em seu Diccionario Náhuatl conta que a lua enviou um recado aos homens por intermédio de uma lebre: “Assim como eu morro e renasço todos os dias, vocês também vão morrer para renascer depois”.

Por isso, até hoje, os mexicanos se sentem à vontade para brincar com ela. “ A morte não tem nada de terrível. No México, ela é feita de açúcar e distribuída para as crianças”, conclui Fernando Salazar.

A hora da festa
Essa familiaridade está tão arraigada na alma mexicana que, ainda hoje, existe uma idéia muito forte de que os mortos têm licença para visitar seus parentes do mundo dos vivos, na época de Finados. No dia primeiro, Dia de Todos os Santos, também chamado Dia dos Santos Inocentes, os visitantes são os mortos-crianças. Os mortos adultos só aparecem no dia seguinte.

Para recebê-los, as casas são enfeitadas com cempasúchitl, uma flor amarela, típica do Dia de los Muertos. No lugar mais importante da casa, um altar é preparado em três andares, simbolizando a Santíssima Trindade, ou o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nele, além da figura do santo da devoção da família e de imagens de Jesus Cristo, colocam-se fotos, água, frutas e os pratos de comida favoritos do ancestral que se quer honrar.

O banquete é preparado com um cuidado respeitoso. Não podem faltar receitas mexicanas tradicionais, como a calabaza de tacha, um doce de abóbora feito com açúcar e canela, o famoso pan de muertos, uma torta com decorações que imitam ossos e as caveiras de açúcar, que as crianças adoram.

O altar é todo enfeitado com papel picado de cor preta, símbolo do luto cristão e laranja, a cor do luto azteca. E, por toda parte, velas, muitas velas para ajudar os espíritos a encontrarem seu lugar.

Tudo tem que estar pronto até dia 31 de outubro, à meia-noite. A família reza junta e, em seguida, convida os ancestrais a participarem da festa. As velas são acesas e o ambiente é purificado, queimando-se uma resina aromática, o copal. Ninguém toca na comida. Os mortos devem ser os primeiros a se servir. Apenas no dia seguinte os vivos voltam para se reunir aos parentes falecidos e, juntos, saborearem o banquete. É hora de comer e beber ao som da música favorita dos que já partiram.

O ritual se repete no dia 2, para os mortos adultos. Hoje, nas cidades, em vez de fazer uma festa em casa, as pessoas preferem levar a refeição para os cemitérios, onde passam o dia lavando os túmulos e decorando-os com muitas flores. Lá eles rezam, choram, cantam e, eventualmente, se embriagam, porque, afinal a morte é um fenômeno inseparável da vida. E, para os mexicanos, a melhor forma de enfrentá-la, é rir e brincar com ela.

Jose Guadalupe Posada (1852-1913)

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
31/10/2008 - 13:07

Chegou no outlook: as cidades dos meus amores

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Casas coloridas à margem do canal em Burano, Veneza
 

Deve ter alamedas verdes,

a cidade dos meus amores…

Acabaram-se as eleições para prefeitos e a gente torce para que todo mundo esteja compartilhando da mesma pressa…a cidade dos nossos amores, como na música do Chico Buarque, há que começar rapidamente a construí-la, certo? Queremos todos viver em cidades mais acolhedoras, mais generosas de verde, mais fáceis, mais amigáveis, onde as pessoas se sintam ao mesmo tempo próximas umas das outras, ma non troppo…o bastante para afugentar o medo da solidão, o suficiente para preservar a autonomia, o direito a calma, o lazer, sem atrapalhar nem ser atrapalhado por ninguém. Queremos cidades onde a gente possa andar sem medo, homens, mulheres, novos e velhos, sozinhos, em bandos, a dois. Queremos ir da casa para o trabalho o mais rápida e confortavelmente possível, e queremos voltar para casa com tempo e disposição para estar com nossos filhos, e amá-los…Tantas coisas a gente quer da cidade da gente. Sim, devem ter alamedas verdes, as cidades dos nossos amores, mas talvez possam ter alamedas de água ou de paredes azuis…

Chegaram essas duas apresentações no meu outlook esta semana, uma da Lélia, outra da Re, amigas, quem sabe companheiras, se um dia eu conseguir conhecer uma dessas cidades, Burano e Chaouen. Porque que dá muita vontade, isso dá. Veja só se você não concorda que essas são duas cidades fortes candidatas ao título de “as cidades dos nossos amores”?

 

Chaouen
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Burano Venecia
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Aqui você tem o restante da música do Chico Buarque, Cidade Ideal

A foto lá em cima é da GettyImages/Medioimages

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Estilo ecológico Tags: , ,
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