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Arquivo da Categoria Religião e espiritualidade

12/10/2009 - 11:26

Padroeira

 Entronização da imagem de Nossa Aparecida 2009_TVAparecida

Hoje é Dia da Padroeira. Para os católicos, dia de procissão, de festa, antecipada na alma às vezes por muitos meses…

E revendo as imagens da devoção dos fiéis à Nossa Senhora Aparecida, fiquei pensando nos padroeiroes, esses protetores das gentes e das coisas das gentes. A palavra “padroeiro” vem de protetor, de defensor. E o costume de dedicar igrejas, edifícios, barcos, cidades e países para um protetor celestial é muito, muito antigo.

Ao contrário dos católicos ortodoxos, os católicos do Ocidente sofrem de saudades. Afastados dos locais da história sagrada, longe dos caminhos e dos símbolos que emprestariam concretude maior a sua fé, eles vão encontrar nas relíquias dos santos, dos mártires e da Virgem Maria presença e consolo. Órfãos da geografia sagrada, vão buscar na devoção ao santo proteção celestial e cuidado, numa relação viva, quente, dinâmica que reproduz direitinho as complicadas relações que vão se estabelecendo entre as pessoas a partir da Idade Média. De um lado, os poderosos, cujo dever era cuidar, do outro, o povo, que trocava essa proteção por trabalho, dedicação, reverência. São padrinhos e afilhados, senhores e servos, figuras nossas conhecidas dos livros de história, agora com a benção do santo que vai salvar de todos os males, ajudar nos casos de amor, assim como castigar a falta de dedicação e o descaso.

Na Europa, além de escolher um padrinho e uma madrinha para o recém-nascido, as mães se apressavam em escolher um padrinho ou uma madrinha celestiais entre os santos, os anjos, o próprio Jesus Cristo e sua mãe, a Virgem Maria, havia que proteger as crianças sozinhas no berço dos feitiços, dos quebrantos, dos olhos invejosos.  Porque se com Deus a relação é de temor e distante reverência, com os santos o relacionamento é mágico e íntimo, feito de promessas, de orações, de serviços mútuos prestados ali mesmo, no reme-reme da vida.

A força desta relação só vai crescer, marcada pelas festas em honra ao padroeiro da cidade ou da aldeia e pelas peregrinações aos lugares sagrados onde se exibiam as relíquias do protetor favorito.

Nossa Senhora, como Mãe de Deus, será a campeã dos benfeitores. Mas de um jeito seu, muito peculiar. Nossa Senhora “aparece”. Não é escolha, nem decisão, muito menos coisa imposta. Na devoção do povo, Nossa Senhora de vez em quando visita seus filhos e eles a encontram, ora no topo de uma colina, ora numa gruta, ora tirando-as de dentro das águas em milagrosas pescarias. São literalmente Nossas Senhoras Aparecidas.

A mais famosa história de aparição de Maria na América é a de Nossa Senhora de Guadalupe, a Padroeira do México, que surgiu diante do índio Juan Diego, na colina Tepeyac, perto de onde hoje é a Cidade do Mexico, entre 9 e 12 de dezembro de 1531, e estampou o manto do camponês com sua imagem milagrosa.

No Brasil, Nossa Senhora chega trazida pelos marinheiros. E se deixa encontrar pela primeira vez por Caramuru, na Bahia, já em 1530. A imagem também milagrosa, era de Nossa Senhora das Graças, e foi colocada numa capela mandada construir pela índia Paraguaçu, mulher de Caramuru.

Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, foi achada em 1717 pelos pescadores Domingos Garcia e Filipe Pedroso, que jogavam suas redes no rio Paraíba. Assim como Nossa Senhora de Guadalupe, é preta, dizem que por ter ficado muito tempo dentro d´água. Os fiéis não acreditam. As “Virgens Morenas” tem a cor mestiça dos seus filhos.

E há de ser por tal afinidade com a vida, que no vídeo do You Tube, a chamada da TVAparecida não tem o tom solene que a gente poderia associar com uma celebração religiosa, ao contrário, o clima é de espetáculo, de show. A Padroeira quer seus filhos em festa, ao menos hoje.

A imagem que ilustra este post é do momento em que a imagem é “entronizada”, ou seja, colocada no trono para a procissão. Da TVAparecida.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , , , ,
28/09/2009 - 13:28

Dia de Perdoar

Yom Kippur/David Silverman/Getty Images

Hoje, 28 de setembro, os judeus de todo mundo estão celebrando Yom Kippur, o Dia do Perdão, que encerra um tempo sagrado do judaísmo, os Dias Terríveis. E “terríveis” porque até hoje, antes da noite chegar, cada judeu e todos os judeus tem a missão de rever seus atos, arrepender-se das suas faltas, buscar a reconciliação com seus semelhantes e, afinal, “trancar-se dentro da alma com D’us”, a última instância desse processo profundo e sagrado que é o perdão.

Hoje recebi esta oração, chamada Confissão de Yom Kippur (Al-Chet) que corri o risco de traduzir livremente apenas para compartilhar com vocês pelo caráter universal da prece:

Pelos erros que cometemos diante de Ti por intolerância e egoísmo

Pelos erros que cometemos diante de Ti por dureza de coração

Pelos erros que cometemos diante de Ti por palavras que saíram de nossa boca

Pelos erros que cometemos diante de Ti pelo discurso áspero

Pelos erros que cometemos diante de Ti por termos ferido um amigo

Pelos erros que cometemos diante de Ti por desrespeitar pais e mestres

Pelos erros que cometemos diante de Ti no exercício do poder

Pelos erros que cometemos diante de Ti tanto em relação aqueles que sabem quanto aqueles que não sabem

Pelos erros que cometemos diante de Ti por suborno

Pelos erros que cometemos diante de Ti por mentiras e falsas promessas

Pelos erros que cometemos diante de Ti pelas palavras negativas

Pelos erros que cometemos diante de Ti no comer e no beber

Pelos erros que cometemos diante de Ti por arrogância

Pelos erros que cometemos diante de Ti por falta de pudor

Pelos erros que cometemos diante de Ti porque falhamos em assumir responsabilidades

Pelos erros que cometemos diante de Ti por inveja

Pelos erros que cometemos diante de Ti por raiva ou ódio

Pelos erros que cometemos diante de Ti a cada vez que não estendemos a mão

Pelos erros que cometemos diante de Ti porque nossos corações estavam confusos…

 

Ao cair da tarde de hoje, depois de 25 horas de absoluto jejum, os judeus saem desse exercício de confissão renovados, alma lavada.

E é assim, com o coração em paz, que eles fecham os Dias Terríveis desejando que “D’us tenha incluído a todos no Livro da Vida por mais um ano”…e que no ano que vem eles possam se encontrar, em Jerusalém!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
22/08/2009 - 21:08

Agosto, mês de Pachamama

alegria_pachamama

Agosto é mês de Pachamama, a Mãe Terra dos nossos vizinhos de América, do Peru, da Bolívia, do Equador e das regiões selvagens do noroeste da Argentina.

Nada a ver conosco? Não sei…quando nossos olhos se voltam para a porção Sul da América, sempre tenho a impressão de que vamos ficando meio míopes, e só enxergamos aquela linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, lembram dele? Aquele que portugueses e espanhóis usaram para delimitar suas posses no “Novo Mundo”…e que, como sempre acontece com estas “linhas imaginárias” que os políticos usam para dividir o planeta, ignorou as matas, os cerrados, os animais, as histórias e as águas que compartilhamos…ficaram os cumes das montanhas, a distância…horizonte, para nós, ficou sendo o mar e as terras, mais além do mar…

Não faz mal, sempre é tempo de olhar para o umbigo da América. E se você resolver olhar nesta direção, vai descobrir que temos, sim, uma infindade de coisas a ver com nossos vizinhos do outro lado da mata, do outro lado das grandes montanhas dos Andes.

Pachamama, por exemplo. Agosto para mim era cercado por uma aura de desconforto. Mês de desgosto, diziam os antigos. Mês de mau-agouro. Isso durou até eu descobrir que agosto é mês de Pachamama, a Mãe Terra dos povos incas e quechuas. “Pacha”, em quechua é universo, mundo, é o tempo e o espaço onde se desenrola a vida. “Mama”, é mãe. Pachamama é a divindade que gera todas as coisas, os seres, a mata, as sementes…tudo existe primeiro no seu útero. A terra é seu corpo e tudo que está sobre ela é manifestação, é presença divina. Pedras, rochas, grutas, são tesouros escondidos, jóias preciosas deixadas aqui e ali pela deusa para sinalizar lugares sagrados. Neles, a Mãe Terra se abre e se expõe.

Dizem também que, no início, quando os seres viviam próximos aos deuses, as festas que celebravam os tempos do plantio e das colheitas eram momentos únicos, especiais. Porque durante estes tempos sagrados, a Mãe Terra se abria, pronta para ser fertilizada pelos espíritos do céu. A tarefa das gentes era ajudar os deuses a se unirem, com oferendas, presentes e sacrifícios. E assistir, em cada ato da vida, à representação do casamento divino.

Com o tempo, a Mãe Terra foi assumindo o rosto de outras “mães”. Contam, por exemplo, que ela está por trás da devoção à Virgen de Salta y Jujuy, na Argentina, a quem os fiéis oferecem ainda hoje comida e vinho. Mas não é só ali que o ritual se repete, sempre em agosto. Peruanos e bolivianos também compartilham o costume da “challa”. A palavra quer dizer verter, derramar, regar. Incorpora a idéia primordial de “reciprocidade” dos seres humanos em relação aos deuses. Afinal,  é preciso agradecer a Pachamama pelas bençãos da terra, pela vida renovada a cada ano. E o ritual consiste em derramar na terra um tantinho de chica, um tipo de aguardente de milho ou em enterrar um pote com comida no jardim.

Agosto, para mim, agora tem um sabor especial. Mesmo tão longe das altas montanhas e dos seus tempos sagrados, nao dá para evitar sentir um certo arrepio a cada vez que compartilho um golinho de vinho com a Pachamama…mesmo que o corpo da Mãe Terra tenha só o tamanhinho do meu jardim…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , , ,
21/07/2009 - 13:01

A barba do profeta

Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY) Reuters   

De onde será que vem nossa quedinha ancestral por relíquias? Hoje, na Índia, muçulmanos da Caxemira estão se reunindo em volta da mesquita de Hazratbal para celebrar o ‘Meeraj-un-Nabi’, a ascensão do profeta Mohammed ao céu. Durante a celebração, os devotos buscam a chance única, mágica, e que bem vale alguns socos e empurrões, de tocar um tufo de cabelo que, acredita-se, seria da barba do profeta.

A palavra “relíquia” remete a “restos”, no sentido que a gente fala de “restos mortais”. Relíquias são pedacinhos de seres considerados maravilhosos e que são veneradas porque de alguma forma a gente gosta de pensar que a santidade é coisa tão poderosa que seria possível adquirirmos um pouquinho dela, apenas por tocar, apenas por estar perto. Impregnadas de sagrado, insufladas do mistério divino, as relíquias em todas as religiões atraem fiéis, por mais macabro que esse movimento possa aparecer para os não-crentes.

Hoje, são os muçulmanos da Índia que buscam compartilhar a barba abençoada do profeta, mas amanhã serão os budistas que celebrarão as relíquias de Buda, no Sri Lanka, apesar do próprio Buda ter pedido para que os fiéis evitassem esse tipo de veneração. Do lado cristão, os mártires sempre proveram a alma dos fiéis de infindáveis relíquias. Mas as relíquias de “primeira classe”, essas são relacionadas ao Cristo e a tudo que possa ter tocado, ainda que de leve, seu corpo humano de deus vivo.

Relíquias, coisa esquisita…mas, sabem, quando entrei na Basílica de Ste-Madeleine, em Vézelay, França, com suas paredes de pedra polida e coração de gruta, e parei diante do nicho onde estão guardados os restos da santa, fui envolvida pelo silêncio que cerca todos os imponderáveis.  Mais que isso, eu podia jurar que tinha “me tornado” esse silêncio espantoso!

Pior, os restos na cripta não são os originais, que atraíram milhares de peregrinos a Vezelay durante a Idade Média, e foram queimados pelos calvinistas no século 16, durante as guerras religiosas. Estes vieram para a diocese como presente do Arcebispo de Sens, em 1876. E no entanto…

Amanhã, dia 22 de julho, é dia de santa Maria Madalena. Amanhã, mesmo achando relíquias coisas muito estranhas, sei que vou lembrar destes momentos em que não estamos mais separados, só nós e nossa pequeneza. Ali, ao alcance da mão, o objeto mágico nos lembra que somos mesmo pedaços de pedaços de pedaços, fragmentos divinos…tocando de levinho uns nos outros, às vezes…

Deve ser por conta disso, que o tufo da barba do profeta vale o esforço, as cotoveladas, o cansaço!!!!

A foto é da Reuters, tirada por Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY)  

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
30/12/2008 - 09:20

Feliz ano-novo!

Meu amigo de muitos anos-novos e estudioso apaixonado por folclore, Helio Moreira da Silva, envia um presente para este blog. Uma aula completinha para você saber o que está por trás dos rituais e tradições que trazem felicidade e sorte no ano-novo! Aproveite!

“Mais um fim de um ciclo e início de outro. Um ano que alguém ousou fracionar em doze suaves prestações. Como se isso fosse possível. No último dia do ano é sempre cheio de promessas. Algumas levadas a sério, outras tantas esquecidas. Neste dia 31não há quem não queira predizer ou adivinhar o imediato futuro, tendo como base a realidade atual. Com aquilo que conhecemos como sorte, essa força invencível a que se atribuem o rumo e os diversos acontecimentos da vida; do destino, do fado, da estrela que necessariamente tem de ser.  

E os mais diversos rituais alimentam os nossos sonhos e dão vida às celebrações. Mas são tantos detalhes que a gente acaba se confundindo, sem saber direito para que serve cada um deles. Vale tudo para aproveitar a oportunidade de encher o coração de esperança e começar tudo de novo, mas para que a meia-noite não vire uma corrida de obstáculos é sempre bom saber um pouco mais sobre esses costumes.

 As celebrações e as profecias do Ano-Novo estão entre as mais antigas e universalmente celebradas festas da humanidade. Para nós, tudo isso começa em 6 de dezembro e encerra no dia 6 de janeiro com as Festas de Reis, quando obrigatoriamente deve-se desmontar a Árvore de Natal, o presépio, as guirlandas e as luminárias, estas últimas recentemente incorporadas aos nossos festejos. É necessário lembrar que a pessoa – ou as pessoas – que monta tanto a Árvore de Natal, o presépio e outros apetrechos deve fazê-la por sete anos seguidos, como reza a tradição. 

O porquê da data?
Em tempos idos comemorava-se o dia de nascimento do menino Deus em 5 ou 6 de janeiro, na Epifânia de Dionisos OUA como a data do seu aparecimento. Somente no século IV é que começaram as celebrações em 25 de dezembro, a qual era comemorada a antiga festa pagã do Sol, a qual passou a ser reinterpretada pelos cristãos, que até então tinham o costume de festejar apenas o aniversário da morte e da ressurreição de Cristo, isso porque devido à dificuldade em situar a data do seu nascimento. O Dia de Natal, por muito tempo, era determinado pelos estudos de Hipólito (nascido em Roma 170?–235, teólogo, defendia a doutrina e a disciplina da Igreja, depois foi um antipapa e por fim ordenado como santo) gravados em estátua da biblioteca de São João de Latrão, em Roma, como sendo em 2 de janeiro, ou então, em 2 de abril de 5.532. Depois, o mesmo Hipólito, em comentário sobre Daniel (“Aquele que é julgado por Deus”, profeta do Antigo Testamento, sua via e profecia estão incluídas na Bíblia, no Livro de Daniel.) corrigiu, determinando que o nascimento do Menino Deus se desse em 25 de dezembro de 5.500, depois de Adão e Eva. 

Para os cristãos orientais o nascimento de Jesus Cristo se deu em 5 ou 6 de janeiro, na Epifânia de Dionisos, isso por influência da antiga crença, devido às bodas Caná (pequena vila da Galileia, segundo Evangelho de São João, era o local de residência de Natanael) quando aconteceu o milagre da transformação da água em vinho e Jesus Cristo passou a ocupar o lugar de Dionisos. Ressalte-se que o milagre da água-e-vinho procede do culto do deus grego e, também, de outros deuses pagãos.

 A essência da festa do Ano-Novo é sempre a renovação da vida, o que, em muitas culturas, inclui também a repetição simbólica do momento da criação do mundo. No Brasil, a festa até os anos 30, era restrita às residências. Foi a partir desta época que o umbandista Tancredo da Silva Pinto (Tata de Inkice – grau máximo na Umbanda –, escritor, músico e compositor – co-autor com Moreira da Silva, do estilo de samba-de-breque, nascido em 10/8/1905; falecido em 1/9/1979, no Município de Cantagalo, então Estado do Rio.) levou para o Rio de Janeiro o culto da divindade banto Kalunga, da Umbanda, Kimbanda e do Omolokô sincretizado em nosso o país com as oferendas à Yemanjá (Orixá dos rios e águas doces; divindade do rio Ogun, em Abeokutá, Nigéria, África – não confundir com o orixá Ogun. Também, muito conhecida como Mãe dos Orixás, Mãe-D´Água  e Rainha do Mar, esta devido à combinação da onomatopéia com morfema nominal ou verbal da língua portuguesa: Yemanjá = mar.) e essa com a divindade Olukun (de Ilé Ifé, Nigéria) ou Okunjimum, ambas do culto jeje-nagôs.

A festividade de Yemanjá sendo uma das mais antigas é cultuada em 2 de fevereiro, no Rio Vermelho, em Salvador, Bahia, a qual termina nas águas do mar com a entrega das oferendas. Foi desta obrigação religiosa que Tancredo levou para o Rio de Janeiro nos anos 30. A princípio na mesma data, mas logo a transferiu para 31 de dezembro, pois em fevereiro acontecia, às vezes, com a proximidade do carnaval carioca. Além disso, os terreiros de Umbanda ficaram pequenos para acolher seus religiosos. Sem falar na dificuldade de conduzir às oferendas até o mar.

Inicialmente as festividades da Rainha do Mar no Rio de Janeiro foram realizadas na Praia de Ramos ou no Caju, porque na Glória ficara proibida pela Delegacia de Costumes, em que a primeira providência para acabar com os macumbeiros era “prender” os engomas (atabaques), com o devido registro policial (o conhecido BO) de insurgência a ordem.

Com a expansão de Copacabana aos poucos os umbandistas começaram a realizar os cultos à Yemanjá os cultos nas praias ainda desertas da Zona Sul. E pela necessidade geral de começar um ano melhor e ao mesmo tempo jogar nas águas profundas as mazelas do ano que terminava os religiosos foram, ano a ano, aumentando a aceitação pelos cariocas que se deslocavam dos subúrbios para fazer suas homenagens a Mãe dos Orixás.

A festa cresceu tanto, que entre coisas, obrigou as empresas de ônibus aumentarem o número de veículos para atender a demanda. A mídia logo acordou e entendeu ao fenômeno social e com o Turismo a festa passou a ser uma data comemorativa, atraindo não só brasileiros de outros estados como também turistas do mundo inteiro. Hoje, a Festa de Yemanjá é transmitida para diversos países. Odoyá ou Odô-fé-iabá!

Hélio Moreira da Silva é jornalista, ex-diretor do Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima, de São Paulo e da Associação Brasileira de Folclore, também é membro da Comissão de Folclore de São Paulo. 

E seguem mais “bons conselhos” para atrair boas energias no ano que começa!

Fogos e barulho. Em alguns países o Ano-Novo começa entre fogos de artifício, buzinadas, apitos e gritos de alegria. Ou seja, toda sorte de barulho para que ninguém passe dormindo. A tradição é antiqüíssima e, dizem, serve para espantar os maus espíritos.

Roupa nova. Vestir uma peça de roupa que nunca tenha sido usada combina com o espírito de renovação do Ano-Novo. O costume é muito conhecido pelo mundo afora aparecendo em várias versões, como trocar os lençóis da cama, usar uma roupa de baixo nova ou romper o ano com o corpo limpo, isto é, de banho tomado.  Banhos de sal grosso ou perfumados com sete ervas são variações dessa nossa necessidade de limpeza e purificação antes do novo ciclo começar.

A vigília da virada. Ninguém deve dormir antes da meia-noite. Para os povos primitivos, os seres humanos precisavam ajudar o ano a romper permanecendo acordados e vigilantes. O hábito de deixar as luzes das casas acesas e as janelas abertas vem daí.  Além disso, a tradição diz que quem conservar os olhos abertos até o Ano-Novo despontar verá o dia nascer no ano seguinte.

Boas saídas, boas entradas. Cuidado, o que você fizer no Ano-Novo continuará a fazer o ano todo. O costume veio da Europa. Ovídio, um poeta que viveu no primeiro século da era cristã diz: “Convém ao dia bom, palavras boas”, referindo-se ao Ano-Novo. Assim, quem começar o ano viajando, viaja o ano inteiro, quem começa o ano chorando, vai chorar o ano inteiro. Daí dizer-se que é bom subir em uma cadeira, para dar impulso à vida, começar o ano com o pé direito, para atrair a sorte e comer doces na ceia, para garantir sabor e doçura o ano inteiro. E nada de roupas apertadas, para não passar apertos no futuro.

Cores. Maria Eugenia Sahagoff reserva um capítulo inteiro do seu livro Feliz Ano-Novo para as cores. Segundo ela, todo nosso corpo é afetado pela cor e pela luz e elas realçam estados emocionais e psicológicos. Através das cores “chega-se às profundezas da alma das pessoas”. Por isso essa escolha deve ser feita com cuidado no Ano-Novo.  A recomendação mais tradicional aqui no Brasil, lembrança de nossos ancestrais afro-brasileiros, é usar branco. Além de ser a cor de Yemanjá, a grande mãe e rainha do mar, o branco é o “símbolo da própria luz” e, como conseqüência, da sabedoria, da pureza e da verdade. A roupa branca – em qualquer gênero — é um símbolo utilizado em homenagem aos afro-descendentes, a qual lembra a importância das famosas baianas e os negros-de-ganho. O azul também é uma cor propícia para saudar o Ano-Novo. Porém, mais ligada ao consumismo. É a cor da paz, da tranqüilidade e das coisas espirituais. Outra alternativa para o final de ano é usar amarelo, a cor do sol, do ouro, um costume comercial que se confunde com a cor votiva do orixá Oxum, a divindade da riqueza, da fecundidade e da abundância.

Ceia. Comer bem, entre amigos alegres, faz parte das comemorações de Ano-Novo. A fartura na mesa ajuda a trazer abundância e sucesso no ano que começa. Diz à crença que tanto o mais velho, como o mais novo em numa ceia devem receber a primeira porção do alimento. Mas alguns alimentos não podem faltar. O leitão e o porco são as carnes favoritas segundo Maria Eugenia Sahagoff, porque o animal fuça para frente, “impelindo a vida também para adiante”.  As uvas também têm que estar presentes, avisa Helio Moreira e continua: “dependendo do lugar onde você estiver, o costume pedirá 3, 7 ou 12 bagos que serão comidos quando der a meia-noite no relógio.”Não se esquecer de fazer os pedidos. Uvas e vinho, aliás, são os símbolos mais universais de congraçamento e alegria. Para os gregos, o vinho foi um presente de Dionísio — ou Baco, dos romanos — o deus das vinhas, dos delírios, da orgia e da inspiração. Não existe festa sem sua presença. Para nós, os espumantes fazem parte da passagem do Ano-Novo, o seu barulho – ao abrir a garrafa – é o sinal que novo tempo está porvir e com ele tudo de bom.

Romã. No livro Feliz Ano-Novo, a romã aparece como um dos alimentos favoritos das festas de final de ano, devido à enorme quantidade de sementes, que simbolizariam fartura e prosperidade. A fruta também faz parte dos rituais do Ano-Novo não só dos judeus, que oram para que as bênçãos de Deus sejam tão numerosas quanto às sementes de romã. A romã é maça dos antigos romanos e sempre fizeram parte da mesa em qualquer comemoração.

Grãos. Tradicionalmente, lentilhas ou ervilhas são símbolos de morte e ressurreição. A semente, enterrada na terra, germina e se multiplica e, novamente, volta para a terra, para começar tudo de novo.

Dinheiro.  São muitas as simpatias para atrair dinheiro. Helio Moreira da Silva sugere uma que, pela antiguidade, deve ser eficiente. Colocar uma folha de louro embrulhadinha em uma nota de dinheiro, dentro da carteira. E guardá-la até o próximo reveillon. A nota antiga deve ser dada ao primeiro pobre que você encontrar. A folha velha você vai jogar na água corrente. Desde o tempo dos gregos e romanos o loureiro é a planta-símbolo da vitória, do sucesso e da imortalidade que a glória traz. Os grandes atletas romanos ganhavam coroas de louro, assim como os heróis e os grandes sábios. Era a planta de Apolo, o belo deus grego da sabedoria, inspirador dos oráculos e das profecias. Importante uso deste amuleto só diz respeito a quem o possui.

Primeiro dia do ano. O dia primeiro do ano é dedicado à confraternização. É o dia da fraternidade universal. Helio avisa: “Como se deve fazer no Dia de São Nunca (1o. de novembro) é hora de pagar as dívidas e devolver tudo que se pediu emprestado ao longo do ano. Esse é um costume europeu muito antigo, do tempo em que se emprestavam arados e foices e reflete a nossa necessidade de fazer um balanço da vida e de começar o ano com as contas acertadas, conosco e com os outros.”

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , ,
20/12/2008 - 12:12

Os amigos e o Natal

Mais uma vez está chegando a hora de fazermos juntos a grande mágica de fechar um ciclo e abrir outro.

Mais uma vez nos é dada a chance de fazer um acerto de contas do ano que vai acabando, para entrarmos frescos e mais leves no ano que vai começar.

Antes disso, no entanto, muita festa, muitos encontros, muita alegria e, é claro…brindes!

Este ano, enquanto estivermos esperando a meia-noite do dia 24 para saudar o nascimento do Menino-Deus, queria muito levantar um brinde especial, um brinde aos amigos!
Rubem Alves, no prefácio da edição brasileira de um livro des estórias lindo de um pedagogo português chamado José Pacheco e com o título mais do que convidativo de “Quando eu for grande, quero ir à primavera“, diz:

“Fernando Pessoa escreveu a mais bela declaração de amor que existe: ‘Quando te vi amei-te muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei…’ Na minha fantasia imagino que ele a escreveu para uma mulher. Mas penso que coisa parecida poderia ter sido escrita para um homem. Porque há homens que escontramos e quase instantaneamente vem a surpresa do reconhecimento! Misteriosamente, já éramos amigos em tempos imemoriais, anteriores a esta vida. Antes que se diga qualquer palavra já existe a compreensão. Não é preciso explicar. Disso sabia o Riobaldo (personagem de Guimmarães Rosa): ‘O senhor mesmo sabe. E se sabe, me entende…’ Já tive esta experiência várias vezes. E aprendi que a amizade não acontece por meio de construções temporais sucessivas. A amizade irrompe repentinamente no tempo, como uma dádiva da eternidade. Tal como aconteceu com Jean-Christophe, o herói adolescente de Romain Rolland. Já conhecera muitas pessoas. Mas aquele encontro era diferente. Voltando para casa à noite, seu coração cantava: ‘Tenho um amigo, tenho um amigo…’”

Sim, amigos, daqueles que são verdadeiros companheiros de viagem. Que nos emprestam seu olhar para a gente se descobrir através deles, mergulhando neles…
Amigos com quem a gente possa conversar absolutamente nus. Desvestidos das nossas máscaras e das nossas funções.
Amigos com quem ficar em silêncio, ouvindo as estrelas ou o barulho do mar.
Amigos que compartilhem os brindes e não tenham pressa de ir embora.
Amigos que cozinhem juntos e ajudem a lavar a louça depois.
Amigos com quem possamos viajar para lugares distantes ou para dentro de nós mesmos, sempre com o mesmo entusiasmo.
Amigos que nos conheçam bem e gostem de nós por causa disso e apesar disso.
Amigos assim, que façam a gente se sentir melhor, um pouquinho melhor que pensamos que somos.
Amigos com quem possamos fazer o exercício do encontro e do desencontro, com a alma leve de quem sabe que nada realmente é importante. Apenas o amor é que conta, sempre!
Um brinde a vocês todos, amigos virtuais, tão longe e tão perto…e Feliz Natal!!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade Tags: , ,
19/12/2008 - 11:02

Tibet, imagens do coração do Himalaia

Claudia Proushan

Bons viajantes, desde sempre, são aqueles que vão e voltam para contar. Em outros tempos, esse “contar” reuniria membros da tribo ou da aldeia em volta da fogueira e as chamas encarnariam monstros marinhos, inimigos invencíveis, belezas jamais vistas, amores exóticos, riquezas extraordinárias, na fala do viajante os avessos do mundo se faziam realidade compartilhada com todos.

O planeta ficou menor, dizem, os viajantes voltam carregados de fotos, filmes, postam “em tempo real” nos blogs, a viagem adquire quase a carnatura do “vivido”.

Alguns viajantes, no entanto, trazem imagens de sonho…é o caso dessas, recolhidas por Cláudia Proushan, durante sua viagem para o Tibet.

O livro, para quem já conhecia, estava esgotado, mas ganhou uma reedição patrocinada pela Mitsubish. E uma exposição, em São Paulo.

Para se deliciar!
Onde: Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim
Av. Magalhães de Castro 12000
São Paulo
Quando: 20 de dezembro de 2008
Horário: das 11 às 14h

Tibet, coração do Himalaia, de Claudia Proushan

Claudia Proushan

Claudia Proushan

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , ,
27/11/2008 - 11:07

Vamos inventar o Dia de Ação de Graças

Já importamos tanta coisa! Hambúrgueres, sons, jeitos, Halloweens, até aquela terrível compulsão pelos excessos…Temos quase tudo por aqui: shoppings, fastfoods e, inclusive, aqui e ali, uns toques daquele puritanismo so wasp (white anglosaxon protestant ou brancos, anglosaxões e protestantes: os “verdadeiros americanos”), tingem nosso tecido social, tecido com as cores mais ao sul do Equador….
 
Então se é assim, se mesmo em tempos pré-globalização nosso sonho irrequieto e escondido sempre foi Park Avenue, por que não importar mais um aspecto do american way of life? Só mais unzinho, vai?
 
É que hoje é Thanksgiving Day, o Dia de Ação de Graças, feriado favorito dos americanos e que é celebrado na quarta 5a. feira do mês de novembro. E eu fico achando que não podemos perder esta chance de tirar um dia inteiro só para contar bençãos: obrigada Deus, por ter me feito irmã dos pássaros; obrigada pelo café da manhã com as crianças; obrigada pela orquídea gratuita e selvagem que de repente iluminou o jardim; obrigada pelo pulo maluco do gato Salem que me fez rir hoje de manhã, justo na hora em que eu estava tão preocupada; obrigada pelo riso de hoje de manhã; obrigada por todos os risos…

Nós até temos este dia garantido na agenda oficial, mas é assim murchinho e nem de longe evoca a abundância e a generosidade que deveriam ser as convidadas de honra da festa.
 
Nos EUA, tudo começou com a chegada de 102 colonos exaustos, que vinham fugidos da fome e das perseguições religiosas na Europa. Faziam parte de um grupo reformista da Igreja da Inglaterra, que buscava a pureza original da fé, daí o nome, puritanos. Chegaram num navio que alguém feliz batizou de Mayflower, mas, ao chegar, descobriram que a vida no Novo Mundo não tinha nada de fácil. A história conta que no primeiro inverno, em 1620, muitos morreram. Na primavera, os índios da região  que hoje é a Nova Inglaterra, algonquins da tribo Wampanoag, ensinaram os recém-chegados a cultivar o milho e a pescar. A colheita do outono de 1621 foi tão boa que todos comemoraram juntos, colonos e índios, com um grande banquete dos frutos da terra. Estava nascendo o Thanksgiving, com seus perus e tortas de abóbora e milho.  Foi pena que a paz entre colonos e índios não tenha durado muito, mas a idéia de um dia de trégua, dia de agradecer a Deus pela colheita farta, pela comida na mesa, pelas bênçãos recebidas, foi se impondo, apesar de tantos pesares….
 
Aprendo na Internet que nosso Dia Nacional de Ação de Graças foi instituído em 1949, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. E que a lei que oficializou a quarta 5a.feira de novembro para a celebração é do presidente Castelo Branco. Mas como alegria não nasce de decretos e ofícios presidenciais não fazem brotar a tolerância e a gratidão no coração de ninguém, nós mal nos damos conta do dia de Ação de Graças até hoje…
 
Mas ainda podemos mudar isto. Não seria bom aproveitar este nosso tempo de primavera para renovar o prazer de estarmos vivos? De olhar o mundo através dos desencantos e das feiúras e enxergar o núcleo luminoso que existe em todas as coisas, em todas as criaturas?
 
Por isso é que na quinta-feira, dia 27, — não, na quinta não, que nem tem graça celebrar uma coisa assim desta importância num dia no meio da semana –, vou subverter e lei e celebrar na 6a. feira um dia especial de Ação de Graças.

Não sei se não troco o famoso peru por uma galinha caipira ensopada com polenta mole e quiabos sem baba — como meu pai mineiro ensinava a fazer — acompanhando tudo. E quem sabe usamos a palha do milho para embrulhar uns pedacinhos de queijo de minas meia-cura ou aquele queijo tão bom que se come no norte, queijo de coalho, colocamos os embrulhinhos no forno, só uns minutos, hummm, será que não ia ficar bom? Podemos fazer uma salada com delícias da terra, da nossa terra, da terra de todos, que hoje, todas as terras podem ser abençoadas, se a gente não enchê-las de minas subterrâneas, bombas ou de lixos tóxicos… E pra adoçar as almas, doces de avó: mamão-verde de rolinhos, goiaba, abóbora e coco…minha tia Loló fazia um doce de carambola que as crianças apelidaram de Doce de Estrelinha da Branca de Neve. Pois então vamos acabar nossa refeição lambuzados de estrelas… Quem aceita um cafezinho?
 
Mas como este vai ser um dia tão especial, antes de comer, prepararíamos o espírito. Pensei na frase do monge cristão, Thomas Merton: “seja como for, o Senhor brinca e se alegra no jardim de sua Criação e se conseguíssemos nos livrar da obssessão que temos em querer dar um sentido a tudo, talvez pudéssemos ouvir Sua voz chamando-nos e poderíamos segui-Lo então em seu misterioso bailado cósmico”. 

Rindo e brincando, convidaríamos Deus para sentar-se entre nós e se fizéssemos um instante de silêncio ouviríamos o brinde que Ele proporia: Filhos Amados do Instante e do Sonho, alegrai-vos hoje na Minha música, porque “escondido no coração mortal, o eterno vive; Ele vive recôndito na tua alma. Uma luz brilha lá que nenhuma dor ou sofrimento pode apagar”.  É claro que Deus não precisaria citar ninguém a não se a si mesmo, mas nós, aqui, pegamos emprestadas as palavras do filósofo hindu Sri Aurobindo para nos ajudar no brinde.
 
Ficaríamos em volta da mesa, rindo e bebendo à saúde de todas as criaturas até de manhã. E assim apascentados, veríamos o dia nascer e o universo inteiro se fazer em puro encantamento.
 
E deixo você com minha crônica favorita de Ação de Graças há anos e o Salmo 19, talvez o mais festivo de todos e que, com certeza, há de iluminar nosso dia de hoje…

1 – Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 – Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
3 – Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
4 – A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o Sol,
5 – O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.
6 – A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.
7 – A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices.
8 – Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos.
9 – O temor do Senhor é limpo, e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.
10 – Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.
11 – Também por eles é admoestado o teu servo; e em os guardar há grande recompensa.
12 – Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.
13 – Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim. Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.
14 – Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade Tags: , , , ,
19/11/2008 - 19:00

Kwanzaa, final de ano à moda pan-africana

Kwanzaa, festa pan-africana 

Já falei sobre Maya Angelou neste blog. devo ter falado, sim, porque já até esqueci quantas vezes seu poema, Fenomenal Woman, me ajudou a manter o queixo erguido e o peito aberto…

Maya Angelou é uma grande poetisa americana, mas, sobretudo, é uma mulher que se envolveu nos problemas do seu tempo e conseguiu ser ouvida numa época em que ser mulher, e negra, era, fundamentalmente, calar-se. Nascida em 1928, em St. Louis, no estado de Missouri, dá para imaginar como sua história esta costurada na história dos EUA, e, sobretudo, na história das relações entre negros e brancos, nos EUA.

Foi ela que fez o discurso de posse do ex-presidente Clinton, e, se você observou, ela estava lá ouvindo o discurso do presidente recém-eleito, Obama. E chorou, dizem. Também, pudera!

Pois tudo isso só para você entender porque me entusiasmei ao descobrir que é ela, Maya Angelou, a narradora do documentário The Black Candle, um filme inspirador, sobre famílias, comunidade e cultura negra, tudo girando em torno de uma celebração típicamente afro-americana: Kwanzaa.

Kwanzaa é uma festa que dura sete dias. O nome “Kwanzaa” deriva da expressão “matunda ya kwanza“, que significa “primeiros frutos” em swahili, a língua mais falada entre as centenas de línguas tribais que existem na África. A festa dos “primeiros frutos” é típica dos povos ancestrais, a origem do Natal cristão seria uma celebração desse tipo, a festa da vitória da vida contra a morte, da luz contra as trevas, da colheita farta que garantia a continuidade da tribo contra a ameaça da fome e do extermínio. Não é pouca coisa…Na África, segundo leio no site oficial, os rituais associados à colheita existiram no passado e existem ainda hoje: “Estas celebrações eram comuns nos tempos antigos, mas também existem hoje, cultivadas por imensos grupos sociais, como os zulus, tanto quanto por pequenos agrupamentos, como os matabelos, os thonga e os lovedus, todos do sudeste do continente africano”.

A idéia de criar um feriado “pan-africano” é atribuída a um professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga, num tempo difícil, que ficou conhecido como “o movimento pelos direitos civis americanos”, mas que durou mais de uma década, teve ares de guerra civil e virou a sociedade racista dos EUA literalmente de cabeça para baixo. Kwanzaa foi celebrado pela primeira vez de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro de 1967, Martin Luther King seria assassinado um ano mais tarde e os negros americanos brigavam pelo direito de voto.

Suponho que na época tenha sido um grito de protesto e de dor e nem deve ser mera coincidência os dias da festa dos primeiros frutos serem coladinhos no Natal e no Ano-novo, mas hoje, em tempos outros, tempos de Maya Angelou e de Obama, o tom também é outro. E os 7 valores propostos pelo professor Karenga em 1966, Umoja (unidade), Kujichagulia (auto-determinação), Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), Ujamaa (cooperação econômica), Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé)  convidam à união das famílias, à reverência ao criador e à celebração das bençãos da vida.

Este ano, quem não comemorava, talvez se anime. Estamos longe ainda da igualdade racial, mas devemos estar muito perto, é tempo de celebrar, com certeza!

Visite o site e assista o trailer do filme, The Black Candle

Navegue pelo site oficial do evento

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , ,
02/11/2008 - 14:40

Dia dos Mortos no México, dia de festa

Dia dos Mortos no México
Pessoas visitam o túmulo dos parentes no cemitério de San gregorio Atlapulco, na cidade do México. A foto é de Henry Romero/GettyImages/IG

 

Que tal celebrar a morte com flores e muita festa? Se isso para nós parece estranho, no México, ao contrário, ninguém fica triste no Dia de Finados. Os mexicanos brincam com a morte e transformam todos os símbolos tradicionalmente associados com ela em motivo de riso e diversão. Começando com a comida. De todas as iguarias que são preparadas especialmente para a ocasião, a mais apreciada são pequenas caveiras sorridentes feitas de açúcar ou de chocolate, decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos parentes falecidos de cada família. Aliás, as caveiras estão por toda a parte, exibindo seus enormes sorrisos e sombreros enfeitados com flores e plumas.

E se, nos povoados, o povo dança e canta nas ruas, nas cidades a festa é transferida para os cemitérios mesmo. É onde os amigos se encontram para passar o dia comendo, bebendo e cantando em homenagem aos seus “muertitos”. A alegria e irreverência, no entanto, não tiram o caráter religioso do Dia de Muertos. “Em poucos lugares do mundo se pode viver um espetáculo parecido ao que acontece durante as grande festas religiosas do México”, afirma o escritor Otávio Paz, em seu livro Labirinto da Solidão. E o Dia de Muertos é, sem dúvida, a maior celebração religiosa desse povo festeiro.

As manifestações populares que acontecem nos dias 1 e 2 de novembro são o resultado de uma forma de sincretismo, que mistura elementos do catolicismo popular, com rituais antiqüíssimos, típicos dos povos que habitavam o México milênios antes da chegada dos espanhóis: os olmecas, os teotihuacanos, os maias, os zapotecas, os mixtecos, os toltecas e os mexicas.

Visões do paraíso

Os mexicanos da época pré-hispânica se consideravam imortais. Para eles, a morte era apenas um jeito diferente de viver. “Os antigos diziam que os homens, quando morriam, não desapareciam, mas começavam a viver de novo, como se despertassem de um sonho, transformados em espíritos ou em deuses”, conta o historiador Bernadino de Sahagun, no clássico História Geral das coisas da Nova Espanha. Esses espíritos imortais habitavam um mundo paralelo ao dos vivos e, em muitos aspectos semelhante a ele.

A noção de que existe um mundo “do outro lado”, reservado para os mortos é compartilhada por quase todas as tradições religiosas. De modo geral, pegar o melhor ou o pior lugar é uma questão de mérito e das boas ações que praticamos em vida. O que torna tão original o pensamento dos antigos povos mexicanos, é que essa escolha está relacionada com a causa física da morte de cada um. Daí existirem nesse mundo espiritual vários paraísos. Um deles, por exemplo, correspondia ao deus Tláloc e chamava-se Tlalocan. Ali eram recebidos os que morriam afogados ou por qualquer outra razão que se relacionasse à água. Contava-se que haviam muitas árvores e alimento abundante para a alegria de seus habitantes.

É claro, que sempre haviam os casos em que a causa da morte refletia a vida. Os guerreiros, por exemplo, iam para um lugar especial, assim como os prisioneiros de guerra, que costumavam ser oferecidos em sacrifício para alimentar com seu sangue o deus-sol Tonatiuh. Essa distinção também era reservada às mulheres que morriam de parto, chamadas cihuateteos.

Quem morresse de causas naturais tinha lugar reservado em Mictlán, o reino de Mictlanteculi e Mictlancihualt , senhor e senhora dos mortos. Contava-se que, quando o sol se punha na terra, nascia em Mictlán. Estava longe de ser um local de castigo, mas o caminho até lá era cheio de perigos. Rios profundos, altíssimas montanhas e animais selvagens aguardavam os viajantes. Para que pudessem vencer tantos obstáculos, as pessoas eram enterradas com facas de obsidiana, oferendas e comida e bebida para a viagem.

Os mortos-crianças iam para Chichihualcuahtli, onde o leite para alimentar os pequenos escorria das árvores. Esse cuidado típico de mãe parecia natural para esses povos que acreditavam que gerar a vida e tirá-la eram dois atributos do feminino e, de fato, muitas deusas-mães povoavam seu universo espiritual.

A Mãe-Morte
“A representação da morte no México é sorridente”, ensina o escritor Fernando Salazar Bañol, “ chama-se Coatlicue, ou Mãe-Morte e também é conhecida como a deusa da terra. É ela que gera todas as coisas e também as devora”. Essa idéia nasce da observação dos ciclos da Natureza, onde tudo está sempre nascendo, morrendo e renascendo. Cecílio A. Robelo, em seu Diccionario Náhuatl conta que a lua enviou um recado aos homens por intermédio de uma lebre: “Assim como eu morro e renasço todos os dias, vocês também vão morrer para renascer depois”.

Por isso, até hoje, os mexicanos se sentem à vontade para brincar com ela. “ A morte não tem nada de terrível. No México, ela é feita de açúcar e distribuída para as crianças”, conclui Fernando Salazar.

A hora da festa
Essa familiaridade está tão arraigada na alma mexicana que, ainda hoje, existe uma idéia muito forte de que os mortos têm licença para visitar seus parentes do mundo dos vivos, na época de Finados. No dia primeiro, Dia de Todos os Santos, também chamado Dia dos Santos Inocentes, os visitantes são os mortos-crianças. Os mortos adultos só aparecem no dia seguinte.

Para recebê-los, as casas são enfeitadas com cempasúchitl, uma flor amarela, típica do Dia de los Muertos. No lugar mais importante da casa, um altar é preparado em três andares, simbolizando a Santíssima Trindade, ou o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nele, além da figura do santo da devoção da família e de imagens de Jesus Cristo, colocam-se fotos, água, frutas e os pratos de comida favoritos do ancestral que se quer honrar.

O banquete é preparado com um cuidado respeitoso. Não podem faltar receitas mexicanas tradicionais, como a calabaza de tacha, um doce de abóbora feito com açúcar e canela, o famoso pan de muertos, uma torta com decorações que imitam ossos e as caveiras de açúcar, que as crianças adoram.

O altar é todo enfeitado com papel picado de cor preta, símbolo do luto cristão e laranja, a cor do luto azteca. E, por toda parte, velas, muitas velas para ajudar os espíritos a encontrarem seu lugar.

Tudo tem que estar pronto até dia 31 de outubro, à meia-noite. A família reza junta e, em seguida, convida os ancestrais a participarem da festa. As velas são acesas e o ambiente é purificado, queimando-se uma resina aromática, o copal. Ninguém toca na comida. Os mortos devem ser os primeiros a se servir. Apenas no dia seguinte os vivos voltam para se reunir aos parentes falecidos e, juntos, saborearem o banquete. É hora de comer e beber ao som da música favorita dos que já partiram.

O ritual se repete no dia 2, para os mortos adultos. Hoje, nas cidades, em vez de fazer uma festa em casa, as pessoas preferem levar a refeição para os cemitérios, onde passam o dia lavando os túmulos e decorando-os com muitas flores. Lá eles rezam, choram, cantam e, eventualmente, se embriagam, porque, afinal a morte é um fenômeno inseparável da vida. E, para os mexicanos, a melhor forma de enfrentá-la, é rir e brincar com ela.

Jose Guadalupe Posada (1852-1913)

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
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