“Perplexões”, foi a palavra que imaginei poder descrever esse estado confuso e desolado no qual mergulhamos há uma semana. Um combinado de perplexidade e indignação…”perplexões”…
Perplexões, embora palavra recém-nascida, devem se expressar através de perguntas, imagino. E numa enxurrada, que perplexões são assim, aflitas…
- Vocês repararam a quantidade de vezes que a moça Nayara, em seu depoimento, fala que Limdenberg Alves mudou de humor ou de rumo por conta de ter visto alguma coisa na TV? Como fica a cabeça de um rapaz se vendo dessa forma em cadeia nacional? E por que mesmo ninguém lembrou de cortar a luz?
- Quem é essa menina que já desde os 12 anos vive uma relação de tal intensidade? Ouvi um depoimento do rapaz que dizia que ela já tinha se desesperado antes, em uma das outras várias separações do casal, quando ele havia ameaçado romper o namoro, agora seria a vez dele reivindicar seu direito ao “sofrimento”…
- E quem é essa outra menina que desafia a proteção da polícia e volta correndo para o cativeiro? Então, já não seria tempo de reinventarmos nossas fronteiras entre o que é ser criança e o que é ser adulto?
- E por falar em adultos, quem somos nós, adultos, que estamos falhando tanto na nossa mais biológica função: proteger nossos filhotes? Onde a gente está quando eles precisam de nós? Em algum momento dessa tragédia anunciada vocês também não se pegaram perguntando, cadê os adultos nessa história?
- As telas provocam uma ilusão de distância, as coisas todas parecem reais, mas estão tão convenientemente lá do outro lado da tela, que a gente pode até fingir que nem é tão conosco assim: esses três jovens poderiam ser os filhos de uma melhor amiga, da vizinha querida, os NOSSOS filhos! Será que estamos sendo sábios quando permitimos que eles sejam transformados em personagens nestes Big Brothers da vida real?
- E de novo, por falar, em BBB, como podemos ajudar nossos filhos a redefinirem conceitos assim básicos, coisa de chão de terra mesmo, de avó: público X privado, fantasia X realidade, TV X vida real? Ver as fotos dessas meninas “posando” no orkut, tão frágeis na sua juventude, tão adultas nas “caras e bocas”, tão à mercê do olhar do outro, não incomoda você também?
- Há alguns meses, a Veja fez uma reportagem de capa falando da “geração do eu mereço”. Fico pensando que, sim, compramos essa ilusão “made in America” do “tudo é possível, basta desejar com bastante força” e ter um shopping center na vizinhança– não é à toa que The Secret virou esse fenômeno – mas como vamos ensinar aos nossos filhos que mesmo diante dessa vertigem de poder, existe uma única, talvez, e intransponível barreira: o desejo do outro?
Minha mãe, quando a conversa toma este rumo, costuma sacar do fundo do baú uma peça de J.B.Priestley, “Está lá fora um inspetor“, que fala de uma noite de tempestade, de um mordomo que chega para avisar o dono da casa que “está lá fora um inspetor para falar de uma moça que morreu, sabe-se lá por quê, Eva Smith, chamava-se”… E entra o inspetor provocando cada membro da família tão certinha até cada um assumir sua parcela de responsabilidade na morte da moça, de nome tão comum, Eva: o pai que tinha demitido a moça, o filho que a havia abandonado, grávida, a mãe que a humilhara…nada demais, apenas pessoas comuns trombando com pessoas comuns sem nem prestar muita atenção…
Mas, assim como o espectro do “inspetor”, alguns fatos funcionam feito espelhos e revelam para quem quiser olhar, a parte de responsabilidade de cada um, ainda que mínima, na vida de todos…
Pesquisas…meu sogro costumava dizer que se alguém conseguisse cruzar todas as pesquisas que saem nos jornais descobriria que o mundo está muito longe de fazer algum sentido!
Minha amiga, Lélia me manda uma notícia: o número de suicídios aumentou 60% nos últimos 45 anos! A informação vem de uma pesquisa divulgada essa semana pela Organização Mundial de Saúde, como parte de uma campanha de conscientização lançada no Dia Mundial de Prevenção do Súicídio, 10 de setembro.
A cada dia, informa a OMS, cerca de 3 mil pessoas se suicidam no mundo. Para cada suicídio, no entanto, contam-se algo como 20 tentativas frustradas. O objetivo da campanha da OMS é justamente sinalizar a necessidade de políticas de saúde pública que incluam o acompanhamento de pessoas que tentaram se matar logo na primeira vez. Fingir que não aconteceu nada e varrer o problema para debaixo do tapete é, sem dúvida, a pior opção, alertam os autores do estudo.
O suicídio é a terceira causa de morte entre pessoas de 25 e 44 anos e, em 90% dos casos, está relacionado a problemas mentais. Questões familiares e crises sócioeconômicas também podem ter aí um certo papel, mas o fato é que a maioria das pessoas que resolvem tirar a própria vida, faz isso sem uma razão externa aparente, ou seja, as estatísticas não dizem que em zonas de guerra as pessoas se suicidam mais, por exemplo. Nem tampouco informam que nas favelas do mundo a taxa de suicídios é maior. Nada disso, o aumento do número de suicídios aparentemente tem a ver com países desenvolvidos ou em desenvolvimento e afeta cada vez mais os jovens.
E como a gente junta isso com a pesquisa da semana passada, da World Value Survey Organization, que concluía que as pessoas andavam mais felizes?
Meu sogro diria: “cuidado, ler pesquisas não é coisa tão simples”, e ele teria razão…
Porque veja só. O estudo da WVS foi feito com foco nos países, tentando relacionar felicidade da população e nível sócio-econômico. O estudo da OMS, ao contrário, olha para as pessoas e para suas razões individuais.
Isso nos deixa com algumas perguntas penduradas: será que esse aumento do número de suicídios não estaria ocorrendo justamente nos países nos quais as pessoas se disseram menos felizes? E isso teria algo a ver com aquele tal “tédio de consumo” sobre o qual falavam os autores do estudo da WVS? Por que os jovens? Lembram que no outro estudo os especialistas relacionavam oportunidades pessoais, capacidade de realizar alguns sonhos e o senso de pertencer a uma família, a um grupo, como sendo das coisas importantes para se medir a felicidade? Será que os jovens estariam perdendo esse vínculo com suas comunidades? Seria esse um fenômeno geral ou ele estaria relacionado, por exemplo, às grandes cidades, aos países mais desenvolvidos…será que essas coisas todas estão relacionadas: tédio, jovens, perda de vínculos, falta de horizontes, suicídio?
Pesquisas, para mim, elas trazem mais perguntas do que respostas, meu sogro diria: “é para isso que elas servem”, e ele teria razão…
Dia dos Pais, plantão no iG. Recebemos vários releases com novos estudos falando da importância da figura paterna para as crianças, do quanto essa figura vem se ampliando e tornando-se mais e mais complexa ao longo dos anos.
Quantas figuras de pai a gente conhece? Tem os pais biológicos, tem os adotivos, os que veêm os filhos nos finais de semana, os que cuidam dos filhos de outros homens, os que cuidam dos filhos de vários outros homens, pais de aluguel, pais coletivos, pais que são mães, pais jovens, muito velhos, pais de todas as cores, de todos os jeitos…novos pais!
Não importa que forma esta figura assume nas nossas vidas modernas, dizem as pesquisas, quanto mais próxima, comprometida e afetuosa ela for, melhor para as crianças.
Mas…que figura é essa? O que é que cabe na imagem de um pai?
E lembro dos desenhos do Pateta como pai, você lembra deles? São da década de 50, falam de um pai recém-nascido, arrumadinho, de terno, gravata e chapéu, voltando do trabalho para uma casa que ele sempre imagina impecável e nunca é, de um pai que apenas começa a aprender a dividir, a compartilhar, parceiro de uma mulher irrequieta, insatisfeita, uma “dona de casa de subúrbio americano” que também se deseja arrumadinha, impecável, e nunca é…mas falam da vida como eterno e bem-humorado aprendizado e deve ser por isso que gosto tanto deles!
De todo modo, imagino que mesmo os novíssimos pais vão se reconhecer na ingênua arrogância do “George”, com sua inabalável confiança na própria competência, suas certezas, seus desajeitos, suas bem-intencionadas tentativas de lidar com o universo feminino, tão novo, tão estranho, de fraldas e de perplexidades, seu orgulho, seu cansaço, sua ternura…o mais frágil dos pais-heróis!
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