Arquivo de novembro, 2008
27/11/2008 - 11:07
Já importamos tanta coisa! Hambúrgueres, sons, jeitos, Halloweens, até aquela terrível compulsão pelos excessos…Temos quase tudo por aqui: shoppings, fastfoods e, inclusive, aqui e ali, uns toques daquele puritanismo so wasp (white anglosaxon protestant ou brancos, anglosaxões e protestantes: os “verdadeiros americanos”), tingem nosso tecido social, tecido com as cores mais ao sul do Equador….
Então se é assim, se mesmo em tempos pré-globalização nosso sonho irrequieto e escondido sempre foi Park Avenue, por que não importar mais um aspecto do american way of life? Só mais unzinho, vai?
É que hoje é Thanksgiving Day, o Dia de Ação de Graças, feriado favorito dos americanos e que é celebrado na quarta 5a. feira do mês de novembro. E eu fico achando que não podemos perder esta chance de tirar um dia inteiro só para contar bençãos: obrigada Deus, por ter me feito irmã dos pássaros; obrigada pelo café da manhã com as crianças; obrigada pela orquídea gratuita e selvagem que de repente iluminou o jardim; obrigada pelo pulo maluco do gato Salem que me fez rir hoje de manhã, justo na hora em que eu estava tão preocupada; obrigada pelo riso de hoje de manhã; obrigada por todos os risos…
Nós até temos este dia garantido na agenda oficial, mas é assim murchinho e nem de longe evoca a abundância e a generosidade que deveriam ser as convidadas de honra da festa.
Nos EUA, tudo começou com a chegada de 102 colonos exaustos, que vinham fugidos da fome e das perseguições religiosas na Europa. Faziam parte de um grupo reformista da Igreja da Inglaterra, que buscava a pureza original da fé, daí o nome, puritanos. Chegaram num navio que alguém feliz batizou de Mayflower, mas, ao chegar, descobriram que a vida no Novo Mundo não tinha nada de fácil. A história conta que no primeiro inverno, em 1620, muitos morreram. Na primavera, os índios da região que hoje é a Nova Inglaterra, algonquins da tribo Wampanoag, ensinaram os recém-chegados a cultivar o milho e a pescar. A colheita do outono de 1621 foi tão boa que todos comemoraram juntos, colonos e índios, com um grande banquete dos frutos da terra. Estava nascendo o Thanksgiving, com seus perus e tortas de abóbora e milho. Foi pena que a paz entre colonos e índios não tenha durado muito, mas a idéia de um dia de trégua, dia de agradecer a Deus pela colheita farta, pela comida na mesa, pelas bênçãos recebidas, foi se impondo, apesar de tantos pesares….
Aprendo na Internet que nosso Dia Nacional de Ação de Graças foi instituído em 1949, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. E que a lei que oficializou a quarta 5a.feira de novembro para a celebração é do presidente Castelo Branco. Mas como alegria não nasce de decretos e ofícios presidenciais não fazem brotar a tolerância e a gratidão no coração de ninguém, nós mal nos damos conta do dia de Ação de Graças até hoje…
Mas ainda podemos mudar isto. Não seria bom aproveitar este nosso tempo de primavera para renovar o prazer de estarmos vivos? De olhar o mundo através dos desencantos e das feiúras e enxergar o núcleo luminoso que existe em todas as coisas, em todas as criaturas?
Por isso é que na quinta-feira, dia 27, — não, na quinta não, que nem tem graça celebrar uma coisa assim desta importância num dia no meio da semana –, vou subverter e lei e celebrar na 6a. feira um dia especial de Ação de Graças.
Não sei se não troco o famoso peru por uma galinha caipira ensopada com polenta mole e quiabos sem baba — como meu pai mineiro ensinava a fazer — acompanhando tudo. E quem sabe usamos a palha do milho para embrulhar uns pedacinhos de queijo de minas meia-cura ou aquele queijo tão bom que se come no norte, queijo de coalho, colocamos os embrulhinhos no forno, só uns minutos, hummm, será que não ia ficar bom? Podemos fazer uma salada com delícias da terra, da nossa terra, da terra de todos, que hoje, todas as terras podem ser abençoadas, se a gente não enchê-las de minas subterrâneas, bombas ou de lixos tóxicos… E pra adoçar as almas, doces de avó: mamão-verde de rolinhos, goiaba, abóbora e coco…minha tia Loló fazia um doce de carambola que as crianças apelidaram de Doce de Estrelinha da Branca de Neve. Pois então vamos acabar nossa refeição lambuzados de estrelas… Quem aceita um cafezinho?
Mas como este vai ser um dia tão especial, antes de comer, prepararíamos o espírito. Pensei na frase do monge cristão, Thomas Merton: “seja como for, o Senhor brinca e se alegra no jardim de sua Criação e se conseguíssemos nos livrar da obssessão que temos em querer dar um sentido a tudo, talvez pudéssemos ouvir Sua voz chamando-nos e poderíamos segui-Lo então em seu misterioso bailado cósmico”.
Rindo e brincando, convidaríamos Deus para sentar-se entre nós e se fizéssemos um instante de silêncio ouviríamos o brinde que Ele proporia: Filhos Amados do Instante e do Sonho, alegrai-vos hoje na Minha música, porque “escondido no coração mortal, o eterno vive; Ele vive recôndito na tua alma. Uma luz brilha lá que nenhuma dor ou sofrimento pode apagar”. É claro que Deus não precisaria citar ninguém a não se a si mesmo, mas nós, aqui, pegamos emprestadas as palavras do filósofo hindu Sri Aurobindo para nos ajudar no brinde.
Ficaríamos em volta da mesa, rindo e bebendo à saúde de todas as criaturas até de manhã. E assim apascentados, veríamos o dia nascer e o universo inteiro se fazer em puro encantamento.
E deixo você com minha crônica favorita de Ação de Graças há anos e o Salmo 19, talvez o mais festivo de todos e que, com certeza, há de iluminar nosso dia de hoje…
1 – Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 – Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
3 – Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
4 – A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o Sol,
5 – O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.
6 – A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.
7 – A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices.
8 – Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos.
9 – O temor do Senhor é limpo, e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.
10 – Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.
11 – Também por eles é admoestado o teu servo; e em os guardar há grande recompensa.
12 – Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.
13 – Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim. Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.
14 – Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade
Tags: Ação de Graças, Natal, Peru de Ação de Graças, Receitas de Ação de Graças, Thanksgiven
25/11/2008 - 12:57
Existem alguns lugares na internet que são como jardins: páginas onde você pode descansar e quase aspirar um ar mais puro — sim, com um pouco de imaginação até dá!
Um desses lugares para mim é o blog zenhabits. Um sucesso na blogosfera com quase 80 mil visitantes registrados, o blog é um porto seguro, onde você sempre encontra uma dica, uma idéia, uma inspiração para transformar sua vida…agora!
O autor, Leo Babauta, vive em Guam, uma ilha da Micronésia, no Oceano Pacífico, tem seis filhos e em vez de se apresentar através de títulos, cargos ou funções, prefere contar das suas conquistas, coisas simples, mas quase impossíveis, como emagrecer, exercitar-se, organizar-se, controlar as finanças, realizar sonhos, escrever, relaxar…essas são as qualificações que tornam Leo Babauta um mestre…do cotidiano!
E como o site é em inglês, vou convidar vocês para visitarem, mas adianto um artigo muito oportuno para gente afobada como eu: Seis segundos para relaxar.
Não tem nenhuma desculpa, para manter a mente tranquila, ensina Leo, experimente ao longo do dia fazer pausas de 6 segundos para respirar: 2 tempos inspirando pelo nariz bem devagar e 4 tempos expirando pela boca bem devagar. Faça isso a cada vez que tiver que realizar alguma tarefa rotineira, como atender o telefone, escrever um e-mail, entrar numa aula… Pronto, eis você mais perto do ideal budista: mente limpa e coração tranquilo!
Então complete já a frase: sou…… (jornalista, no meu caso) e vou respirar a cada vez que…….(escrever um e-mail — são milhares por dia!)
Pode começar e não desista: “Somos o que fazemos repetidas vezes. A excelência, portanto, não é um ato, é um hábito”, ensinava Aristóteles.
Nos vemos pelo caminho!
Se quiser ler o artigo (em inglês), clique aqui
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Sem categoria
Tags: meditação, respirar, zen
23/11/2008 - 09:41

Uma amiga me envia a apresentação que você vê lá embaixo e eu me pego muito tempo depois grudada na tela, clicando, assombrada…
As imagens são puro deslumbramento, como fazer caber na imaginação esses seres, vivendo ali ao lado, hoje ainda, tão magnificamente entrelaçados na Natureza?
A parte mais baixa do Vale de Omo, no sudoeste da Etiópia, isolada pelas montanhas etíopes ao norte, os pântanos do rio Nilo a oeste, e o deserto do Quênia, ao sul, é um dos lugares mais selvagens do planeta. Aprendo que o vale foi tombado pela UNESCO, para preservar a quantidade de achados arqueológicos encontrados na região, e não estou falando de artefatos, coisa recente, não. No subsolo do Vale do Omo escondem-se vestígios de nossos ancestrais, hominídeos de 4 milhões de anos!
O que me leva a imaginar que um dia, há milhões de anos, o vale deve ter sido uma espécie de esquina do mundo, onde se encontravam e conviviam humanos de todos os tipos, andarilhos caminhando pela terra recém-nascida. Uma espécie de Nova Iorque pré-histórica…
Nova Iorque, sim, porque ali até hoje convivem (e brigam) uma imensa variedade de grupos étnicos. Leio que numa área de menos do que 15 mil quilômetros quadrados, são faladas mais do que 10 línguas diferentes, fora os dialetos!
O fotógrafo alemão, passou muitos meses entre algumas destas tribos, os Mursi e os Surma, para compor seu Ethiopia: Peoples of the Omo Valley, dois grandes volumes com as fotos que você viu lá em cima e textos explicativos dos rituais e das artes envolvidas na confecção dessas obras de arte humanas.
Embora pareçam saídos de alguma “Semana de Moda” de Paris, embora exibam-se tão modernos diante de nossos olhos ávidos de “propostas” que nos chacoalhem a alma, esses povos estão ameaçados. Viver no vale é um exercício duro de sobrevivência, as mudanças climáticas alteram o regime dos rios, as diferenças transformam-se facilmente em guerras, os olhares estrangeiros dos turistas enchem de furos a trama delicada e frágil da existência.
Preservá-los, como? Incluí-los no quê? Somos tão arrogantes de achar que nosso jeito de viver é tão melhor que todos, você também não acha?
Deixá-los lá, cobertos com um manto de invisibilidade, brincarem com as folhas, as flores, os galhos e todas as cores do planeta!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Estilo ecológico
Tags: África, Hans Silvester, Vale do Omo
19/11/2008 - 19:00
Já falei sobre Maya Angelou neste blog. devo ter falado, sim, porque já até esqueci quantas vezes seu poema, Fenomenal Woman, me ajudou a manter o queixo erguido e o peito aberto…
Maya Angelou é uma grande poetisa americana, mas, sobretudo, é uma mulher que se envolveu nos problemas do seu tempo e conseguiu ser ouvida numa época em que ser mulher, e negra, era, fundamentalmente, calar-se. Nascida em 1928, em St. Louis, no estado de Missouri, dá para imaginar como sua história esta costurada na história dos EUA, e, sobretudo, na história das relações entre negros e brancos, nos EUA.
Foi ela que fez o discurso de posse do ex-presidente Clinton, e, se você observou, ela estava lá ouvindo o discurso do presidente recém-eleito, Obama. E chorou, dizem. Também, pudera!
Pois tudo isso só para você entender porque me entusiasmei ao descobrir que é ela, Maya Angelou, a narradora do documentário The Black Candle, um filme inspirador, sobre famílias, comunidade e cultura negra, tudo girando em torno de uma celebração típicamente afro-americana: Kwanzaa.
Kwanzaa é uma festa que dura sete dias. O nome “Kwanzaa” deriva da expressão “matunda ya kwanza“, que significa “primeiros frutos” em swahili, a língua mais falada entre as centenas de línguas tribais que existem na África. A festa dos “primeiros frutos” é típica dos povos ancestrais, a origem do Natal cristão seria uma celebração desse tipo, a festa da vitória da vida contra a morte, da luz contra as trevas, da colheita farta que garantia a continuidade da tribo contra a ameaça da fome e do extermínio. Não é pouca coisa…Na África, segundo leio no site oficial, os rituais associados à colheita existiram no passado e existem ainda hoje: “Estas celebrações eram comuns nos tempos antigos, mas também existem hoje, cultivadas por imensos grupos sociais, como os zulus, tanto quanto por pequenos agrupamentos, como os matabelos, os thonga e os lovedus, todos do sudeste do continente africano”.
A idéia de criar um feriado “pan-africano” é atribuída a um professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga, num tempo difícil, que ficou conhecido como “o movimento pelos direitos civis americanos”, mas que durou mais de uma década, teve ares de guerra civil e virou a sociedade racista dos EUA literalmente de cabeça para baixo. Kwanzaa foi celebrado pela primeira vez de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro de 1967, Martin Luther King seria assassinado um ano mais tarde e os negros americanos brigavam pelo direito de voto.
Suponho que na época tenha sido um grito de protesto e de dor e nem deve ser mera coincidência os dias da festa dos primeiros frutos serem coladinhos no Natal e no Ano-novo, mas hoje, em tempos outros, tempos de Maya Angelou e de Obama, o tom também é outro. E os 7 valores propostos pelo professor Karenga em 1966, Umoja (unidade), Kujichagulia (auto-determinação), Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), Ujamaa (cooperação econômica), Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé) convidam à união das famílias, à reverência ao criador e à celebração das bençãos da vida.
Este ano, quem não comemorava, talvez se anime. Estamos longe ainda da igualdade racial, mas devemos estar muito perto, é tempo de celebrar, com certeza!
Visite o site e assista o trailer do filme, The Black Candle
Navegue pelo site oficial do evento
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade
Tags: Dia da Consciência Negra, Kwanzaa, Natal
05/11/2008 - 11:04
Imagino que todos os tempos são tempos de violência. O sofrimento que causamos uns aos outros não é novo, nem nasceu nas telas de TV. O que talvez seja novo é, como ensinam os especialistas, a escala. O que talvez seja novo é a visibilidade planetária que ganham os atos de violência que os humanos (poucos, temos que acreditar nisso e as estatísticas ainda devem estar a favor dos seres pacíficos!!) andam cometendo por aí.
Será que é possível se proteger da violência? Talvez. Segundo Gavin de Becker, que, de especialista virou uma celebridade, desde que Oprah Winfrey disse que “esse é o maior entendido do mundo em comportamento violento”, a única coisa que pode evitar que sejamos vítimas da violência é… nosso medo!
No livro The Gift of Fear, Gavin de Becker explora várias situações de violência, tentando demonstrar como, naqueles momentos, as pessoas envolvidas tinham sido assaltadas por inúmeras indicações do perigo iminente — arrepios, intuições, impulsos “irracionais” — e, nos piores casos, não tinham reagido a esses sinais. Nos melhores casos, essas pessoas forneceram indícios preciosos para o estudioso do comportamento formatar suas teses sobre o “presente do medo”.
“Ouvir um pequeno sinal de advertência pode salvar a sua vida”, afirma o especialista “assim como não seguir outros acabam nos colocando em situações de risco”. Nada a ver com paranóia. Apenas pesquisa aplicada na vida diária. Veja só os sinais que ele relaciona:
Pensamentos persistentes
Variações de humor
Ansiedade sem explicação
Curiosidade
Sensações estranhas “na boca do estômago”
Dúvidas
Hesitações
Apreensões
Suspeitas
Palpites
Todas essas reações cheias de informação são enviadas para nós pelo nosso maior aliado, o medo.
Mas como distinguir essas reações na hora “H”? Aprender a reconhecer esses sinais é um tremendo exercício de autoconhecimento. Nada fácil, ao contrário, mas simplesmente começar a pensar nisso já é alguma coisa.
Todos nós já trombamos alguma vez com alguém que nos faz sentir “esquisitos”…talvez até tenhamos prestado atenção, mas grandes são as chances de termos sacudido os ombros num “que bobagem!”. Demos sorte, provavelmente.
Todos nós também já desconfiamos injustificadamente de alguém. E nos arrependemos depois. “Puro preconceito”, dizemos. Provavelmente.
E ninguém quer viver em estado de vigilância eterna contra nossos semelhantes. Então, o medo pode ser educado, ensina De Becker, reconhecer e exercitar “a intuição confiável é exatamente o oposto de viver com medo”.
E talvez a gente tenha mesmo desaprendido a ouvir esses sinais protetores. A moça Eloá, por exemplo, poderia ter usado esses recursos para evitar um envolvimento maior com o rapaz que a matou.
O medo, puro, dos animais, não é aquela coisa ansiosa que inventamos para nós mesmos. Nada tem a ver com fantasias e pavores imaginários. O medo é coisa de bicho. De sobrevivência. Aprender a não ter medo do medo é a primeira regra. Até porque “quando temos medo, não está acontecendo”. O medo é sempre medo de algo que pode acontecer. Se um ladrão entrar na sua casa, você não vai ter medo de que um ladrão entre na sua casa, esse medo você já teve. Agora, seu medo é do que ele vai fazer em seguida, entende? Ou seja, o medo sempre antecipa alguma situação de perigo. Cabe a cada um checar as origens deste medo, examiná-lo de todos os ângulos possíveis, ouvir as intuições agregadas a ele e depois tomar uma decisão: evitar, fugir ou atacar. O medo nos dá tempo para pensar e agir.
Não ter medo do próprio medo pode parecer uma idéia polêmica, mas se a gente parar para pensar, não faz sentido? Afinal, nem sempre a gente pode confiar nos versos da música “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”…
Em português, o livro chamou-se As Virtudes do Medo, na Livraria Cultura você compra online
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver
Tags: intuição, medo, violência
02/11/2008 - 14:40

Pessoas visitam o túmulo dos parentes no cemitério de San gregorio Atlapulco, na cidade do México. A foto é de Henry Romero/GettyImages/IG
Que tal celebrar a morte com flores e muita festa? Se isso para nós parece estranho, no México, ao contrário, ninguém fica triste no Dia de Finados. Os mexicanos brincam com a morte e transformam todos os símbolos tradicionalmente associados com ela em motivo de riso e diversão. Começando com a comida. De todas as iguarias que são preparadas especialmente para a ocasião, a mais apreciada são pequenas caveiras sorridentes feitas de açúcar ou de chocolate, decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos parentes falecidos de cada família. Aliás, as caveiras estão por toda a parte, exibindo seus enormes sorrisos e sombreros enfeitados com flores e plumas.
E se, nos povoados, o povo dança e canta nas ruas, nas cidades a festa é transferida para os cemitérios mesmo. É onde os amigos se encontram para passar o dia comendo, bebendo e cantando em homenagem aos seus “muertitos”. A alegria e irreverência, no entanto, não tiram o caráter religioso do Dia de Muertos. “Em poucos lugares do mundo se pode viver um espetáculo parecido ao que acontece durante as grande festas religiosas do México”, afirma o escritor Otávio Paz, em seu livro Labirinto da Solidão. E o Dia de Muertos é, sem dúvida, a maior celebração religiosa desse povo festeiro.
As manifestações populares que acontecem nos dias 1 e 2 de novembro são o resultado de uma forma de sincretismo, que mistura elementos do catolicismo popular, com rituais antiqüíssimos, típicos dos povos que habitavam o México milênios antes da chegada dos espanhóis: os olmecas, os teotihuacanos, os maias, os zapotecas, os mixtecos, os toltecas e os mexicas.
Visões do paraíso
Os mexicanos da época pré-hispânica se consideravam imortais. Para eles, a morte era apenas um jeito diferente de viver. “Os antigos diziam que os homens, quando morriam, não desapareciam, mas começavam a viver de novo, como se despertassem de um sonho, transformados em espíritos ou em deuses”, conta o historiador Bernadino de Sahagun, no clássico História Geral das coisas da Nova Espanha. Esses espíritos imortais habitavam um mundo paralelo ao dos vivos e, em muitos aspectos semelhante a ele.
A noção de que existe um mundo “do outro lado”, reservado para os mortos é compartilhada por quase todas as tradições religiosas. De modo geral, pegar o melhor ou o pior lugar é uma questão de mérito e das boas ações que praticamos em vida. O que torna tão original o pensamento dos antigos povos mexicanos, é que essa escolha está relacionada com a causa física da morte de cada um. Daí existirem nesse mundo espiritual vários paraísos. Um deles, por exemplo, correspondia ao deus Tláloc e chamava-se Tlalocan. Ali eram recebidos os que morriam afogados ou por qualquer outra razão que se relacionasse à água. Contava-se que haviam muitas árvores e alimento abundante para a alegria de seus habitantes.
É claro, que sempre haviam os casos em que a causa da morte refletia a vida. Os guerreiros, por exemplo, iam para um lugar especial, assim como os prisioneiros de guerra, que costumavam ser oferecidos em sacrifício para alimentar com seu sangue o deus-sol Tonatiuh. Essa distinção também era reservada às mulheres que morriam de parto, chamadas cihuateteos.
Quem morresse de causas naturais tinha lugar reservado em Mictlán, o reino de Mictlanteculi e Mictlancihualt , senhor e senhora dos mortos. Contava-se que, quando o sol se punha na terra, nascia em Mictlán. Estava longe de ser um local de castigo, mas o caminho até lá era cheio de perigos. Rios profundos, altíssimas montanhas e animais selvagens aguardavam os viajantes. Para que pudessem vencer tantos obstáculos, as pessoas eram enterradas com facas de obsidiana, oferendas e comida e bebida para a viagem.
Os mortos-crianças iam para Chichihualcuahtli, onde o leite para alimentar os pequenos escorria das árvores. Esse cuidado típico de mãe parecia natural para esses povos que acreditavam que gerar a vida e tirá-la eram dois atributos do feminino e, de fato, muitas deusas-mães povoavam seu universo espiritual.
A Mãe-Morte
“A representação da morte no México é sorridente”, ensina o escritor Fernando Salazar Bañol, “ chama-se Coatlicue, ou Mãe-Morte e também é conhecida como a deusa da terra. É ela que gera todas as coisas e também as devora”. Essa idéia nasce da observação dos ciclos da Natureza, onde tudo está sempre nascendo, morrendo e renascendo. Cecílio A. Robelo, em seu Diccionario Náhuatl conta que a lua enviou um recado aos homens por intermédio de uma lebre: “Assim como eu morro e renasço todos os dias, vocês também vão morrer para renascer depois”.
Por isso, até hoje, os mexicanos se sentem à vontade para brincar com ela. “ A morte não tem nada de terrível. No México, ela é feita de açúcar e distribuída para as crianças”, conclui Fernando Salazar.
A hora da festa
Essa familiaridade está tão arraigada na alma mexicana que, ainda hoje, existe uma idéia muito forte de que os mortos têm licença para visitar seus parentes do mundo dos vivos, na época de Finados. No dia primeiro, Dia de Todos os Santos, também chamado Dia dos Santos Inocentes, os visitantes são os mortos-crianças. Os mortos adultos só aparecem no dia seguinte.
Para recebê-los, as casas são enfeitadas com cempasúchitl, uma flor amarela, típica do Dia de los Muertos. No lugar mais importante da casa, um altar é preparado em três andares, simbolizando a Santíssima Trindade, ou o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nele, além da figura do santo da devoção da família e de imagens de Jesus Cristo, colocam-se fotos, água, frutas e os pratos de comida favoritos do ancestral que se quer honrar.
O banquete é preparado com um cuidado respeitoso. Não podem faltar receitas mexicanas tradicionais, como a calabaza de tacha, um doce de abóbora feito com açúcar e canela, o famoso pan de muertos, uma torta com decorações que imitam ossos e as caveiras de açúcar, que as crianças adoram.
O altar é todo enfeitado com papel picado de cor preta, símbolo do luto cristão e laranja, a cor do luto azteca. E, por toda parte, velas, muitas velas para ajudar os espíritos a encontrarem seu lugar.
Tudo tem que estar pronto até dia 31 de outubro, à meia-noite. A família reza junta e, em seguida, convida os ancestrais a participarem da festa. As velas são acesas e o ambiente é purificado, queimando-se uma resina aromática, o copal. Ninguém toca na comida. Os mortos devem ser os primeiros a se servir. Apenas no dia seguinte os vivos voltam para se reunir aos parentes falecidos e, juntos, saborearem o banquete. É hora de comer e beber ao som da música favorita dos que já partiram.
O ritual se repete no dia 2, para os mortos adultos. Hoje, nas cidades, em vez de fazer uma festa em casa, as pessoas preferem levar a refeição para os cemitérios, onde passam o dia lavando os túmulos e decorando-os com muitas flores. Lá eles rezam, choram, cantam e, eventualmente, se embriagam, porque, afinal a morte é um fenômeno inseparável da vida. E, para os mexicanos, a melhor forma de enfrentá-la, é rir e brincar com ela.
Jose Guadalupe Posada (1852-1913)
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade
Tags: Dia dos Mortos, Finados, México, Morte
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