Guy Debord e os ermitões do mundo moderno

Um homem de cerca de 50 anos, com uma cabeleira de mais de 3 metros, foi encontrado hoje, dia 10 de julho, na casa onde vivia com sua mãe, na França, melhor, numa daquelas cidadezinhas com cara de nada-de-mal-pode-acontecer-aqui da Côte d’Azur francesa.
Os policiais encontraram Michel, muito pálido e em estado de desnutrição, porque os vizinhos, preocupados porque fazia dias que não viam sua mãe, de 76 anos, chamaram a polícia. A velha senhora, na verdade, estava morta, sentada numa poltrona, e o filho, um pouco “perdido”, mas consciente do mundo exterior e se expressando bem, não parecia se dar conta da morte da mãe.
Os vizinhos sabiam da existência do homem que, segundo eles, desde os 14 anos havia decidido viver fora da sociedade. Um ermitão dos tempos modernos.
Mas…deve ser por ter assistido — e resistido — ao filme-documentário do Guy Debord, La Societè du Spectacle, fiquei pensando nesse ermitão que vira notícia de agência internacional, neste menino de 14 anos que decide sair do mundo, neste homem de 50 perplexo e desorientado…
Homens pós-modernos poderiam ser definidos como seres que não apenas são incapazes de se reconhecer no trabalho que realizam (como os “trabalhadores do mundo uni-vos” de Marx), mas também não usam seus recursos, talentos e conhecimentos para se construírem como seres humanos “melhores”, ao contrário, todo esse esforço vira “competências” com valor garantido no mercado, “mercadorias” para se comprar e vender…deu para entender? Pois piora: além de não se reconhecerem nem no produto que ajudam a fabricar, nem nos talentos que vendem no mercado da competência, esses seres pós-modernos vivem num mundo que se oferece sempre fragmentado, tudo que temos e sabemos do mundo são pedacinhos de informações, títulos e leads de jornais, cacos de notícias espalhados, sem crítica, nem reflexão, pelo planeta em frações de segundos…descrentes de uma narrativa que reúna as minúsculas peças desse quebra-cabeça, nós vivemos esbarrando uns nos outros, sem nos conhecer de verdade, sem saber direito a quem servimos, escravos das idéias de segunda mão que se apresentam todos os dias nas telas de todos os tamanhos que nos refletem, vazios…
A saída? Não sou nenhuma especialista na obra do grande intelectual francês, longe disso, mas imagino que ele gostasse da idéia de que eventualmente, mesmo num mundo aparentemente tão sem saídas, alguns de nós conseguem escapar…atormentados, muitos — o próprio Guy Debord se suicidou em 1994 –, perplexos e desatinados, outros tantos…mas há de existir quem consiga se enxergar neste espelho de forma mais generosa, sem sucumbir…
Quanto ao ermitão francês, quem sabe o que esse reencontrão com o mundo vai reservar para ele?
Leia aqui a íntegra da notícia no Nouvel Obs
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Adilia, realmente o mundo pós-moderno fascina por suas incongruentes vicissitudes. Tudo é aqui e agora ao mesmo tempo. Adorei saber que vc tem este canal de comunicação e assim podemos nos conhecer melhor. Moro em Brasília, sou professor de Dança Contemporânea e tenho um projeto aprovado pela Lei Rouanet junto com mais um monte de outros artistas do país que estão esperando por patrocínio. Já estou há muitos anos neste mesmo procedimento, envio documentos sazonais ao MINC e pasme, nem estão me respondendo. Faltariam pessoas por lá para compreenderem os desígnios de nossos anseios? Eu também ando preocupado com o mundo pós-moderno, com essa desorganização em busca de entropia máxima por meio das comunicações. J. Habermas também escreveu muito sobre isso, embora eu esteja me dedicando mais aos filósofos da Estética ultimamente, entre eles Hegel e Schiller, não eu não sou nenhum cientista social, mas meu projeto é de cunho social sim, minha formação é em Educação Física e já me envolvi em muitas questões para justamente melhro me posicionar neste admirável mundo pós-moderno. Te peço que conheça o que faço e que estabeleça um novo contato no futuro, caso se interesse em conhecer minha proposta pedagógica e artística. Abraços e sucesso. Alexandre Reis. Veja o site deste video no youtube, mas desconsidere o Banco BMG, eles enrrolaram e não nos patrocinaram em nada: http://www.youtube.com/watch?v=cV_-hQLZx44
Que reflexão contundente!
Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Salvem os desviantes, os delirantes, os criativos-alternativos forever!
É de se admirar comentários tão transparentes e fecundos numa rede dominada por tolices prepetradas como verdades absolutas.
Longe vai a època que o pensamento era trazido a tona, numa tentativa de aclareamento ou entendimento onde o ser humano se encontrava e se munia de respostas.
Hoje um shopping digital nos manipula para uma sanha de mercado que nos oprime e esvazia.
Este homem,ermitão ou fugitivo, é um detalhe sobre o qual havemos de nos debruçar, aguçar o espírito, para que diante dele nos encontremos por inteiro, longe desta tonta figura que vemos no espelho, escravo das manipulações diárias a que somos submetidos, sorridentes e infelizes.
Nenhum adolescente “decide” viver como ermitão, mesmo porque nesta idade não se tem formação suficiente para se “saber” nada, muito menos o que fazer da própria vida… o que será que aquela mãe lhe fez?… acho que quis “guardar” o filho para si mesma… pobre rapaz!
coitadoooo