A Casa Cor e as cavernas masculinas

Casa na árvore de Fernanda Abs e Fred Benedetti
Todo ano vou à Casa Cor. Gosto de saborear esta vitrine do viver em casa. É claro que, como todas as vitrines, nem sempre a gente gosta de tudo que vê. Lembram daquela Casa Cor onde a tecnologia era a estrela absoluta de ambientes em que era impossível imaginar humanos vivendo? Não sei mais em que ano foi, mas lembro que saí exausta…e vazia!
Já li vários comentários sobre a Casa Cor 2008 e deixo para os especialistas a árdua tarefa de fazer a triagem das tendências e avaliar todos os detalhes.
Mas aquela Cabana do Roberto Migotto é coisa para se pensar…a tal cabana, aliás, versão nada rústica daqueles refúgios de caça que povoam os bosques da imaginação, junto com a Casa na Árvore, o Chalé de Golfe, a Garagem cheia de vasos de murano, me fizeram viajar pela idéia de que talvez estejamos antecipando um tempo de buscar dentro das casas um espaço mais masculino, onde caibam os jeitos dos homens estarem no mundo.
E fico surpresa ao ler na CNN um artigo com o título sugestivo de “Porque ele precisa de um canto só seu”. Os homens andam em busca de suas cavernas, avisa a reportagem.
Um santuário masculino ou “mantuary”, em inglês. Lugar onde acolher tudo que não cabe nos espaços mais sofisticados, caprichados e, cá prá nós, femininos do restante das casas modernas: do vídeo game às TVs gigantes, passando pela coleção de gibis, de velhos discos de vinil, memorabilia de esportes, gadgets de todos os tipos.
Um canto onde os homens podem talvez se comportar um pouco menos “bem”, receber os amigos para intermináveis sessões de Halo 3 e piadas escatológicas e machistas, longe dos ouvidos femininos, longe das culpas, lembrar de tempos na garagem tocando guitarra e ouvindo música bem alto…gritos primais, batcavernas, vai saber do que sentem saudades os nossos homens modernos, urbanos?
Junto com o espaço, viria o tempo. Um tempo para redescobrir camaradagens, gargalhadas, do que eu gosto mesmo afinal, do que sinto falta. Meu marido, logo depois de uma das nossas separações (foram algumas nestes 30 e poucos anos) me disse: “incrível é descobrir que você não tem a quem culpar pelas coisas que não consegue fazer, pelos sonhos que não viveu, pelas horas disperdiçadas, de repente, é tudo seu!” Sim, uma caverna só faz sentido se for para você descobrir-se dentro dela…
Está certo que a visão Casa Cor destes espaços “masculinos” é refinadíssima, mas a imagem de uma caverna ultrasofisticada, povoada de confortos e maciezas cheirando a grama molhada, a bicho e de lembranças estrangeiras…não sei não, mas vai ter muita mulher disputando um pedacinho…
Clique para ler o artigo da CNN
No Urban Dictionary “mantuary” já tem até definição
<a href=”http://themantuary.wordpress.com/”
target=’ _blank>E no blog “Mantuary”, uma amostra do estilo novo ‘caveman’
As fotos são do site da Casa Cor 2008, de São Paulo
A Cabana de Roberto Migotto

A Sala do Hobby do Dono da Casa, de Vanessa Feres

