Onde você estava em maio de 68?

Onde você estava em maio de 1968, hein?
É claro, talvez você seja jovem demais, talvez até pense que o mundo, tal como você o experimenta todos os dias, sempre foi assim. Que os velhos à sua volta nasceram velhos. Que sua mãe sempre foi “aquela santa”. Que a gente sempre pôde “botar a boca no trombone” e falar o que viesse à cabeça. Que garotos e garotas sempre andaram pelo mundo juntos, em bandos, mochileiros, andróginos. Que a juventude sempre foi esse espelho universal no qual todos precisam se ver refletidos, independente da idade.
Pois é, houve um tempo em que existia um silêncio de todas essas coisas.
E, então, houve maio de 68.

E, em Paris, os jovens ocuparam as ruas do Quartier Latin, o bairro dos estudantes, onde fica a mais venerável das universidades da França, a Sorbonne. E, na falta de qualquer ideologia, de carta de princípios, de projeto, de declaração de intenções, inundaram o resto do mundo com slogans: “O poder é um abuso. O poder absoluto é um abuso absoluto”. “É proibido proibir”. “A ação não deve ser uma reação, mas uma criação”. “Esqueçam tudo que aprenderam. Aprendam a sonhar”. “A Natureza não criou nem senhores nem servidores. Não queremos dar nem receber ordens”.
E logo, esses gritos foram sendo ouvidos aqui e ali, cada vez mais longe. E se misturaram a outros, estrangeiros…
A década inteira foi uma gritaria, a bem da verdade. E a rua era o grande palco. Nos anos 60, negros e brancos se confrontavam violentamente nos EUA, Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua na África do Sul. Protestos contra a Guerra do Vietnã e as bombas nucleares ocupavam as ruas de Londres e os órfãos políticos de Péron pediam sua volta nas ruas de Buenos Aires. Protestantes e católicos se enfrentavam nas ruas da Irlanda, nos primeiros dos muitos Bloody Sunday que durariam ainda mais três décadas. E o silêncio invadia as ruas de Praga, depois da passagem dos tanques soviéticos.
Lembro da minha avó chorando no dia em que o presidente americano, John F. Kennedy, foi assassinado, em 1963. E de novo, quando Martin Luther King morreu, também assassinado, em 1968. Eu tinha então 14 anos…Tudo aquilo era meu. O sonho, a tristeza, a esperança. Aqueles estudantes nas ruas eram tudo que um dia, com certeza, eu também seria. As ruas eram o destino. Enquanto isso, devorava todos os livros de Herman Hesse e Aldous Huxley, já tinha passado pelo escracho de Bukowski e pelo vazio terrível do “Apanhador no Campo de Centeio”, não imaginava nem de longe um dia ser igual à minha mãe, acreditava num final feliz para as utopias, morria de medo da loucura, das botas dos soldado, de me perder dos meus sonhos, de viagens sem volta e dos sistemas totalitários.
Em maio de 68, eu tinha acabado de fazer 14 anos, era recém-chegada em São Paulo, vinda do sul e, como outras tantas garotas comecei a fumar escondido para fazer como os meninos, a disfarçar meu jeito de “boa moça” atrás do riso alto e dos modos soltos, a “domar” a timidez na fala engajada, a não ter medo da nudez, nem ter vergonha de chorar…Mas não tinha nenhuma dúvida de que valia a pena crescer num mundo assim “em construção”: “o brave new world, that have such people in it”…Só era preciso esperar…
E você, onde você estava em maio de 68?
O vídeo deste momento existe no You Tube, mas apenas o link está disponível: http://www.youtube.com/watch?v=qbhxy-A22aQ
E existe esse outro, com as manchetes de jornal e entrevistas dos líderes do movimento estudantil cujo objetivo era “ocupar ‘pacificamente’ o Quartier Latin, o bairro latino de Paris” ou, nas palavras de Jean Paul Sartre, o filósofo mais francês, “a eles só restou a violência, porque eles não querem entrar no jogo dos seus pais e não aceitam meias concessões”…
E aqui, uma coleção dos cartazes que enfeitavam as manifestações
Ouça o discurso histórico de Martin Luther King em Washington, falando do seu sonho de que um dia “todos os homens, independentes da cor, fossem iguais e que crianças negras e brancas pudessem se dar as mãos”
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Em 1968 eu ainda nem era um sonho acalentado na cabeça de minha mãe, tampouco uma dúvida errante na de meu pai. Em 68 estava vagando em algum mundo por aí…
Hoje, rebentado, de 68 lembro que a juventude sempre vai ser o espelho universal no qual todos precisam se ver refletidos, sim. É nela que mora o fôlego pra gritaria, mas nem sempre a cabeça para saber os motivos do alarde. E, como disse o Lobo da Estepe, eu estou cônscio da existência desse espelho, no qual tenho uma necessidade tão amarga de olhar-me e no qual temo mortalmente ver-me refletido. A boa juventude é a juventude velha…
Nelson Mandela conheci num livro do colégio, e depois em plantão da Rede Globo e na música do Simple Minds. Música que me mostrou também os “Bloody Sunday”, no swing dos versos lancinantes do U2, que conclamavam uma platéia em polvorosa a cantar “for the Reverend Martin Luther King”, aquele que teve um sonho do qual muitos hoje nem sequer ouviram falar. Mas eu ainda acredito que um dia estaremos sentados juntos “at the table of brotherhood”.
Demorei a entender – se é que o fiz – Hesse, e de Huxley sempre lembro que “se somos diferentes, é fatal que estejamos sós”. Era frio e adolescência quando li Salinger, e ele pareceu me entender, abraçar e acolher como o mundo jamais pensaria em fazer naquele meu momento. Holden Caulfield foi, então, meu primeiro nick na web. E nunca parei de pensar sobre o sonho de ocupação que tinha o jovem do livro: evitar que crianças caíssem de um precipício…
Hoje tento ser uma partícula sólida num copo d´água, saudoso no 68 que não vivi.
Saudoso e em silêncio…
Lucas querido, seu comentário me fez mais uma vez lamentar que nosso sistema não permita que os comentários sejam abertos. O seu merecia ser escancarado! Saudades de você!
Adília,
Bonito texto! Eu estava na faculdade (tinha 20 anos) e me lembro bem da confusão mental em que fiquei… ordem estabelecida(?) versus uma nova ordem? Bom de lembrar, melhor ainda pensar que tudo aquilo resultou em um mundo melhor (será?). Fico muito desconfortável quando vejo aquela propaganda do Green Peace (vcs conseguiram mudar o mundo!)
tava no inferno com o capeta
Adilia, querida nossa, por que vc faz estas perguntas que nos levam para a história? Parece que foi a tanto tempo, mas ainda falta tanto a aprender das lições daquela década.
Em Maio/68, estava enjaulado no trabalho, em plena Av. Brigadeiro Luiz Antonio, Edificio do Grupo Ultra, ao lado do auditório da Bandeirantes, e assim “bem protegidos” da bagunça lá de fora, exerciamos nossas funções, nos alimentávamos, e depois com muito cuidado e atenção, voltávamos pra casa, pois alguma bomba de algum lado poderia explodir em nosso caminho. Foi um tempo de muit o aprendizado, e de muita tristeza.
Até os programas de auditório da Bandeirantes ali do lado, ou da Record, um pouco mais abaixo, nos pareciam falsos. Quando não, perigosos. Mas valeu a pena. O País ainda não aprendeu a ser democrata, mas vamos tentando.
Um beijo, e por favor, não faça mais estas perguntas. Quero esquecer.
eu estava com 3 meses e com certeza com a minha mae hoje tenho 40 anos bjos
Adília,vc me fez lembrar de momentos históricos importantíssimos.
Sou uruguaia, em 68 como vc tinha 14 anos,já participava do Movimento estudantil.
Juventude valente a da nossa época.
Um abraço.
Clara
Eu tava no bercinho com 4 meses hehehe
Eu também tinha 14 anos, e estava engatinhando uma militancia de esquerda! Minha avó, anarquista espanhola me incentivava e eu ia. Pequenas tarefas, sem importancia mas que me faziam sentir muito importante ! Não tinha acesso aos bons livros, só alguns textos mimeografados (lembra? aquele de alcool?) me chegavam. Mas tinha um sonho: o de ter um filho, que se chamaria Luiz Carlos (por conta do Prestes) e por isso tinha que fazer um mundo melhor. Consegui o filho e a homenagem, mas o mundo…
Tava querendo sair da barriga da mãe, e consegui dia 29 antes de acabar o mês. ( queria mesmo entrar pra história..rs rs rs )
Eu simplesmente nasci em época errada.Adoro fatos e histórias antigas(com todo respeito)!