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22/04/2008 - 06:00

Em Londres: aniversário de Shakespeare e festa de São Jorge

Em Londres, esperando pelo aniversário de Shakespeare, pelo dia de São Jorge e pelo sol!

Disseram que ia ser um dia “sunny” e lá fui eu para o cais, atrás da Londres de Shakespeare…difícil, em 1666, um gigantesco incêndio que durou 5 dias, destruiu mais de 13 mil construções, ou seja, boa parte da cidade que espreguiçava uma paz recém conquistada, uma rainha esclarecida, a Elizabeth I dos filmes recentes, e o ar fresco que vinha de um Novo Mundo cheio de estranhezas, também recém-achado pelos europeus.

Da cidade apinhada que se enrodilhava em ruelas de pedra sobrou bem pouco. Aqui e ali, uma fachada, um muro…do incrível “teatro elizabeteano”, uma arena circular de cinco andares, ao ar livre, erguida sobre pilares e colunas de carvalho, não restou nada. Apenas fragmentos que permitiram a construção há 11 anos de uma réplica quase perfeita do teatro original.

É ali, no Globe Theater (cuja foto você vê lá em cima), que vão se reunir num cortejo os apaixonados, os viajantes, os curiosos, os ciumentos, os enlouquecidos, os valentes, os poderosos, os perdedores, os bons e os nem tanto assim, crianças e velhos, mulheres e homens, gente de ontem e de hoje porque são todos personagens do maior poeta inglês, talvez do maior de todos os poetas, ponto. E cujo aniversário, os ingleses comemoram no dia 23 de abril, uma certa arbitrariedade histórica, aliás, porque ninguém sabe ao certo se esse é mesmo o dia correto em que nasceu Shakespeare.

Não faz mal, os humanos suprem a realidade com a imaginação e fazem coincidir o aniversário do poeta com o dia de São Jorge, o padroeiro da Inglaterra. O que é outra intromissão da fantasia na história porque ninguém até hoje conseguiu associar nenhuma figura que realmente tenha existido com o santo e não é por falta de esforço de pesquisa: teólogos e especialistas em hegiografia têm tentado “costurar” na realidade histórica os relatos fabulosos atribuídos a São Jorge.

Um desses estudiosos, e que é citado com frequência quando o assunto é “afinal, quem foi São Jorge”, Hippolyte Delehaye, no livro Les legendes grecques des saints militaires, publicado em Paris, em 1909, conta que o mais antigo relato que temos da vida do santo é um fragmento do século 5. Nele, o futuro padroeiro da Inglaterra é “cheio de extravagâncias, além do imaginável”, mesmo para um santo. De fato, além de ser por três vezes cortado em pedacinhos, enterrado vivo, consumido pelo fogo e a cada vez ressuscitado pelo poder de Deus, tem sempre a história do dragão…

Um terrível dragão ameaçava a cidade de Selena, na Líbia. Seu hálito era tão ruim que havia transformado as terras em pântanos e cada vez que se aproximava da cidade, provocava pestes e doenças. Para matar sua fome e mantê-lo afastado, os habitantes de Selena sacrificavam dois carneiros por dia. O tempo passou, no entanto, e chegou o dia em que todo o rebanho já tinha sido abatido. Desesperados, os selenos, começaram a sortear vítimas humanas para saciar a terrível criatura. São Jorge chegou na cidade justamente no dia em que a jovem filha do rei, vestida de noiva, estava sendo preparada para morrer nas garras do dragão. Apesar dos apelos da jovem para que o cavaleiro fugisse daquele lugar onde a morte era certa, o santo não se mexeu e, quando o monstro surgiu das profundezas do pântano, trespassou-o com um único golpe de sua espada.

Em seguida, levou a moça de volta à cidade, a princesa conduzindo o dragão, como um carneirinho, pela coleira improvisada que o santo havia feito com o cinto do seu vestido de noiva. O rei, feliz como todo o rei, ofereceu toda sua fortuna para o estranho e valente cavaleiro com a cruz vermelha na armadura. Mas São Jorge recusou. Pediu que todos se convertessem e que o tesouro do rei fosse distribuído entre os mais pobres.

A lenda está registrada numa compilação de outras 180 histórias de santos no livro A Legenda Áurea, um clássico publicado há quase 750 anos, pelo frade dominicano Jacques de Voragine, e que até foi traduzido para o português (Editora Civilização, de Portugal).

São Jorge é o santo padroeiro da Inglaterra desde 1415, segundo leio no site da Royal Society of Saint George, quando os ingleses, sob o comando de Henrique VI, lutaram e venceram a Batalha de Agincourt, contra os franceses. Desde então, é sob a bandeira com a cruz vermelha sobre fundo branco que os ingleses lutam, e é pelo santo que os soldados gritam antes das batalhas.

“Por Henrique, pela Inglaterra e por São Jorge!”, exclama Henrique V, no mais famoso brado de guerra, na peça que leva seu nome, escrita em 1559 pelo poeta William Shakespeare. Feliz aniversário!

Para quem quiser saber mais

A aniversário de Shakespeare marca o início da temporada do Globe Theater. Este ano, a peça que está sendo montada é Rei Lear

Na exposição permanente do Globe Theater, um painel lembra: “A gente está sempre citando Shakespeare”, mesmo sem nem se dar conta disso.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:

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