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Arquivo de abril, 2008

28/04/2008 - 08:35

Um dia para flanar em Paris…

Viagens colocam você fora de contexto. Existir numa outra paisagem subverte nossas coordenadas o bastante para nos tornar de novo as aparvalhadas, perplexas e agradecidas criaturas do início de todas as coisas…

Paris é para ser vista através dos sabores e dos cheiros. Nesta primavera, a cidade cheira a bala, a “gourmandise”. Barraquinhas de crepes soltam a todo minuto fornadas de aromas adocicados que lembram infância, fogão quente, café, lanches da tarde…

Se tivesse que fazer um guia “Toques de Alma” para passar um dia em Paris, com certeza teria que começar com um café com croissant e manteiga, sentada no cais do Sena da Igreja de Notre Dame que surgiria, pálida, por trás da xícara quente, contra um céu azul aguado e árvores de folhas frescas. Mas seria óbvio.

Menos óbvia é Saint Sulpice, na rua que leva o mesmo nome, metrô idem. E também tem um café, bem na frante. Algumas igrejas são tão perfeitamente construídas que hoje são lugares onde se vai para ouvir música, de tal qualidade é o som que passeia por entre as colunas e arcos anônimos, fiéis e atentos…torça para ter sorte e você vai chegar lá justo na hora de algum concerto!

Logo ali ao lado, na Place Saint Sulpice, número 8 — ou 8, Place de Saint Sulpice, como costumam registrar todos os endereços os franceses — fica a Maison Thuillier, La Pastorale, uma lojinha minúscula, mas que tem a maior coleção de “santons”, aquelas figurinhas de argila nascidas na região da Provence na França e que animam os presépios franceses. Essas são do mestre Marcel Carbonel. São infindáveis personagens, folclóricos, nascidos das tradições dos camponeses nas várias regiões da França: o prefeito, a vendedora de flores, o jovem caçador, o casal de noivos, o casal de velhos sentadinhos no banco, o músico, a cigana, o camelo dos reis magos, as ovelhas, o burrico carregado de frutas, a jovem padeira, o homem com a lanterna tentando enxergar o caráter que os homens escondem na sombra…Todos vindo ver o Menino Deus recém-nascido. E para aqueles que eventualmente arranjem razão para criticar o aspecto pouquíssimo ortodoxo da cena, uma lembrança: naquela noite mágica, cabem todos os seres, os próximos e os distantes, os que estavam nos capos e seguiram as estrelas, os que estavam por perto e vieram “dar uma espiadinha”, animais e frutos da terra…

Os rios acompanham as cidades, são parceiros. Viajar é navegar nestes rios, enquanto a gente tenta se tornar parte, respirar o ar e receber o céu. Paris recuperou o seu rio, e, além daqueles tradicionais “bateaux mouches”, turísticos, com direito a guias tentando animar você, colocou barcos-ônibus, os “bateau bus”, que simplesmente levam pessoas de um lado para o outro, sem explicações, em paz para saborear as tardes lindas de primavera! Basta chegar na beira do cais, tem anúncios do serviço por toda parte.

Viajar na Europa, em geral, é entender a dimensão de algumas palavras briguentas, “cidadania”, “pátria”, “país”. De certa forma, e porque estão tão mais colados na vida uns dos outros, eles por aqui estão bem mais preocupados com estas questões. Diferenças e igualdades são percepções que precisam ser reconstruídas, refinadas, redesenhadas na cabeça e no coração dos homens. E o mais novo museu de Paris, o Quay Branly, que também é a mais nova criação do arquiteto Jean Nouvel, autor do projeto do Institut du Monde Arabe e da Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, ambos considerados polêmicos, transgressores, mas extraordinariamente, ao menos do ponto de vista da autora deste blog, belos…

A idéia aqui é apresentar objetos e artefatos vindos dos rincões não-ocidentais do planeta, África, Oceania, Asia e Américas, através de múltiplos olhares. No Quay Branly, o olhar etnográfico convive com o olhar do artista. Quando é que um produto cultural vira obra de arte? E as salas do Quay Branly, de pés direitos altos como os dos templos, parecem responder: sempre. E aí você percebe quão longe está das estantes com jeito de laboratório atulhadas de bizarrices e aberrações de povos ditos “primitivos” dos museus tradicionais. Aqui é o lugar onde o viver vira arte. É no cotidiano, nos objetos sagrados, na música e no canto, na cozinha e no enfeitar-se que os seres humanos expressam sua criatividade e encontram sua graça e seu encanto.

Por fora, o museu parece brincar de Lego com a cidade. Cubos em tons de terra saem abruptamente das fachadas e uma gigantesca parede-jardim, viva, orgânica, selvagem, acolhe 15 mil espécies vegetais vindas do Japão, da China, da América e da Europa Central. Provoca vertigens: “afinal, quem disse que terra acontece só no chão?” A terra, amigos, caminha no céu…<a href=”http://www.quaibranly.fr/fr/
” target=_blank>Para experimentar o museu, navegue pelo site oficial.

Imagino que só numa terra onde comer é uma experiência muito terrena e sensual, de um lado, e muito sofisticada e rebuscada, de outro, um fabricante de chocolates se definiria como: Michel RICHART, le créateur d’émotions gustatives, ou seja, “Michel Richart, criador de emoções gustativas”. A indicação da Chocolateria do Mestre Richart como sendo o santuário do “melhor chocolate do mundo” foi da Tania, mulher do Arnaldo, que passou para Flávia, que passou para mim, valeu cada centímetro da caminhada até o número 258 do Boulevard Saint Germain. Descobri que chocolates são, sim, emoções, para se viver de olhos fechados…<a href=”http://www.chocolats-richart.com/chocolat/accueil

” target=_blank>Clique aqui para navegar pelo site do Mestre do Chocolate.

Volto para o hotel, com a memória do chocolate com recheio de cassis na alma…adoro me sentir turista, colecionadora de cliques, de memórias, de cheiros, sabores, cores e histórias para compartilhar na volta.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/04/2008 - 06:36

Festa para São Jorge em Londres

O sol não veio, mas São Jorge não falha e, embora não seja feriado, os londrinos vão festejar o dia do seu santo padroeiro como se deve: festas na rua!

Ano passado, o elenco de “Monty Python’s Spamelot”, o musical inpirado no filme “Monty Python em busca do cálice sagrado”, de 1975, comandou o show em Trafalgar Square, um dos lugares de Londres onde tudo acontece. E quebraram um recorde: o maior número de pessoas tocando numa orquestra de cocos!!! Foram 5567 criaturas morrendo de rir contra as 1785 anteriores, em Nova York.

Este ano, o foco da festa é a comida. Um Festival da Culinária Inglesa vai ser montado na mesma praça, Trafalgar Square, patrocinado pela prefeitura da cidade e oferecido pelo Borough Market, um dos mais antigos mercados de Londres. A comilança, que começa na hora do almoço e acaba quando a comida acabar, inclui delicadezas, como os queijos de Neal’s Yard e aquelas geléias que só na Inglaterra eles sabem fazer. Mas inclui também aqueles clássicos da culinária britânica de nomes praticamente incompreensíveis, como “Shell Seekers Dorset diver caught scallops and shellfish” (?) e outros nem tanto, mas que prometem sabores no mínimo interessantes, ainda que um tantinho “pesados”, o que teria, com certeza, agradado o cavaleiro sempre em busca de dragões para lutar que foi São Jorge, como “salsichas de porco e gengibre” e “javali da Sillfield Farm em Westmorland”…imagino que tudo regado a muita cerveja!

Festa na rua, em geral, é sinônimo de música, dança e gente brincando de circo, aproveitando a chance de capturar o olhar das pessoas. No caso aqui da festa de São Jorge, grupos de teatro e companhias de dança tradicionais, como o Greenwich Dance Agency e o Natural Theater Company vão incorporar o espírito da comilança em suas apresentações. Pena que meu avião de volta para o Brasil parte bem no melhor da festa!

No finzinho da tarde, o elenco do Shakespeare Globe Theater vai se apresentar num barco que percorre o Tâmisa ao sabor dos versos do maior dos poetas…

Pena mesmo que está na hora de ir embora…mas quem sabe no ano que vem?

E se você quiser saber mais sobre os eventos do dia de São Jorge ou se divertir com as imagens da festa, clique aqui

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/04/2008 - 06:00

Em Londres: aniversário de Shakespeare e festa de São Jorge

Em Londres, esperando pelo aniversário de Shakespeare, pelo dia de São Jorge e pelo sol!

Disseram que ia ser um dia “sunny” e lá fui eu para o cais, atrás da Londres de Shakespeare…difícil, em 1666, um gigantesco incêndio que durou 5 dias, destruiu mais de 13 mil construções, ou seja, boa parte da cidade que espreguiçava uma paz recém conquistada, uma rainha esclarecida, a Elizabeth I dos filmes recentes, e o ar fresco que vinha de um Novo Mundo cheio de estranhezas, também recém-achado pelos europeus.

Da cidade apinhada que se enrodilhava em ruelas de pedra sobrou bem pouco. Aqui e ali, uma fachada, um muro…do incrível “teatro elizabeteano”, uma arena circular de cinco andares, ao ar livre, erguida sobre pilares e colunas de carvalho, não restou nada. Apenas fragmentos que permitiram a construção há 11 anos de uma réplica quase perfeita do teatro original.

É ali, no Globe Theater (cuja foto você vê lá em cima), que vão se reunir num cortejo os apaixonados, os viajantes, os curiosos, os ciumentos, os enlouquecidos, os valentes, os poderosos, os perdedores, os bons e os nem tanto assim, crianças e velhos, mulheres e homens, gente de ontem e de hoje porque são todos personagens do maior poeta inglês, talvez do maior de todos os poetas, ponto. E cujo aniversário, os ingleses comemoram no dia 23 de abril, uma certa arbitrariedade histórica, aliás, porque ninguém sabe ao certo se esse é mesmo o dia correto em que nasceu Shakespeare.

Não faz mal, os humanos suprem a realidade com a imaginação e fazem coincidir o aniversário do poeta com o dia de São Jorge, o padroeiro da Inglaterra. O que é outra intromissão da fantasia na história porque ninguém até hoje conseguiu associar nenhuma figura que realmente tenha existido com o santo e não é por falta de esforço de pesquisa: teólogos e especialistas em hegiografia têm tentado “costurar” na realidade histórica os relatos fabulosos atribuídos a São Jorge.

Um desses estudiosos, e que é citado com frequência quando o assunto é “afinal, quem foi São Jorge”, Hippolyte Delehaye, no livro Les legendes grecques des saints militaires, publicado em Paris, em 1909, conta que o mais antigo relato que temos da vida do santo é um fragmento do século 5. Nele, o futuro padroeiro da Inglaterra é “cheio de extravagâncias, além do imaginável”, mesmo para um santo. De fato, além de ser por três vezes cortado em pedacinhos, enterrado vivo, consumido pelo fogo e a cada vez ressuscitado pelo poder de Deus, tem sempre a história do dragão…

Um terrível dragão ameaçava a cidade de Selena, na Líbia. Seu hálito era tão ruim que havia transformado as terras em pântanos e cada vez que se aproximava da cidade, provocava pestes e doenças. Para matar sua fome e mantê-lo afastado, os habitantes de Selena sacrificavam dois carneiros por dia. O tempo passou, no entanto, e chegou o dia em que todo o rebanho já tinha sido abatido. Desesperados, os selenos, começaram a sortear vítimas humanas para saciar a terrível criatura. São Jorge chegou na cidade justamente no dia em que a jovem filha do rei, vestida de noiva, estava sendo preparada para morrer nas garras do dragão. Apesar dos apelos da jovem para que o cavaleiro fugisse daquele lugar onde a morte era certa, o santo não se mexeu e, quando o monstro surgiu das profundezas do pântano, trespassou-o com um único golpe de sua espada.

Em seguida, levou a moça de volta à cidade, a princesa conduzindo o dragão, como um carneirinho, pela coleira improvisada que o santo havia feito com o cinto do seu vestido de noiva. O rei, feliz como todo o rei, ofereceu toda sua fortuna para o estranho e valente cavaleiro com a cruz vermelha na armadura. Mas São Jorge recusou. Pediu que todos se convertessem e que o tesouro do rei fosse distribuído entre os mais pobres.

A lenda está registrada numa compilação de outras 180 histórias de santos no livro A Legenda Áurea, um clássico publicado há quase 750 anos, pelo frade dominicano Jacques de Voragine, e que até foi traduzido para o português (Editora Civilização, de Portugal).

São Jorge é o santo padroeiro da Inglaterra desde 1415, segundo leio no site da Royal Society of Saint George, quando os ingleses, sob o comando de Henrique VI, lutaram e venceram a Batalha de Agincourt, contra os franceses. Desde então, é sob a bandeira com a cruz vermelha sobre fundo branco que os ingleses lutam, e é pelo santo que os soldados gritam antes das batalhas.

“Por Henrique, pela Inglaterra e por São Jorge!”, exclama Henrique V, no mais famoso brado de guerra, na peça que leva seu nome, escrita em 1559 pelo poeta William Shakespeare. Feliz aniversário!

Para quem quiser saber mais

A aniversário de Shakespeare marca o início da temporada do Globe Theater. Este ano, a peça que está sendo montada é Rei Lear

Na exposição permanente do Globe Theater, um painel lembra: “A gente está sempre citando Shakespeare”, mesmo sem nem se dar conta disso.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/04/2008 - 11:12

Chegou no outlook…Wafa Sultan, uma mulher valente

Não existe choque de religiões, não existe choque de civilizações, existe, sim, um choque de mentalidades, um choque entre o passado e o futuro, entre liberdade e opressão, entre aqueles que respeitam os direitos humanos e aqueles que tripudiam sobre esses direitos, entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como os seres humanos que de fato são.

São frases assim que você vai ver no vídeo acima proferidas em língua árabe e, vindas da boca de uma mulher! Wafa Sultan é psiquiatra e escritora, árabe, nascida na Síria, que emigrou para os Estados Unidos em 1989 e não tem medo de falar, e fala alto, contra o que ela chama de “choque entre a civilização e a barbárie”, patrocinado pelo Islã e pelos muçulmanos.

Confesso que logo no início do vídeo fiquei esperando que ela usasse o mesmo tom correto, claro, destemido, para falar também da barbárie que acontece aqui do lado ocidental, mas talvez num outro vídeo, quem sabe? Mulheres assim, valentes, costumam não ter medo das próprias idéias…

O vídeo chegou para mim via outlook, de uma amiga, é de 2006. Fico pensando: por onde andará uma mulher assim? Nós precisamos tanto de vozes fortes! Descubro num blog que ela está escondida, como tantos outros: uma fatwa (uma ordem jurídica emitida por uma autoridade religiosa do Islã) condena a dra. Wafa à morte por qualquer um que julgue estar obedecendo à vontade de Alá. O edito foi pronunciado por conta de um debate recente no qual ela afirmava o direito da Dinamarca de republicar a caricatura do profeta Maomé nos jornais, o que aconteceu em fevereiro.

Wafa Sultan anda por aí, escondida, a voz calada. O mundo ficou mais silencioso, não acha?

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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