A difícil tarefa de ajudar o Natal a acontecer
Não lembro de nenhum Natal em que em algum momento eu não tivesse me espatifado contra a inquietação: será que consigo fazer o Natal acontecer este ano?
Não chega a ser um momento previsível, pode acontecer entre uma e outra ressaca de consumo, no limite do cansaço e da correria, diante de uma gripe tão absurdamente fora de hora — não dava para ser depois do Carnaval? — a verdade é que sempre tem aquele instante em que você precisa decidir se vai ou não conseguir fazer o Natal.
Porque não importa que lá fora a cidade inteira esteja pintada de luzes, que do lado de fora da sua janela se amontoem pilhas de neve, renas e trenós, e que não exista nenhuma possibilidade de você dar dois passos na rua sem trombar em algum Papai Noel, se você naquele instante não conseguir bater palmas e acordar a certeza de que, sim, é Natal, o Natal vai continuar ali pendurado no calendário.
Sair das agendas, pular fora das páginas amassadas da folhinha, e nascer na vida, esse é o desafio de ajudar o Natal a acontecer.
Quem nunca teve uma crise de choro às vésperas da festa, não sabe, evidentemente do que estou falando, mas devem ser bem poucas essas privilegiadas criaturas…Para a maioria de nós, o ano que acaba e convida o ano que começa, a música no ar que fala de gente voltando para casa trazendo sonhos e saudades na mala, os abraços, os sorrisos, tudo fala desta possibilidade maluca de viver por alguns dias um amor ampliado, exagerado e brega. E de vivê-lo sabendo que é assim coisa delicada e frágil. Que, feito flor, deve murchar tão logo o mar traga as últimas ondas do Réveillon. E que mesmo assim, é algo tão precioso que vale a pena respirar fundo, levantar a cabeça, engolir o choro e ir se juntar à multidão que passa apressada carregando os últimos preparativos para a ceia em família, as sacolinhas dos orfanatos, os ingredientes do sopão, a vontade enorme de dar certo…
Ouço um cd feito a partir da gravação de um programa de rádio que o cantor americano Bing Crosby fazia durante a guerra para animar os soldados no front. “I will be home for Christmas…if only in my dreams!” Vou estar em casa no Natal, pelo menos nos meus sonhos…
Tem gente que acha o Natal triste. Não é não. O lado triste do Natal é a falta que ele faz. Seja porque mesmo durante o tempo sagrado da festa a vida segue despejando sua cota habitual de injustiça e tristeza. Seja porque não conseguimos fazer o Natal acontecer dentro de nós.
Talvez essa seja a epifania possível para nós, homens e mulheres apressados e sedentos, perceber que afinal “é mesmo Natal!”. Nem sempre a gente consegue fazer isso sozinhos. Mas dizem que às vezes, neste tempo mágico, os anjos dão um empurrãozinho…
Por isso, hoje, quando nossos vizinhos judeus passaram aqui em casa para lembrar que era Dia do Vizinho e trouxeram de presente uma garrafa rara de azeite feito com um tipo de oliva que só nasce nas terras do Oriente Médio, produzido por uma ONG de israelenses e palestinos cujo objetivo é construir a paz, tive certeza de que era Natal, de novo…e mais uma vez…
Feliz Natal para todos!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Que tal fazer o Natal acontecer dentro de você mesma? Todo mundo é sozinho mesmo rodeado de gente.convencidos disso teremos todas as festas somente dentro do coração e das coisas que nos alegram .o espírito. Um bom livro, um filme de bom gosto, tocar um instrumento que se aprendeu na infância, ou ligar para alguém que se ama. Se estiver só, pense que você é a melhor pessoa para estar com voce mesma e alegre-se.