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Arquivo de dezembro, 2007

23/12/2007 - 23:29

A difícil tarefa de ajudar o Natal a acontecer

Não lembro de nenhum Natal em que em algum momento eu não tivesse me espatifado contra a inquietação: será que consigo fazer o Natal acontecer este ano?

Não chega a ser um momento previsível, pode acontecer entre uma e outra ressaca de consumo, no limite do cansaço e da correria, diante de uma gripe tão absurdamente fora de hora — não dava para ser depois do Carnaval? — a verdade é que sempre tem aquele instante em que você precisa decidir se vai ou não conseguir fazer o Natal.

Porque não importa que lá fora a cidade inteira esteja pintada de luzes, que do lado de fora da sua janela se amontoem pilhas de neve, renas e trenós, e que não exista nenhuma possibilidade de você dar dois passos na rua sem trombar em algum Papai Noel, se você naquele instante não conseguir bater palmas e acordar a certeza de que, sim, é Natal, o Natal vai continuar ali pendurado no calendário.

Sair das agendas, pular fora das páginas amassadas da folhinha, e nascer na vida, esse é o desafio de ajudar o Natal a acontecer.

Quem nunca teve uma crise de choro às vésperas da festa, não sabe, evidentemente do que estou falando, mas devem ser bem poucas essas privilegiadas criaturas…Para a maioria de nós, o ano que acaba e convida o ano que começa, a música no ar que fala de gente voltando para casa trazendo sonhos e saudades na mala, os abraços, os sorrisos, tudo fala desta possibilidade maluca de viver por alguns dias um amor ampliado, exagerado e brega. E de vivê-lo sabendo que é assim coisa delicada e frágil. Que, feito flor, deve murchar tão logo o mar traga as últimas ondas do Réveillon. E que mesmo assim, é algo tão precioso que vale a pena respirar fundo, levantar a cabeça, engolir o choro e ir se juntar à multidão que passa apressada carregando os últimos preparativos para a ceia em família, as sacolinhas dos orfanatos, os ingredientes do sopão, a vontade enorme de dar certo…

Ouço um cd feito a partir da gravação de um programa de rádio que o cantor americano Bing Crosby fazia durante a guerra para animar os soldados no front. “I will be home for Christmas…if only in my dreams!” Vou estar em casa no Natal, pelo menos nos meus sonhos…

Tem gente que acha o Natal triste. Não é não. O lado triste do Natal é a falta que ele faz. Seja porque mesmo durante o tempo sagrado da festa a vida segue despejando sua cota habitual de injustiça e tristeza. Seja porque não conseguimos fazer o Natal acontecer dentro de nós.

Talvez essa seja a epifania possível para nós, homens e mulheres apressados e sedentos, perceber que afinal “é mesmo Natal!”. Nem sempre a gente consegue fazer isso sozinhos. Mas dizem que às vezes, neste tempo mágico, os anjos dão um empurrãozinho…

Por isso, hoje, quando nossos vizinhos judeus passaram aqui em casa para lembrar que era Dia do Vizinho e trouxeram de presente uma garrafa rara de azeite feito com um tipo de oliva que só nasce nas terras do Oriente Médio, produzido por uma ONG de israelenses e palestinos cujo objetivo é construir a paz, tive certeza de que era Natal, de novo…e mais uma vez…

Feliz Natal para todos!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/12/2007 - 11:29

É Natal!

So this is Christmas
And what have you done?
Another year over
And a new one just begun

Jonh Lennon

Então é Natal
E o que você fez?
Mais um ano que termina
E um novo que está apenas começando.

Já é Natal, de novo. E para nós, a festa tão aparentada no tempo com o final do ano, sempre tem um quê de despedida …e de recomeço.

Durante muitos séculos, muitos mesmo, os homens imaginavam o tempo como sendo cíclico. Vivendo ao sabor dos começos e recomeços das estações, eles experimentavam a vida como ondas do mar, sempre acontecendo, sempre da mesma forma, e sempre absurdamente diferente.

Esta idéia de um tempo cíclico, os povos antigos expressavam nas formas formas circulares das rosáceas das catedrais, da roda, dos 12 signos do Zodíaco, das mandalas. Não é nada por acaso que os relógios sejam, em geral, redondos. O centro destes círculos abriga o imutável, aquilo que de certa forma escapa à passagem do tempo, Deus, quem sabe…

Em todos estes círculos que a imaginação humana criou está a mesmíssima certeza: não dá para saber onde tudo começa nem onde vai acabar e entre o início e o final das coisas não cabe nem um instante…

A era cristã trouxe consigo a idéia de um tempo linear. E tão estranha era esta idéia que até hoje não nos acostumamos inteiramente com ela. O tempo, de círculo virou flecha, e nós ficamos ali, órfãos, com a nossa angústia. Nada disso…

Contra tudo e contra todos, atravessamos os últimos séculos preservando a certeza de que o tempo não foge à regra da Natureza de nascimento, morte e renovação. E continuamos a construir nossos círculos, internamente ou nem tanto assim… Afinal, na prática, o menino Jesus nasce, de verdade e de coração todos os Natais. Isto de “vamos lembrar”, “vamos rememorar” está certo, é claro, mas a alma da gente desconfia. No fundo, sabemos que todos os anos, de alguma forma, temos a possibilidade de fazer nascer o pequeno Jesus em nós. Todos os anos tem alguma coisa que acaba no Natal e outra que começa. Não é só lembrança não, nem história. É coisa de vida mesmo!

Existem autores que ressaltam a semelhança entre as etapas da vida de Cristo e a dos antigos deuses agrários, que morriam no inverno e ressucitavam na primavera. O belo Adônis grego, por exemplo, passava metado do ano com Perséfone, no submundo, e renascia a cada primavera para encontrar Afrodite, a grande-mãe, deusa do amor e da vida. E a mitologia guarda vários outros deuses que morriam e ressucitavam para simbolizar as forças vitais que emergiam das entranhas da terra: Dionísio, também grego; Tammuz, da Suméria; Osíris, do Egito. Belas histórias, que guardam alguns segredos, mesmo para nosso sentidos modernos…

Penso que este clima de fim e de recomeço exige de nós uma espécie de pausa para um balanço da vida. Os judeus fazem isto no seu Yom Kippur ou Dia do Perdão, uma espécie de acerto de contas consigo mesmos, com os outros e com seu Deus.

E que melhor época para iniciarmos uma nova tradição e fazermos nossa contabilidade de alma do que o Natal? Começaríamos acertando nossas dívidas e resistindo aos apelos do consumo para fazer outras. Depois, passaríamos um bom tempo fazendo o exercício do perdão. Incluiríamos todos aqueles que de qualquer forma foram injustos conosco ou tenham, ainda que sem querer, nos prejudicado. Para alguns, a gente daria um pequeno telefonema, faria as pazes, reataria velhas amizades. Outros seriam perdoados apenas em nosso coração que isto já é mais do que o bastante. Em seguida, viria o momento de perdoar a nós mesmos, por nossas pequenas faltas e pelas grandes. Pelas nossas omissões e pela nossa humanidade. E finalmente, no Dia de Natal ou no dia de Ano Novo, você escolhe, faríamos nossa reconciliação simbólica com Deus. Fizemos o melhor possível, mas não o bastante. Fomos bons parceiros, mas nem tanto. Que se há de fazer? Ano que vem, com certeza e, é claro, se Ele quiser, faremos ainda melhor. Este acerto há de ter momentos duros, difíceis, não é coisinha assim banal. Os judeus chamam os dias que reservam a isto de Dias Tremendos. Acertos de contas são assim mesmo…

Mas depois, de alma lavada, fresquinhos em folha, perfumados e vestidos de festa, poderíamos esperar o nascimento do Menino Jesus, que vem trazendo sua Luz. Mais uma vez…

O resto da letra da música do John Lennon

And so this is Christmas (E então é Natal)
I hope you have fun (Espero que vocês se divirtam)
The near and the dear one (Quem está perto e quem é querido)
The old and the young (Quem é velho e quem é novo)

A very Merry Christmas (Um Natal muito alegre)
And a happy New Year (E um Ano-Novo feliz)
Let’s hope it is a good one (Esperamos que seja um bom ano)
Without any fear (E sem medo)

And so this is Christmas (Então é Natal)
For weak and for strong (Para os fracos e os fortes)
For rich ones and poor ones (Para os ricos e os pobres)
The world is so wrong (O mundo é tão errado)

And so Happy Christmas (Então Feliz Natal)
For black and for whites (Para negros e brancos)
For yellows and red ones (Para amarelos e vermelhos)
Let’s stop all the fight (Vamos parar de brigar)

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/12/2007 - 16:17

Festas de luz

Fico pensando que entre as visões que habitam o coração da alma, uma das mais primordiais deve ser a experiência da luz e da sombra, do dia e da noite…é a partir dessa vivência que a gente vai dando forma ao sagrado, rosto para o divino…

É claro que talvez entre os povos das selvas, acostumados à penumbra da mata, o “céu aberto” pode ser tão ameaçador quanto um poço profundo. Mas, de modo bem geral e correndo um certo risco de perder todas as nuances que tornam a vida da alma tão extraordinária, dá para a gente dizer que nossos ancestrais recebiam o Sol que nascia confiantes e esperançosos. A luz trazia a certeza da vida, as gentes despertavam junto com o Sol, para um dia sempre novo, porque eternamente ameaçado pelas trevas, pela sombra, por aquele entre parênteses de inconsciência chamado A Noite.

As crianças sabem disso até hoje, “o que é que tem atrás do escuro, mãe?”. “Nada, filho. Não tem nada atrás do escuro que já não estivesse lá enquanto estava claro”. Está bem, mas no fundo, no fundo, quem acredita? As trevas parecem conjurar o mistério. E mesmo em tempos tão feéricos de luzes artificiais, como os nossos, apagar a luz de um quarto e mergulhar na sombra ainda deveria, e talvez até ainda seja, uma experiência fundamental, uma ousadia…

Deve ser essa a origem das “celebrações da luz”, momentos em que nossos bisavós exorcizavam o medo do escuro e da morte, acendendo fogueiras, velas, tochas e invocando a proteção dos deuses, fontes de luz, quando não o próprio Sol.

Chanucá, o festival de oito dias que os judeus começaram a celebrar ontem, ao anoitecer, é uma destas antiquíssimas “festas da luz”. A palavra quer dizer “dedicação” e a festa celebra, na verdade, uma revolução, a revolta de uma pequeno grupo de camponeses contra a profanação do Templo de Jerusalem, transformado em jardim sagrado dedicado ao deus grego, Zeus. Depois de vencer um exército inteiro, o minúsculo grupo, quase que só uma família, liderado por Judas, o Macabeu, preparou-se para a mais sagrada das tarefas, limpar e purificar o santuário.

Ao acender no altar a primeira das luzes do castiçal (menorá) que deveria durar oito dias, eles se deram conta de que não havia azeite suficiente para queimar. Mesmo imaginando que todo o ritual seria perdido, eles terminaram a purificação do templo. E as luzes do menorá brilharam milagrosamente durante os oito dias. Chanucá é o nome do menorá, e significa “dedicação”.

A foto mostra o rosto cheio de expectativa do garoto na Hungria, esperando que a luz do menorá, o Chanukiá, gigante de Budapeste seja acesa. A luz, essa graça diária, é mesmo o maior dos milagres!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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