iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
11/11/2007 - 15:44

Norman Mailer e Deus


A ilustração é de Sean McCabe, Adam Nadel/Polaris

Morreu Norman Mailer, o escritor, aos 84 anos. E o mundo perde um dos seus “enfants terribles”, aquelas pessoas comuns ou célebres que provocam, empurram, sempre insatisfeitas com o jeito modorrento das andanças da vida.

Talvez você não tenha lido nada dele, nenhum dos muito livros que ele escreveu, O canto do carrasco, O Exército da noite, (por esse, ele ganhou um Pullitzer), O Sonho americano, mas muito do que você lê hoje tem o toque de Mailer. Lá pelos anos 60, ele foi um dos “malucos” que ousaram um estilo de escrita todo novo, o que hoje se chama “novo jornalismo”, mistura de reportagem com ficção que transformou o jornalismo em literatura.

Mas, como não sou crítica de literatura, não vou aborrecer você com meus parcos conhecimentos do assunto. Falo de Norman Mailer porque seu último livro chamou-se “On God: an uncommon conversation”, no qual ele recria para Michael Lennox um
extraordinário personagem: “Deus”. Na revista New York, uma sensacional entrevista antecipa — porque o livro ainda não chegou ao Brasil — como seria esse personagem, no mínimo, curioso e estranhamente “atrapalhado”…

Para Mailer, Deus seria um artista, um Criador. Um novelista, talvez. Como todo artista genial, ele teria que se haver com
seus fracassos e suas vitórias.

Imagine um Deus eternamente sujeito à sua própria evolução, como um jovem artista tendo que se reinventar todo tempo. E com um arquiinimigo, o Diabo, que sempre tenta atrapalhar os seus planos?

Como todos nós, ele teria que lidar com limites, negociar, eventualmente, até, ceder, quem sabe? O Deus do escritor esbarra o
Deus-arquiteto do “design inteligente” mas tem uma certa fragilidade muito típica dos homens…

Nós, humanos, querendo ou não, fazemos uma certa imagem de Deus. Transformar em imagem é uma forma mais ou menos cautelosa de se
aproximar, de poder conceber. Norman Mailer e seu Deus irreverente me remetem a minha imagem de Deus…

Não consigo de fato me relacionar com o Deus que é “a Voz que clama no deserto”, dos judeus. É muito, muito distante, lembra dunas vastíssimas e imensas ausências… Nossa imagem ocidental de Deus´, ao contrário, tem muito de Michelângelo na exuberância das formas, na força dos gestos, nas barbas brancas esvoaçantes. Também é bela! Cabe no civilizado Júpiter romano ou no todo-poderoso e fecundíssimo Zeus, grego. Gostamos de imaginar Deus como essa figura patriarcal protetora e imponente, machista, sim, um tanto, o que se há de fazer?

Mas tenho tentado ampliar essa “visão”, um pouquinho ao menos, e experimento conversar com Krishna, o deus azulado dos hindus, com Shakti, a Divina Mãe, que imagino em forma de lótus. Sem muito sucesso, devo confessar…Deus sempre escapa da minha imaginação…

Talvez um dia eu, como o velho escritor rebelde, possa ter intimidade bastante com Deus para de fato recriá-lo no meu coração, emprestar-lhe atributos, cores, formas. Por enquanto, essa imagem é pura bravata minha. Por enquanto, Deus ainda é para mim o misterium tremendum de que falava o pensador Rudolf Otto. O que não pode sequer ser sonhado, concebido. O que está muito além da compreensão humana.

Mas no dia em que eu conseguir fazer meu ninho pessoal para abrigar a imagem Deus, tomara, que Ele seja…(um tantinho que seja) Mulher!

No Diário Digital, uma revista online de Portugal, você lê mais sobre Norman Mailer

E, se inglês não for um problema, não deixe de ler a reportagem na revista New York

A ilustração é de Sean McCabe, Adam Nadel/Polaris

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:

13 comentários para “Norman Mailer e Deus”

  1. fausto furlan disse:

    os universos se espandem infinitamente, os atomos diminuem infinitamente, se os dois se incontrassem, terminaria Deus, porque Ele está no maravilhoso infinito. (desculpam o portugues)

  2. Adriano disse:

    Quem não conhece Jesus Cristo não conhece o único e verdadeiro Deus.

  3. CCS disse:

    Não me adimira que Norman Mailer não tenha conhecido a Deus, ele nunca o permitiu entrar na sua vida, e pelo que parece agora ficou mais dificil ainda, espero que no futuro ele de uma chance para ELE.Não é mesmo Norman?

  4. Karam disse:

    Oi Adília, tudo bem?
    Acaso ou sincronicidade, pensei em retomar nesta semana a leitura de “A luta”, um livro fantástico do Norman Mailer.
    O que diferencia Mailer de seus colegas jornalistas-escritores (Gay Talese, Tom, Wolfe, Josef Mitchel… etc), na minha opinião, é que ele tinha um texto profundamente literário nas reportagens. Digamos que ele fazia Literário-jornalismo e não jornalismo literário.. hehehe! Por isso a facilidade de se transportar para o corpo do diabo (Mailer escreveu a biografia de Hitler usando o diabo como narrador) e falar tb de Deus. O Exército da Noite ainda esta na fila de minha estante.
    Normam já tem vida eterna, com Deus ou não.
    Abraços
    Karam

  5. gustavo disse:

    Ô bestagem. Zeuz não existe. É apenas arte. Invenção da mente humana, mulher.

  6. Silvio Casas disse:

    Bom dia

    É uma pena, que este escritor agora vai conhecer Deus como seu juiz.
    A vida toda ele quis conhecer um deus que ele concebia, e não O Deus como verdadeiramente é: bondoso misericordioso amoroso e redentor, Leia evangelho fe João cap 3 vers 16.
    Deus é assim mesmo, alguém que não é para ser entendido, nossas mentesd humanas são incapazes disso, mas Alguém quer é para ser aceito amado, que quer se relacionar cada vez mais conosco.
    Estou com grande dó deste senhor, 84 anos não bem vividos.

    A todos Deus esteja abençoando

    Silvio

  7. Yu disse:

    Realmente esse homem não conhecia Deus,acho que a própria vida dele era em preto e branco.

  8. Yu disse:

    Karan, vida eterna sem Jesus Cristo , no céu é que não é. Ufa ainda bem que não li nada dele porque deve ser pura amargura.

  9. Karam disse:

    Yu, na minha estante Norman tem vida eterna.
    Agora, se não queres amargura, fiquei longe do livro de Jó.
    Um abraço

  10. Norma Suely disse:

    Penso que Deus é uma energia muito forte que escapole de nosso corpo conforme nos envolvemos com nossos caminhos falsos e malditos para concorrermos e disputarmos alguma coisa com outras pessoas que também tentam a mesma coisa e por isto também está bem longe desta energia tão maravilhosa que se não deixassemos escapar conquistariamos as coisas do mesmo jeito sendo que sem dor, sem tristeza, sem vazio, sem cerveja, maconha, vinhos, cigarros, doces, etc…

  11. Karam disse:

    Só o fato de tentar entender Deus já é suficiente para perdermos sua essência.
    Como diz o Ruben Alves, as palavras são a grade e Deus o vendo… e não é possível prender Deus com grades.

  12. Karam disse:

    * pequena correção
    no lugar de “vendo” leia “vento”

    Tks
    bom feriado!

  13. Jorge Dzialowski Dia disse:

    Conforme o judaísmo, D´us é infinito, onipresente, oniciente. Apareceu no deserto, mas quer ser lembrado como Aqule que salva e, portanto, se preocupa com cada um de nós. Tem grande amor por suas criaturas e nos trata como filhos: ora afagando, ora castigando, visando nossa evolução. Não é distante nem tem forma. É incomparável.

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo