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29/04/2007 - 03:48

A Igreja das Mulheres

Em Munique existe essa igreja, Frauenkirche, ou igreja das mulheres. Suas duas torres de cúpulas verdes são a marca registrada da cidade. Nunca vi ninguém se referir a uma igreja com expressões como: “a fofa”, a “querida”, mas é com essas palavras que em Munique se fala da Catedral de Nossa Senhora, um edifício do final da Idade Média, construído em cima de uma antiga capela de Maria e inteiramente reconstruído depois de ter sido reduzido a uma carcassa, durante a Segunda Guerra.

Entrei no meio da missa. A nave principal chega a dar vertigem, tão alta e tão brancas as paredes. A sensação é ainda mais forte porque a igreja parece ser muito estreita e profunda, ou seria uma ilusão provocada pelas duas fileiras de colunas brancas, sem adornos e altíssimas que ladeiam o altar principal? Sim, lembra uma caverna, de chão de pedra e paredes lavadas, imaculadas. Lá no fundo, no alto de uma coluna, uma imagem dourada de Nossa Senhora da Conceição acolhe o visitante e convida a entrar… a Mulher do Apocalipse, templo de Deus, vestida de Sol, com a Lua a seus pés e a coroa das dozes estrelas enfeitando seus cabelos.

Atrás do altar principal, uma outra imagem, a Virgem do Manto de Jan Polack, pintor polonês que viveu no século 16. São raras as “Virgens do Manto”, grandes-mães de braços abertos, acolhendo toda a humanidade no seu manto estendido. Símbolo de proteção, o manto de Nossa Senhora virou motivo de devoção e até hoje, em lugares por exemplo como a Ucrânia, terra de uma outra Nossa Senhora do Manto, conhecida como Pokrova as pessoas se aquecem nessa imagem poderosa.

Nos altares laterais, Maria subindo aos céus, do pintor belga, do século 16, Peter Candid; Maria como Mater Dolorosa, a Madona com a espada atravessada no peito, que chora a morte do filho, Maria como rainha, consagrada no céu, Theotokos, a mãe de Deus, útero que gera o divino.

Que tantas faces de Maria abriga essa Igreja das Mulheres…

Na saída, uma estranheza, um pé gravado na pedra, Teufelstritt, o “pé do diabo”, segundo a lenda. Conta-se que o arquiteto teria feito uma aposta com o diabo. Se ele o ajudasse a terminar a igreja, não veria nela nenhuma janela aberta para a luz. O diabo, sempre buscando as sombras, aceitou. Quando a igreja ficou pronta, o arquiteto colocou o diabo bem no meio, no exato e único ponto em que não se veêm as janelas, escondidas pelas altíssimas colunas brancas. Cheio de raiva por ter sido enganado, ele deixou a marca de seu pé na pedra….

Ah, só para lembrar, a mulher do apocalipse tradicionalmente aparece esmagando uma serpente, símbolo cristão do Mal, com o pé….

Saio da Frauenkirchen para a tardinha que anuncia a noite. Emergir seria uma palavra melhor, é ela que fala desta sensação de sair das grutas, dos templos, dos mergulhos…Olho para cima e vejo as torres verdes apontando para o céu. Dizem que parecem cebolas, mas não sei, para mim, parecem seios de mulher…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:

1 comentário para “A Igreja das Mulheres”

  1. Rogério Perestrelo disse:

    Achei fantástica a reportagem sobre a Igreja das mulheres em Munique, mereceria até uma análise mais profunda sobre a mesma, pois tive a mesma impressão sobre os seios femininos olhando a foto e com outra ainda pior (não querendo ser machista, pelo amor de Deus muito ao contrário), porque além dos seios vêm a lembrança de dois símbolos fálicos em ejeculação, complementando…acho que só Freud explicaria a cabeça deste arquiteto. Abraços, parabéns pelo site muito bom. Há…e analisem a foto.

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