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Arquivo de abril, 2007

30/04/2007 - 11:33

Chique é ser simples!

Recebo de um amigo o vídeo do Fantástico sobre “gente que vive com pouco dinheiro”. O tema, na verdade, é Simplicidade Voluntária, uma idéia que não é nova lá fora, mas que parece chegar só agora ao Brasil. E, como acontece toda vez que a gente se vê diante de uma boa idéia, dá vontade mesmo de dizer: “que fantástico!”

Nos EUA, capital planetária do consumismo e dos exageros, viver com pouco, reduzir drásticamente o consumo e pensar simples virou um estilo de vida. Mas, antes de você se levantar indignada, com mais uma dessas “americanicices”(?), saiba que ESSA idéia eles não inventaram. Os gregos, acredite, já sonhavam com uma vida menos ávida e mais próxima da natureza. Mais perto aqui dos nossos tempos conturbados, um do grandes defensores da frugalidade foi Henry David Thoreau, escritor americano que viveu no final do século 19 e publicou um livro, Walden, criticando o materialismo da sociedade americana e pregando a necessidade de uma vida mais simples e próxima da natureza.

Em 1981, Duane Elgin, outro americano, deu um formato moderno e bem pragmático para a poesia de Thoreau e escreveu o livro Simplicidade Voluntária, em busca de um estilo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico. Fundamental para a gente que quer aprender a integrar a vidinha urbana e corrida com nossas necessidades interiores de calma, tranqüilidade e comunidade verdadeira e bem concreta com a Natureza.

Viu, só? Tem mesmo muita gente tentando dar forma a uma nova ética humana que fale de fraternidade e comunhão, de responsabilidade de todos por todos, de compaixão e de um futuro para todos e não apenas para alguns de nós, justamente aqueles freqüentadores ávidos de shopping centers.

Ninguém está propondo que você viva em retiro espiritual ou na mais absoluta pobreza. “A pobreza é involuntária e debilitante, a simplicidade é voluntária e mobilizadora”, adverte Duane Elgin.

Viver voluntariamente de maneira mais simples significa deliberadamente organizar sua vida de modo a torná-la mais frugal exteriormente e mais rica e abundante interiormente. É tirar o excesso de peso da bagagem para tornar a viagem por esse mundo mais leve, mais limpa, mais solta. Na prática, significa ter mais tempo para você e descobrir aquilo que realmente é importante na sua vida. Apenas o essencial.

Simplicidade Voluntária não é uma fórmula mágica, é um caminho, e nem sempre fácil. Mas a gente deveria colar na porta da geladeira, escrito em letras garrafais, esse conselho de Duane Elgin:

“Trabalhe para desenvolver todas as suas potencialidades: físicas (correr, andar de bicicleta, caminhar); emocionais (descobrir aquelas habilidades fundamentais numa relação, como intimidade e senso de comunhão); mentais (engajar-se em projetos para toda a vida, como ler, fazer cursos etc.); e espirituais (por exemplo, aprender a se mover através da vida com a mente quieta e o coração cheio de compaixão).”

Selecionei do livro Simplicidade Voluntária dez dicas para tirar o pé do acelerador. São encantadoras e….simples.

1. Pare de fazer milhões de coisas ao mesmo tempo, começando por não dirigir e falar no celular ao mesmo tempo.

2. Invista tempo e energia em atividades descomplicadas como andar de bicicleta, ler ou preparar um lanche, com seu companheiro, seus filhos ou seus amigos.

3. Deixe a secretária eletrônica fazer seu trabalho. Obrigue-se a não atender o telefone no meio da refeição, por exemplo.

4. Quando adquirir algum produto, prefira aqueles duráveis, de fácil manutenção, não-poluidores, funcionais e estéticos.

5. Desenvolva sua compaixão. Interesse-se por movimentos em favor das pessoas carentes, da preservação das matas e dos animais e da não-violência.

6. Fique meia hora por dia sem fazer nada. Relaxe e deixe sua mente divagar. Envolva-se nesse momento, como se ele fosse o último ou o primeiro da sua vida.

7. Usufrua do prazer simples que trazem as formas não-verbais de comunicação: o silêncio cúmplice, abraços e beijos, olhos que falam.

8. Imagine que você e a Terra são uma coisa só. Deixe que esse sentimento penetre em você e se traduza em mais carinho e cuidado com o planeta.

9. Ouça música, mantenha um diário, divirta-se com o cachorro, escreva para alguém querido, alimente os pássaros.

10. Desligue a TV. Por algumas horas, ao menos. E nunca, nunca, permita que ela assista às suas refeições.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/04/2007 - 03:48

A Igreja das Mulheres

Em Munique existe essa igreja, Frauenkirche, ou igreja das mulheres. Suas duas torres de cúpulas verdes são a marca registrada da cidade. Nunca vi ninguém se referir a uma igreja com expressões como: “a fofa”, a “querida”, mas é com essas palavras que em Munique se fala da Catedral de Nossa Senhora, um edifício do final da Idade Média, construído em cima de uma antiga capela de Maria e inteiramente reconstruído depois de ter sido reduzido a uma carcassa, durante a Segunda Guerra.

Entrei no meio da missa. A nave principal chega a dar vertigem, tão alta e tão brancas as paredes. A sensação é ainda mais forte porque a igreja parece ser muito estreita e profunda, ou seria uma ilusão provocada pelas duas fileiras de colunas brancas, sem adornos e altíssimas que ladeiam o altar principal? Sim, lembra uma caverna, de chão de pedra e paredes lavadas, imaculadas. Lá no fundo, no alto de uma coluna, uma imagem dourada de Nossa Senhora da Conceição acolhe o visitante e convida a entrar… a Mulher do Apocalipse, templo de Deus, vestida de Sol, com a Lua a seus pés e a coroa das dozes estrelas enfeitando seus cabelos.

Atrás do altar principal, uma outra imagem, a Virgem do Manto de Jan Polack, pintor polonês que viveu no século 16. São raras as “Virgens do Manto”, grandes-mães de braços abertos, acolhendo toda a humanidade no seu manto estendido. Símbolo de proteção, o manto de Nossa Senhora virou motivo de devoção e até hoje, em lugares por exemplo como a Ucrânia, terra de uma outra Nossa Senhora do Manto, conhecida como Pokrova as pessoas se aquecem nessa imagem poderosa.

Nos altares laterais, Maria subindo aos céus, do pintor belga, do século 16, Peter Candid; Maria como Mater Dolorosa, a Madona com a espada atravessada no peito, que chora a morte do filho, Maria como rainha, consagrada no céu, Theotokos, a mãe de Deus, útero que gera o divino.

Que tantas faces de Maria abriga essa Igreja das Mulheres…

Na saída, uma estranheza, um pé gravado na pedra, Teufelstritt, o “pé do diabo”, segundo a lenda. Conta-se que o arquiteto teria feito uma aposta com o diabo. Se ele o ajudasse a terminar a igreja, não veria nela nenhuma janela aberta para a luz. O diabo, sempre buscando as sombras, aceitou. Quando a igreja ficou pronta, o arquiteto colocou o diabo bem no meio, no exato e único ponto em que não se veêm as janelas, escondidas pelas altíssimas colunas brancas. Cheio de raiva por ter sido enganado, ele deixou a marca de seu pé na pedra….

Ah, só para lembrar, a mulher do apocalipse tradicionalmente aparece esmagando uma serpente, símbolo cristão do Mal, com o pé….

Saio da Frauenkirchen para a tardinha que anuncia a noite. Emergir seria uma palavra melhor, é ela que fala desta sensação de sair das grutas, dos templos, dos mergulhos…Olho para cima e vejo as torres verdes apontando para o céu. Dizem que parecem cebolas, mas não sei, para mim, parecem seios de mulher…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/04/2007 - 00:54

Chegou no outlook…

Alguns amigos são assim, feitos para a gente envelhecer junto, ainda que esse “junto” precise ser reinventado: junto pode bem ser um encontro numa das esquinas da alma ou uma lembrança, ou melhor, a atualização de uma lembrança…boa!

Minha amiga Cláudia, me manda essa <a color:#B75CB4;font-weight:boldOração para ser uma velhinha legal, just in case, ela diz…

E a prece vem com manual de instruções que recomenda: aconselhável diariamente, pela manhã e à noite.

Eu compartilho com você…

Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.

Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem me impor,
mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que
penso ser uma lástima não passar adiante. Tu sabes, Senhor, que desejo preservar uma boa relação com meus filhos, e que só se preserva os filhos quando não há intromissão na vida deles.

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá-me asas para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.

Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças.
Elas estão aumentando e, com isso, a vontade de descrevê-las
vai crescendo a cada ano que passa. Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; seria pedir muito. Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errada em algumas ocasiões. Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçantes e desagradáveis.

Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece peço: mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santa. É difícil conviver com santos!

Mas uma velha rabugenta, Senhor, é obra-prima do diabo!

Amém!!!

<a color:#B75CB4;font-weight:boldSe vocês não se importam, eu gostaria de aproveitar a carona e incluir alguns pedidos também.

Livra-me, Mãe, da arrogância e dos juízos apressados, mas não me deixa esquecer quem eu sou;

Livra-me do passado, não quero ser prisioneira da saudade; me acorda todos os dias, para o aqui, o agora, o hoje, esse é o meu tempo;

Livra-me do “bigode chinês”, aquelas rugas horrorosas que deixam a gente com a cara triste, de cachorro buldogue abandonado…isso não pode fazer bem para a alma e deve ter sido um lapso do Criador!

Livra-me da intolerância e me deixa morrer à sombra de uma árvore, mas no pátio ensolarado, onde as crianças jogam bola, as amigas gritam, as portas batem com o vento, os namorados se abraçam, e o mundo faz barulho…

Torna-me cada vez mais permeável à compaixão, até que eu seja como um tecido velho e esgarçado pelas histórias humanas;

Ajuda-me a continuar fazendo uma coisa assustadora por dia, a dar uma boa risada todos os dias (ao menos uma), a não deixar de cantar no chuveiro todas as manhãs, a chorar sempre: quando os bebês nascem, quando os cachorros morrem e quando começam a pintar os primeiros verdes da primavera…

Quando chegar a hora, Mãe, permita que eu saia de cena com certa elegância, como as grandes damas do teatro. Difícil? Então me ensina a rir da decrepitude e estamos conversadas;

E me acolhe no teu colo no final…

Amém

Ah, a imagem lá no alto é da Pachamama, a risonha deusa dos povos do Peru! Dizem que ela aparece para ajudar os viajantes sob a forma de uma velhinha assim, fofa…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/04/2007 - 10:34

Dia Mundial do Tai Chi

Um só mundo…uma respiração só…

Sábado é o Dia Mundial do Tai Chi Chuan. Aqui e ali, espalhadas pelo planeta milhares de pessoas vão se reunir nas praças e nos parques para juntas fazerem uma celebração da serenidade.

Em silêncio e com movimentos lentos, que imitam as coreografias dos animais, vão reconfigurar os limites do próprio corpo. Juntas, vão respirar e, juntas, vão imaginar que é o universo que respira dentro delas. Vão experimentar equilíbrios impossíveis. Depois, em paz, vão abraçar o dia…será que o mundo, então, não será um tiquinho só diferente? Repare, as cores não parecem mais vivas? O ritmo das horas mais harmonioso?

Dizem que o Tai Chi ou Ta’i Chi foi criado em 1200, por um monge taoísta, Chang San-feng. O monge, que tinha fundado um templo no alto da montanha Wu-tang, na China, gostava de observar o vôo das aves. Foi a partir desses movimentos, mistura de graça e precisão, que ele teria sistematizado os movimentos do Tai Chi e combinado esses “exercícios” com os princípios da filosofia taoista. Lembram do símbolo do ying e yang, feminino e masculino? Então, o taoísmo se apóia nesses princípios opostos e complementares para construir tanto um sistema de compreensão do universo e das forças que o constituem quanto para aplicar esses dinamismos na nossa vidinha, no cotidiano. Os chineses antigos, não duvidem, eram seres muitíssimo pragmáticos…

Por isso, neste sábado, o último de abril, dê um pulo no Ibirapuera, se você mora em São Paulo, ou veja na sua cidade onde os mestres do Tai Chi vão estar conduzindo as práticas para comemorar o Dia Mundial do Tai Chi Chuan, dia de ficar em paz, uma paz que, quem diria, começa bem aqui, na calma do corpo…

World Tai Chi Day

Sociedade Brasileira de Tai Chi

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/04/2007 - 09:29

Corrente do bem…

Amélia teve um derrame. Amélia, com seu jeito de mãe, riso de menina, um “minha nêga” carinhoso pendurado no coração e escuta irreprensível, Amélia teve um derrame. Não um, dois. Um dos pacientes resolveu propor uma corrente e falou com outro, que falou com outro… Era preciso ajudar a Amélia a não se preocupar com dinheiro, ao menos neste momento, enquanto der, sim, não é tudo, mas é ALGUMA coisa…soltou no vento a proposta feito bandeirinha de oração nas montanhas do Tibete. Os pacientes de Amélia, os amigos, quem conhecia seu jeito, seu trabalho, cada um deposite alguma coisa, QUALQUER coisa na conta dela, combinado? Sim…o paraíso é isso!

Lembro da historinha do aprendiz de samurai que insistia em saber do mestre o que era o céu e o inferno. Um dia, o mestre resolveu ensinar. Provocou o aprendiz numa luta, chamando-o de covarde. O jovem, cego de raiva, imediatamente levantou a espada para agredir o mestre que se defendeu e disse: “Isso é o inferno!”. Na mesma hora, o aluno se deu conta do que tinha feito, soltou os ombros, baixou a cabeça e pediu perdão. O mestre então concluiu: “E isso, é o céu!”

Minha avó dizia, “a vida é simples”; concordo com ela, e são gestos miudinhos que fazem a gente acordar de manhã e pensar: “esse, afinal, é um ótimo mundo para se viver!”

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/04/2007 - 21:17

Quando a vida começa?

Perguntaram para um pastor, para um padre e para um rabino quando a vida começa. O padre imediatamente disse: “No instante da concepção”. O pastor, coçou a cabeça e respondeu: “No momento em que se nasce”. O rabino então virou-se e falou: “A vida começa quando os filhos saem de casa e o cachorro morre…”

Adoro essa historinha! Ela desencaminha nossas respostas prontas, sempre tão na ponta da língua e lança um desafio: a vida, a gente inventa, lá pro final da vida…mas quando a vida começa, hein? Será que alguém sabe com certeza?

Houve um tempo, há muito, muito tempo, em que pensava-se que as mulheres fabricavam a vida dentro de si, com o seu sangue. Os seres humanos desconheciam o papel dos homens na fecundação. Imaginavam que a interrupção da menstruação durante a gravidez só podia significar que as mulheres usavam esse sangue para fabricar a nova vida. A expressão “sangue do meu sangue” vem talvez dessa lembrança primitiva…

Que resposta dariam esses nossos ancestrais para a pergunta que anda afligindo os 34 cientistas reunidos em Brasília para ajudar o Supremo Tribunal Federal a julgar se a lei que autoriza pesquisas científicas com embriões é ou não constitucional ou seja fere ou não o direito à vida. Isso porque o direito à vida é uma das idéias sobre a qual apoiamos nossa civilização: “Todo homem tem o direito à vida, à liberdade e à segurança individual”, reza a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

E é nessa frase tão curtinha que nascem muitos dos grandes problemas da nossa época; entre sujeito e predicado moram pontos de interrogação colossais abertos para discussões sem fim…se a gente não decide quando a vida começa, como protegê-la e garanti-la?

Aborto, eutanásia, pena de morte e, mas recentemente, as pesquisas envolvendo células-tronco e o uso de embriões humanos, são temas que incluem, de alguma forma, uma resposta para essa questão. Uma resposta possível e frágil…

A Lei de Biossegurança foi aprovada em 2005. O artigo 5o. da lei fala sobre a utilização de células-tronco obtidas de embriões humanos para pesquisas científicas. É esse artigo que está sendo discutido porque a Procuradoria Geral da República abriu uma ação alegando inconstitucionalidade da utilização destes embriões. A vida, para todos os efeitos, começa na concepção, religiosos e cientistas concordam sobre isso. O uso de células-tronco tiradas de embriões, ainda que de embriões inviáveis, ou seja, que têm poucas chances de se desenvolver numa gestação, fere o direito à vida…ou não…ou sim, mas…ou talvez…???

Ou, colocando à moda de Aristóteles:

É moralmente errado destruir a vida humana
Embriões são seres humanos vivos
Então é errado destruir embriões…

Não tem muito como fugir, não parece? E no entanto….

Quando a lei foi aprovada, em 2005, o médico Dráuzio Varella, um dos convidados ilustres para esse debate, dizia em entrevista publicada no caderno de Educação do portal UOL: “as células-tronco são as únicas com potencial para se transformar em qualquer tecido do corpo, de músculos a neurônios, sendo que cada uma pode se multiplicar em milhões de outras células: nós temos milhares de óvulos já congelados nas clínicas de fertilização que não serão utilizados para mais nada, porque não servem mais para fertilização, mas servem para fazer trabalhos com células-tronco. A questão é jogar no lixo ou permitir que os cientistas usem isso para aliviar o sofrimento humano”.

O mais do que polêmico filósofo, Peter Singer, representante do pensamento Utilitarista, doutrina que atribui o valor moral de uma ação às suas consequências (grosseiramente falando, OK?), propõe que “a vida começa quando existe consciência”. Para o pesquisador e professor australiano, considerado pela revista TIME uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2005, no entanto, a questão nem é saber quando a vida começa, mas quando, em que momento, ela merece ser protegida. Num palestra na UCLA, ele diz: “Não digo que um embrião não seja humano e vivo e nem que não tenha potencial para se tornar um ser humano completo. Mas isso não é razão suficiente para garantir seu direito à vida. É necessário para isso mais desenvolvimento do que um embrião possui”.

E explorando até as últimas consequências a idéia, o filósofo, em um artigo sobre a Santidade da Vida, afima: “… o conceito de pessoa é distinto do conceito de membro da espécie Homo Sapiens e é esse atributo de “ser pessoa” e, não, o de ser membro da espécie, que é o mais significativo na hora de determinar quando é errado tirar a vida. Vamos entender que ainda que a vida de um organismo humano comece no momento do nascimento, a vida da pessoa, ou seja, de um ser com um mínimo de autoconsciência, não começa tão cedo.”

Sei que essa é outra história, e que este post está enorme, mas só para você saber, se levado ao extremo, o pensamento de Peter Singer, coloca na mão dos humanos “conscientes” da espécie o destino tanto dos muito jovens quanto dos muito velhos quanto dos ainda não nascidos….brrrrrr, haja responsabilidade!!!!

O Supremo não tem ainda data para tomar uma decisão, mas essa discussão promete mudar a forma como nós nos definimos e as bases sobre as quais vamos assentar nossos direitos e obrigações daqui para o futuro. Não dá para ficar de fora, é de nós que estão falando…

Para saber tudo sobre a primeira audiência pública do Supremo Tribunal Federal relacionada com a Lei de Biossegurança e acompanhar os desdobramentos do debate

Leia uma entrevista fundamental da dra. Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisas da USP, feita pelo dr. Dráuzio Varella, sobre esse assunto

No site dos defensores do Utilitarismo, você lê mais artigos de Peter Singer (em inglês)

E no site do professor descobre tudo que ele vem fazendo e as polêmicas que anda provocando (em inglês)

No site dos Pro-Life, a foto mais linda do bebê humano, que você viu lá no alto

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/04/2007 - 00:45

Adolescer….

Os jovens estão na primeira página dos jornais ingleses. Todos os dias. Seja porque estão destinados a serem futuros reis e romperam um namoro com a mocinha educada para ser princesa; seja porque estão engordando as estatísticas de acidentes fatais com armas perfurantes, isto é, facas e canivetes; seja porque os professores não conseguem motivá-los a estudar; seja porque invadem escolas armados e matam dezenas de outros jovens…

Uma garota de 17 anos obrigou a família a procurar um lugar temporário para viver porque aproveitou uma viagem dos pais e colocou um convite no site My Space, chamando a “galera” para uma festa. O resultado? Em menos de seis horas, 200 jovens haviam destruído — literalmente — a casa, infernizado a rua e mobilizado sete viaturas policiais para tentar conter o “caos”. Coisa de criança? Será mesmo?

Na mesma semana, o secretário de Educação da Grã-Bretanha, Alan Johnson, provocou discussões em várias frentes, ao pedir que os portais e sites na web se responsabilizassem pelos vídeos e imagens ofensivas e humilhantes de professores, postados por alunos. As imagens são capturadas pelos celulares que eles levam para as escolas, o que leva à pergunta: se eles fazem mau uso dos aparelhos, por que as escolas não confiscam ou impedem seu uso no ambiente escolar? O bullying, seja via internet, seja nos corredores reais das escolas é uma grande preocupação, assunto de Estado: 1 em cada 5 garotos de 16 anos admitem ter atacado alguém com uma faca, 25% dos de garotos de 14 a 17 anos estão envolvidos com roubos, assaltos e violências “menores”.

Punir? Usar técnicas modernas de motivação? As novas orientações sobre educação que o mesmo secretário Johnson apresentou na semana passada foram consideradas brandas, insuficientes…mas permitem que os professores usem de coação física contra alunos violentos. Fazer o quê?

Leio no The Guardian que os professores estão usando os blogs tanto para trocar experiências e compartilhar frustrações quanto para tentar se comunicar de alguma forma com os alunos. Nestes relatos, uma grande dose de desânimo…nada de respostas…

Você assistiu aquele documentário excelente, Pro Dia Nascer Feliz? O que achou? Fiquei aterrorizada com o desencanto dos professores, com a ausência dos adultos…onde estávamos enquanto eles cresciam assim?

Quem são esses jovens? Quem somos nós diante deles? E por que não estamos, como adultos, conseguindo nos comunicar com eles?

O Lucas me manda um “Toques de Alma Teen” com dois artigos e uma tentativa de conciliação. Vinda de alguém mal-saído dessa “fase”, faz a gente pensar e parece até provocação. Além de lanche, punições, discursos empoeirados e quadro-negro, quem sabe não estaria na hora de ressuscitar a poesia? Resolver, não sei se resolvia, mas chegamos num ponto onde nem sabemos direito quais são as perguntas certas, melhor mesmo deixar os poetas falarem por nós…

“Sempre achei difícil – antes, durante ou agora, sofrivelmente depois dela – sintetizar a adolescência”, diz ele. “Resumir em palavras os entraves com identidade, com caminhos, vontades, novidades e mudanças (ah, as mudanças…). As mais rebuscadas não serviam, porque deixavam tudo ainda mais complicado. E as simples não davam conta de tanta enormidade emaranhada de vida batendo taquicárdica. Foi tropeçando nesse tempo, mas sempre marrento, teimoso e malcriado, que encontrei Neruda via Gustavo Ioschpe e Octavio Paz via meu irmão. Mudanças, identidade, rostos que não se reconhecem, estrangeiro em sua própria morada. Um tempo de suspensão numa existência que segue, em poucos e intensos anos, ondeando. Os textos podem não iluminar ou tornar clarividente, mas é sempre reconfortante saber que, por mais que neguemos, algum adulto nos entende.

<a color:#B75CB4;font-weight:boldE aí vão as reflexões de Octavio Paz e de Gustavo Iochpe, para inspirar professores…e pais! Obrigada, Lucas, querido…

Para todos nós, em algum momento, nossa existência se revela como alguma coisa de particular, intransferível e preciosa. Quase sempre esta revelação se situa na adolescência. A descoberta de nós mesmos se manifesta como um saber que estamos sós; entre o mundo e nós surge uma impalpável, transparente muralha: a da nossa consciência.

É verdade que, mal nascemos, sentimo-nos sós; mas as crianças e os adultos podem transcender a sua solidão e esquecer-se de si mesmos por meio da brincadeira ou do trabalho. Em compensação, o adolescente, vacilante entre a infância e a juventude, fica suspenso um instante diante da infinita riqueza do mundo.

O adolescente se assombra com o ser. E ao pasmo segue-se a reflexão: inclinado para o rio de sua consciência pergunta-se se este rosto que aflora lentamente das profundezas, deformado pela água, é o seu. A singularidade de ser – mera sensação na criança – transforma-se em problema e pergunta, em consciência inquisidora.

De Octavio Paz, abrindo O Labirinto da Solidão e Post Scriptum

Cada vez que vejo os meus, fico com a impressão de que deve ser muito difícil essa história de ser pai. Não pela parte de ter de amamentar, trocar fraldas, botar pra ninar ou ter de levar a filmes dos Trapalhões. Isso, qualquer um com um pouco de paciência consegue. O difícil deve ser pai de adolescente, aquela fase em que o guri muda mais do que técnico de time perdedor, e os pais permanecem fiéis que nem puxa-saco de emergente. A gente gosta de reclamar dos pais, dizer que eles não nos entendem, que não se lembram que eles também já foram jovens algum dia (eles foram?), que nos cortam os baratos, etcétera e tal, mas raramente tentamos nos colocar na posição deles.

Imagine você ter passado 10, 15 anos acompanhando todos os passos, respiros e espirros de uma pessoa. Determinar como ela deve se vestir, o que deve comer, onde vai estudar, onde vai passar as férias… Sem falar nos pais que determinam o que pode ver na TV, quando tem de fazer dever de casa, qual a periodicidade do corte das unhas e por aí afora. De repente, aquele ser protegido, dependente e atônito frente aos mistérios do mundo passa a descobrir as coisas por si só, e não só preza a liberdade conquistada como rejeita veementemente qualquer intervenção paterna.

Ser adolescente é ser livre até o ponto da rebelião, da anarquia. É uma experiência embriagante que, de resto, também proporciona a mesma ressaca que todos os bons tragos proporcionam. Mas é da vida. O angustiante deve ser ter de acompanhar de camarote, sem poder fazer nada (além de um ocasional “leva um casaquinho que tá frio” que de vez em quando escapa), e carregando no peito todo aquele amor incondicional.

Aí rolam aqueles conflitos brabos entre pais e filhos, onde parece que um está falando em cirílico e o outro em sânscrito. A impressão é que ninguém se entende. Sei não, mas acho que os pais entendem direitinho a cabeça dos rebentos, porque já passaram por isso. Mas é aquela fase típica do pós-choque: o “denial”, a negação. Os pais tentam reagir a independência filial impondo as mesmas regras de antes, como se nada houvesse mudado e o fedelho de boné virado e barba malfeita pedindo verba para uma cervejada fosse o mesmo piá de roupa de marinheiro chorando por um doce ou gole de Coca. Não é fácil lidar com a mudança. No fundo, os pais sabem que é uma batalha perdida: o mundo real, mesmo com (e até por) todos os seus mistérios e perigos, é lugar bem mais atraente que a barra da saia da mãe (exceção honrosa sempre feita aos filhos da Luiza Brunet). Um dia, os filhos vão. Deve causar uma estupefação e tanto ver um filho com ideais e idéias diferentes não raro antagônicas às dos pais.

É preciso, assim, uma certa compreensão por parte dos filhos. Essa é mais complicada ainda. No fundo, não conhecemos tanto nossos pais. Não estivemos junto com eles a maioria da vida deles, e leva um bocado de tempo para conseguirmos amadurecer e perceber alguns de seus defeitos e fraquezas. Não acho que briguemos com os pais que temos, mas com a idealização que deles fazemos. Se soubéssemos de antemão todas as causas das neuroses paternas, acho que não
daríamos tanto murro em ponta de faca. Mas o distanciamento é natural, e acho que até necessário para que se respire um ar puro. Nas relações sadias, o reencontro não demora. E, naquelas em que demora ou não acontece, é sinal de que muito andava errado bem antes.

Mas isso a gente só se dá conta quando dá um passo pra trás e tenta olhar a coisa com calma, longe do dia-a-dia. E, dando essa olhada, fiquei surpreso não com os meus pais, mas comigo mesmo: não sei de onde é que se muda tanto.

Sorte que o espanto parece ser universal. Ou, o que vale a mesma coisa, pelo menos (com)provado por um grande poeta, como descreveu bem Neruda nos versos:

“y de repente apareció en mi rostro
un rostro de extanjero
y era también yo mismo:
era yo que crecía,
eras tu que crecías,
era todo
y cambiamos
y nunca más supimos quiénes éramos,
y a veces recordamos
al que vivió en nosotros
y le pedimos algo tal vez que nos recuerde,
que sepa por lo menos que fuimos él,
que hablamos
con su lengua,
pero desde las horas consumidas
aquél nos mira y no nos reconoce.

De Gustavo Ioschpe, colunista da Folha, Mutatis Mutandis

A foto foi tirada do site de um fotógrafo, Rick Gunn, cujo projeto de vida é conseguir viajar pelo mundo todo, extraindo imagens — belíssimas — pelo caminho, ué, não parece sonho de todo mundo que um dia já foi jovem?

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/04/2007 - 19:03

Da falta de cyber cafés e da rota dos peregrinos…

Sim, sim…se eu fosse uma blogueira séria teria sabido que não se pode confiar nos cybers cafés do mundo para manter um blog de viagem…sobretudo se você está percorrendo as estradas vicinais e passando ao largo das grandes avenidas…

E Maidstone é uma cidadezinha assim, desajeitada entre o passado e o presente…fica a uma hora de trem de Londres, é sede do condado de Kent, roteiro de peregrinos desde a Idade Média e de apaixonados por jardins. A região é chamada “Jardim da Inglaterra” e leva a sério a fama, as ruas tem perfume de flor e a primavera espreguiça em cada esquina!

Mais estranho, contudo, considerando que Maidstone hoje acolhe grandes e modernas empresas produtoras de papel, sem graça nenhuma, aliás, é o fato de que a cidade realmente faz parte do Velho Caminho, uma estrada lendária, talvez a mais antiga da Inglaterra, velha como a Idade da Pedra, que ligava o continente às terras do Norte. Por esse caminho passaram comerciantes, conquistadores e peregrinos que iam de Winchester, capital do reino normando no século 9, até Canterbury, o berço do cristianismo na terra dos ingleses — foi daqui que Santo Agostinho, o Apóstolo da Inglaterra, espalhou o evangelho para os saxões, no século 7! Castelos, hospedarias, igrejas, abrigos foram sendo construídos pelos caminhos, muitos ainda existem, tantos são só lembranças, peças do quebra-cabeças de lembranças, informações e imagens que o viajante vai montando…

Da janela do trem, fico pensando em todas as histórias sobre a Idade Média que já li e em quanto minha imaginação foi alimentada por essas paisagens, essas cores, essas pedras…

Além de ponto de parada de peregrinos deste tempo, Maidstone tem ainda outros segredinhos: eu não vi (pena!), mas existem registros de crop circles em Burham, surgidos em julho de 2006. Crop Circles são aqueles desenhos gigantescos que aparecem nos campos cultivados, em geral semelhantes a mandalas…A foto do círculo de Maidstone você pode conferir aqui neste site e outras imagens espantosas destas estranhas formações, você encontra no site do fotógrafo Steve Alexander, Temporary Temples

Se você permitir temporariamente a exibição de popups pode fazer um tour virtual pelo Palácio do Arcebispo, uma das grandes atrações de Maidstone!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/04/2007 - 11:29

Páscoas…

Hoje não vou falar dos símbolos associados à Páscoa, nem vou explorar as possibilidades que se escondem atrás de todas as palavras…hoje, há que mergulhar na teia e deixar que ela acolha nosso salto, quem é apaixonado por esses espaços virtuais sabe do que estou falando…

Hoje, amanheci lendo os comentários em Toques de Alma, e são muitos, alguns bravos, outros indignados, outros inspiradores…

Um deles é do Wagner Moura, que fui conhecer, no blog Dia sim, dia também. Wagner hoje também está às voltas com a Páscoa, fez um post lindo, falando da ressurreição do corpo, que liberta o amor…e descobriu no You Tube um clipe que vale a pena ver e ouvir, baseado em uma música do U2: “Oh can’t you see what love has done? To every broken heart, for every heart that cries – love left a window in the skies.” U2. Window in the Skies.

A partir de hoje, e nos próximos dez dias, este blog vai ser atualizado de Londres, para onde vou, em férias, ver meu filho. A gente vai se falar de lá…ah, a imagem da ressurreição lá em cima é de William Blake, artista visionário inglês, chama-se Jerusalem…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/04/2007 - 13:09

Nascer e morrer na Semana Santa

“E ela deu à luz seu filho primogênito, e o enrolou em panos e colocou-o sobre uma manjedoura.” Lucas, 2:7

“No primeiro dia depois do shabat, muito cedo, ainda em meio às trevas, Maria Madalena foi ao sepulcro e viu: a pedra do sepulcro havia sido removida…Eles ainda não haviam compreendido as escrituras, segundo as quais ele ressuscitaria dos mortos” João, 20:1,9

Para onde vamos quando morremos? Quando meus filhos eram pequenos, eu costumava dizer que voltávamos para o lugar de onde tínhamos vindo. De certa forma, imaginar que já tinham, de alguma forma, estado nesse lugar, parecia confortá-los, tirava da morte a exclusividade do mistério, ainda que não pudessem lembrar, eles voltariam para algum lugar onde já tinham estado…não podia ser tão terrível assim, né mãe? É filho…os budistas acreditam nisso, estamos sempre voltando, sempre partindo, nascer é só um outro nome para a morte…

Hoje, passeando pela peregrinação fotográfica no livro da Life, Places of the Bible, levei um choque quando vi as duas fotos lá de cima. Você reparou também? São ambas imagens de grutas: Jesus nasceu em uma gruta e foi colocado em uma gruta depois de morrer! Embora não sejam fotos dos locais exatos onde Jesus nasceu e do túmulo onde seu corpo foi enterrado, os estudiosos acreditam que deve ter sido em lugares muito semelhantes a esses que Maria deu à luz seu primogênito e que José de Arimatéia e Nicodemos depositaram seu corpo depois de crucificado.

As grutas são símbolos ancestrais do útero materno, lugares de iniciação e renascimento em inúmeras mitologias! Que estranhas e provocativas imagens…sim, nós vamos voltar um dia para o lugar de onde partimos…boa Páscoa para vocês!

Você encontra o livro da Life, Places of the Bible na Livraria Cultura

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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