E por falar em morte…

No México, a morte é uma festa. Festa de entrega e dissolução, tempo de reunir fiapos de lembranças e tecer uma alegria que se alimenta da perspectiva da dor, uma não existe sem a outra.
Margot chega perto e me mostra um artigo de Octavio Paz sobre a festa e o sentido da morte para os mexicanos. “Lembrei deste ensaio quando li seu post no blog”, ela diz. Obrigada, por ter lembrado…
Para quem lê bem o espanhol, aí vai o trecho no original. Lá embaixo, ousei traduzir, à minha moda, pescando as palavras mais bonitas que consigo imaginar e vestindo-as de festa…
La muerte es un espejo que refleja las vanas gesticulaciones de la vida. Toda esa abigarrada confusión de actos, omisiones, arrepentimientos y tentativas obras y sobras que es cada vida, encuentran en la muerte, ya que no sentido o explicación, fin. Frente a ella nuestra vida se dibuja e inmoviliza. Antes de desmoronarse y hundirse en la nada, se esculpe y vuelve forma inmutable: ya no cambiaremos sino para desaparecer. Nuestra muerte ilumina nuestra vida. Si nuestra muerte carece de sentido, tampoco lo tuvo nuestra vida. Por eso cuando alguien muere de muerte violenta, solemos decir: “se lo buscó”. Y es cierto, cada quien tiene la muerte que se busca, la muerte que se hace. Muerte de cristiano o muerte de perro son maneras de morir que reflejan maneras de vivir. Si la muerte nos traiciona y morimos de mala manera, todos se lamentan: hay que morir como se vive. La muerte es intransferible, como la vida. Si no morimos como vivimos es porque realmente no fue nuestra la vida que vivimos: no nos pertenecía como no nos pertenece la mala suerte que nos mata. Dime cómo mueres y te diré quién eres.
(A morte é um espelho que reflete as vâs gesticulações da vida. Toda essa colorida confusão de atos, omissões, arrependimentos e tentativas –obras e sobras — que é cada vida, encontram na morte, senão sentido e explicação, um fim. Diante dela, nossa vida se desenha e se imobiliza. Antes de desmoronar-se e fundir-se no nada, ela se esculpe em forma imutável: mudaremos, para então desaparecer. Nossa morte ilumina nossa vida. Se nossa morte carece de sentido, então nossa vida também não tem sentido algum. Por isso, quando alguém morre de morte violenta, as pessoas dizem “ele procurou por isso”. E é verdade, cada um tem a morte que busca, a morte que constrói para si mesmo. Morte de cristão ou morte de pagão são jeitos de morrer que refletem jeitos de viver. Se a morte nos trai e morremos da morte errada, que lástima: é preciso morrer como se vive. A morte é instranferível, como a vida. Se não morremos como vivemos é porque realmente não vivemos a nossa própria vida: não nos pertencia, como não nos pertence a má-sorte que nos mata. Diga-me como morreste e te direi quem és.”)
Para os ancestrais de Octavio Paz, aztecas, a morte era apenas um outro jeito de “vida”. Uma fase, num ciclo infinito, sempre renovado. E a vida de cada um, assim como a morte, alimentava o frágil equilíbrio do cosmos…
Para ler o texto inteiro, e, acredite, vale a pena, clique aqui
O desenho é de José Guadalupe Posada (1852-1913), pintor mexicano que ficou célebre justamente por conta dessas mortes insubordinadas e irreverentes que ele criou e que dizem muito do jeito mexicano de lidar com a própria morte…



