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Arquivo de março, 2007

31/03/2007 - 09:33

E por falar em morte…

No México, a morte é uma festa. Festa de entrega e dissolução, tempo de reunir fiapos de lembranças e tecer uma alegria que se alimenta da perspectiva da dor, uma não existe sem a outra.

Margot chega perto e me mostra um artigo de Octavio Paz sobre a festa e o sentido da morte para os mexicanos. “Lembrei deste ensaio quando li seu post no blog”, ela diz. Obrigada, por ter lembrado…

Para quem lê bem o espanhol, aí vai o trecho no original. Lá embaixo, ousei traduzir, à minha moda, pescando as palavras mais bonitas que consigo imaginar e vestindo-as de festa…

La muerte es un espejo que refleja las vanas gesticulaciones de la vida. Toda esa abigarrada confusión de actos, omisiones, arrepentimientos y tentativas —obras y sobras— que es cada vida, encuentran en la muerte, ya que no sentido o explicación, fin. Frente a ella nuestra vida se dibuja e inmoviliza. Antes de desmoronarse y hundirse en la nada, se esculpe y vuelve forma inmutable: ya no cambiaremos sino para desaparecer. Nuestra muerte ilumina nuestra vida. Si nuestra muerte carece de sentido, tampoco lo tuvo nuestra vida. Por eso cuando alguien muere de muerte violenta, solemos decir: “se lo buscó”. Y es cierto, cada quien tiene la muerte que se busca, la muerte que se hace. Muerte de cristiano o muerte de perro son maneras de morir que reflejan maneras de vivir. Si la muerte nos traiciona y morimos de mala manera, todos se lamentan: hay que morir como se vive. La muerte es intransferible, como la vida. Si no morimos como vivimos es porque realmente no fue nuestra la vida que vivimos: no nos pertenecía como no nos pertenece la mala suerte que nos mata. Dime cómo mueres y te diré quién eres.

(A morte é um espelho que reflete as vâs gesticulações da vida. Toda essa colorida confusão de atos, omissões, arrependimentos e tentativas –obras e sobras — que é cada vida, encontram na morte, senão sentido e explicação, um fim. Diante dela, nossa vida se desenha e se imobiliza. Antes de desmoronar-se e fundir-se no nada, ela se esculpe em forma imutável: mudaremos, para então desaparecer. Nossa morte ilumina nossa vida. Se nossa morte carece de sentido, então nossa vida também não tem sentido algum. Por isso, quando alguém morre de morte violenta, as pessoas dizem “ele procurou por isso”. E é verdade, cada um tem a morte que busca, a morte que constrói para si mesmo. Morte de cristão ou morte de pagão são jeitos de morrer que refletem jeitos de viver. Se a morte nos trai e morremos da morte errada, que lástima: é preciso morrer como se vive. A morte é instranferível, como a vida. Se não morremos como vivemos é porque realmente não vivemos a nossa própria vida: não nos pertencia, como não nos pertence a má-sorte que nos mata. Diga-me como morreste e te direi quem és.”)

Para os ancestrais de Octavio Paz, aztecas, a morte era apenas um outro jeito de “vida”. Uma fase, num ciclo infinito, sempre renovado. E a vida de cada um, assim como a morte, alimentava o frágil equilíbrio do cosmos…

Para ler o texto inteiro, e, acredite, vale a pena, clique aqui

O desenho é de José Guadalupe Posada (1852-1913), pintor mexicano que ficou célebre justamente por conta dessas mortes insubordinadas e irreverentes que ele criou e que dizem muito do jeito mexicano de lidar com a própria morte…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/03/2007 - 08:56

Histórias da tradição judaica….para começar o dia

Desde ontem estou com a sensação de que o mundo ficou um tiquinho mais sombrio…A prisão do rabino Henry Sobel, acusado de roubar cinco gravatas de griffe, numa boutique chiqe da chiquérrima Rodeo Drive, em Palm Beach, na Flórida, além de chocante, parece incompreensível…

Os judeus colecinam há milênios o mais fabuloco repertório de histórias sobre seu povo. De certa forma, são essas histórias que nutrem a alma judaica e amarram os fios soltos do povo judeu.

Hoje, depois do café e do jornal, sem saber o que pensar, comecei a folhear o livro da escritora argentina Ana Maria Shua, O Livro da Sabedoria Judaica, um compilação de contos e citações do Talmude e da Cabala e de dizeres e relatos populares e anônimos nascidos da tradição oral do povo judeu. E dei de cara com essa historinha que reproduzo aqui para vocês:

Moisés perto do poço

Um dia Moisés estava descansando perto de um poço, oculto pelas árvores, quando viu que um homem se aproximou e, ao inclinar-se para beber, deixou cair uma bolsa cheia de moedas de ouro. Distraído, o homem foi embora sem perceber nada. Um pouco depois, um outro homem se aproximou para beber água e encontrou a bolsa. Muito feliz, levou-a consigo.

Em seguida, veio um terceiro homem beber água e, nesse momento, volta o distraído, reclamando sua bolsa. Acusou aquele que estava junto ao poço de ter ficado com ela. Por mais que o homem inocente negasse, o outro não acreditava. Terminaram brigando e o dono da bolsa acabou matando o outro.

Moisés se indignou. “Por que vês tanta injustiça e não te comoves, meu Deus?”

“Tens que saber”, disse então a Sua Voz, “que o homem que perdeu dinheiro é uma boa pessoa. Porém, seu pai era um bandido que roubou dinheiro do pai daquele homem que achou a bolsa. Assim, o homem não fez mais do que recuperar sua justa herança. O homem que parecia inocente, havia, na verdade, matado o irmão do dono da bolsa. Vinguei o sangue inocente para demonstrar Meu poder. E tu, Moisés, acaso tens o direito de duvidar das Minhas decisões?”

Entre tudo aquilo que a gente não sabe e que entrelaça nosso destino no destino de todos, e faz nossas ações repercutirem, feito as ondas da pedra atirada no lago, no passado e no futuro, deve mesmo estar a “Voz que clama no deserto”, a Voz de Deus…

Fechei o livro, sentei para escrever este post com a alma mais ligeira…nunca canso de me surpreender com a sabedoria desses nossos ancestrais que eles foram costurando em histórias ao mesmo tempo tão simples e tão fundamentais!

O conto é da tradição midrásica e está em O Livro da Sabedoria Judaica, de Ana Maria Shua, editora Relume Dumará.

Para saber mais sobre a autora

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/03/2007 - 19:34

Morrer…mas com estilo

Monica Horta, astróloga, olha meu céu e diz: “você vai precisar falar de morte”… mas não quero. Nem sei o que dizer, e detecto até um certo medo, resquício infantil de um jeito mágico: se eu não pensar, não existe…

Mas tem dias assim estranhos, nos quais cabem anos, décadas, e todo o sofrimento do mundo! Em dias assim você se pega flertando com a morte, ensaiando aproximações…

Não consigo ainda acreditar que a gente tem algum controle sobre as coisas que nos acontecem, embora a idéia ande cada vez mais popular. No entanto, cheguei a conclusão de que, embora a gente não consiga escolher a própria morte, dá para escolher o tipo de enterro que vamos ter. Parece pouco? Pode ser, mas no quesito morte, não temos tantas alternativas assim de exercitar nossa arrogância, melhor nos concentrarmos nas miudezas…

Além disso, poder escolher o próprio enterro diz muito da pessoa que decidimos ser.

Queria ter um enterro assim, feito esse, num dia claro, inundado de sol, mas que uma brisa leve sacudisse as folhas das árvores.

Queria que as pessoas fossem chegando sem lágrimas, não vale a pena chorar pelas vidas bem vividas.

Queria que um grupo de amigas velhas, cansadas, iguais, todas vestindo azul, alugasse um ônibus para virem se despedir de mim e cantassem minha canção favorita em vozes enrugadas…E que outras, usando chapéus roxos, fizessem uma oração, pedindo para a Grande-Mãe me acolher no seu colo…

Gostaria que algumas pessoas improváveis, como as noras e os netos adolescentes, imaginassem que poderiam sentir saudades minhas, são tão difíceis e tão valiosos esses encontros!

Queria que entre parentes e amigos ninguém conseguisse distinguir traços nem parecenças, o amor cria as verdadeiras afinidades.

Queria que, no momento em que o carrinho saísse com as flores e o caixão, alguém risse lembrando de alguma bobagem que eu falei, algum esquecimento, um lapso, uma queda, qualquer uma das minúcias que afirmam nossa humanidade.

Mesmo banhado de sol, gostaria que meu túmulo fosse à sombra de uma árvore e que os casais se aproximassem dele de mãos dadas, a morte, afinal, é a oportunidade que Deus nos dá de fazer o exercício da grande reconciliação.

Quero acreditar, como os hindus, que a terra úmida cobriria meu corpo e que em breve, muito breve, eu me transformaria talvez num pássaro e comungaria mais uma vez da benção do Universo.

E, cá para nós, e ao contrário do que andei dizendo por aí a vida inteira, queria muito morrer assim num instante, naquele único instante verdadeiramente nosso, entre o passado e o futuro, com dizia Hannah Arendt…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/03/2007 - 10:02

Meditação

Você achava que meditação era coisa daquele povo de saias esvoaçantes e espírito Woodstock? Subversão ocidental de práticas ancestrais nascidas no altíssimo cume das montanhas do Tibet? Misturança de religião com espírito New Age?

Meu amigo Roberto Cardoso há anos me ensinou que nada disso. Médico ginecologista da UNIFESP, de São Paulo, ele é um pioneiro no estudo da meditação e, mais interessante ainda, especializou-se nas práticas de “relaxamento da lógica” aplicadas a gestantes!

Roberto agora assina uma coluna no site da RedePsi, onde discute e ensina técnicas de meditação para gregos e troianos, esotéricos ou céticos…porque meditar faz bem, independente das crenças e dos preconceitos…

Navegue por lá….

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/03/2007 - 01:12

Blog de mulher…

Andei navegando pelos blogs premiados pelo Weblog Awards, uma espécie de Oscar do mundo dos blogs. E selecionei meus favoritos, mas só na categoria relatos de mulheres. Porque adoro ler essas histórias pinçadas do cotidiano de cada uma de nós e encantadas com fotos, comentários, inspirações e muito bom-humor:

Cute overload, que ganhou o prêmio de Melhor Blog em 2006, é, de fato, a coisa mais “cute” ou fofa da blogosfera! Não tem nada de relatos de mulher, mas vai entrar na lista assim mesmo!

Dooce, de uma ex-webdesigner, Heather Armstrong, é um blog pioneiro. Desde 2001, Heather escreve crônicas que foram acompanhando as mudanças da sua vida, que ela chama de “o suprasumo da mediocridade”. São mesmo relatos de miudezas…doces…

“A vida, como as torradas francesas (fritas com manteiga, ovos e tudo que você gostar de doçuras, como mel, canela, açúcar…), é feita de ingredientes simples, que se combinam numa mistura perfeita que a gente assume que é muito fácil. Já está mais do que na hora de extrair sabores maravilhosos da sua vida. E, se você não acha sua vida assim tão saborosa, lembre-se que é você mesmo que controla quanto de açúcar vai na receita, por quanto tempo ela deve ficar no fogo, e se deve ser mais macia ou mais crocante.” É assim que a artista Élena Nazzaro começa seu blog, The French Toast Girl. Para ler e navegar pelas belas ilustrações da artista

Confessions of a Pioneer Woman ganhou o prêmio de melhor blog de “Relatos Pessoais”. A autora, Ree, se define como uma “Desperate Housewive” que largou a cidade grande e foi morar num rancho, teve 4 filhos, aprendeu a tirar belíssimas fotos e a escrever a crônica de seu dia-a-dia na “fronteira”, ou no fim do mundo, neste blog. Lindo, lindo, mas é tarde e esses blogs de mulheres engancham a gente, quando você vê, a hora já passou…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/03/2007 - 01:11

Perfil de mulher

A AVON encomendou uma pesquisa para avaliar o quanto as mulheres estariam satisfeitas com sua situação no mundo, em termos de autonomia. A pesquisa, que incluiu 8 mil mulheres em 16 países, definiu autonomia a partir de 6 fatores:

Tomada de decisão de apoio à família
Participação social e cívica
Independência Financeira
Saúde e segurança
Oportunidade de Trabalho e Carreira
Oportunidade de Educação

O resultado mostra uma mulher mais confiante e que se vê com mais competência para participar do mundo à sua volta e tomar decisões em relação à si mesma, à sua família e aos seus filhos, mas que também se ressente da falta de coisas fundamentais, como saúde e acesso à educação. E isso não só nos países em desenvolvimento, como nos países desenvolvidos também.

Além de saúde, é no quesito segurança que as mulheres revelam sua maior insatisfação. A sensação de ter controle sobre sua própria vida, em contrapartida, aparece como um boa razão para ser feliz para a maioria das mulheres!

Olhando o relatório você fica imaginando que embora o mundo ainda esteja longe de ser tão acolhedor assim para nós, mulheres, dá para esperar que nossas filhas tenham chance de viver seu ser feminino sem abrir mão nem pedir desculpas por nada e, ainda sentirem-se parceiras orgulhosas e autênticas dos homens do futuro! Aliás, mais da metade das mulheres entrevistadas também acredita nisso, embora uma em cada seis duvide. A gente torce para elas estarem erradas!

Pode conferir os dados no resumo da pesquisa oferecido pela Avon, mas antes de ir embora, deixe seu comentáriolá embaixo!

PESQUISA GLOBAL AVON

ÍNDICE AVON DA SATISFAÇÃO DA MULHER QUANTO À SUA AUTONOMIA:
- mede o nível de satisfação de vida, oportunidades e poder de atuação da mulher em sociedade em seis dimensões de suas vidas: saúde, educação, trabalho, independência econômica, participação social e família.
- ilustra as diferenças claras e os objetivos comuns referentes ao poder de autonomia relatado em todo o mundo e aponta oportunidades para o seu futuro progresso.
- pesquisa inédita, com abrangência, tamanho e foco sem precedentes.
- oportunidade única de ouvir as mulheres, o que elas pensam sobre as suas vidas.

ESCOPO PESQUISA
16 países pesquisados.
8 mil mulheres de 18 anos ou mais (500 mulheres por país).
No Brasil: mulheres de todas as classes, nas cidades de
São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Brasília, Porto Alegre e Belém.

Entrevistas de 12 a 29 de janeiro de 2007.
Metodologia: Entrevistas Pessoais (Brasil e países demais em desenvolvimento) e por telefone (Países Desenvolvidos).
As macro-regiões definidas de acordo com a metodologia do Banco Mundial com base no PIB per capita:
- Países Desenvolvidos: EUA, Reino Unido, Alemanha, Itália, Japão
- Países em Desenvolvimento: Polônia, Rússia, Brasil, México, Venezuela, China, Índia, Filipinas, Egito, África do Sul e Turquia.

RESULTADOS DO ÍNDICE – base nas percepções mulheres:
Mundial: 64, em uma escala de 0 a 100
Nações desenvolvidas, o índice é 70;
Nações em desenvolvimento (incluindo Brasil), 61.

DESTAQUES PESQUISA GERAL:
Mais satisfeitas:
· Controle sobre a própria vida (92%)
· Decisões sobre a vida religiosa ou espiritual de alguém (89%)
· Atenção e capacidade de cuidar da família (88%)
· Nível de influência nas decisões quanto a gastos domésticos importantes (81%)
· Oportunidade de votar em eleições políticas em seu país (78%)
Menos satisfeitas:
· Oportunidade de viajar (40%)
· Segurança ao sair na rua sozinha (37%)
· Acesso à saúde de qualidade (35%)
· Oportunidade de trabalho remunerado (32%)
· Nível de educação recebida (31%)
O que as mulheres desejam:
Ter dinheiro suficiente para viver bem e pagar as contas (64%)
Ter assistência médica de qualidade a preços acessíveis (44%)
Ter casa própria (36%)
Mais tempo para a família ou para lazer (33%)
Habilidade para começar o próprio negócio (27%)

DESTAQUES BRASIL:
Mulher se sente mais atuante/ satisfeita:
- atributos de participação social e cívica;
- tomada de decisão e apoio familiar;
- independência financeira;

Mulheres se sentem menos satisfeitas no Brasil
– Oportunidades de trabalho e carreira
– Saúde e segurança
– Oportunidades de educação.

DADOS RELEVANTES:
- apenas 17% das parlamentares em todo o mundo são mulheres – sua participação aumenta em 28 dos 39 países que tiveram eleições em 2005.
- dois terços dos adultos do mundo que vivem abaixo da linha da pobreza são mulheres.
- 1 em 3 mulheres vai ter algum tipo de violência em sua vida. Estupro é a mais comum forma de violência sexual.
- dois terços dos analfabetos do mundo são mulheres= 500 milhões.
- em muitos países as mulheres são desencorajadas a trabalhar em razão da falta de incentivos dos Governos e das empresas em não prover suporte adequado às mães que trabalham, como creche.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/03/2007 - 23:22

Mais sobre a “praga”…

Meu amigo, José Aroldo, teceu comentários muitíssimo pertinentes sobre o perigo das palavras fora de contexto e das traduções apressadas. Dizia que o discurso do papa Bento XVI que provocou grandes discussões neste blog na última semana havia sido mal interpretado.

Pelo sim pelo não, e para quem acompanhou as conversas, aí vai o trecho do discurso de Exortação Apostólica, exatamente como aparece no site do Vaticano.

29. Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimónio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de anelar.[91] Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimónio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos. Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados.[92] O Sínodo dos Bispos confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados re-casados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia. Todavia os divorciados re-casados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos.

Aqui você lê toda a exortação de Bento XVI e depois pode dar sua opinião, a gente aqui agradece

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/03/2007 - 01:11

Casamento essa “praga”…

Não é à toa que uma das palavras mais buscadas na Folha online de hoje era “Rubem Alves”! O artigo publicado pelo jornal Folha de São Paulo, A Praga, era a resposta contundente do teólogo, “psicanalista, embora não ortodoxo” e professor da UNICAMP, de São Paulo, para a perplexidade que as últimas declarações do papa Bento XIV, sobre os católicos e o segundo casamento, vêm provocando, mesmo entre os fiéis da Igreja, como você pode ver nos comentários láááá embaixo…

“Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso”, avalia irônica e trsitemente o professor, “nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo. Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: “O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato”. Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.”

Pois é, caminhamos tanto e não conseguimos fazer acontecer a revolução do amor com que o próprio Cristo sonhava…

Mas esse esforço de tornar o casamento palco natural do amor é recente na história das criaturas humanas. Tradicionalmente, o “casamento” em suas variadas formas surge para disciplinar o sexo e manter a harmonia nos agrupamentos humanos. O casamento em poucos momentos esteve de fato a serviço do amor. Em geral, como ainda hoje acontece em muitos países islâmicos, por exemplo, era um negócio, que envolvia riquezas, bens, a principal moeda de troca: uma mulher. E um objetivo: herdeiros. Caso algo desse errado, bastava trocar de esposa e começar tudo de novo…Amor? Uma complicação…

O amor excessivo pela esposa não era nem mesmo desejável, advogava o filósofo romano Sêneca, pela boca de um dos pais da Igreja Católica, São Jerônimo: “O homem sábio deve amar sua esposa com discernimento e não com paixão e deve controlar seus desejos e não se deixar seduzir pela copulação, porque nada é pior do que amar sua esposa, como se ama uma amante”.

Às esposas, os filhos, a herança, o reconhecimento. Às amantes, a paixão. Essa era a forma que boa parte do mundo adotava para tratar do tema “casamento”.

Vou buscar na estante um artigo do historiador Philippe Ariès, sobre o “Casamento indissolúvel”. Você sabia que essa história de casamento indissolúvel é criação bem mais recente do que querem nos fazer acreditar? Acontece em algum momento entre o século 12 e 16. E, ao contrário do que a gente ouve falar, pode nem ter sido uma invencionice da Igreja: “o casamento indissolúvel foi uma criação espontânea das comunidades rurais”, diz o historiador. As uniões eram arranjadas e abençoadas pelas famílias. Bastava uma festa, uma celebração, promessas e a troca de algum dom: um anel, um beijo, um objeto de valor, estimado, e pronto! Lá iam os jovens esposos ensaiar os primeiros passos de sua nova vida à salvo da cobiça do vizinho, ao menos em tese…essas bodas domésticas que agitavam as aldeias chamavam-se, na França, créantailles, ou “promessas”. Embora ninguém realmente fizesse questão de impor nenhuma estabilidade, eram uniões feitas para durar — é até fácil imaginar a confusão que os troca-troca de esposas provocariam nas pequenas e sonolentas vilas amontoadas de gente que pontilhavam a paisagem da Idade Média na Europa — sim, durar, ao menos até que a morte levasse um ou outro dos cônjuges, o que acontecia com enorme frequência e bem antes do amor se esgotar…

E se entre os aristocratas, o registro era fundamental para definir quem seriam os filhos bastardos e quem seriam os herdeiros, entre os camponeses, a promessa bastava, a fala, diante de Deus, então não é mais importante do que todo o resto?

É só muito mais tarde, já no século 15 que os padres vão intermediar essas “promessas” a dois. E só no século 17 essas celebrações começam a acontecer dentro das igrejas e não na praça da aldeia. Aos poucos, o casamento vai saindo da esfera da família e do par e virando instituição, regida pelo Estado e pela Igreja.

E de lá para cá…bom essa é história mais conhecida. A gente fala, fala, mas casar virou um business, em muitíssimos casos, milionário!

Por outro lado…ainda bem que tudo que tem um lado, tem outros lados, certo? Então, por outro lado, aquele onde, aliás, desponta o novo, a promessa, a esperança, os jovens, cada vez mais reproduzem de alguma forma e em versão melhorada aquele modelo antigo, mais espontâneo, menos burocrático de relação. Juntam-se para testar os alicerces do amor, trocam promessas, quem sabe uma aliança, ainda que tosca, e eventualmente resolvem casar apenas na hora de formatar um projeto de vida comum, que, em geral, inclui concretudes como filhos, casa, cachorros…quem sabe não será nestes ninhos frescos que o amor vai reinar soberano como deseja Rubem Alves?

Depois de tantos anos casada com o mesmo homem, acredito nestas uniões feitas apenas com palavras, eternas, enquanto duram e enquanto conseguem expressar afeto e amor. Todo o resto, o papa tem razão, é uma praga…

O artigo de Rubem Alves você lê na Folha de S.Paulo – Rubem Alves: A praga – 20/03/2007

E encontra mais textos do professor na sua “Casa de Rubem Alves”

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/03/2007 - 19:04

Amma, a santa que abraça vem aí…

2007 promete. Além do papa, o Brasil vai receber Amma, a mestra hindu, que muitos já chamam de “santa” e outros comparam à Madre Tereza de Calcutá e a Gandhi. Amma, ou “A Mãe”, em hindu, tornou-se conhecida, mesmo no Ocidente, graças a seu estilo “peculiar” de
acolher os fiéis. A “Santa Viva”, como também é chamada, abraça (darshan) cada pessoa que consegue se aproximar dela, depois de enfrentar as filas intermináveis que se formam onde quer que a mestra vá, na Índia e no resto do mundo. Estima-se que ela já tenha “abraçado” mais de 20 milhões de pessoas.

Além desse estilo simpático e carinhoso, a mestra hindu, tem recebido inúmeros prêmios por sua atuação social. No site oficial, ela é apontada como a maior benemérita viva do mundo, o que, ainda que seja um certo exagero, não está nada longe da verdade. Em 2006, ela tornou-se Consultora Especial da ONU por sua atuação junto às vítimas do Tsunami.

Ficou curioso para saber mais? Entre no site oficial de Amma, a santa do abraço…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
18/03/2007 - 23:06

Enquanto o papa não vem…

Pois é, o papa Bento XVI chega em maio. E os preparativos da visita incluem, além de receitas especiais, lançamento de CD, obras em Aparecida…tem vereador propondo feriado, tem gente reclamando, tem quem não está entendendo nada…

O fato é que, se, desde o início de seu pontificado, Bento XVI teve que lidar com um rebanho desconfiado e um certo estranhamento alimentado por toda sorte de especulações, a situação hoje não parece tão melhor assim. Normal, diriam alguns, suceder o carismático João Paulo II no coração das pessoas não era mesmo tarefa simples. Mas…não dá um pouco a impressão de que às vésperas da visita do pontífice ao gigante católico da América o rebanho ainda não sabe muito bem o que quer mesmo seu pastor?

Entre a encíclica “Deus é amor” e a exortação apostólica Sacramentum Catitatis — o documento que sintetiza as propostas apresentadas pelos bispos do mundo todo, reunidos no Sínodo de 2005, cujo objetivo é ajudar o papa a tomar conta do seu rebanho –, as palavras de Bento XVI alimentam todo tipo de interpretações e provocam discussões sem fim entre os estudiosos que tentam traduzir suas idéias para espantados fiéis. Lembram da crise provocada pelo discurso no qual o papa citava o diálogo entre um imperador bizantino e um erudito persa do século 16 para pontuar o caráter desumano e cruel da doutrina islâmica? Lembram que antes disso, em 2004, enquanto ainda era cardeal, ele se pronunciou contra a entrada da Turquia da União Européia, porque, “como país muçulmano, ela contrastava com a Europa”? O papa não gosta de guitarras nem de “pop stars”, vetou a participação de Daniela Mercury no tradicional concerto de Natal do Vaticano em 2005 em função das opiniões da cantora a favor do uso de camisinha na prevenção da AIDS, propõe a volta das missas em latim, avisa o povo de Deus que os segundos casamentos são “uma praga”, alerta para o perigo da internet e deixa teólogos e estudiosos do mundo todo atônitos diante da responsabilidade de dar uma boa resposta à pergunta: qual é afinal a mensagem de Bento XVI?

Neste domingo, li e reli a entrevista do professor de Ciências da religião, Luiz Felipe Pondé, no caderno “Aliás”, do jornal O Estado de São Paulo. Fiquei pensando e pensando sobre a provocação do professor: “Bento XVI acha que ultrapassados somos nós, os modernos. E equivocados, os religiosos que misturam fé e política, Jesus Cristo e Che Guevara”…

Em outro artigo, no mesmo jornal, o cientista social, José de Souza Martins, defende a mesma idéia sob outro ponto de vista: num mundo globalizado, os cantos gregorianos e o latim usados nas missas funcionariam como uma espécie de linguagem universal, que, de certa forma, irmanaria todos os cristãos do planeta, de cores, tons e ambientes culturais variados. Segundo o estudioso, as exortações do papa, longe de serem manifestações de um pensamento conservador, são apelos contra a banalização do sagrado e a volta dos ritos e rituais que dão verdadeiro sentido à experiência religiosa.

Na outra ponta da corda, Fernando Altemeyer, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em entrevista para o portal Yahoo, discorda: “Nessa exortação, o papa retoma aspectos tradicionais e conservadores e, de certa forma, volta ao período anterior ao Concílio Vaticano II”.

Se a mensagem do papa confunde os especialistas, como ficam os fiéis? Ninguém imagina seriamente a possibilidade de um líder religioso defender o aborto ou a eutanásia, mas a camisinha????

Fico pensando que entre a doutrina e a prática religiosa deve existir um imenso espaço onde os homens “acontecem” de fato. É nele que a gente reflete sobre nosso destino humano e é ali que atualizamos nossa experiência de Deus.

Sim, a doutrina religiosa é maior do que cada um de nós, o tempo da Igreja é a eternidade, como diz o papa, e o pecado espreita em cada moita de capim, mas nem mesmo Bento XVI aconselharia suas ovelhas a seguirem os exemplos de vida dos patriarcas dos livros sagrados, não é? Então, por que imaginar que o uso da camisinha é questão tão fundamental assim? Por que alimentar essa e outras tantas e tão pequenas discussões? Será mesmo tão importante para a mensagem de Cristo que os casais se mantenham juntos mesmo à custa de sofrimento? Gays seriam mesmo piores cristãos?

O debate não vai terminar. Enquanto maio não chega e enquanto o papa não vem, cabe a nós todos tentar refletir sobre essas tantas mensagens, algumas, cá para nós, no mínimo, difíceis de serem compreendidas pelos mortais comuns, de Bento XVI. Afinal, mesmo que você se considere a ovelha negra do rebanho, não dá para ignorar as falas do pastor. Querendo ou não, aquilo que boa parte da humanidade vai pensar nas próximas décadas depende delas…

Leia aqui a entrevista de Luiz Felipe Pondé, no “Estadão”

No blog de Wagner Moura, de São Luís do Maranhão, uma discussão interessantíssima sobre o discurso do papa Bento XVI

E acompanhe aqui a contagem regressiva para a visita do papa ao Brasil, em maio

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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