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02/11/2010 - 11:42

Vivos e mortos

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A gente herda muitas coisas e nem sempre sabe exatamente o que fazer com as heranças que recebe.  Às vezes, há que se debruçar sobre as páginas gastas e buscar valor por baixo da poeira do vivido.

Não é diferente com as festas. Herdamos celebrações que atravessaram oceanos, aportaram nas nossas almas e cuja origem nunca nem soubemos. Somos guardiões de velharias que à luz do nosso dia a dia, parecem tão fakes quanto fantasias de camelô.

Feriado de Finados. Visto por este ângulo de sol a pino, parece mesmo apenas uma dessas celebrações velhas de sentido, a começar pela primeira das três festas associadas ao feriado, Halloween. Dia das Bruxas, Made in USA! Cruz, credo!

Não é bem assim. De todas as festas pagãs que sobreviveram e chegaram até nós, Halloween é talvez a mais antiga. E apesar de parecer coisa distinta do nosso Dia de Finados, faz parte da mesma celebração.

George Frazer, no livro clássico sobre mitologia, The Golden Bough, fala que Halloween era celebração de pastores. Porque as festas tradicionais, a gente sabe, são assim feito ponteiros de relógio, marcando no ano os tempos da vida.  Assim, para esses nossos pastores ancestrais, as festas ensolaradas de maio sinalizavam o momento de soltar o rebanho nos pastos. Na outra ponta do ano, Halloween avisava da hora de reunir os animais e demais pertenças e voltar para casa.

A colheita guardada nos celeiros, as árvores nuas, a terra em latência, o silêncio adivinhado dos animais, tudo na natureza convidava à grande romaria de volta para casa. E as fogueiras, acesas nas portas, sinalizavam o caminho para os vivos… e os mortos.

Afinal, por que não?

Pois se são apenas os corpos que afastam as almas…

E de fato, Halloween no inglês ancestral falado pelos Celtas que habitavam Lands End, aquela pontinha da Inglaterra que avança no Oceano Atlântico, significa algo como ‘a véspera de todas as almas’, a versão celta do nosso Dia de Todos os Santos.

Dizia-se que na passagem do outono para o inverno, o ar ficava mais fino e mais permeáveis as fronteiras que separavam o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.

E junto com os mortos queridos, vinham as almas torturadas em busca do calor do fogo e das orações dos vivos, assombrações e espíritos malévolos. Bruxas voavam sobre os rebanhos em vassouras ou galopavam pelos campos frios montadas em enormes gatos malhados. E as fadas e outros seres das florestas ousavam exibir-se aos embasbacados olhos humanos. Era um tempo propício para adivinhações, presságios, apostas no futuro. Quem vai morrer, quem vai viver para acender o próximo fogo, essas eram as perguntas de Halloween.  Tempo de mistérios…

O costume de celebrar esse ir e vir das almas entre os mundos vai resistir ao cristianismo e, em 844, o bispo de Roma, Gregório IV proclama o caráter universal da Festa das Almas dos Mortos e a festa de Todos os Santos, dois dias para pausar a vida e festejar a morte: 1 e 2 de novembro.

Herdamos o Dia de Finados, a peregrinação aos cemitérios, as velas e as oferendas aos ancestrais, as rezas humanas que as almas do purgatório dizem que ouvem. Herdamos o Dia de Todos os Santos, as missas e as preces feitas aquelas criaturas especiais, que embora usufruindo das visões beatíficas do céu, ainda acham tempo de ouvir os lamentos humanos.

Cada santo tem seu dia, mas hoje a festa é dos santinhos miúdos, humanos e corriqueiros, a menina milagreira, a velha que benzia as crianças, o padre sempre disposto a ajudar. Gente comum, vivendo a santidade possível de todos os dias.

Hoje, a romaria leva aos cemitérios, ponto de encontro, sala de visitas. Na casa dos mortos, os vivos celebram a certeza de que são apenas as durezas do mundo que separam as almas.  E levam lágrimas, velas, comidas e doces para animar a conversa…aceita um cafezinho, avó?

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A foto, cujo título é Dois de Novembro no Cemitério de San Gregorio, no México, é da AP, tirada pelo fotógrafo Marco Ugarte e apareceu na reportagem fotográfica do Big Picture, o blog de fotos do jornal Boston.com, em novembro de 2009.


Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , ,
12/10/2010 - 20:26

Festa da Padroeira

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Hoje é Dia da Padroeira. Para os católicos, dia de procissão, de festa, antecipada na alma às vezes por muitos meses…

E revendo as imagens da devoção dos fiéis à Nossa Senhora Aparecida, fiquei pensando nos padroeiroes, esses protetores das gentes e das coisas das gentes. A palavra “padroeiro” vem de protetor, de defensor. E o costume de dedicar igrejas, edifícios, barcos, cidades e países para um protetor celestial é muito, muito antigo.

Ao contrário dos católicos ortodoxos, os católicos do Ocidente sofrem de saudades. Afastados dos locais da história sagrada, longe dos caminhos e dos símbolos que emprestariam concretude maior a sua fé, eles vão encontrar nas relíquias dos santos, dos mártires e da Virgem Maria presença e consolo. Órfãos da geografia sagrada, vão buscar na devoção ao santo proteção celestial e cuidado, numa relação viva, quente, dinâmica que reproduz direitinho as complicadas relações que vão se estabelecendo entre as pessoas a partir da Idade Média. De um lado, os poderosos, cujo dever era cuidar, do outro, o povo, que trocava essa proteção por trabalho, dedicação, reverência. São padrinhos e afilhados, senhores e servos, figuras nossas conhecidas dos livros de história, agora com a benção do santo que vai salvar de todos os males, ajudar nos casos de amor, assim como castigar a falta de dedicação e o descaso.

Na Europa, além de escolher um padrinho e uma madrinha para o recém-nascido, as mães se apressavam em escolher um padrinho ou uma madrinha celestiais entre os santos, os anjos, o próprio Jesus Cristo e sua mãe, a Virgem Maria, havia que proteger as crianças sozinhas no berço dos feitiços, dos quebrantos, dos olhos invejosos.  Porque se com Deus a relação é de temor e distante reverência, com os santos o relacionamento é mágico e íntimo, feito de promessas, de orações, de serviços mútuos prestados ali mesmo, no reme-reme da vida.

A força desta relação só vai crescer, marcada pelas festas em honra ao padroeiro da cidade ou da aldeia e pelas peregrinações aos lugares sagrados onde se exibiam as relíquias do protetor favorito.

Nossa Senhora, como Mãe de Deus, será a campeã dos benfeitores. Mas de um jeito seu, muito peculiar. Nossa Senhora “aparece”. Não é escolha, nem decisão, muito menos coisa imposta. Na devoção do povo, Nossa Senhora de vez em quando visita seus filhos e eles a encontram, ora no topo de uma colina, ora numa gruta, ora tirando-as de dentro das águas em milagrosas pescarias. São literalmente Nossas Senhoras Aparecidas.

A mais famosa história de aparição de Maria na América é a de Nossa Senhora de Guadalupe, a Padroeira do México, que surgiu diante do índio Juan Diego, na colina Tepeyac, perto de onde hoje é a Cidade do Mexico, entre 9 e 12 de dezembro de 1531, e estampou o manto do camponês com sua imagem milagrosa.

No Brasil, Nossa Senhora chega trazida pelos marinheiros. E se deixa encontrar pela primeira vez por Caramuru, na Bahia, já em 1530. A imagem também milagrosa, era de Nossa Senhora das Graças, e foi colocada numa capela mandada construir pela índia Paraguaçu, mulher de Caramuru.

Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, foi achada em 1717 pelos pescadores Domingos Garcia e Filipe Pedroso, que jogavam suas redes no rio Paraíba. Assim como Nossa Senhora de Guadalupe, é preta, dizem que por ter ficado muito tempo dentro d´água. Os fiéis não acreditam. As “Virgens Morenas” tem a cor mestiça dos seus filhos.

E há de ser por tal afinidade com a vida, que no vídeo do You Tube, a chamada da TVAparecida não tem o tom solene que a gente poderia associar com uma celebração religiosa, ao contrário, o clima é de espetáculo, de show. A Padroeira quer seus filhos em festa, ao menos hoje.

Veja o momento solene da Consagração a Nossa Senhora Aparecida, direto do Santuário Nacional no dia 12 de outubro. Da TVAparecida.

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , , , ,
31/12/2009 - 19:25

Rumo a um Novo Ano

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Ano Novo

O novo está bem longe de ser uma unanimidade. Para alguns, ele chega como um frio na barriga, um medo de não sei o que, uma vontade de sair correndo pela primeira porta que aparecer. Outros, porém, conseguem ficar mais à vontade com as surpresas do futuro e acolher as novidades com alguma tranqüilidade. Mas, de modo assim bem geral, o novo assusta. No limite o Grande Novo, aquele para o qual evitamos sempre olhar e de quem pouco ou nada sabemos é a Morte, este mergulho no absolutamente…novo! 

E por conta desta semelhança, paira uma suspeita sobre tudo que é novo. Sim, porque é preciso não confundir o novo com a novidade. As novidades são ligeiras e frívolas. Chegam alegrinhas, tristonhas ou alvoroçadas, mas sem dramas nem mistérios. O novo, ao contrário, tem a solenidade do desconhecido, e chega no compasso das grandes aventuras e dos chamados mais misteriosos.  

Ao longo dos tempos, o novo foi a floresta, o abismo, imensos oceanos azuis, abóbadas celestiais. Mais recentemente, descobrimos que ele habitava em nós. Do outro lado do espelho um universo de estranhezas desconhecidas nos olhava e nos convidava a entrar. O Admirável Mundo Novo, de que falava o escritor Aldous Huxley nos anos 60, nós começamos a construir todos os dias, dentro de nós. 

Ah, o novo e seu inevitável parceiro: o começo. Quer coisa mais difícil do que começar algo novo? Dar a partida no motor do futuro, assim sem mapa, sem rumo, sem garantias…Arrancar a gravata, soltar as amarras, levantar âncoras, remover os entulhos e entulhos de velharias e partir. Próxima parada? Quem sabe? Onde o destino mandar talvez, que o novo não obedece a ninguém.  

Não senhor, temos muito medo do novo, de seu compromisso com a liberdade e de seu comando para a mudança. Confiamos que o jeito de sempre, se não nos traz felicidade, pelo menos nos deixa entorpecidos de cotidiano e…assim vamos ficando. Ano que vem paro de fumar, ano que vem mudo de emprego, ano que vem emagreço, ano que vem saio desta relação que me faz sofrer, ano que vem… 

E se este ano, só para variar, a gente desejasse de coração um Ano Novo bem novo. Faremos assim todos juntos, à meia-noite, vamos olhar para algum ponto bem longe à nossa frente – o mar, o mato ou a casa do vizinho – e desejar que 2010 nos traga nossa cota de novo e prometer, obedientes,  que vamos recebê-lo com coragem, que seremos, afinal, merecedores deste presente. Vamos então fechar os olhos. E neste instante, bom, ninguém sabe com certeza,  mas uns hão de sentir um arrepio na espinha, alguns dirão depois que foram abraçados por uma onda de  ’calor’, outros virarão as costas dizendo, ‘ora, que bobagem’! Mas pode ser que desta vez, os anjos digam sim e a gente consiga montar na garupa das mudanças que vão nos levar aos nossos sonhos.

Minha amiga Ceres mandou para os amigos a imagem que inicia este post. Em 2010, espero ver você na estação da alma de onde partem os pássaros a caminho do desconhecido…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração Tags: , ,
24/12/2009 - 08:29

Os amigos e o Natal

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Mais uma vez está chegando a hora de fazermos juntos a grande mágica de fechar um ciclo e abrir outro. Mais uma vez nos é dada a chance de fazer um acerto de contas do ano que vai acabando, para entrarmos frescos e mais leves no ano que vai começar.

Antes disso, no entanto, muita festa, muitos encontros, muita alegria e, é claro…brindes!

Este ano, enquanto estivermos esperando a meia-noite do dia 24 para saudar o nascimento do Menino-Deus, queria muito levantar um brinde especial, um brinde aos amigos!

Rubem Alves, no prefácio da edição brasileira de um livro des estórias lindo de um pedagogo português chamado José Pacheco e com o título mais do que convidativo de “Quando eu for grande, quero ir à primavera“, diz:

“Fernando Pessoa escreveu a mais bela declaração de amor que existe: ‘Quando te vi amei-te muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei…’ Na minha fantasia imagino que ele a escreveu para uma mulher. Mas penso que coisa parecida poderia ter sido escrita para um homem. Porque há homens que escontramos e quase instantaneamente vem a surpresa do reconhecimento! Misteriosamente, já éramos amigos em tempos imemoriais, anteriores a esta vida. Antes que se diga qualquer palavra já existe a compreensão. Não é preciso explicar. Disso sabia o Riobaldo (personagem de Guimmarães Rosa): ‘O senhor mesmo sabe. E se sabe, me entende...’ Já tive esta experiência várias vezes. E aprendi que a amizade não acontece por meio de construções temporais sucessivas. A amizade irrompe repentinamente no tempo, como uma dádiva da eternidade. Tal como aconteceu com Jean-Christophe, o herói adolescente de Romain Rolland. Já conhecera muitas pessoas. Mas aquele encontro era diferente. Voltando para casa à noite, seu coração cantava: ‘Tenho um amigo, tenho um amigo…‘”

Sim, amigos, daqueles que são verdadeiros companheiros de viagem. Que nos emprestam seu olhar para a gente se descobrir através deles, mergulhando neles…

Amigos com quem a gente possa conversar absolutamente nus. Desvestidos das nossas máscaras e das nossas funções.

Amigos com quem ficar em silêncio, ouvindo as estrelas ou o barulho do mar.

Amigos que compartilhem os brindes e não tenham pressa de ir embora.

Amigos que cozinhem juntos e ajudem a lavar a louça depois.

Amigos com quem possamos viajar para lugares distantes ou para dentro de nós mesmos, sempre com o mesmo entusiasmo.

Amigos que nos conheçam bem e gostem de nós por causa disso e apesar disso.

Amigos assim, que façam a gente se sentir melhor, um pouquinho melhor que pensamos que somos.

Amigos com quem possamos fazer o exercício do encontro e do desencontro, com a alma leve de quem sabe que nada realmente é importante. Apenas o amor é que conta, sempre!

Um brinde a vocês todos, amigos virtuais, tão longe e tão perto…e Feliz Natal!!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Inspiração Tags:
22/11/2009 - 18:46

O poder da oração

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Praying-japanese-style por Jesslee Cuizon, Kalandrakas

“Através da oração…a energia que estava aprisionada é colocada em liberdade e, de alguma forma, objetiva ou subjetiva, interfere no mundo dos fatos.” William James, psicólogo e filósofo norte-americano.

Se alguém perguntasse: “Algum dia você já orou?”, é quase certo que a resposta seria um sim. Mas orar não é assim tão fácil. Não estamos falando das preces apressadas que a gente faz por hábito ou pensando nas contas para pagar e no dentista do caçula. A verdadeira oração envolve dois movimentos da alma: sentir a presença de algo sagrado e desejar, consciente e intensamente, entrar em contato com esse “ algo”. Não é um privilégio de uma ou outra religião. E nenhuma religião é completa sem esse ato. O desejo de um diálogo com o sagrado, transforma-se, nas palavras dos grandes místicos, na experiência de unir-se, de tornar-se  “um” com o divino. “Eu sou tu e tu és eu”, proclamam com palavras idênticas o poeta sufi do Islão, Jalal ad-Din ar-Rumi e a mística cristã Ângela da Foligno. Isso é orar. 

Por que orar é importante?

Mesmo que você não pretenda chegar ao êxtase experimentado pelos maiores místicos,  qualquer pessoa pode extrair grandes benefícios da oração. Segundo o psicoterapeuta Arnaldo Bassoli, o desenvolvimento psíquico passa pela constatação de que existem forças poderosas atuando dentro de nós. Se você não entrar em contato com elas, fica aprisionado no ego e sente um enorme vazio. A oração seria uma das ferramentas para estabelecer esse contato. “A ampliação da consciência, esse fenômeno de suspensão do tempo e do espaço, esse arrebatamento que todos buscam, está aí, o tempo todo, virando a esquina” diz o psicoterapeuta, “basta estar preparado, escolher um bom guia, experimentar um pouco e enfrentar com seriedade suas escolhas”.

Para mudar de vida…

Muitos de nós ainda confundem orar com suplicar. A própria palavra “oração” vem do latim e quer dizer “pedido”.  Não se culpe. A súplica é o início do contato. Aprender a orar é um exercício de altruísmo e de disciplina.

O Dali Lama ensina: “ A disciplina interior envolve o combate aos estados mentais negativos, como a raiva, o ódio e a ganância, e o cultivo de estados mentais positivos, tais como a benevolência, a compaixão e a tolerância.” Não é a nossa vida que muda, ou a natureza à nossa volta que fica diferente. É o significado que nós atribuímos à nossa vida ou às coisas que se modifica em contato com essas energias espirituais. “É como olhar para uma pessoa sem amor e olhar para a mesma pessoa com amor”, diz William James, psicólogo norte-americano que viveu no início do século. A diferença é imensa. Cultivar esses valores tem que se tornar parte da nossa vida diária. “Aplicai toda a diligência em juntar à vossa fé a virtude”, aconselha São Pedro (2 Pedro 1, 5-7).

Aprender a orar também exige uma certa humildade. No início, você provavelmente vai se sentir um papagaio, repetindo fórmulas sem perceber que elas têm uma ressonância. É cansativo, mas, aos poucos, seu estado interno de agitação vai mudando e, segundo os budistas, emerge a verdadeira natureza da mente: a compaixão.

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A foto chama-se Praying the Japanese Style, é do arquivo de Creative Commons do Flickr, do álbum de Jesslee Cuizon, Kalandrakas

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
28/09/2009 - 13:28

Dia de Perdoar

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Yom Kippur/David Silverman/Getty Images

Hoje, 28 de setembro, os judeus de todo mundo estão celebrando Yom Kippur, o Dia do Perdão, que encerra um tempo sagrado do judaísmo, os Dias Terríveis. E “terríveis” porque até hoje, antes da noite chegar, cada judeu e todos os judeus tem a missão de rever seus atos, arrepender-se das suas faltas, buscar a reconciliação com seus semelhantes e, afinal, “trancar-se dentro da alma com D’us”, a última instância desse processo profundo e sagrado que é o perdão.

Hoje recebi esta oração, chamada Confissão de Yom Kippur (Al-Chet) que corri o risco de traduzir livremente apenas para compartilhar com vocês pelo caráter universal da prece:

Pelos erros que cometemos diante de Ti por intolerância e egoísmo

Pelos erros que cometemos diante de Ti por dureza de coração

Pelos erros que cometemos diante de Ti por palavras que saíram de nossa boca

Pelos erros que cometemos diante de Ti pelo discurso áspero

Pelos erros que cometemos diante de Ti por termos ferido um amigo

Pelos erros que cometemos diante de Ti por desrespeitar pais e mestres

Pelos erros que cometemos diante de Ti no exercício do poder

Pelos erros que cometemos diante de Ti tanto em relação aqueles que sabem quanto aqueles que não sabem

Pelos erros que cometemos diante de Ti por suborno

Pelos erros que cometemos diante de Ti por mentiras e falsas promessas

Pelos erros que cometemos diante de Ti pelas palavras negativas

Pelos erros que cometemos diante de Ti no comer e no beber

Pelos erros que cometemos diante de Ti por arrogância

Pelos erros que cometemos diante de Ti por falta de pudor

Pelos erros que cometemos diante de Ti porque falhamos em assumir responsabilidades

Pelos erros que cometemos diante de Ti por inveja

Pelos erros que cometemos diante de Ti por raiva ou ódio

Pelos erros que cometemos diante de Ti a cada vez que não estendemos a mão

Pelos erros que cometemos diante de Ti porque nossos corações estavam confusos…

 

Ao cair da tarde de hoje, depois de 25 horas de absoluto jejum, os judeus saem desse exercício de confissão renovados, alma lavada.

E é assim, com o coração em paz, que eles fecham os Dias Terríveis desejando que “D’us tenha incluído a todos no Livro da Vida por mais um ano”…e que no ano que vem eles possam se encontrar, em Jerusalém!

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
14/09/2009 - 10:36

Aprender a morrer

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Joy for the death_Cocayhi

Morremos mal hoje, escondidos, envergonhados, atrás das portas automáticas das UTIs; morremos sozinhos, feito aparelhos velhos, ligados inutilmente nas tomadas.

Morremos de morte morrida, fatal, trágica, de susto, morte de motoboy. Morremos de doenças cujo nome não ousamos pronunciar porque elas vem insinuadas de culpas, morremos como castigo…

Morremos desajeitados, fora de contexto: qualquer um que já tenha se internado num hospital sabe que ali não se vai para morrer, ao contrário, médicos e enfermeiros são treinados para salvar vidas, soldados de uma guerrilha feita de vitórias sempre provisórias. Os que vão morrer que desculpem, saiam da frente, por favor, desocupem os leitos, são tantos para salvar…a morte nos hospitais chega invariavelmente com jeito de derrota! Deus é o grande adversário ou o grande ausente!

Morremos mal hoje, perplexos e desconfiados, e tudo que podemos desejar é que não doa!

Essa morte de todos os dias, corriqueira, tão desnecessária, apavora e desconcerta, entendemos as desgraças, as grandes tragédias, sobretudo porque elas são plurais, anônimas: morte de bando, contada às dezenas, centenas e milhares parece menos morte…

Será que é possível morrer bem? Não falta quem aposte que sim.

Não que a morte deixe de nos meter medo, fim e finitude são palavras que usamos para definir nossa humanidade, reservamos a eternidade, a imortalidade, aquilo que é ilimitado, para além de qualquer fronteira e de qualquer experiência possível, para os deuses, nós, os homens, sabemos que vamos morrer, mais dia menos dia…A morte, como diriam os budistas, não é uma questão de SE, é uma questão de QUANDO…

“A vida e a morte são vistas como um todo, onde a morte é o começo de um novo capítulo da vida, um espelho no qual o inteiro significado da vida é refletido”, ensina Sogyal Rimpoche, no Livro Tibetano do Viver e do Morrer.

Incluir a morte dentro da vida, tirá-la deste “não-falar”, trazê-la para a luz, é um desafio, um aprendizado e um exercício de amor incondicional!

Há muito trabalho a fazer…e muita gente trabalhando para ajudar as pessoas a morrerem uma “boa morte”. Três pistas para ajudar na sua pesquisa sobre o assunto.

Para começar: conheça Elisabeth Kübler-Ross
Na década de 80, Elisabeth Kübler-Ross, uma psiquiatra suíça, lançou um livro revolucionário: On death and dying. Elisabeth foi uma pioneira, estudiosa dos meandros da morte e do morrer (o nome grego complicado é tanatologia, de thanatos, morte e logia, estudo) e ativista dos direitos dos pacientes terminais em relação à própria morte. Foi eleita uma das cem personalidades do século pela revista Time, escreveu dezenas de livros sobreo tema e passou a vida ensinando médicos e enfermeiros que, para lidar com a morte dos outros, é preciso antes elaborar suas próprias questões espirituais: “Para aqueles que buscam compreendê-la, a morte é uma imensa força criativa. As mais profundas reflexões espirituais sobre a vida, têm sua origem nas reflexões e estudos sobre a morte”.

Para saber mais, visite o site da ERKFoundation

Um lugar para morrer
Ajudar a morrer, virou um ramo da medicina, chamado medicina paliativa e, embora ainda haja muito a fazer para tornar esse assunto menos tabu, a situação já foi pior. Nos anos 1970 e 1980, a psiquiatra Cecily Saunders lançou o Movimento Hospice. Hospices são lugares especiais onde as pessoas podem ir para morrer em paz, num ambiente tranqüilo e espiritual, cercadas da mais moderna tecnologia para aliviar a dor e dar conforto a quem se prepara para morrer (em alguns países você também pode optar por ficar na sua própria casa e receber o atendimento de um Hospice). O nome é emprestado da Idade Média. Era assim que os monges chamavam o lugar onde recebiam os viajantes cansados e doentes.

Em alguns países, como Inglaterra, Espanha e Canadá os hospices estão se tornando comuns, no Brasil as iniciativas ainda são raras, mas no Sítio Vida de Clara Luz, por exemplo, fundado em 2004, por Bel Cesar, psicóloga e budista, que desde 1991 dedica-se a acompanhar pessoas com doenças terminais, existem espaços destinados a funcionar como Hospice.  Mais informações você consegue no site do Centro de Dharma.

Aprenda: um curso para ensinar a morrer
O dr. Franklin Santana Santos é médico e professor na USP da cadeira de “Tanatologia – Educação para a Morte”. Graças a ele muitos esforços e reflexões isoladas sobre o tema estão confluindo e o resultado são os dois volumes do livro A Arte de Morrer, compilação de trabalhos de especialistas em diversas áreas, da medicina à religião, relacionados à morte e ao morrer.

Essa abordagem multidisciplinar ele também adota no Curso de Tanatologia da FMUSP – Educação para a Morte – Uma Abordagem Plural e Interdisciplina. O objetivo é sensibilizar os profissionais das várias áreas para a questão da morte e ajudar a construir uma cultura que ajude as pessoas em geral e os pacientes terminais dos hospitais do país a morrerem com mais dignidade. A boa notícia é que você pode fazer o curso presencialmente, caso esteja em São Paulo,  ou online, da sua casa, em qualquer lugar.

Para conhecer esses trabalhos, navegue pelo site Saúde e Educação

E descubra o jeito budista de ver a morte no Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, publicado pela Palas Athena.

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A foto é de Adrian Mohedano, mexicano, e foi tirada em durante os festejos  do Dia dos Mortos, em 2007. No México o Dia dos Mortos é uma festa de luzes (para guiar os espíritos que vem visitar suas famílias), muitas flores, boa comida, bebida farta e muitos amigos em volta!

Leia mais sobre o Dia dos Mortos no México

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver Tags: , , , , ,
22/08/2009 - 21:08

Agosto, mês de Pachamama

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alegria_pachamama

Agosto é mês de Pachamama, a Mãe Terra dos nossos vizinhos de América, do Peru, da Bolívia, do Equador e das regiões selvagens do noroeste da Argentina.

Nada a ver conosco? Não sei…quando nossos olhos se voltam para a porção Sul da América, sempre tenho a impressão de que vamos ficando meio míopes, e só enxergamos aquela linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, lembram dele? Aquele que portugueses e espanhóis usaram para delimitar suas posses no “Novo Mundo”…e que, como sempre acontece com estas “linhas imaginárias” que os políticos usam para dividir o planeta, ignorou as matas, os cerrados, os animais, as histórias e as águas que compartilhamos…ficaram os cumes das montanhas, a distância…horizonte, para nós, ficou sendo o mar e as terras, mais além do mar…

Não faz mal, sempre é tempo de olhar para o umbigo da América. E se você resolver olhar nesta direção, vai descobrir que temos, sim, uma infindade de coisas a ver com nossos vizinhos do outro lado da mata, do outro lado das grandes montanhas dos Andes.

Pachamama, por exemplo. Agosto para mim era cercado por uma aura de desconforto. Mês de desgosto, diziam os antigos. Mês de mau-agouro. Isso durou até eu descobrir que agosto é mês de Pachamama, a Mãe Terra dos povos incas e quechuas. “Pacha”, em quechua é universo, mundo, é o tempo e o espaço onde se desenrola a vida. “Mama”, é mãe. Pachamama é a divindade que gera todas as coisas, os seres, a mata, as sementes…tudo existe primeiro no seu útero. A terra é seu corpo e tudo que está sobre ela é manifestação, é presença divina. Pedras, rochas, grutas, são tesouros escondidos, jóias preciosas deixadas aqui e ali pela deusa para sinalizar lugares sagrados. Neles, a Mãe Terra se abre e se expõe.

Dizem também que, no início, quando os seres viviam próximos aos deuses, as festas que celebravam os tempos do plantio e das colheitas eram momentos únicos, especiais. Porque durante estes tempos sagrados, a Mãe Terra se abria, pronta para ser fertilizada pelos espíritos do céu. A tarefa das gentes era ajudar os deuses a se unirem, com oferendas, presentes e sacrifícios. E assistir, em cada ato da vida, à representação do casamento divino.

Com o tempo, a Mãe Terra foi assumindo o rosto de outras “mães”. Contam, por exemplo, que ela está por trás da devoção à Virgen de Salta y Jujuy, na Argentina, a quem os fiéis oferecem ainda hoje comida e vinho. Mas não é só ali que o ritual se repete, sempre em agosto. Peruanos e bolivianos também compartilham o costume da “challa”. A palavra quer dizer verter, derramar, regar. Incorpora a idéia primordial de “reciprocidade” dos seres humanos em relação aos deuses. Afinal,  é preciso agradecer a Pachamama pelas bençãos da terra, pela vida renovada a cada ano. E o ritual consiste em derramar na terra um tantinho de chica, um tipo de aguardente de milho ou em enterrar um pote com comida no jardim.

Agosto, para mim, agora tem um sabor especial. Mesmo tão longe das altas montanhas e dos seus tempos sagrados, nao dá para evitar sentir um certo arrepio a cada vez que compartilho um golinho de vinho com a Pachamama…mesmo que o corpo da Mãe Terra tenha só o tamanhinho do meu jardim…

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , , ,
21/07/2009 - 13:01

A barba do profeta

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Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY) Reuters   

De onde será que vem nossa quedinha ancestral por relíquias? Hoje, na Índia, muçulmanos da Caxemira estão se reunindo em volta da mesquita de Hazratbal para celebrar o ‘Meeraj-un-Nabi’, a ascensão do profeta Mohammed ao céu. Durante a celebração, os devotos buscam a chance única, mágica, e que bem vale alguns socos e empurrões, de tocar um tufo de cabelo que, acredita-se, seria da barba do profeta.

A palavra “relíquia” remete a “restos”, no sentido que a gente fala de “restos mortais”. Relíquias são pedacinhos de seres considerados maravilhosos e que são veneradas porque de alguma forma a gente gosta de pensar que a santidade é coisa tão poderosa que seria possível adquirirmos um pouquinho dela, apenas por tocar, apenas por estar perto. Impregnadas de sagrado, insufladas do mistério divino, as relíquias em todas as religiões atraem fiéis, por mais macabro que esse movimento possa aparecer para os não-crentes.

Hoje, são os muçulmanos da Índia que buscam compartilhar a barba abençoada do profeta, mas amanhã serão os budistas que celebrarão as relíquias de Buda, no Sri Lanka, apesar do próprio Buda ter pedido para que os fiéis evitassem esse tipo de veneração. Do lado cristão, os mártires sempre proveram a alma dos fiéis de infindáveis relíquias. Mas as relíquias de “primeira classe”, essas são relacionadas ao Cristo e a tudo que possa ter tocado, ainda que de leve, seu corpo humano de deus vivo.

Relíquias, coisa esquisita…mas, sabem, quando entrei na Basílica de Ste-Madeleine, em Vézelay, França, com suas paredes de pedra polida e coração de gruta, e parei diante do nicho onde estão guardados os restos da santa, fui envolvida pelo silêncio que cerca todos os imponderáveis.  Mais que isso, eu podia jurar que tinha “me tornado” esse silêncio espantoso!

Pior, os restos na cripta não são os originais, que atraíram milhares de peregrinos a Vezelay durante a Idade Média, e foram queimados pelos calvinistas no século 16, durante as guerras religiosas. Estes vieram para a diocese como presente do Arcebispo de Sens, em 1876. E no entanto…

Amanhã, dia 22 de julho, é dia de santa Maria Madalena. Amanhã, mesmo achando relíquias coisas muito estranhas, sei que vou lembrar destes momentos em que não estamos mais separados, só nós e nossa pequeneza. Ali, ao alcance da mão, o objeto mágico nos lembra que somos mesmo pedaços de pedaços de pedaços, fragmentos divinos…tocando de levinho uns nos outros, às vezes…

Deve ser por conta disso, que o tufo da barba do profeta vale o esforço, as cotoveladas, o cansaço!!!!

A foto é da Reuters, tirada por Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY)  

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
15/06/2009 - 16:05

Falando de Iansã

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Desde que conheci Sophia de Mello Breyner Andresen, mergulho todos os dias neste mar encantado de que ela fala.

Os versos e a voz de Maria Betânia cantando as “senhoras” divinas, Nanã, Oxum, Iemanjá, têm me feito companhia de manhãzinha, são eles que me acordam…

O cd, Mar de Sophia, homenagem à poetisa, é belíssimo, você com certeza vai gostar também. Mas preste atençao quando a cantora invoca Iansã…

Vamos chamar o vento“, Dorival Caymmi sussurra com a voz de Betânia, “Vamos chamar o vento“…

Depois, empresta a voz para Sophia, poeta do mar cantar um ser fabuloso: a Procelária.

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firma e certa como bala.

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo”

Procelária: uma ave, uma mulher, ou todas as mulheres que vivem e cantam no mau tempo.

A história de Iansã Oiá, literalmente, “aquela que rasga”, e que eu reconto aqui é para elas:

Iansã Oiá tinha um pai adotivo e vivia com ele na mata.
Ele era o maior de todos os caçadores.
Um dia, morreu e deixou Oiá muito triste.
Ela decidiu que queria fazer uma homenagem para o pai.
Embrulhou seus pertences de caça num pano, preparou suas iguarias favoritas.
E dançou e cantou por sete dias, espalhando seu vento por toda parte e fazendo vir todos os caçadores da terra.
Na sétima noite, embrenhou-se na mata e depositou ao pé de uma árvore sagrada os pertences de seu pai.
Olorum, que sempre vê tudo, ficou comovido.
Fez da jovem Iansã guia dos mortos no caminho sagrado, Orum Aiê e mãe dos espaços dos espíritos.
Fez de seu pai, Odulecê, um orixá.
E do gesto de Oiá, o ritual ao qual todos os mortos tem direito: comidas, cantos, danças e um espaço sagrado…
 
Iansã teve muitos homens e de cada um ganhou uma coisa importante:

De Ogum, o ferreiro divino, ganhou nove filhos e o direito de usar a espada para defender-se e defender os outros
De Oxaguiã, o jovem construtor, ganhou um escudo para proteger-se dos inimigos
De Exu, o mensageiro, ganhou o direito de usar a magia e o poder do fogo para realizar desejos
De Oxóssi, o caçador, ganhou o saber da caça para alimentar seus filhos
De Logun Edé, o senhor das matas, ganhou o direito de tirar das cachoeiras os frutos dágua para seus filhos
Com Xangô, o juiz, viveu o resto da vida e ganhou dele o poder do encantamento, o posto da justiça e o domínio dos raios.
 
Um dia, houve uma festa, todos os orixás estavam presentes.
Omulu-Obaluaê, o temido orixá das doenças, chegou vestido de palha. Ninguém o reconheceu e nenhuma mulher quis dançar com ele.
Mas eis que de repente, Oiá-Iansã entra na roda e atrave-se a dançar com o Senhor da Terra.
E tanto girava que levantou o vento, e o vento descobriu a palha de Omulu.
Todos puderam ver o quanto ele era belo.
E o reverenciaram.
Ele ficou tão grato que fez de Oiá a rainha dos espíritos dos mortos, Oiá Igbalé, a condutora dos eguns, os espíritos dos mortos).
E ela dançou de alegria a sua dança que convoca o vento.

As filhas de Iansã devem ser assim, apaixonadas, amantes dos temporais, amazonas de ventanias…

Leia mais histórias dos orixas no livro Mitologia dos Orixás de Reginaldo Prandi

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Histórias Tags: , ,
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