Ele é um dos pioneiros da internet brasileira e está à frente da campanha digital da presidenciável Marina Silva. Caio Túlio Costa é jornalista, professor de ética jornalÃstica, doutor em Ciências da Comunicação e um dos principais pensadores brasileiros de nova mÃdias.
Minutti: Em seu livro “Ética, Jornalismo e Nova MÃdia”  você cita as obras do pintor Velázquez (1660) e dos filósofos Descartes (1650) e Spinoza (1667) como sendo a espinha dorsal do jornalismo. Passados alguns séculos e considerando a transformação que as mÃdias sociais estão promovendo na forma como as pessoas interagem e consomem conteúdo, como você analisa o atual momento do jornalismo e da indústria da mÃdia? As regras do jornalismo tradicional ainda são válidas nos dias atuais?
CTC: Uso Velázquez, Descartes e Spinosa para me ajudarem, com suas obras, na formulação do jornalismo enquanto representação da representação. O jornalista representa aquilo que outro (fonte, testemunha, vÃtima, protagonista…) representa para ele. A espinha dorsal do jornalismo tal como ele se constitui industrialmente e conceitualmente está no alemão Tobias Peucer, que escreveu uma tese de doutorado em 1690 e nela se encontra as bases do jornalismo tal qual o conhecemos. Sim, as regras do jornalismo tradicional continuam válidas e o jornalista continua com seu importante papel de mediador, de representante e de representador das representações que lhe fazem ou que ele investiga. Mudou foi o fato de que a tecnologia da comunicação em rede deu poder de mÃdia a qualquer indivÃduo, a qualquer cidadão, a qualquer instituição, qualquer empresa… Isso não quer dizer que o jornalismo acabou. Ao contrário, ele precisa, agora como nunca, ser melhor praticado.
Minutti: Com o uso massivo de redes sociais, blogs, fóruns e outros serviços de colaboração online, as relações entre consumidores e marcas/produtos têm mudado muito nos últimos anos. Você acredita que as empresas estão preparadas para interagir com este novo consumidor?
CTC: Não, elas ainda não estão preparadas, apesar de existirem as exceções que confirmam essa regra geral. As empresas e corporações estão tentando ainda compreender quais transformações estão em curso. Estão tentando entender que isto que se chama de “transição” é, de fato, uma “transição permanente” por conta da velocidade com a qual as mudanças tecnológicas vão acrescentando novos desafios de entendimento para a comunicação em rede.
Minutti: Trazendo a questão para a esfera da polÃtica e analisando a relação entre candidatos e eleitores, qual a relevância das estratégias digitais para o resultado das eleições deste e dos próximos anos?
CTC: Para a eleição atual, de 2010, a relevância é relativa, pequena. Estamos começando a trabalhar em rede digital e estamos aprendendo. No futuro, o uso de ferramentas digitais mais complexas, como as que formam o CRM (Costumer Relantionship Management), serão fundamentais tanto quanto o trabalho de agitação (no bom sentido) e monitoriamento das redes.
Minutti: Muitos especialistas tem apontado a importância que atividades de pesquisa, análise e monitoramento de reputação digital de organizações e pessoas têm para a construção de estratégias digitais bem sucedidas. Qual sua opinião sobre isso? Você tem utilizado alguma solução deste tipo em seus últimos trabalhos?
CTC: Sim, utilizei ferramentas de pesquisa, análise e monitoramento em todas as empresas digitais nas quais já trabalhei. Atualmente, por exemplo, na campanha de Marina Silva à presidência, com a qual eu colaboro no quesito midia digital, essas ferramentas são imprescindÃveis.
Minutti: Serviços de Web 2.0 têm democratizado a produção e distribuição de conteúdo. Você acredita que essa  proliferação de produtores de conteúdo (jornalÃsticos ou não), bem como a fragmentação da audiência, ameaçam o modelo de negócio e o status quo das mÃdias tradicionais como TV, rádio, jornal, etc?
CTC: Parece que o jornal de qualidade (quality newspaper) tem sofrido muito e essa indústria não cresce mais na velocidade em que crescia até os anos 90. Mas a indústria dos jornais de baixo custo e gratuitos tem crescido bastante. A televisão não perdeu audiência mas tem perdido tempo de audiência para outras mÃdias. Mas tudo leva a crer que todos estes modelos vão se acomodar em relação a essa mudança permanente e todos deverão fazer a transição para o modelo digital – se já não a estão realizando.
Minutti – Para terminar, qual recomendação você daria para empresas e polÃticos que pretendem utilizar as mÃdias digitais para conectar-se com seu publico-alvo?
CTC: Que procurem ajuda para entender primeiro qual é o foco do seu modelo digital; que não subavaliem a capacidade das pessoas em rede e que pesquisem e monitorem o comportamento social em rede em relação á sua marca.
Mais informações sobre Caio Túlio Costa:
Caio Túlio Costa é jornalista, professor de ética jornalÃstica na Faculdade Cásper LÃbero de São Paulo, doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e consultor em novas mÃdias.
Trabalhou durante 21 anos no Grupo Folha onde foi editor da Folha Ilustrada; secretário de redação nos anos oitenta; correspondente na Europa, baseado em Paris; primeiro ombudsman da imprensa brasileira; criador da Revista da Folha e fundador e diretor geral do UOL, o Universo Online, o primeiro provedor de internet de grande porte da América Latina. Também foi presidente do Internet Group, onde unificou os portais e serviços do iG, iBest e BrTurbo.
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