
Qualidade ou nacionalidade de cidadão. Essa é a definição que o dicionário nos dá da palavra CIDADANIA. O conceito geral de cidadania que circula pelo mundo afora sempre esteve fortemente atrelado à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração. No entanto, dentro de uma democracia, a própria definição de Direito pressupõe a contrapartida de deveres, uma vez que em uma coletividade os direitos de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos deveres dos demais componentes da sociedade.
Nessa terça-feira, o papo que rolou na Bienal Internacional do Graffiti teve a ver com isso. ‘Criatividade, grafite e cidadania’ foi o tema do seminário de hoje, que levou vários interessados à Serraria Souza Pinto para debater a questão.
Para compor a mesa foram convidados arte-educadores envolvidos em projetos que mesclam estas três palavras, além de um antrpólogo. Rui Santana, organizador e curador do evento, foi o mediador do debate mais uma vez.
Essa questão do grafitti, atrelado à cidadaia e criatividade é um ponto de discussão muito relevante nos dias de hoje. Como arte comtemporânea a grafitagem precisa se impor como tal, e isso acarreta várias outras discussões.
Roberto Carlos Madalena é coordenador do projeto Quixote, de São Paulo, que acolhe crianças de rua, que passaram pela antiga Febem ou que sofreram abusos, e jovens que não tem o que fazer pela cidade. “Nosso projeto já existe há dez anos, utilizando o graffiti como ferramente pedagógica. Buscamos fazer com que essas crianças resgatem seus sonhos, suas possibilidades e passem a almejar algo de bom”. O uso dessa arte atual como instrumento da cidadania se faz eficaz: “a garotada vê no graffiti uma forma de se relacionar e conversar com a sociedade”.
Outro bom exemplo é o projeto Escola Integrada, da Prefeitura de Belo Horizonte. O projeto atende crianças de seis a quatorze anos de idade em 50 escolas diferentes em BH. A professora de arte Maria Luisa Viana, integrante do projeto, contou que o objetivo principal é “ampliar o potencial educativo” dos atendidos. Dentro do projeto são realizadas várias oficinas, inclusive de artes; cujo programa dialoga com o graffiti.
Em um outro viés da discussão, o coordenador do projeto Guernica, José Marcius, explicou que, ao contrário dos outros, o projeto Guernica não faz um trabalho de acolhimento e resgate, mas trabalha com a questão do suporte-cidade, com o embate pixação versus graffiti; tudo relacionado às políticas públicas. “Não formamos grafiteiros. Nós buscamos tentar estabelecer uma melhor relação da arte com a cidade, mostrando que o lado contestatório do graffiti é a mesma coisa que o lado cidadão do grafiteiro”.
Único conferencista a tocar na quesito criatividade, José Márcio, antropólogo e professor da PUC, disse que a relação entre graffiti, cidadania e criatividade não é natural e nem imediata. “Uma coisa existe perfeitamente sem a outra; é preciso construir essa relação”.
Partindo disso, José Márcio levantou uma discussão: o graffiti é o meio ou fim dessa relação? Se for o meio, ele acredita que o graffiti será reconhecido através de algo que não o pertence. Além disso, ele acredita que o gênero artístico ficaria estigmatizado. “O graffiti é feito por tal pessoa, que veio de tal lugar, por tal motivo” – exemplifica.
Se for reconhecido como fim da relação graffiti-cidadania-criatividade, ele pensa que isso representaria “o reconhecimento da arte como experiência estética e cultural, como gênero de arte urbana”. O professor também fez uma explanação sobre essa relação: “a cidadania não deve ser pensada somente como direitos e deveres. Ela é também identidade e participação. Para que possamos relacionar essas três coisas, precisaríamos, antes, reconhecer, no campo da cidadania, a pluralidade. E criatividade é muito mais do que ser criativo. É algo que precisa e se aloja no indivíduo mas depende da cultura”.
Para terminar, citou Rubem Fonseca, que disse que criatividade é um labirinto: o difícil não é encontrar a saída, mas sim a entrada. “Cidadania e criatividade são portas que precisam ser abertas” – completou o professor.
Mais uma vez, o ponto mais alto do seminário foi quando o público pôde partcipar, tornando o debate muito mais rico. Todos puderam fazer perguntas sobre o tema aos conferencistas, debater questões dos projetos citados e ainda levantar hipóteses que sustentam um horizonte mais limpo para essa relação que, apesar de já tão debatida, continuará sendo ainda por um bom tempo.
Confira abaixo alguns registros do quarto dia da Bienal: