Woody Allen, o diretor neurótico a beira de um ataque de nervos, acaba de lançar um filme fantástico. “Vicky Cristina Barcelona” é mais um painel de neuroses humanas mas desta vez com muita agilidade, graça e um toque de pimenta. Ele usa e abusa de todos os clichês da sensualidade espanhola, dos bons e atraentes atores de lá para fazer uma versão Almodovar de sua própria obra. Se em seu filme anterior “O Sonho de Cassandra” ele brincava de Hitchcock, levando ao paroxismo os dilemas entre culpa, desejo e assassinato (uma trinca que Dostoievsky lançou aos quatro cantos do mundo – de Nelson Rodrigues a Almodovar) nessa ele deixa-se levar pelas paixões humanas e faz uma obra mais tolerante. Se o final moralista e irônico de ‘Match Point’ agradou a muitos, ele não fugia de fazer apologia velada a uma sociedade pautada na hipocrisia. Ao deslocar seu foco para a caliente Barcelona – cidade fetiche – ele encontra uma ambiente mais “liberal” para destilar sua ironia. Parece que sua mão de clown nunca acredita realmente na realização do desejo, que ele sempre se tornará patético e inconveniente. Mas o inconveniente nesse filme é altamente sedutor (claro, Penélope Cruz fazendo uma espanhola temperamental não poderia deixar de ser apaixonante) e o painel fica mais complexo e arejado. O narrador que emoldura o filme, dá o tom de fábula onde passeiam as incoerências humanas.
O que diferencia Almodovar de Woody Allen é que este segundo parece não querer abrir mão jamais do sentimento de culpa, sempre frisando sua existência e as amarras sociais que “prendem” os desejos e impulsos sexuais. Almodovar é mais permissivo, enxerga mais beleza no contraditório e com “Vick Cristina Barcelona” parece que Allen se deixa permear por essa visão. Como diria o marido almofadinha do filme, depois de uma boa trepada:
“Você está mais presente hoje. Será o ar de Barcelona?”
Mesmo ironizando esses efeitos, parece que o diretor se deixou levar por esse ar…