(Esta análise refere-se à reportagem Com promessa de dinheiro fácil, rede Dinastia quer ganhar o país)
O imediato sentimento de qualquer um que se vê diante de uma proposta que envolve dinheiro rápido e possível de ser obtido sem dificuldades é de desconserto –exatamente a reação provocada por uma miragem: o coração quer acreditar, mas a razão sabe que existe algo errado com a oferta, embora não consiga discernir exatamente o que.
A confusão decorre da estratégia utilizada pelos vendedores dessas ideias, um discurso complexo, cheio de contradições e de jogos de palavras, elaborado para seduzir e ao mesmo tempo atordoar.
“A ideia de uma grande satisfação que não demanda labuta intensa é simplesmente um apelo forte demais para a mente humana”, explica Márcia Tolotti, psicanalista e consultora em educação financeira, autora do livro “As Armadilhas do Consumo” (coleção Expomoney). “Dinheiro fácil, dieta sem esforço, programas de leitura dinâmica… Vai que dá certo?”
Correntes do gênero da Dinastia Soluções Financeiras conseguem cativar integrantes tanto em momentos de vacas magras, nos quais os cidadãos desempregados desesperam-se em busca de oportunidades de fazer dinheiro, quanto nos momentos de economia pujante. De auto-estima elevada pelos avanços dos últimos anos, acreditando firmemente no seu poder de realização, os brasileiros agora representam ouvidos atentos a esse tipo de promessa de negócio “milagroso”, de lucratividade “garantida” e “praticamente sem riscos”.
Afinal, sonhar com renda extra de milhares de reais por mês acalma a dor momentânea de uma conta corrente no vermelho e proporciona algum ânimo na hora de levantar da cama para mais um dia resolvendo problemas no escritório. É o motivo que leva, também, milhões de apostadores às casas lotéricas. O gostinho do prêmio é real, plenamente sentido.
O imenso apelo que essas ilusões apresentam revela, ainda, uma instigante faceta da nossa relação com o trabalho hoje em dia. Não interessa exatamente o que se faz –importa mesmo é ficar milionário, de preferência antes dos 30. Entre criar um produto inovador, o que leva anos de pesquisa e suor, e viver da herança deixada por um pai milionário, grande parte das pessoas assinala a segunda opção sem pensar.
Abdica-se, dessa maneira, do prazer de transformar uma matéria bruta em resultado –que é a essência da ação humana– pois não se deseja mais pagar o preço do suor e do tempo.
Irônico é que um dos pilares da liturgia da Dinastia e de outras empresas similares é justamente a supervalorização do mérito e do empenho individual –mas, se os associados de fato acreditassem na sua capacidade, saberiam que podem ter sucesso na sua profissão original, sem precisar se lançar a atividades mágicas.
“No entanto, uma das grandes frustrações do ser humano é a sua limitação, a sua fragilidade. Então, se alguém nos diz que podemos ser deuses, os imperadores do universo, acreditamos sem pensar”, comenta Vera Rita de Mello Ferreira, doutora, e autora do livro “Psicologia Econômica” (coleção Expomoney).
Conheça a rede Dinastia e entenda a polêmica que cerca a sua operação: