Investidor idoso desafia o risco da Bolsa
A aplicação no mercado acionário é de alto risco. Por isso, os recursos colocados devem representar uma parte menor das economias da família e ficar aplicados por um prazo de médio a longo, ou seja, no mínimo três anos.
Esses são os principais dogmas da Bolsa de Valores. Pois uma parcela inesperada de investidores está a desafiá-los todos os dias.
“Ah, eu já passei por tantas coisas, não sei mais o que é medo. Se a gente teme viver, não sai de casa, não atravessa rua”, diz, com a voz cheia de bom humor, a carioca Myrian Branca Atalla, mais de 70 anos (é só o que revela).
Desde a década de 1970 Myrian aplica na Bolsa. Ganhou bastante, depois perdeu tudo, e hoje complementa o orçamento mensal com o que ganha realizando transações diárias. Passa praticamente todos os dias no escritório para pequenos investidores que a corretora XP Investimentos oferece –e trata como filhos os funcionários que a ajudam com as operações.

Myrian Atalla ao computador pelo qual realiza suas transações (Foto: Wagner Meier/Fotoarena)
“Essas salas são dominadas pelo público de idade mais avançada”, conta Rossano Oltramari, analista da XP Investimentos. “Chegam antes de a Bolsa abrir, lêem os jornais, acompanham os softwares de cotações, e cada um tem o seu lugar na frente do computador. Acabam criando uma turma, discutem sobre as empresas e tiram onda de quem acaso comprou um papel errado.”
O surpreendente dessa atuação tão entusiasmada dos idosos é que, segundo a cartilha básica da aplicação em ações, quem está aposentado ou prestes a sair do mercado de trabalho deve reduzir ou até eliminar a parcela das suas reservas colocada em renda variável, porque, se houver perdas, pode levar algum tempo para recuperá-las, e os investidores da terceira idade não possuem outra fonte de renda para cobrir o buraco.
Mas nem adianta dizer isso para eles.
O paulista Virgilino da Mota Leite Neto, 71, foi operador da Bolsa na década de 1960, e atualmente prefere comprar e vender opções, um mercado ainda mais volátil do que o de ações. “Eu também já perdi tudo e fiquei devendo. Porém conheço bem o negócio e tenho as minhas estratégias. Se alguma transação não deu certo, por exemplo, eu esqueço, não fico fazendo outras manobras para recuperar. Às vezes a gente acerta, às vezes não, é simples. Tem que ter é sangue frio”, ensina.
Para Paulo Levy, diretor da corretora Icap Brasil e responsável pelo seu sistema de home broker, o MyCap, a experiência explica tamanho desprendimento. “O investidor dessa idade sabe operar e montar uma boa carteira, então se sente à vontade. Além disso, muitas vezes está com a vida garantida, pensa mais em construir uma reserva para os netos”, diz. “E investir na Bolsa não significa, necessariamente, assumir uma posição de muito risco: escolhendo papeis de grandes empresas e que pagam bons dividendos, é possível obter rendimentos melhores do que na renda fixa.”
Comprar ações de companhias sólidas e que tenham uma política generosa de divisão dos resultados é o conselho dos especialistas para quem deseja começar a investir na Bolsa depois da aposentadoria. “Certamente essa não é o melhor momento de vida para começar a arriscar. No caso do investidor que nunca operou, é melhor buscar se proteger ao máximo”, frisa Levy.
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