07/11/2009 - 16:27
Recuando na história da palavra, vamos encontrar um parentesco entre o hipócrita (falso, dissimulado) e o adivinho grego, o hupokrites. De início, a palavra que hoje parece feita sob medida para letras de bolero designava um intérprete de sonhos, profeta ou vidente; em seguida, passou a nomear um ator, um comediante; por fim, o mentiroso genérico. De todos esses sentidos, o que transbordou para diversas línguas modernas, por meio do latim, foi o último.
Mero acaso? Ou será que a denúncia da falsidade que acabou prevalecendo em “hipócrita” se deve a uma progressiva desilusão – ou tomada de consciência, chamem como quiserem – da espécie humana ao longo da História, desde a crença cega em oráculos até o ceticismo que hoje exercitamos diante da TV Senado?
Publicado no “NoMínimo” em 19/8/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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06/11/2009 - 12:58
Este post ambiciona ser uma saudável ducha de humildade no caldeirão quente em que agora nos debatemos todos os que lidam com livros, da escrita à divulgação, empenhados – inevitavelmente, mas mesmo assim… – em prever o futuro do nosso negócio.
Vale lembrar um axioma indestrutível: todas as grandes previsões sociais, econômicas e tecnológicas estão fadadas ao erro. Por definição, só o que não foi previsto pode acontecer.
Mas continuamos prevendo, o que garante o ganha-pão deste divertidíssimo site, o Paleo-Future, que leva o seguinte subtítulo: “Um olhar sobre o futuro que nunca foi”. Trata-se de uma coleção – organizada por décadas e começando em 1870 – de prognósticos furados que em algum momento gozaram de crédito junto ao público e aos meios de comunicação. Como o automóvel voador (desenho acima) e a semana de trabalho de 16 horas (que chegaria em 2020 – alguém acredita que esta previsão ainda possa decolar?).
A futurologia que cabe aos escritores de ficção científica também é desmontada por um deles, Cory Doctorow, neste artigo recém-publicado na revista “Tin House”:
Todo escritor de ficção científica tem uma FAQ – Frequently Awkward Question, Pergunta Embaraçosa Frequente – ou duas, e para mim é esta: “Como é possível trabalhar como autor de ficção científica, prevendo o futuro, quando tudo muda tão depressa? Você não teme que os eventos reais ultrapassem aqueles que você descreveu?”
É uma pergunta do tipo sincero, e seu autor ainda faz a gentileza de escalar você como Sábio Previsor no pacote, mas acho que é uma bobagem. Escritores de ficção científica não prevêem o futuro (a não ser por acidente), mas, se forem muito bons, talvez consigam prever o presente.
Do tirocínio futurista dos economistas nem é preciso falar. Mas será que os cientistas se saem melhor? Não muito, segundo este artigo de Stuart Blackman na “The Scientist”:
Naturalmente, os cientistas são fortemente incentivados a fazer previsões ousadas – a saber, para conquistar financiamentos, influência e acesso a publicações de peso. Mas, se poucos deles ficam desapontados quando seus prognósticos mais pessimistas não se confirmam, previsões não realizadas – do tipo que estamos vendo cada vez mais – podem ser um golpe duro para os pacientes, os encarregados de traçar políticas públicas e a própria reputação da ciência.
Depois de considerar tudo isso, não resisto a uma previsãozinha singela: em 2050, se o mundo não acabar antes, o ser humano ainda estará prevendo o futuro. E errando.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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05/11/2009 - 17:59
O primeiro bom exemplo brasileiro de como serão os lançamentos de livros no nosso futuro (presente) digitalizado é o que cerca o “O seminarista”, título de estréia de Rubem Fonseca na Editora Agir, que sai neste sábado – simultaneamente em versão de papel, para Kindle (que o próprio autor já disse detestar, como lembra oportunamente Lauro Jardim) e iPhone.
Não é só: desde ontem, no twitter da editora Agir, uma saraivada de textos com menos de 140 caracteres espicaça a curiosidade dos leitores – coisas como “José só trabalha por encomenda. É conhecido como O Especialista”.
E hoje, para arrematar, estreou no YouTube o clipe do livro, coisa caprichada, com arte de Cristiano Menezes (que também assina a capa) e uma narração rouca, em off, do próprio Rubem.
“O seminarista”, embora tenha 184 páginas, é uma novela. Quem tiver uma sensação de déjà vu assistindo ao clipe não estará enlouquecendo: o narrador, o matador de aluguel e ex-seminarista José, surgiu em três contos de “Ela e outras mulheres” (2006): Belinha, Olívia e Xânia – no último, mata o personagem do Despachante, intermediário que contratava seus serviços.
Corre por aí à boca nem tão pequena que “O seminarista” é, com muitos corpos (olha o duplo sentido) de vantagem, o livro mais violento do escritor de 84 anos. O que, em seu caso, é muito.
Quem comprar a edição de papel ganhará de brinde uma edição do conto A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro (de “Romance negro e outras histórias”, de 1992) ilustrada por ensaio fotográfico de Zeca Fonseca, filho do homem. São também de Zeca as fotos do autor (!!!) que estão sendo distribuídas aos veículos de comunicação.
Simultaneamente, a Agir relança “Os prisioneiros” e “Lúcia McCartney”, dando início a uma coleção que, com a curadoria do jornalista Sérgio Augusto, terá dois títulos a cada dois meses – os próximos, em janeiro, serão “Agosto” e “A coleira do cão”.
O lançamento high tech empolga o editor Paulo Roberto Pires. “Está sendo muito bom ver como isso é bacana, como é rico, como é complexo – e como é fácil”, diz ele.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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04/11/2009 - 17:27
O anacoluto, do grego anakólouthon, “o que não tem seqüência”, sem ele não vivemos. Quebra de estrutura, não exagera quem diz que o recurso está para a sintática como o non sequitur para a lógica. Eu, tanto faz que os conformistas do papai-e-mamãe gramatical riam de mim, apontando tropeços, gagueiras: o anacoluto para reproduzir na escrita o tumulto da vida não existe outro igual.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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03/11/2009 - 14:35
Uma empresa de pesquisa de mercado chamada Flurry acaba de anunciar (em inglês) que, em setembro deste ano, os aplicativos de livros para iPhone tomaram pela primeira vez dos aplicativos de games a liderança em número de downloads.
A informação fica mais interessante quando degustada ao lado da reportagem (em inglês) que Joel Achenbach publicou na quinta-feira passada no “Washington Post”, sobre o futuro das narrativas longas na era digital:
Para entender a mágica da narrativa, é preciso refletir sobre o surgimento no Japão dos “romances de celular”. Trata-se de romances escritos num teclado de celular. O leitor o baixa tela por tela. Os japoneses, sempre tecnófilos, andam lendo seus telefones do modo como os ocidentais costumavam ler o jornal diário.
Há duas formas de encarar a situação. Uma é fazer da engenhoca eletrônica a estrela de uma história heróica chamada “A mídia cambiante”. Novos aparelhos podem fazer qualquer coisa! Não apenas põem você em contato com os amigos, mas também armazenam seu álbum de fotos, informam a latitude e a longitude e escrevem romances fabulosos. Mas outro modo de descrever a situação é dizer que não se pode abafar uma boa história. A história, não o aparelho, é que é irreprimível. Tão poderosa como forma de comunicação que brota até num celular.
Isso se daria, segundo Achenbach, porque “o amor pela história não é apenas cultural: é biológico. O cérebro humano evoluiu de forma a permitir a construção e a compreensão de narrativas”. E para reforçar seu argumento cita uma frase do escritor Jonathan Franzen:
Vivenciamos nossa vida em forma de narrativa. Se você não consegue organizar as coisas de modo narrativo, sua vida é uma tigela caótica de mingau.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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31/10/2009 - 17:02
A história da palavra “bonito” prova que tem raízes mais fundas do que se imagina a identificação entre as idéias de beleza e bondade, que num exame superficial talvez tenhamos a tentação de atribuir a uma “ditadura estética” inaugurada pela cultura de massa e cujos arquétipos poderiam ser dois personagens de velhos filmes de faroeste: o mocinho de traços finos e o bandido abrutalhado com uma cicatriz na cara. No entanto, depois de descontados os contrabandos raciais com que o cinema americano temperou a seu modo o paralelo entre beleza e bondade (olhos azuis para cá, negros para lá), as idéias continuam de mãos dadas. A palavra “bonito” chegou ao português no século 16. Descende do latim bonus (bom), provavelmente depois de uma tabelinha com o espanhol bueno, do qual tomou emprestado o diminutivo. Em resumo: bonito, na origem, é bonzinho. E para não deixar dúvida alguma no ar, “belo” vem do latim bellus, também diminutivo de bonus.
Publicado no “NoMínimo” em 30/8/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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30/10/2009 - 15:37
Por que não temos uma tradição de escritores dedicados à ficção policial? Logo o nosso país, com sua espiral incontrolável de violência urbana e enredos de crimes de fazer inveja às mentes mais febris. Tantos que basta esticar a mão e colher as histórias como se brotassem em árvores. Pode ser por isso? A gratuidade daquilo que permeia nosso cotidiano afastaria nosso interesse?
As perguntas são feitas por Paulo Lima num artigo de anteontem para o site “Caos e Letras”. Na infinita câmara de eco da internet, uma resposta vem hoje de Londres, no ensaio de Nathalie Rothschild sobre o sucesso planetário do sueco Stieg Larsson, publicado no site “sp!ked” (em inglês, acesso gratuito):
Talvez seja precisamente a força da imagem da Suécia como uma sociedade civilizada, democrática, igualitária e pacifista – uma boa menina situada imediatamente a oeste do antigo bloco oriental – que dá a seus autores de ficção policial, muitos dos quais se tornam best-sellers internacionais, seu apelo. Quanto mais calma a superfície, mais poder têm as revelações de suposta sordidez fervilhando abaixo dela.
Um raciocínio parece confirmar o outro, mas será isso mesmo? Sabendo que questões desse tipo nunca têm uma resposta única e simples, Lima aponta outra possível explicação:
Ou seria mero preconceito, por julgar a literatura policial menos digna dos esforços mais elaborados?
Hmmm, melhor tentar de novo. Consta que tal preconceito existe no mundo inteiro, o que certamente inclui a Suécia.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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28/10/2009 - 17:51
João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras.
Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez.
Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.
Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim…”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação.
Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.
O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.
Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.
Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?
Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago.
Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.
João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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27/10/2009 - 19:03
Duas estréias recentes ajudam a elevar o QI médio da internet brasileira em seu maltratado departamento cultural: os novos sites da editora Cosac Naify, que inclui um blog bastante esperto, e do Instituto Moreira Salles.
E já que estamos nesse assunto, o também noviço blog da “New York Review of Books” é outro que vale uma visita.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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24/10/2009 - 13:35
O nome desse galináceo pequeno e invocado, reizinho dos quintais de todo o país, de agitação inversamente proporcional à estatura, é um tributo ao cruzamento de culturas como forma de enriquecimento da língua. Pega bem lembrar a história do garnisé nesses tempos bicudos, quando anglicismos de todos os formatos vêm cantar de galo em nosso terreiro e dão a tanta gente a sensação apocalíptica de que o inglês, apesar das esporadas do Itamaraty, vai matar a galinha dos ovos de ouro da língua. Calma, pessoal. O nome do garnisé, de sonoridade brasileiríssima, vem da ilha britânica de Guernsey, de onde foram importados os primeiros exemplares desses galinhos, no século 19. Quer dizer: no fim dá certo, é só não desesperar.
Publicado no “NoMínimo” em 25/1/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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23/10/2009 - 13:02

– Toca pra oeste – disse ela – passando por Beverly Hills e em frente.
Engatei a primeira e dobrei a esquina para seguir rumo ao sul até Sunset. Dolores sacou um de seus longos cigarros marrons.
– Você trouxe uma arma? – perguntou.
Descubro na “Paris Review” Daylight noir: Raymond Chandler’s imagined city, livro da fotógrafa Catherine Corman sobre a Los Angeles do escritor, legendado por trechos das histórias de Philip Marlowe. O prefácio é de Jonathan Lethem.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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22/10/2009 - 17:55
Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não soe falso, para que o leitor acredite naquilo, para que tudo fique, digamos, plausível. (Não sei se o autor da pergunta tinha lido algum dos autores à sua frente e o considerava especialmente plausível. Gosto de imaginar que estivesse externando uma angústia antiga, nascida talvez da insatisfação com seus próprios escritos – mas isso não vem ao caso.)
Depois de alguns segundos de constrangimento, não suportando mais o silêncio, peguei o microfone e comecei a falar a primeira coisa que me veio à cabeça: algo sobre a importância de rasgar, reescrever, enxugar, experimentar outro caminho. Mas a verdade é que, como meus companheiros de mesa, passei longe de captar o alcance da pergunta. Via nela apenas o lado ingênuo, óbvio, infantil, diante do qual o primeiro impulso é sacudir os ombros: “Ora, escrever é isso aí mesmo, o que mais posso dizer?” Só agora, meses depois, começo a entender as sutilezas da plausibilidade.
Convém explicar esse negócio. Quando se fala em plausível, aqui, não se quer dizer realista. Mesmo porque, no limite, o espelho da realidade é profundamente implausível – já sabia Mark Twain ao dizer que a literatura, ao contrário da vida, tem que fazer sentido. Cortázar é inteiramente plausível ao mover seu protagonista entre Buenos Aires e Paris no tempo de uma vírgula. A plausibilidade em questão se instaura dentro do próprio texto, e não na relação deste com o mundo exterior. Está nas palavras, na escolha delas e na relação que estabelecem umas com as outras. Tem menos a ver com a idéia de verossimilhança e mais com a de reverberação. Os críticos que falam em suspensão de incredulidade não fazem nada além de pagar tributo ao plausível.
Pode parecer banal, mas há algo de misterioso nessa idéia. Autran Dourado fala de livros insatisfatórios salvos pela simples troca de um tempo verbal – do passado para o presente, por exemplo. Sei, por experiência própria, que personagens irremediavelmente falsos podem se fazer verdadeiros num segundo, bastando para tanto trocar seu nome – tarefa que nos processadores de texto não dá trabalho nenhum, mesmo que executada ao longo de mil páginas. Tudo isso sugere algo de alquímico no texto literário, um elemento que está além da técnica e até da inspiração. Um elemento cujo melhor símbolo talvez seja a vírgula que faz desabar um romance, na famosa hipérbole de Luiz Vilela. Volátil, difícil de controlar, esse poder que têm (mas terão mesmo?) as palavras de soar verdadeiras ou falsas em si mesmas, bastando para tanto uma troca de sonoridade ou ritmo, tem sua manifestação mais inexplicável numa idéia que li certa vez numa entrevista de Jeffrey Eugenides.
A tese do autor de “As virgens suicidas” é simples: as cenas narradas por um escritor podem ser sempre melhoradas pela introdução de um elemento qualquer, ainda que secundário, que lhe seja caro ao coração. Assim, ao apresentar um personagem em tudo diferente de si, um sujeito detestável cujas circunstâncias e personalidade não lhe poderiam ser mais alienígenas – terreno fértil para a insinceridade e o esteótipo, como se pode imaginar – o escritor deve usar o truque de incluir entre seus traços distintivos algo tirado de sua própria experiência. Digamos, um gosto infantil por bolinha de gude. E pronto: os maiores canastrões da literatura se tornam imediatamente críveis. A gota de verdade num caldeirão de mentiras deflagra uma espécie de reação química que faz tudo parecer verdadeiro.
A se aceitar como razoável o conselho de Eugenides, vemo-nos diante de uma questão um tanto esotérica: se a “verdade” do texto para o escritor se funda num elemento tão secreto, de que forma essa verdade se comunica ao leitor ignaro? Do ponto de vista deste, que diferença pode fazer, numa descrição, que um dos itens mencionados de passagem diga respeito a uma memória emocional do autor, se este não o declara? Mas faz toda a diferença, sustenta Eugenides.
Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva sobre isso, mas devo dizer que minha experiência parece comprovar a tese. Lembro-me de usar o truque, por exemplo, ao descrever o quarto de Camila, personagem de “Elza, a garota”. O troço não soava lá muito bem até eu meter no quadro o aquário onde mora um beta azul chamado Zeb. Zeb, o peixe de verdade, pertencia aos meus filhos e tinha morrido pouco tempo antes. O trecho sem dúvida melhorou com a chegada dele, e acho que não apenas para mim. Só não vou dizer que entendo, às vezes sobram uns mistérios.
O texto de hoje, ao contrário dos dois primeiros da série, é inédito.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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21/10/2009 - 14:06
A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento.
É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas nos sinais. E é a consciência da ausência de fio que nos leva a ler cinco páginas e meia do romance cult recém-lançado como quem encara um suflê de alfafa, garfada a garfada, penosamente, antes de tomarmos coragem para seguir o conselho de Dorothy Parker: “Este não é um livro que se possa deixar de lado de forma leviana. Deve-se atirá-lo longe com toda a força”. Teríamos cometido uma injustiça? Brilharia milagrosamente a partir da página dezoito o gume até então cego? Nós e Dorothy jamais saberemos.
Mas como se dá, afinal, a avaliação da escrita por um critério tão impressionista? Quem diz onde está o fio, ou pior, quem diz o que é o fio? Quem leu o suficiente para dizer, é claro. Mas diz em primeiro lugar – e isso é importante – a si mesmo. Assim como a realidade do texto para o leitor se dá sempre agora, não importa quanto tempo o autor tenha investido nele nem quantos séculos tenham se passado entre escrita e leitura, da mesma forma esse leitor-juiz, se tiver dois gramas de sabedoria, saberá que é irremediavelmente idiossincrático ao julgar o fio. Isso não significa decretar um vale-tudo estético baseado apenas no “gosto pessoal”. Nenhum gosto é exclusivamente pessoal, mas sempre enraizado num patrimônio de cultura que pertence à sociedade. Ocorre apenas que, de tanto ler, o leitor, submisso leitor, acaba dando um jeito de instaurar sua própria tirania sobre os escritores: se puder, não permitirá de modo algum que aquelas palavras lhe arranhem a retina, a mente ou a alma. Eis por que uma boa pedra de amolar é mais importante na mesa de trabalho do escritor do que papel e caneta – ou um computador.
Publicado em 7/10/2008.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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20/10/2009 - 13:38
O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva.
Publicado em 30/3/2007. Aproveito para comunicar aos leitores uma mudança de data: a edição de “Sobrescritos”, o livro, pela Arquipélago Editorial, sairá em março do ano que vem.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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