19/10/2009 - 13:43
Achei “Cordilheira”, de Daniel Galera, um romance apenas correto – o que alguém poderia argumentar que não é pouco, e não é mesmo. Mas Paulo Polzonoff gostou muito mais. E assim começa finalmente, após longa espera e com menos semanas restantes em 2009 do que partidas na programação, mais uma edição da Copa de Literatura Brasileira.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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17/10/2009 - 17:01
“Esculachar”, um dos verbos centrais da linguagem bandida de hoje, significa, como se sabe, baixar o cacete. Seu charme marginal lhe garante presença no vocabulário de um grande número de falantes urbanos, especialmente jovens. A maioria nem deve imaginar que se esculacha no Brasil faz tempo.
Tudo indica que a palavra nos chegou com os imigrantes italianos no início do século 20. Sculacciare vem de culo e quer dizer dar palmadas na bunda, especialmente de crianças. Entre nós, teve seu sentido ampliado para se tornar, ao longo de quase todo o século passado, o verbo mais expressivo para a ação de repreender de forma violenta ou grosseira.
Fazia tempo que o esculacho andava fora de moda: nas últimas décadas foi perdendo a preferência dos falantes para o esporro. O mais interessante é que volta à cena assumindo um significado mais próximo do original, ligado à violência física, do que daquele que por muito tempo foi o mais corrente. Algumas palavras hibernam.
Publicado no “NoMínimo” em 11/8/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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16/10/2009 - 16:11
Como se esperava, o livro digital é a grande estrela da Feira de Frankfurt – se não em vendas de direitos (o setor corresponde a apenas 1% do mercado livreiro dos Estados Unidos, país onde está mais avançado), pelo menos como centro das atenções do setor. É o que se conclui lendo a cobertura que o evento recebeu até agora.
Com exceção do leilão pelos direitos de um livro que reunirá os apontamentos e diários que Nelson Mandela colecionou a vida inteira, a ser lançado ano que vem com o título “Conversas comigo mesmo”, nenhum livro propriamente dito tem rendido tantas notícias e comentários na internet quanto o futuro do livro digital.
Os gigantes do setor contribuem para isso. A Amazon programou o lançamento internacional do Kindle para a véspera de Frankfurt – sobre isso, vale a pena ler a entrevista de Jeff Bezos na “Veja” desta semana. E o Google esperou a feira começar para anunciar a criação, ano que vem, do Google Editions, uma plataforma de venda de e-books no atacado com um número de títulos entre 400 mil e 600 mil (a Amazon tem hoje 330 mil).
Em compensação, o Google levou um puxão de orelhas de ninguém menos que a chanceler alemã, Angela Merkel, que declarou seu governo contrário ao projeto de escanear livros sem uma discussão ampla e prévia sobre como ficam os direitos autorais no ambiente virtual.
Um sintoma do interesse pelo assunto foi a superlotação da mesa redonda frankfurtiana chamada “Todos os livros serão ‘e’?”, que reuniu peixes graúdos do mercado editorial. O debate, relatado em detalhes no blog oficial da feira (em inglês), deixou claro que, se sobra entusiasmo, certezas firmes são mercadorias escassas nesse campo.
A não ser, talvez, a certeza de que contrapor a essa tendência fórmulas sentimentais baseadas no “cheiro do livro de papel”, como faz em entrevista à “Veja” Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, vai ficando cada vez mais vão.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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14/10/2009 - 17:38

Um concurso internético de melhor proposta de capa para “Lolita” (obsessivo, eu?), com 155 inscrições de 34 países, teve como vencedora a proposta à esquerda, de uma designer búlgara, que inova ao transferir o foco da ninfeta para Humbert Humbert, o tiozão – provavelmente um sintoma de nossos tempos politicamente corretos, ao recusar o ponto de vista do narrador papa-anjo para contemplá-lo de fora. Mas a derrota do criativo quase-abstracionismo da capa à direita, de uma designer de Cingapura, provocou alguns protestos online. Que eu, aliás, subscrevo inteiramente.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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13/10/2009 - 22:42
Quando Kelly de Souza, repórter da revista da Livraria Cultura, me procurou (e a outros escritores brasileiros) para perguntar que livro eu gostaria de ter escrito, não imaginei que aquilo fosse dar numa matéria tão interessante.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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12/10/2009 - 11:48
Sem mudar de assunto: a Feira de Livros de Frankfurt, o mais importante supermercado mundial de direitos literários, que começa depois de amanhã, também está preocupada com o livro digital:
Metade dos profissionais do setor entrevistados pelos organizadores da feira estimou que a venda de livros digitais em 2018 será maior do que aquela de edições baseadas em papel.
Os editores estão tentando descobrir um modo de ganhar dinheiro com a tendência, uma vez que muitos internautas já se habituaram a baixar conteúdo de graça.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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10/10/2009 - 10:13
Dois dias seguidos, duas cidades distantes cultural e geograficamente, e a mesma preocupação: o Kindle – ou um similar – vai matar o livro (de papel)? Falando na Feira de Livros do Sesc Paraná, em Curitiba, quinta-feira de manhã, e na Bienal do Livro de Pernambuco, em Recife, ontem à noite, encontrei a mesma dúvida, a mesma angústia. E me espantei um pouco de descobrir o quanto essa questão não me preocupa.
Sim, estamos vivendo um momento de transição profunda nas formas de ler, escrever e veicular literatura. Sim, ninguém que seja minimamente ponderado pode se gabar de saber onde isso tudo vai dar. Mas uma coisa, à medida que eu tratava de improvisar respostas tateantes à preocupação do público, foi me parecendo cada vez mais clara: aqueles que temem uma revolução completa no formato do livro tradicional deveriam ver os e-readers como aliados, não como inimigos.
Se a internet, com seus recursos de som, imagem, busca e interatividade, tem o potencial – ainda não realizado – de levar a narrativa a um hibridismo tridimensional em que provavelmente já não caberá falar de “literatura”, os Kindles e semelhantes trabalham no sentido contrário, o de preservar as formas literárias que nos foram legadas pela tradição. Aquilo não é papel, mas e daí? A matéria-prima dos escritores não é a celulose.
Por trás de sua aparência moderninha, os e-readers são na verdade engenhocas produndamente conservadoras – paladinos digitais do livro como o conhecemos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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08/10/2009 - 08:47
A vitória da ficcionista e poeta alemã (de origem romena) Herta Müller significa que, por dois anos seguidos, o Nobel de Literatura é concedido a um escritor premiadíssimo, respeitadíssimo, mas de reduzida projeção internacional, daqueles que pouca gente leu. Ano passado, para quem não se lembra (e é mesmo fácil esquecer), o ganhador foi o francês J-M.G. Le Clézio.
Essa ignorância não é exclusiva de um Brasil periférico, onde apenas dois livros da autora são encontráveis: “O compromisso”, lançado recentemente pela Globo com tradução de Lya Luft, e o já remoto (de 1993) “O homem é um grande faisão sobre a Terra”, da editora portuguesa Cotovia. No site do Nobel, até este momento, uma enquete sobre quem já leu Herta Müller tem o resultado parcial de 92% x 8% a favor do não.
A repetição desse padrão por duas edições seguidas é uma novidade nos últimos anos. Doris Lessing (2007), Orhan Pamuk (2006), Harold Pinter (2005), Elfriede Jelinek (2004) e J.M. Coetzee (2003) compõem uma galeria com a qual o público, na maioria dos casos, pode se relacionar. Talvez o Nobel, depois de brigar explicitamente com a literatura americana no ano passado, não queira ser pop – o que pode até ser uma decisão sábia. Tomara que não se torne um prêmio da União Européia.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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07/10/2009 - 10:34
Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
A força de aforismo e o jeitão de verdade universal do início do romance “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi (tradução de João Gaspar Simões), conduziram o escritor russo a uma vitória incontestável na eleição do começo mais inesquecível de todos os tempos. Como eu disse no já distante agosto de 2006, quando ele apareceu pela primeira vez aqui no blog, esse início “conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo”.
A disputa foi animada. “O estrangeiro”, de Albert Camus, largou na frente e chegou a dar a impressão de que seria imbatível, mas acabou ultrapassado tanto por “Ana Karenina” quanto por “Lolita”, de Vladimir Nabokov (ah, esses russos…). No fim das contas, o pódio ficou assim: Tolstoi, 41 votos; Nabokov, 35; e Camus, 33.
Nas três últimas posições, houve empate entre “Moby Dick” e “Grande sertão: veredas”, com 23 votos cada um, e a lanterna sobrou para “Memórias do subterrâneo”, o preferido de 14 leitores.
Confesso que, como torcedor, saio um pouco frustrado da disputa. Entre os seis finalistas escolhidos pelos leitores, torci alternadamente por Camus (com a cabeça) e Nabokov (com a “carne”, como ele mesmo diria). Quando falo, ali em cima, em “jeitão de verdade universal”, é por desconfiar que a abertura campeã, vagamente enquadrável na categoria jornalística do nariz-de-cera, tem mais forma do que conteúdo. Não sei se as famílias felizes são todas parecidas ou se a infelicidade familiar carece de um denominador comum. Afirmar o contrário talvez funcionasse também. Mas é claro que, sendo Tolstoi um ficcionista e não um terapeuta, ponderações como essas são meio tolas.
A todo mundo que garantiu o sucesso desta brincadeira (foram 188 comentários apenas na rodada final, enquanto o blogueiro tirava umas curtas mas talvez não imerecidas férias), meus agradecimentos sinceros. E até amanhã.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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21/09/2009 - 10:37
Como a disputa agora é séria, e só elegeremos o melhor começo inesquecível de todos os tempos uma vez, que tal deixar a votação (no post abaixo) rolando por duas semanas?
É o tempo que o Todoprosa vai tirar de folga. Dia 7 de outubro eu volto a atualizá-lo.
Abraços a todos e até lá.
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20/09/2009 - 09:32
Herman Melville e Fiodor Dostoievski, nessa ordem, foram os mais votados da última rodada classificatória, com Miguel de Cervantes num honroso terceiro lugar. Chegamos assim à finalíssima dessa disputa sumamente desimportante – mas, espero, divertida – para eleger o mais inesquecível começo de romance de todos os tempos.
Agradeço a todos os que participaram das rodadas classificatórias, animando a conversa muito além do que eu tinha imaginado ao propor a brincadeira.
Aos votos, pois, moçada! Como diria meu amigo Humberto Werneck, chegou a hora da onça beber água. Apenas um lembrete: cada eleitor deve escolher um único início, por favor.
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. (Vladimir Nabokov, “Lolita”.)
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. (Albert Camus, “O estrangeiro”.)
Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. (Leon Tolstoi, “Ana Karenina”.)
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.)
Chamem-me Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. (Herman Melville, “Moby Dick”.)
Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside meu mal. (Fiodor Dostoievski, “Memórias do subterrâneo”.)
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19/09/2009 - 00:39
Esta é só para os leitores do Rio: amanhã, domingo, último dia da Bienal do Livro, estarei no Café Literário às 17h para falar, ao lado de Carlos Heitor Cony, sobre o tema “A política entre a ficção e a realidade” – no meu caso, leia-se “Elza, a garota”; no de Cony, leia-se uma obra inteira e, de forma mais diretamente ligada ao mote político, “Pessach: a travessia”. Quem quiser aparecer será muito bem-vindo. A mediação ficará por conta de Marcelo Moutinho.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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17/09/2009 - 17:46
E a relação dos finalistas do Portugal Telecom, hein?
Nos seis anos de existência do galardão (os quatro primeiros, é verdade, em âmbito apenas nacional), só um português – o luso-angolano Gonçalo M. Tavares, em 2007 – ganhou o primeiro prêmio.
Tem muita gente apostando que chegou a hora de equilibrar um pouco mais o jogo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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16/09/2009 - 12:08
O gigantesco parque temático de Harry Potter que abrirá ano que vem em Orlando, na Flórida, leva o blogueiro Alison Flood a especular (em inglês, acesso gratuito) quais as outras obras literárias que mereceriam essa glória mundana – ele fala de C.S. Lewis e de Stephenie Meyer, tudo meio óbvio. Gostei mais quando aquele estranho parque temático de Dickens inaugurado na Inglaterra há dois anos – comentado na época aqui – inspirou em colegas blogueiros fantasias irônicas como a de um aterrorizante Castelo de Kafka.
É engraçado imaginar por dois minutos o tipo de empreendimento paraliterário do gênero que poderíamos ter no Brasil se houvesse por aqui mais dinheiro para gastar/apreço pela literatura/paixão por parques idiotas – sei lá qual é a melhor alternativa. Exercício para mentes desocupadas? Provavelmente sim. Mas que parece um desperdício nunca termos podido visitar o Sítio do Picapau Amarelo, comprar um potinho de purpurina com a marca Pirlimpimpim e almoçar uma galinha ensopada no Tia Nastácia, isso parece. (Sim, dizem que aquele que existe em Taubaté é simpático, mas parece estar mais para Museu Lobato, filho ilustre da terra, do que para parque temático.)
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