Arquivo da Categoria Três perguntas para...
18/06/2006 - 00:01
A efeméride dos vinte anos da morte de Jorge Luis Borges, na semana que passou, foi marcada pelo bordão de sua “influência crescente” – expressão que está na capa da revista “Entrelivros”, por exemplo, que dedica 19 páginas ao gênio argentino. Isso não existe, acredita o escritor brasileiro que mais gastou páginas para fazer de sua ficção um espelho borgiano do legado de Borges.
Antonio Fernando Borges é autor de uma trilogia tão obsessiva quanto corajosa: “Que fim levou Brodie?” (Record, 1996), “Braz, Quincas e Cia.” (Companhia das Letras) e o recente “Memorial de Buenos Aires” (Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 41,50) acertam contas, respectivamente, com Jorge Luis Borges, Machado de Assis e, por fim, os dois juntos. Os três são livros de leitura prazerosa se você aprecia um jogo de referências literárias – é o meu caso. Mas deixam no ar uma pergunta inevitável: quando Borges, o Antonio Fernando, vai sair da biblioteca que Borges, o Jorge Luis, jamais deixou?
Ele garante que já saiu, e que seu próximo romance, em andamento, trabalhará sobre “as referências impuras da realidade”.
Tem se falado muito que a influência de Borges é cada vez maior. É indiscutível que o velho virou um personagem pop, mas será que existe mesmo essa influência em termos literários? Ou seria Borges, como Machado, um daqueles autores originais demais para deixar descendentes?
– Acho que isso que se costuma chamar de influência é, acima de tudo, o reconhecimento de uma genialidade. Mas o máximo que Machado e Borges conseguiram foi um bom punhado de imitadores. Ou seja, escritores que copiam os sinais externos (e exóticos) de suas respectivas obras, passando ao largo do principal: suas visões de mundo, suas reflexões sobre Arte e Vida, etc. Essa originalidade ninguém repete – como todas as legítimas originalidades, por sinal.
E como fica a sua própria obra nesse quadro?
– Digo isso com a consciência tranqüila de quem não se inclui nessa Legião. Meus livros estabeleceram um diálogo explícito com a dupla dinâmica. Sou o pequeno Borges, no máximo, e meu “machado” não é tão afiado quanto o do Bruxo.
Você virou o bicho-papão dos escritores principiantes quando escreveu, aqui no NoMínimo, um artigo em que os aconselhava a se dedicar mais a escrever bem e menos a publicar depressa. Que tipo de respostas recebeu? Mudou de idéia sobre algum aspecto do problema desde então?
– Pois é. A maioria das respostas se limitou a ser um amontoado de ofensas sem argumentos. Apressadas e sobretudo mal escritas, “como queríamos demonstrar”. Quanto a mudar de opinião, digo como Goethe: “Não tenho nenhum compromisso com o erro”. Se a garotada me mostrar que está mais empenhada em aprender a escrever, acima das vaidades de toda uma geração, dou a mão à palmatória. Na verdade, às vezes torço para estar errado em minhas críticas, o que seria sinal explícito de que o mundo não é tão mau assim…
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
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29/05/2006 - 20:00
O romancista Milton Hatoum, autor dos ótimos “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”, abre amanhã, terça-feira, às 18h30, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, um ciclo de debates chamado Laboratório do Escritor, dedicado a discutir os bastidores da criação literária. Concebido pelas jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego, que atuarão como entrevistadoras, o evento apresentará um autor por mês. Depois de Hatoum vão passar pelo CCBB, nesta ordem, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Silviano Santiago, Luiz Vilela, João Ubaldo Ribeiro e Lygia Bojunga. A entrada é franca, com distribuição de senhas. Abaixo, Cristiane, autora de “Pena de aluguel – Escritores jornalistas no Brasil” (Companhia das Letras), explica a idéia.
Por que pôr escritores para falar do seu processo de criação se os bastidores de um livro, com todo aquele escreve-rasga-reescreve, costumam ser um ambiente meio tedioso?
– Em quase toda palestra de escritor a que já assisti, as pessoas acabam perguntando sobre esses assuntos, como uma idéia surge, como um personagem é desenvolvido. A curiosidade é muito grande, mas em geral isso acaba perdido no meio de outros temas e discussões. E achamos que, no final das contas, talvez seja o que mais interessa aos fãs de um autor: saber como ele consegue fazer o que faz. No Laboratório, vamos orientar todas as perguntas para isso, num formato de talk show.
O leitor comum está interessado nisso? Ou o público-alvo é a legião de aspirantes a escritor?
– A gente acha que o leitor comum está interessado, e muito. Principalmente o fã verdadeiro, aquele que é fiel, fascinado por um determinado autor. Isso até orientou a nossa seleção de nomes: todos os escalados para falar são escritores que têm um público cativo e apaixonado. Mas é claro que interessa muito a quem escreve também.
Houve algum autor convidado que tenha recusado, por medo ou talvez pudor de tratar dos segredos da escrita na frente de todo mundo?
– Ninguém recusou. Acho que os escritores até preferem esse formato, porque assim não precisam preparar uma palestra, podem deixar que o tom de conversa prevaleça. A idéia é que, ano que vem, a série seja estendida a todos os CCBBs.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
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24/05/2006 - 16:38
Embora avessa aos salamaleques da glória oficial, Clarice Lispector não recusaria a homenagem dos vereadores do Rio de Janeiro (veja nota abaixo). A opinião é da escritora Vilma Arêas, professora de literatura da Unicamp. Vilma é autora do livro de crítica “Clarice Lispector na ponta dos dedos” (Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 35), lançado na Flip do ano passado, que teve a autora de “A paixão segundo G.H” como homenageada.
Clarice teria ficado feliz com o título de cidadã carioca honorária?
– Ela não ficava à vontade nessas ocasiões porque não gostava muito de falar em público, agradecer as homenagens e prêmios que recebia. Mas acho que gostaria do título, porque gostava muito do Rio. Mesmo sendo uma homenagem mais política do que literária, não acredito que recusasse.
Como anda a cotação de Clarice entre os novos leitores? E entre os escritores, existe alguém que seja claramente influenciado por ela?
– As novas gerações continuam lendo Clarice e, o que chama mais a atenção, estão representando muito os textos dela também. No circuito universitário de teatro, vi recentemente adaptações de “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e “A hora da estrela”. Esta, principalmente, era muito boa, com a Macabéa transformada em personagem coletivo. Quanto a escritores influenciados por ela, não vejo nenhum. É um estilo difícil, muito particular, como o de João Guimarães Rosa e mesmo o de João Antonio. Difícil seguir esses caminhos.
Se um jovem de 14 anos que nunca leu Clarice a procurasse para pedir uma dica de entrada na obra dela, que título você recomendaria? E qual o aconselharia a evitar?
– Eu acho que ele poderia começar pelos contos do “Laços de família”. Entre os romances, talvez “A hora da estrela” pudesse ser uma porta de entrada, por que não? Mas há livros dela que são realmente muito difíceis. “Uma aprendizagem” é um livro complicado, e um garoto que resolvesse começar por “A maçã no escuro” certamente acharia a Clarice impossível de ler.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
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11/05/2006 - 16:48
Vem cá: o livro tinha mesmo que ser tão grande? Não dava para enxugar?
- Ele foi bem cortado. Inicialmente, tinha mais de 1.400 páginas. Fiz pelo menos 19 versões do texto e fui tirando várias histórias boas que tinham aparecido na pesquisa, mas que não precisavam realmente entrar. Dava para fazer mais dois livros com o que ficou de fora. Foram dois anos de pesquisa e nove meses escrevendo, de domingo a domingo. Durante todo esse tempo, não fiz outra coisa, foi dedicação integral mesmo. Eu sou publicitária, e quando decidi parar tudo para escrever vendi minha agência em São Paulo e fui para a Bahia disposta a só pesquisar e escrever. Hoje, para conseguir viver assim, estou de volta à casa dos meus pais, em Três Corações (risos).
Você tem blog desde 2001. Não é estranho que um escritor da chamada “geração blogueira”, que costuma ser mais afeita ao telegráfico, ao tiro curto, lance um trabalho de fôlego tão longo?
- Foi um bom desafio, viu? Eu tinha escrito coisas na adolescência mas depois, no tempo da publicidade, foram muitos anos sem escrever. Quando comecei meu blog, em 2001, é que voltei: o blog me fez escrever. Enquanto fazia a pesquisa para “Um defeito de cor”, banquei sozinha a edição do meu primeiro livro (“Ao lado e à margem do que sentes por mim”, fininho e intimista) e com os contatos feitos na internet consegui vendê-lo, torná-lo conhecido de algumas pessoas. Através do blog conheci o (Luiz) Gravatá, que levou o livro para o Millôr, que acabou me levando para a Record. Tudo veio através do blog.
Qual é o próximo? E de que tamanho?
- Quero escrever uma trilogia sobre a história de Minas, desde a pré-história até a Inconfidência Mineira. Me apaixonei pela pesquisa histórica, por levantar documentos, cruzar informações. É uma atividade tão apaixonante que o mais difícil é saber a hora de parar e escrever.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Três perguntas para...
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