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03/03/2009 - 18:55
Qual é o maior problema da literatura brasileira?
( ) Os escritores não sabem escrever.
( ) Os leitores não sabem ler.
( ) Os críticos não sabem criticar.
( ) Os blogueiros se acham escritores.
( ) Os comentaristas de blog se acham críticos.
( ) Os críticos dos comentaristas de blog se acham.
( ) Os críticos dos comentaristas dos críticos dos comentaristas de blog… hã, onde estávamos mesmo?
( ) Ser brasileira demais.
( ) Não ser suficientemente brasileira.
( ) Não ser literatura.
( ) Literatura brasileira? Onde?
( ) Vai ler um livro e não me enche o saco.
Publicado em 25/7/2007. Republicado a pedidos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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13/10/2008 - 15:40
O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você.
Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranqüila de viúvo sem ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser.
Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estóico diante do que, embora parecesse de uma crueldade diabólica com quem dedicara a vida à literatura, provavelmente não passava de mais um engodo simples no quadro de um logro muito maior.
A blogueira tinha, além de um fotolog estudadamente sexy, um blog supercool de autoridade 237 no Technorati onde publicava quase todos os dias poemas trocadilhescos de três versos e minicontos mais ou menos confessionais. Em conjunto, os dois empreendimentos virtuais a situavam no topo da pirâmide formada pelas poucas centenas de pessoas que, desdobrando-se em milhares de nicks para confundir (com sucesso) a velha imprensa de papel, faziam a glória da chamada blogosfera literária nacional, um meio em que a blogueira era ridiculamente famosa.
O estruturalista não saberia dizer por que aceitou o convite da blogueira, de quem jamais ouvira falar, para tomar um café no mezanino da livraria. Ela sabia por que o tinha convidado, ou acreditava saber, mas no início era vago o plano concebido de estalo na fila do caixa. Depois de reconhecer o estruturalista como alguém que um dia tinha sido importante na literatura brasileira, pelo menos assim dizia o programa sobre Grandes Críticos que vira algum tempo atrás na TV educativa, achou que na pior das hipóteses descolaria um post tragidoce ou agricômico sobre o tempo, os tempos. Como se o homem pertencesse à Rússia tsarista e ela fosse uma improvável bolchevique compreensiva.
A blogueira e o estruturalista eram nada parecidos, ela era um tesão e ele tinha setenta e três, mas do expresso passaram pro scotch, da megalivraria pro barzinho penumbroso, do engov pro viagra, e na manhã seguinte ele abriu os olhos primeiro em sua cama de casal e teve vontade de chorar com a visão daquela barriguinha morena espetada com alfinete entre os lençóis. A blogueira acordou sem graça pensando no que diriam seus amigos se soubessem, fetiche, doença, seventy-plus.com, e com essa zoeira na cabeça foi talvez até um pouco rude ao se despedir. Mas aquela tarde, quando o estruturalista ligou, seu coração bateu mais forte e ela disse que sim, sim, sins, tô indo.
O estruturalista leu os poemas trocadilhescos de três versos e os minicontos mais ou menos confessionais da blogueira e achou tudo uma merda, mas disfarçou e disse, sorriso amarelo, que a culpa era dele mesmo, dinossauro chato. A blogueira folheou os livros de páginas manchadas do estruturalista e quase morreu de tédio, pensando, se literatura é isso, tô fora. Diante dele, porém, preferiu bancar a burrinha dizendo que parecia tudo muito bonito e complexo e importante, mas além da sua compreensão.
Um ano depois, enquanto o estruturalista definhava numa cama de hospital, linfoma não-Hodgkin, a blogueira ficou ao seu lado dia e noite, num convívio íntimo com a morte que durou cinco semanas e a levou a repensar a vida inteira com um misto de vergonha do passado e ânsia de futuro. Na madrugada em que o estruturalista morreu e ela se acabou de chorar, estava madura a decisão de trocar o blog pela faculdade de enfermagem.
Publicado em 20/8/2007. Republicado a pedidos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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07/10/2008 - 13:26
A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento.
É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas nos sinais. E é a consciência da ausência de fio que nos leva a ler cinco páginas e meia do romance cult recém-lançado como quem encara um suflê de alfafa, garfada a garfada, penosamente, antes de tomarmos coragem para seguir o conselho de Dorothy Parker: “Este não é um livro que se possa deixar de lado de forma leviana. Deve-se atirá-lo longe com toda a força”. Teríamos cometido uma injustiça? Brilharia milagrosamente a partir da página dezoito o gume até então cego? Nós e Dorothy jamais saberemos.
Mas como se dá, afinal, a avaliação da escrita por um critério tão impressionista? Quem diz onde está o fio, ou pior, quem diz o que é o fio? Quem leu o suficiente para dizer, é claro. Mas diz em primeiro lugar – e isso é importante – a si mesmo. Assim como a realidade do texto para o leitor se dá sempre agora, não importa quanto tempo o autor tenha investido nele nem quantos séculos tenham se passado entre escrita e leitura, da mesma forma esse leitor-juiz, se tiver dois gramas de sabedoria, saberá que é irremediavelmente idiossincrático ao julgar o fio. Isso não significa decretar um vale-tudo estético baseado apenas no “gosto pessoal”. Nenhum gosto é exclusivamente pessoal, mas sempre enraizado num patrimônio de cultura que pertence à sociedade. Ocorre apenas que, de tanto ler, o leitor, submisso leitor, acaba dando um jeito de instaurar sua própria tirania sobre os escritores: se puder, não permitirá de modo algum que aquelas palavras lhe arranhem a retina, a mente ou a alma. Eis por que uma boa pedra de amolar é mais importante na mesa de trabalho do escritor do que papel e caneta – ou um computador.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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26/09/2008 - 11:20
Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz?
Vender?
Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada.
Sei.
O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites e porrinhas, peças que você vai ter que moldar feito um funileiro maluco, preste atenção – uma por uma! Acredite: a certa altura dá vontade de morrer, mudar de nome, ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar. Sabe o que é que nos salva no fim?
Não faço a menor idéia.
É que nem todas as peças do carro você precisa fabricar sozinho. Escritores roubam, são cleptomaníacos, colecionadores de quinquilharias. Juntam pedacinhos de coisas quebradas para fazer seu próprio ninho, na feliz metáfora de Margaret Atwood: qualquer pedaço de barbante, araminho solto, ripa de papel nos serve.
Gambiarras, é?
Ô, você nem imagina.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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18/08/2008 - 15:20
Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário.
Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar.
O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras.
João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto.
O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na noite anterior, João leu o seguinte:
O problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. Ela não corre e não se fecha portanto. Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.
Essa última frase acertou a cabeça de João com o efeito de uma bolada à queima-roupa. Ainda atordoado, ele releu:
Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.
Com uma mistura de dor e delícia nunca antes sentida, João foi obrigado a admitir o óbvio: aquilo era melhor do que qualquer coisa que ele já tivesse escrito ou pudesse um dia escrever. Tamanha condensação de beleza e horror na mesma frase, tão seco drible na expectativa do leitor…
…é horrível.
Em poucos minutos, sua vida inteira estava traçada. Pediu Letícia em casamento na mesma noite. Ela aceitou.
Nunca deixaram de freqüentar a rede do Leblon onde se conheceram, nem durante a gravidez nem depois que Joãozinho nasceu e Letícia era obrigada a interromper o jogo a todo momento para dar de mamar.
O casamento parece ir muito bem, e hoje todo mundo na praia aposta que vai durar para sempre. Letícia doou a uma escola pública do bairro seu exemplar de Água viva, e de qualquer maneira, como ela tinha suspeitado desde o início, João nunca foi um grande leitor de Clarice.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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06/08/2008 - 10:59
O que você tem lido ultimamente?
Pouco. Tenho lido pouco.
Entende o que eu quero dizer?
Pra ser honesto, acho que não estou captando bem.
Pois você acaba de me dizer que tem lido pouco. Você, o maior leitor que eu conheço. O cara que leu Proust inteiro, que leu Euclides, a única pessoa do Brasil que leu a Geração Noventa de cabo a rabo…
E daí, meu caro? São fases.
Que fases, que nada. É o Zeitgeist. No fundo, você sabe muito bem que ninguém lê mais quase nada e vai ler cada vez menos. É só cruzar essa queda na disposição para a leitura com a explosão do outro lado, a progressão geométrica das coisas que existem por aí implorando para ser lidas, e pronto.
Pronto?
Pronto. Babau. Colapso.
Lamento dizer que você está apocalíptico demais pro meu gosto.
E eu lamento dizer que você está tapado demais pro meu gosto. Presta atenção, rapaz. Tem cada vez mais gente escrevendo, certo? E cada vez menos gente lendo, certo? O que essas duas curvas te dizem sobre o futuro? Evidente que estamos vendo o fim de uma era, mas não é isso que me interessa. Me interessa o que vem depois.
E o que vem depois seria o tal Consórcio…
O Grande Consórcio Nacional de Escritores, exatamente.
Então explica devagar, que eu sou tapado.
Não podia ser mais simples. Sabe o velho consórcio de carro? É a mesma coisa. O cidadão entra de sócio, paga uma mensalidade, vai pagando, pagando. Até o dia que é sorteado.
E aí ele ganha…
Ganha leitores, claro. Centenas, milhares de leitores. Isso no início. Com o passar do tempo, milhões, por que não? Acho que dá para projetar uma chegada aos sete dígitos pra daqui a cinco anos. Sete no máximo.
Sei, sei. E a essa altura você vai ser mais rico que o Eike Batista.
Não sei se mais rico, mas alguma coisa em torno disso.
E pode me dizer como você pretende dar um prêmio tão arisco, um caminhão de leitores? Como controlar uma coisa dessas?
Não me decepcione, rapaz. Não é óbvio? Os leitores são justamente os outros consorciados. Os outros escritores, os que aguardam a vez. Quer leitores melhores? Eles são obrigados a ler, não têm escolha. Primeiro, porque o contrato que assinaram ao entrar para o Consórcio os obriga a isso. Segundo, porque estão pagando por essa brincadeira. Terceiro, pelo próprio sentimento de irmandade, de corporativismo que permeia a coisa toda.
Acho que estou entendendo. Admito que a idéia é curiosa, mas você não pode garantir que, mesmo tendo assinado um contrato, todo mundo vai ler o escritor sorteado. E se trapacearem, lerem só a orelha, a primeira e a última página?
E que importância tem isso? Não é assim também na vida real? Importa menos a um escritor ser lido de fato, o fundamental é que todo mundo diga que leu, e isso o GCNE garante de forma absolutamente cristalina.
Compreendo.
Numa segunda fase, aí sim, o GCNE vira GCME, mas isso é projeto para dez anos.
GCME?
Grande Consórcio Mundial de Escritores.
Ah, claro. E a essa altura eu imagino que o Eike Batista…
Ai, que Batista? Mas quem é esse cara?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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21/07/2008 - 11:56
Você gostou?
Hein?
Gostou do livro?
O livro é legal.
Legal o bastante para ganhar capa?
Hahaha, calma, as coisas não funcionam desse jeito. Primeiro, não gostei tanto assim. E mesmo que tivesse gostado, a minha opinião é só a minha opinião. Não basta.
Como não? Você não é o editor da revista?
Escuta, querida. Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?
Não, eu…
Eu só aceitei este almoço, no meio de uma semana complicadíssima para mim, porque a gente sempre teve uma boa relação profissional. Acho você uma menina bacana, competente. Mas não confunda as coisas.
Desculpe.
O livro que você está tentando me empurrar é ingrato. Melhor desistir. Poupe sua munição para quando valer a pena.
Certo. É só que você disse que achou legal…
Estava sendo educado. Na verdade eu nem li.
Ah.
Não precisei ler. Leram por mim.
Alguém da sua equipe…
Mais ou menos isso. Vamos pedir?
Para mim, a truta com arroz de amêndoas. Você pode me dizer quem da sua equipe leu?
Taí, eu vou na truta também. Hein?
Quem da sua equipe não gostou, você pode me dizer? Aqui entre nós?
Não.
Entendo.
Parece que não entende, não. Garçom!
Olha, não me leve a mal. É só que…
Duas trutas com amêndoas, por favor.
É só que eu gosto muito do livro. Muito mesmo. Nunca fiz uma divulgação em que eu acreditasse tanto.
Hmm.
Acho que a literatura brasileira precisa de livros como esse.
Hmmm.
Você devia ler, viu? Mesmo que ficasse para um próximo número, não tem pressa.
Jura que não tem pressa?
Claro que não. O tempo da literatura…
Escuta, queridinha, vou abrir o jogo com você. Esse livro não entra na minha revista. Nem este mês nem ano que vem. Nem como capa nem como notinha. Não entra nem arrombando a porta, nem seqüestrando a minha mãe. Ficou claro?
Puxa, mas…
Esse autor é um não-autor na minha revista. Entendeu agora? O dia em que ele for levado a sério pela Textus e pela Finnegans, a gente conversa. Quando ele ganhar elogios estonteantes do Adolfo Pinho Rosa, a gente conversa. Quando o Armazém Typographico contratar seu próximo romance, a gente conversa. Quando a turma do Empório Zero der festinha em homenagem a ele, a gente conversa. Quando a blogosfera bater tambor para ele, a gente conversa. Quando…
Entendi. A sua revista segue a manada.
Que seja. Se é assim que você prefere pôr as coisas.
Desculpe, eu não tive a intenção.
Você tem muito que aprender, não tem?
Eu sei. Desculpe. Não vamos mais falar desse livro.
Acho bom.
Você gostou da pastinha de hadoque do couvert?
A pastinha é legal.
Eu já sabia que o Guia Swinton tinha recomendado, mas só agora entendo por quê.
Realmente fantástica a pastinha.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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10/07/2008 - 17:23
Ela leu:
Diana Wurz escreve sustos, mastigando reticências como sucrilhos. Afaga tormentos, faz cócegas nos cânones, soluça anacolutos com uma graça súbita de bailarina imaginária. Humana, eis a palavra. Humanérrima. Em seus contos-relicários de sondar desvãos, de acender o sol, de entesourar momentos, atinge uma materialidade porosa e cheia de reentrâncias, ainda que cuidadosamente depilada, que denuncia sua filiação àquela irmandade de autores esguios que não escrevem com a cabeça, mas com o corpo. No caso de Diana, estreante de rara maturidade, nem mesmo com o corpo inteiro: com partes do corpo, uma unha aqui, ali o mamilo direito, apêndice espremido numa entrelinha, pâncreas fechando a frase com seu inconfundível – molhado, fofo – muxoxo pancreático. À medida que, lenta e viscosamente, escorre o texto, vai se despedaçando a jovem escritora com tal bravura, e com seus nacos pavimentando a auto-estrada do autoconhecimento, que não resta dúvida: Diana Wurz dói. Lateja. Feito uma estrela, se estrelas doessem.
Leu, releu, depois devolveu a folha em silêncio ao homem. Ele disse:
E aí, cumpri minha parte a contento?
Está bem legal. Você acha isso mesmo do livro?
Ué, não escrevi?
Ela sorriu: Está ótimo.
Posso mandar para o editor?
Pode, ela respondeu, desabotoando a blusa.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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16/06/2008 - 10:45
Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais. Eu posso dizer, ela disse, porque já fiz muita pesquisa de campo, qualitativa e quantitativa, e no entanto… Me fixou com seus olhos negros e acrescentou: Não pense que é por masoquismo que eu prefiro dormir com escritores. Muito longe disso. Fiquei aguardando ela me dizer por que, então, preferia dormir com escritores, mas o silêncio se prolongou. O garçom veio com a nova caipirinha. Ela retirou o canudo do copo, depositou-o sobre o guardanapo e tomou um gole longo. Aproveitei para observá-la: brincos em forma de serpente chegando quase aos ombros nus, sutiã corajosamente ausente. Tinha idade para ter conhecido a poesia marginal, calculei, tateando metáforas bêbadas: se existe algo como uma mão encarregada de passar o bastão entre as gerações literárias, então ela usa esmalte escarlate e está diante de mim bem agora. Apesar de sentir uma ponta de curiosidade, decidi não perguntar por que ela preferia dormir com escritores. Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela. Seria, talvez, porque assim se sentiam escritores na plenitude da palavra – escretores, excretores – essa condição fugidia e enganadora, vaidosa e mesquinha, que ao contrário do que se pensa é infinitamente mais fácil assumir perante o mundo do que na própria alma? Aí ela vinha e assinava embaixo: és escritor, sim; por que outro motivo eu estaria aqui fazendo o papel de tinteiro para a tua pena? Foi então que o teto do bar despencou sobre nossas cabeças. Com o corpo subitamente envolto num filme de suor gelado, joguei uma nota de vinte sobre a mesa e me levantei. Sabia que, ao proceder assim, puxava mais para baixo a nota dos escritores na pesquisa dela, mas não tinha escolha. Se corresse, talvez conseguisse chegar ao banheiro antes de vomitar.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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03/06/2008 - 07:53
Qualquer um que acompanhe com um mínimo de atenção a literatura brasileira sabe que o escritor mato-grossense Manfredo Faustini se especializou em escrever sobre o Tinhoso nas mais variadas formas: mulheres, crianças, capitalistas, políticos, animais, espíritos, todas as suas engenhosas histórias giram em torno de personagens que se revelam diabólicos em algum momento. O sucesso de público e crítica veio depressa. Um dia um amigo lhe perguntou como era possível que, com todos os demônios, ele nunca tivesse escrito nada sobre o tema do escritor que vende a alma ao Rabudo em troca de glória. Faustini desconversou, contrariado. O amigo estranhou: achava a idéia soberba, tinha antecipado uma reação bem diferente. E Faustini deve ter ficado irritado mesmo, porque depois disso a amizade deles esfriou e não demorou a morrer.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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07/05/2008 - 09:28
Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá com a carinha do Proust, um pequeno gravador digital para registrar inspirações súbitas e uma caneta-tinteiro de luxo. Maria Cândida gastou nessa brincadeira quase todas as suas economias, mas valeu a espera. Hoje me ligou, eufórica: acaba de escrever seu primeiro conto. Mal posso esperar para lê-lo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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23/04/2008 - 08:04
Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento.
A platéia riu.
A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer.
O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone.
Quem se recusou a crescer foi você, cara.
Como disse?
Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo menos a decência de esperar isso acontecer antes de me atirar na cara o seu fracasso.
Seguiu-se um silêncio de cristal. O auditório estalava de tensão. Ninguém respirava. Até que o escritor de meia-idade redargüiu:
Viadinho!
E se atracaram. Os dois tiveram chance de encaixar uns tantos cruzados, e o escritor mais velho se distinguiu pelos potentes cotovelaços, enquanto o mais moço manejava com perícia um estilete, tingindo o palco de sangue, antes que entrassem para separá-los. Caiu o pano.
A platéia explodiu num aplauso de puro êxtase.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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04/04/2008 - 10:48
As livrarias pequenas ou decadentes eram as melhores. Sentimentalismo? Picas: ausência de câmeras. Esgueirava-se entre as estantes feito réptil, puro sangue frio em movimento.
Sim, um lagarto. Com olho de ave de rapina para que nada lhe escapasse: localização da obra em foco, vendedores mais próximos, possibilidade de flagra por meio de traiçoeiros espelhos ou jiraus. Suích, suích, lá ia ele dobrando esquinas acolchoadas de best-sellers, iguana com olho de gavião e mente hiperativa de escritor.
A obra em foco era sempre, de algum modo, a mesma: o último sucesso de um de seus companheiros de geração. Pareciam inesgotáveis seus companheiros de geração. E os sucessos que produziam. Acompanhava os lançamentos, pupilas estreitas esquadrinhando os cada vez mais anêmicos cadernos literários dos jornais. Para isso pelo menos serviam os pasquins: montava ali, à mesa do café, o roteiro das próximas investidas.
Às vezes acontecia de esbarrar com seu próprio livro escondido em algum pé de estante empoeirado, entre ácaros e oblívio. Raro, raríssimo. Mas sempre doía. Seu bebê incompreendido, seu prematuro grotesco. Era vexaminoso encontrá-lo nessas incursões, geralmente escondido atrás de tomos impossíveis, um guia de montanhismo lapão, a autobiografia da stripper que foi sucesso década e meia atrás.
Preferia que não acontecesse, que seu rebento jamais tivesse deixado o estado de embrião. Ao mesmo tempo, o encontro sempre lhe fortalecia o ânimo para a tarefa que o aguardava. E um nobre sentimento gelado, temperatura de sáurio, adoçava-lhe o crime por vir.
Profissional orgulhoso, jamais apanhado, lá ia ele. Suích, um camaleão, sujeito sério, ninguém o tomaria pelo que era. Os vendedores sempre se distraíam em algum momento e era o que bastava: em dois segundos, estava consumado o delito. Hora de vazar.
Na rua, com as pupilas de rapineiro se adaptando à luz do sol e um gosto de sangue na boca, o coração batia no esôfago e a euforia lhe desenrolava um tapete de vento sob os pés.
Missão cumprida: mais um paparicado companheiro de geração escondido atrás de barreiras inexpugnáveis de guias de montanhismo lapão e autobiografias de stripper.
Uma injustiça a menos neste mundo mau.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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05/03/2008 - 08:01
O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink.
Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto anunciado aos sussurros no submundo literário como espetacular, uma espécie de pedra filosofal dos escritores. A coisa cheirava a picaretagem de longe, só que, surpreendentemente, funcionou: até o escândalo estourar, todos os clientes de Jerônimo Mayrink eram vistos como autores sérios, entrevistados por jornais e TVs, fartamente lidos – isto é, lidos no clubinho dos leitores de ficção nacional, uma turma que poderia fazer assembléia numa Kombi, mas essa é outra história.
Batizado de MUSA (Mayrink’s Ultimate Simulator of Authorship), o programa podia não ser barato, mas mostrou-se genial. Essa máquina de escrever ficção usa algoritmos para “alterar” a prosa de autores consagrados, embaralhar frases, trocar palavras-chave, fundir dois ou mais textos, enfim, promover uma remixagem geral. “É mais ou menos como preparar um carro de passeio para torná-lo uma máquina de corrida perfeita”, disse Jerominho na única entrevista que concedeu, dois dias antes de aparecer enforcado na garagem de sua casa, em Jacarepaguá.
Não me perguntem como uma engenhoca dessas pode funcionar. Funciona. Das mil e tantas páginas que o MUSA produz a partir de coordenadas simples fornecidas pelo “autor”, que também é responsável por escolher os textos que servirão de matéria-prima, um clique final comanda a destilação de cento e oitenta, duzentas paginetas de uma prosa em que jamais ocorreria a ninguém – como não ocorreu mesmo, até Jerominho tomar um porre e falar demais numa festa – vislumbrar a menor relação com o livro ou livros originais.
Não fica nisso: em seus piores momentos, a ciberprosa assim produzida é perfeitamente decente, e aqui e ali exibe felicíssimos, memoráveis pontos altos. Deve-se reconhecer que isso dá e sobra para tornar a literatura Jerominho melhor que a maior parte da literatura-literatura lançada entre nós nos últimos tempos.
E finalmente aí está, como eu ia dizendo, o que mais nos deve inquietar no caso Jerominho: mais que a falsidade comprovada de meia dúzia de celebridades “literárias”, a conspícua suspeita de falsidade que paira desde então sobre a própria literatura.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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