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	<title>Todoprosa &#187; Sobrescritos</title>
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	<description>Blog de literatura de Sérgio Rodrigues</description>
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		<title>Uma ilha, um livro</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Nov 2009 18:12:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz.
– Um só?
– Um só. Qual você escolhe?
Ele pensa um pouco.
– Nenhum.
– Como, nenhum?
– Nenhum. Não vou ler, morto não lê.
– Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://colunistas.ig.com.br/sergiorodrigues/files/2009/11/uma-ilha-um-livro-21-1018x1024.jpg" alt="uma ilha um livro 2" width="410" height="414" class="alignleft size-large wp-image-16036" />– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz.</p>
<p>– Um só?</p>
<p>– Um só. Qual você escolhe?</p>
<p>Ele pensa um pouco.</p>
<p>– Nenhum.</p>
<p>– Como, nenhum?</p>
<p>– Nenhum. Não vou ler, morto não lê.</p>
<p>– Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro.</p>
<p>– Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes.</p>
<p>– Se mata…</p>
<p>– Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte.</p>
<p>Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse <i>Estrela da vida inteira</i>, <i>Em busca do tempo perdido</i> ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete.</p>
<p>Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único livro sobreviver ao fim do mundo deve ser mesmo insuportável. Está até um pouco espantado, quase eufórico: caramba, acho que não dei apenas uma resposta espirituosa, isso é uma tremenda verdade! Um livro só? Melhor morrer. Quer anotar a idéia num guardanapo, depois desiste, distraído com o decote que se descortina do outro lado da mesa. E também pensa que a noite promete.</p>
<p>Agora a promessa já se cumpriu. Na cama dele, sob o lençol amarfanhado, ela ronrona, cabelos espalhados em seu peito, enquanto ele fuma. É o momento daquela volta lenta ao mundo da linguagem articulada, depois da rendição momentânea aos grunhidos da selva. Foi bom, foi muito bom. E ele fala:</p>
<p>– Sabe aquela história da ilha deserta?</p>
<p>– Hmm.</p>
<p>– Eu disse que me matava se tivesse só um livro…</p>
<p>– Ah, eu adorei. Nunca ninguém me respondeu assim.</p>
<p>Ele fica uns segundos em silêncio, espreme o cigarro no cinzeiro.</p>
<p>– E se fosse um game?</p>
<p>– O quê?</p>
<p>– Se em vez de um livro eu pudesse levar um videogame. Um só. Sabe qual seria?</p>
<p>Ela ergue a cabeça do travesseiro peludo do peito dele. Sente frio de repente.</p>
<p>– Hmm.</p>
<p>– Sonic. Sou louco pelo Sonic. É antiguinho, mas eu podia ficar a vida inteira fazendo aquele porco-espinho pular…</p>
<p>Diz isso e, com um sorriso, se deixa levar pelo sono: menos de um minuto depois está ressonando.</p>
<p>Ela pula da cama. Arrepiada de frio, sai andando nua pelo apartamento, que mal teve tempo de ver quando chegaram, ocupados que estavam em se morder, arrancar as roupas e atravessar a sala na direção do único quarto.</p>
<p>A sala tem um sofazinho de dois lugares. Uma poltrona, jornais espalhados pelo chão. Uma estante pequena com prateleiras tomadas por garrafas de cachaça, licor, uísque, canecão de chope com o escudo do Flamengo, CDs. Ah, sim, um livro também. Um livro solitário. Ela se aproxima, temerosa, e lê na lombada, à luz fraca da rua que entra pela janela: <i>Onze minutos</i>, de Paulo Coelho.</p>
<p>Mas já é tarde demais.</p>
<p>*</p>
<p><i>A reprise deste conto é um mero pretexto para publicar aqui a ilustração, esta sim inédita, do artista gaúcho Gilmar Fraga, responsável por todos os traços da edição de &#8220;Sobrescritos &#8211; 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos&#8221;, que a Arquipélago Editorial lança em março.</i></p>
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		<title>Diálogo entreouvido na fila do sopão</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Nov 2009 15:34:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz?
Vender?
Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz?</p>
<p>Vender?</p>
<p>Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada.</p>
<p>Sei. </p>
<p>O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites e porrinhas, peças que você vai ter que moldar feito um funileiro maluco, preste atenção – uma por uma! Acredite: a certa altura dá vontade de morrer, mudar de nome, ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar. Sabe o que é que nos salva no fim?</p>
<p>Não faço a menor idéia.</p>
<p>É que nem todas as peças do carro você precisa fabricar sozinho. Escritores roubam, são cleptomaníacos, colecionadores de quinquilharias. Juntam pedacinhos de coisas quebradas para fazer seu próprio ninho, na feliz metáfora de Margaret Atwood: qualquer pedaço de barbante, araminho solto, ripa de papel nos serve.</p>
<p>Gambiarras, é?</p>
<p>Ô, você nem imagina.</p>
<p><i>Publicado em 26/9/2008.</i></p>
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		<title>Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o anacoluto</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 19:27:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[O anacoluto, do grego anakólouthon, “o que não tem seqüência”, sem ele não vivemos. Quebra de estrutura, não exagera quem diz que o recurso está para a sintática como o non sequitur para a lógica. Eu, tanto faz que os conformistas do papai-e-mamãe gramatical riam de mim, apontando tropeços, gagueiras: o anacoluto para reproduzir na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O anacoluto, do grego <i>anakólouthon</i>, “o que não tem seqüência”, sem ele não vivemos. Quebra de estrutura, não exagera quem diz que o recurso está para a sintática como o <i>non sequitur</i> para a lógica. Eu, tanto faz que os conformistas do papai-e-mamãe gramatical riam de mim, apontando tropeços, gagueiras: o anacoluto para reproduzir na escrita o tumulto da vida não existe outro igual.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A mulher de Botero</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Oct 2009 19:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras. </p>
<p>Terminou por achar graça: a assombração era um incrível <i>trompe-l’oeil</i> produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez. </p>
<p>Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.</p>
<p>Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim&#8230;”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação. </p>
<p>Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.</p>
<p>O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.  </p>
<p>Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.</p>
<p>Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?</p>
<p>Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago. </p>
<p>Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.</p>
<p>João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.</p>
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		<title>Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o plausível</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 19:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não soe falso, para que o leitor acredite naquilo, para que tudo fique, digamos, <i>plausível</i>. (Não sei se o autor da pergunta tinha lido algum dos autores à sua frente e o considerava especialmente plausível. Gosto de imaginar que estivesse externando uma angústia antiga, nascida talvez da insatisfação com seus próprios escritos – mas isso não vem ao caso.) </p>
<p>Depois de alguns segundos de constrangimento, não suportando mais o silêncio, peguei o microfone e comecei a falar a primeira coisa que me veio à cabeça: algo sobre a importância de rasgar, reescrever, enxugar, experimentar outro caminho. Mas a verdade é que, como meus companheiros de mesa, passei longe de captar o alcance da pergunta. Via nela apenas o lado ingênuo, óbvio, infantil, diante do qual o primeiro impulso é sacudir os ombros: “Ora, escrever é isso aí mesmo, o que mais posso dizer?” Só agora, meses depois, começo a entender as sutilezas da plausibilidade.</p>
<p>Convém explicar esse negócio. Quando se fala em plausível, aqui, não se quer dizer realista. Mesmo porque, no limite, o espelho da realidade é profundamente implausível – já sabia Mark Twain ao dizer que a literatura, ao contrário da vida, tem que fazer sentido. Cortázar é inteiramente plausível ao mover seu protagonista entre Buenos Aires e Paris no tempo de uma vírgula. A plausibilidade em questão se instaura dentro do próprio texto, e não na relação deste com o mundo exterior. Está nas palavras, na escolha delas e na relação que estabelecem umas com as outras. Tem menos a ver com a idéia de verossimilhança e mais com a de reverberação. Os críticos que falam em suspensão de incredulidade não fazem nada além de pagar tributo ao plausível.   </p>
<p>Pode parecer banal, mas há algo de misterioso nessa idéia. Autran Dourado fala de livros insatisfatórios salvos pela simples troca de um tempo verbal – do passado para o presente, por exemplo. Sei, por experiência própria, que personagens irremediavelmente falsos podem se fazer verdadeiros num segundo, bastando para tanto trocar seu nome – tarefa que nos processadores de texto não dá trabalho nenhum, mesmo que executada ao longo de mil páginas. Tudo isso sugere algo de alquímico no texto literário, um elemento que está além da técnica e até da inspiração. Um elemento cujo melhor símbolo talvez seja a vírgula que faz desabar um romance, na famosa hipérbole de Luiz Vilela. Volátil, difícil de controlar, esse poder que têm (mas terão mesmo?) as palavras de soar verdadeiras ou falsas em si mesmas, bastando para tanto uma troca de sonoridade ou ritmo, tem sua manifestação mais inexplicável numa idéia que li certa vez numa entrevista de Jeffrey Eugenides.</p>
<p>A tese do autor de “As virgens suicidas” é simples: as cenas narradas por um escritor podem ser sempre melhoradas pela introdução de um elemento qualquer, ainda que secundário, que lhe seja caro ao coração. Assim, ao apresentar um personagem em tudo diferente de si, um sujeito detestável cujas circunstâncias e personalidade não lhe poderiam ser mais alienígenas – terreno fértil para a insinceridade e o esteótipo, como se pode imaginar – o escritor deve usar o truque de incluir entre seus traços distintivos algo tirado de sua própria experiência. Digamos, um gosto infantil por bolinha de gude. E pronto: os maiores canastrões da literatura se tornam imediatamente críveis. A gota de verdade num caldeirão de mentiras deflagra uma espécie de reação química que faz tudo parecer verdadeiro.</p>
<p>A se aceitar como razoável o conselho de Eugenides, vemo-nos diante de uma questão um tanto esotérica: se a “verdade” do texto para o escritor se funda num elemento tão secreto, de que forma essa verdade se comunica ao leitor ignaro? Do ponto de vista deste, que diferença pode fazer, numa descrição, que um dos itens mencionados de passagem diga respeito a uma memória emocional do autor, se este não o declara? Mas faz toda a diferença, sustenta Eugenides.</p>
<p>Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva sobre isso, mas devo dizer que minha experiência parece comprovar a tese. Lembro-me de usar o truque, por exemplo, ao descrever o quarto de Camila, personagem de “Elza, a garota”. O troço não soava lá muito bem até eu meter no quadro o aquário onde mora um beta azul chamado Zeb. Zeb, o peixe de verdade, pertencia aos meus filhos e tinha morrido pouco tempo antes. O trecho sem dúvida melhorou com a chegada dele, e acho que não apenas para mim. Só não vou dizer que entendo, às vezes sobram uns mistérios.</p>
<p><i>O texto de hoje, ao contrário dos dois primeiros da série, é inédito.</i></p>
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		<title>Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: o fio</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Oct 2009 16:06:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de <i>topoi</i>, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página <i>naquele momento</i>.</p>
<p>É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas nos sinais. E é a consciência da ausência de fio que nos leva a ler cinco páginas e meia do romance <i>cult</i> recém-lançado como quem encara um suflê de alfafa, garfada a garfada, penosamente, antes de tomarmos coragem para seguir o conselho de Dorothy Parker: “Este não é um livro que se possa deixar de lado de forma leviana. Deve-se atirá-lo longe com toda a força”. Teríamos cometido uma injustiça? Brilharia milagrosamente a partir da página dezoito o gume até então cego? Nós e Dorothy jamais saberemos.</p>
<p>Mas como se dá, afinal, a avaliação da escrita por um critério tão impressionista? Quem diz onde está o fio, ou pior, quem diz <i>o que é</i> o fio? Quem leu o suficiente para dizer, é claro. Mas diz em primeiro lugar – e isso é importante – a si mesmo. Assim como a realidade do texto para o leitor se dá sempre agora, não importa quanto tempo o autor tenha investido nele nem quantos séculos tenham se passado entre escrita e leitura, da mesma forma esse leitor-juiz, se tiver dois gramas de sabedoria, saberá que é irremediavelmente idiossincrático ao julgar o fio. Isso não significa decretar um vale-tudo estético baseado apenas no “gosto pessoal”. Nenhum gosto é exclusivamente pessoal, mas sempre enraizado num patrimônio de cultura que pertence à sociedade. Ocorre apenas que, de tanto ler, o leitor, submisso leitor, acaba dando um jeito de instaurar sua própria tirania sobre os escritores: se puder, não permitirá de modo algum que aquelas palavras lhe arranhem a retina, a mente ou a alma. Eis por que uma boa pedra de amolar é mais importante na mesa de trabalho do escritor do que papel e caneta – ou um computador.</p>
<p><i>Publicado em 7/10/2008.</i></p>
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		<title>Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a barriga</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Oct 2009 15:38:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva.</p>
<p><i>Publicado em 30/3/2007. Aproveito para comunicar aos leitores uma mudança de data: a edição de &#8220;Sobrescritos&#8221;, o livro, pela Arquipélago Editorial, sairá em março do ano que vem.</i> </p>
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		<title>Oficina de ficção</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Sep 2009 22:46:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto o livro não vem, e para não fugir do assunto de ontem, reedito um Sobrescrito publicado em fevereiro do ano passado:
Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><i>Enquanto o livro não vem, e para não fugir do assunto de ontem, reedito um Sobrescrito publicado em fevereiro do ano passado:</i></p>
<p>Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que estava projetando no corpo dela, sardento e quebradiço nos trechos que o decote e a saia deixavam entrever, a expectativa de uma vegetação sumosa escondida em dobras propícias. O diálogo, quando chegou a hora do diálogo, foi banalíssimo, vamos jantar, vamos, vamos para minha casa, vamos, o que a decepcionou um pouco, mas a essa altura seus olhares já tinham se cruzado tantas vezes, enquanto o professor dissecava algum conto mal-ajambrado e reduzia a pó mais um aluno infeliz, que a narrativa tinha que se desenrolar até aquele final, um final sem adjetivo luxuriante nenhum, apenas este: previsível, um final previsível. Na semana seguinte ele abandonou a oficina de ficção sem nem se despedir. Poucos dias depois ela começou a namorar o escritor de barba espessa e fama rala, com quem acabou se casando.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O famoso Desafio Stuckert</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Aug 2009 13:56:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[Caso raro de filantropo cultural na história do país, Lírio Stuckert, o hoje sessentão herdeiro do império de mineração Stuckert, sobe ao palco com passos lentos, caminha até o microfone instalado sobre um púlpito de madeira de lei e, varrendo o auditório lotado com um olhar vago, pigarreia meia dúzia de vezes. 
Após trinta anos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caso raro de filantropo cultural na história do país, Lírio Stuckert, o hoje sessentão herdeiro do império de mineração Stuckert, sobe ao palco com passos lentos, caminha até o microfone instalado sobre um púlpito de madeira de lei e, varrendo o auditório lotado com um olhar vago, pigarreia meia dúzia de vezes. </p>
<p>Após trinta anos de expectativa, o famoso Desafio Stuckert está prestes a chegar ao fim. </p>
<p>Como sabe qualquer um que não viva em Marte, Lírio Stuckert deixou para trás em 1979, ao completar 33 anos, uma juventude boêmia rascunhada no submundo internacional das artes moderninhas – entre São Paulo, Paris, Nova York e Tóquio – para dedicar os anos mais produtivos de sua vida e uma gorda fração de sua fortuna à procura do mais valioso e mitológico dos diamantes: o Escritor Genial Inédito, criminosamente ignorado pelas editoras e perdido nos confins deste Brasilzão.</p>
<p>Ao longo de três décadas, a Fundação Stuckert recebeu 1.528.777 originais que, garante seu patrono, foram <i>todos</i> lidos com lupa, linha a linha, por uma equipe eclética de especialistas e não-especialistas, de pós-doutores a diletantes renomados. </p>
<p>E agora, diante de representantes de toda a imprensa nacional, Lírio Stuckert está finalmente anunciando o resultado da busca de uma vida inteira.</p>
<p>– Bom dia a todos – diz ao microfone. – Gugu-dadá, bezerrinho quer mamar.</p>
<p>Um murmúrio perplexo percorre a audiência. O grande filantropo cultural ergue a voz e bate no peito:</p>
<p>– Krig-ha, bandolo!</p>
<p>Então, desabotoando a braguilha, despeja um fio curvo e dourado sobre os jornalistas da primeira fila:</p>
<p>– Conheceu, papudo? </p>
<p>Dois brutamontes de branco entram correndo no palco com uma camisa-de-força. Antes de ser carregado às pressas para os bastidores, Lírio Stuckert ainda tem tempo de encher o salão com berros melodiosos:</p>
<p>– Pedro de Lara, lá, lalalalá, lalá, lalalalá, lalalalalalá&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O estranho caso do Wiki-Machado</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 16:13:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sérgio Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sobrescritos]]></category>

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		<description><![CDATA[“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal?
Hm.
Hmm.
Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado?
Herança. Legado é sinônimo de herança.
Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista.
Acho que funciona: “&#8230; a herança da nossa miséria”. 
Apoiado, mas essa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal?</p>
<p>Hm.</p>
<p>Hmm.</p>
<p>Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado?</p>
<p>Herança. Legado é sinônimo de herança.</p>
<p>Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista.</p>
<p>Acho que funciona: “&#8230; a herança da nossa miséria”. </p>
<p>Apoiado, mas essa miséria também é de um negativismo que vou te contar&#8230; E logo na última frase do livro! </p>
<p>Hmmm.</p>
<p>Hmmmm.</p>
<p>Uma péssima última impressão, eu acho.</p>
<p>Entendi seu ponto. Talvez “a herança de nossas modestas aquisições” fique maneiro. Porque combina com o personagem, que é um cara assim meio fracassado, mas não puxa tanto pra baixo.</p>
<p>E no fundo diz a mesma coisa.</p>
<p>Beleza.</p>
<p>O que mais?</p>
<p>Olha, eu ainda não tinha falado nada, mas pra mim esse negócio de não ter filhos e anunciar isso cheio de orgulho é que é mó deprê. Muito leitor ou leitora que seja pai ou mãe vai se sentir agredido ou agredida.</p>
<p>É.</p>
<p>Que tal isso? “Não tive, infelizmente, a oportunidade de ter filhos&#8230;”</p>
<p>Epa, mas aí seria uma agressão aos leitores e leitoras que optaram por não ter filhos!</p>
<p>Tá, a gente tira o “infelizmente”.</p>
<p>Hmmmmm.</p>
<p>Hmmmmmm.</p>
<p>Como tá ficando esse troço?</p>
<p>“Não tive a oportunidade de ter filhos, não transmiti a nenhuma criatura a herança de nossas modestas aquisições.”</p>
<p>“Mas estou pensando em adotar um.”</p>
<p>O quê?</p>
<p>Uma sugestão. Assim o livro termina pra cima, aponta pro futuro. E ainda rola uma consciência social.</p>
<p>“Mas estou pensando em adotar um.” Cara, você é bom! Todo mundo concorda?</p>
<p>Acho legal, mas olha, sem querer ser estraga-prazeres: o sujeito não tá morto?</p>
<p>O autor? Claro, achei que essa parte já estivesse clara pra todos nós. O autor morreu, por isso estamos aqui.</p>
<p>Não, quero dizer o narrador. O narrador morreu, como vai adotar uma criança?</p>
<p>Caramba, é mesmo. Que saco.</p>
<p>Hmmmmmmm.</p>
<p>Hmmmmmmmm.</p>
<p>Hmmmmmmmmm.</p>
<p>Quer saber? Esse fecho não tá rolando. Tem coisas que não dá pra consertar. E se a gente simplesmente cortar isso, der um sumiço no filho, na herança e na porra toda?</p>
<p>Issa!</p>
<p>Gênio!</p>
<p>Já é!</p>
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