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04/11/2009 - 17:27
O anacoluto, do grego anakólouthon, “o que não tem seqüência”, sem ele não vivemos. Quebra de estrutura, não exagera quem diz que o recurso está para a sintática como o non sequitur para a lógica. Eu, tanto faz que os conformistas do papai-e-mamãe gramatical riam de mim, apontando tropeços, gagueiras: o anacoluto para reproduzir na escrita o tumulto da vida não existe outro igual.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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28/10/2009 - 17:51
João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras.
Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez.
Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.
Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim…”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação.
Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.
O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.
Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.
Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?
Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago.
Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.
João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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22/10/2009 - 17:55
Na Flip, a pergunta de alguém da platéia se dirige a todos os que dividem o palco – Arnaldo Bloch, Tatiana Salem Levy e eu. E ficamos nos entreolhando, sem saber o que responder. Não me lembro textualmente da pergunta, mas a idéia era saber o que nós, escritores, fazemos para que nosso texto não soe falso, para que o leitor acredite naquilo, para que tudo fique, digamos, plausível. (Não sei se o autor da pergunta tinha lido algum dos autores à sua frente e o considerava especialmente plausível. Gosto de imaginar que estivesse externando uma angústia antiga, nascida talvez da insatisfação com seus próprios escritos – mas isso não vem ao caso.)
Depois de alguns segundos de constrangimento, não suportando mais o silêncio, peguei o microfone e comecei a falar a primeira coisa que me veio à cabeça: algo sobre a importância de rasgar, reescrever, enxugar, experimentar outro caminho. Mas a verdade é que, como meus companheiros de mesa, passei longe de captar o alcance da pergunta. Via nela apenas o lado ingênuo, óbvio, infantil, diante do qual o primeiro impulso é sacudir os ombros: “Ora, escrever é isso aí mesmo, o que mais posso dizer?” Só agora, meses depois, começo a entender as sutilezas da plausibilidade.
Convém explicar esse negócio. Quando se fala em plausível, aqui, não se quer dizer realista. Mesmo porque, no limite, o espelho da realidade é profundamente implausível – já sabia Mark Twain ao dizer que a literatura, ao contrário da vida, tem que fazer sentido. Cortázar é inteiramente plausível ao mover seu protagonista entre Buenos Aires e Paris no tempo de uma vírgula. A plausibilidade em questão se instaura dentro do próprio texto, e não na relação deste com o mundo exterior. Está nas palavras, na escolha delas e na relação que estabelecem umas com as outras. Tem menos a ver com a idéia de verossimilhança e mais com a de reverberação. Os críticos que falam em suspensão de incredulidade não fazem nada além de pagar tributo ao plausível.
Pode parecer banal, mas há algo de misterioso nessa idéia. Autran Dourado fala de livros insatisfatórios salvos pela simples troca de um tempo verbal – do passado para o presente, por exemplo. Sei, por experiência própria, que personagens irremediavelmente falsos podem se fazer verdadeiros num segundo, bastando para tanto trocar seu nome – tarefa que nos processadores de texto não dá trabalho nenhum, mesmo que executada ao longo de mil páginas. Tudo isso sugere algo de alquímico no texto literário, um elemento que está além da técnica e até da inspiração. Um elemento cujo melhor símbolo talvez seja a vírgula que faz desabar um romance, na famosa hipérbole de Luiz Vilela. Volátil, difícil de controlar, esse poder que têm (mas terão mesmo?) as palavras de soar verdadeiras ou falsas em si mesmas, bastando para tanto uma troca de sonoridade ou ritmo, tem sua manifestação mais inexplicável numa idéia que li certa vez numa entrevista de Jeffrey Eugenides.
A tese do autor de “As virgens suicidas” é simples: as cenas narradas por um escritor podem ser sempre melhoradas pela introdução de um elemento qualquer, ainda que secundário, que lhe seja caro ao coração. Assim, ao apresentar um personagem em tudo diferente de si, um sujeito detestável cujas circunstâncias e personalidade não lhe poderiam ser mais alienígenas – terreno fértil para a insinceridade e o esteótipo, como se pode imaginar – o escritor deve usar o truque de incluir entre seus traços distintivos algo tirado de sua própria experiência. Digamos, um gosto infantil por bolinha de gude. E pronto: os maiores canastrões da literatura se tornam imediatamente críveis. A gota de verdade num caldeirão de mentiras deflagra uma espécie de reação química que faz tudo parecer verdadeiro.
A se aceitar como razoável o conselho de Eugenides, vemo-nos diante de uma questão um tanto esotérica: se a “verdade” do texto para o escritor se funda num elemento tão secreto, de que forma essa verdade se comunica ao leitor ignaro? Do ponto de vista deste, que diferença pode fazer, numa descrição, que um dos itens mencionados de passagem diga respeito a uma memória emocional do autor, se este não o declara? Mas faz toda a diferença, sustenta Eugenides.
Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva sobre isso, mas devo dizer que minha experiência parece comprovar a tese. Lembro-me de usar o truque, por exemplo, ao descrever o quarto de Camila, personagem de “Elza, a garota”. O troço não soava lá muito bem até eu meter no quadro o aquário onde mora um beta azul chamado Zeb. Zeb, o peixe de verdade, pertencia aos meus filhos e tinha morrido pouco tempo antes. O trecho sem dúvida melhorou com a chegada dele, e acho que não apenas para mim. Só não vou dizer que entendo, às vezes sobram uns mistérios.
O texto de hoje, ao contrário dos dois primeiros da série, é inédito.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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21/10/2009 - 14:06
A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comuns que a escrita ora aceita, acariciando, ora confronta, batendo de frente nas pedras – mas esta é outra conversa. O que importa destacar aqui é que toda essa algazarra se dá, como se acontecesse pela primeira vez, no ato mesmo da leitura, aparecendo antes de mais nada sob a forma de um comboio de palavras. E já que estamos no terreno do intangível: quanto mais charmoso esse comboio, quanto melhor a escrita, maior o fio, o gume com que fere a página naquele momento.
É o fio, para não deixar de explorar a polissemia da palavra, que nos leva a passar de uma palavra à próxima, de uma frase às frases seguintes, e virar as páginas fascinados num mundo em que a cada dia há mais páginas, páginas excessivas, implorando nossa atenção como crianças malabaristas nos sinais. E é a consciência da ausência de fio que nos leva a ler cinco páginas e meia do romance cult recém-lançado como quem encara um suflê de alfafa, garfada a garfada, penosamente, antes de tomarmos coragem para seguir o conselho de Dorothy Parker: “Este não é um livro que se possa deixar de lado de forma leviana. Deve-se atirá-lo longe com toda a força”. Teríamos cometido uma injustiça? Brilharia milagrosamente a partir da página dezoito o gume até então cego? Nós e Dorothy jamais saberemos.
Mas como se dá, afinal, a avaliação da escrita por um critério tão impressionista? Quem diz onde está o fio, ou pior, quem diz o que é o fio? Quem leu o suficiente para dizer, é claro. Mas diz em primeiro lugar – e isso é importante – a si mesmo. Assim como a realidade do texto para o leitor se dá sempre agora, não importa quanto tempo o autor tenha investido nele nem quantos séculos tenham se passado entre escrita e leitura, da mesma forma esse leitor-juiz, se tiver dois gramas de sabedoria, saberá que é irremediavelmente idiossincrático ao julgar o fio. Isso não significa decretar um vale-tudo estético baseado apenas no “gosto pessoal”. Nenhum gosto é exclusivamente pessoal, mas sempre enraizado num patrimônio de cultura que pertence à sociedade. Ocorre apenas que, de tanto ler, o leitor, submisso leitor, acaba dando um jeito de instaurar sua própria tirania sobre os escritores: se puder, não permitirá de modo algum que aquelas palavras lhe arranhem a retina, a mente ou a alma. Eis por que uma boa pedra de amolar é mais importante na mesa de trabalho do escritor do que papel e caneta – ou um computador.
Publicado em 7/10/2008.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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20/10/2009 - 13:38
O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva.
Publicado em 30/3/2007. Aproveito para comunicar aos leitores uma mudança de data: a edição de “Sobrescritos”, o livro, pela Arquipélago Editorial, sairá em março do ano que vem.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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09/09/2009 - 19:46
Enquanto o livro não vem, e para não fugir do assunto de ontem, reedito um Sobrescrito publicado em fevereiro do ano passado:
Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que estava projetando no corpo dela, sardento e quebradiço nos trechos que o decote e a saia deixavam entrever, a expectativa de uma vegetação sumosa escondida em dobras propícias. O diálogo, quando chegou a hora do diálogo, foi banalíssimo, vamos jantar, vamos, vamos para minha casa, vamos, o que a decepcionou um pouco, mas a essa altura seus olhares já tinham se cruzado tantas vezes, enquanto o professor dissecava algum conto mal-ajambrado e reduzia a pó mais um aluno infeliz, que a narrativa tinha que se desenrolar até aquele final, um final sem adjetivo luxuriante nenhum, apenas este: previsível, um final previsível. Na semana seguinte ele abandonou a oficina de ficção sem nem se despedir. Poucos dias depois ela começou a namorar o escritor de barba espessa e fama rala, com quem acabou se casando.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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28/08/2009 - 10:56
Caso raro de filantropo cultural na história do país, Lírio Stuckert, o hoje sessentão herdeiro do império de mineração Stuckert, sobe ao palco com passos lentos, caminha até o microfone instalado sobre um púlpito de madeira de lei e, varrendo o auditório lotado com um olhar vago, pigarreia meia dúzia de vezes.
Após trinta anos de expectativa, o famoso Desafio Stuckert está prestes a chegar ao fim.
Como sabe qualquer um que não viva em Marte, Lírio Stuckert deixou para trás em 1979, ao completar 33 anos, uma juventude boêmia rascunhada no submundo internacional das artes moderninhas – entre São Paulo, Paris, Nova York e Tóquio – para dedicar os anos mais produtivos de sua vida e uma gorda fração de sua fortuna à procura do mais valioso e mitológico dos diamantes: o Escritor Genial Inédito, criminosamente ignorado pelas editoras e perdido nos confins deste Brasilzão.
Ao longo de três décadas, a Fundação Stuckert recebeu 1.528.777 originais que, garante seu patrono, foram todos lidos com lupa, linha a linha, por uma equipe eclética de especialistas e não-especialistas, de pós-doutores a diletantes renomados.
E agora, diante de representantes de toda a imprensa nacional, Lírio Stuckert está finalmente anunciando o resultado da busca de uma vida inteira.
– Bom dia a todos – diz ao microfone. – Gugu-dadá, bezerrinho quer mamar.
Um murmúrio perplexo percorre a audiência. O grande filantropo cultural ergue a voz e bate no peito:
– Krig-ha, bandolo!
Então, desabotoando a braguilha, despeja um fio curvo e dourado sobre os jornalistas da primeira fila:
– Conheceu, papudo?
Dois brutamontes de branco entram correndo no palco com uma camisa-de-força. Antes de ser carregado às pressas para os bastidores, Lírio Stuckert ainda tem tempo de encher o salão com berros melodiosos:
– Pedro de Lara, lá, lalalalá, lalá, lalalalá, lalalalalalá…
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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23/07/2009 - 13:13
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal?
Hm.
Hmm.
Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado?
Herança. Legado é sinônimo de herança.
Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista.
Acho que funciona: “… a herança da nossa miséria”.
Apoiado, mas essa miséria também é de um negativismo que vou te contar… E logo na última frase do livro!
Hmmm.
Hmmmm.
Uma péssima última impressão, eu acho.
Entendi seu ponto. Talvez “a herança de nossas modestas aquisições” fique maneiro. Porque combina com o personagem, que é um cara assim meio fracassado, mas não puxa tanto pra baixo.
E no fundo diz a mesma coisa.
Beleza.
O que mais?
Olha, eu ainda não tinha falado nada, mas pra mim esse negócio de não ter filhos e anunciar isso cheio de orgulho é que é mó deprê. Muito leitor ou leitora que seja pai ou mãe vai se sentir agredido ou agredida.
É.
Que tal isso? “Não tive, infelizmente, a oportunidade de ter filhos…”
Epa, mas aí seria uma agressão aos leitores e leitoras que optaram por não ter filhos!
Tá, a gente tira o “infelizmente”.
Hmmmmm.
Hmmmmmm.
Como tá ficando esse troço?
“Não tive a oportunidade de ter filhos, não transmiti a nenhuma criatura a herança de nossas modestas aquisições.”
“Mas estou pensando em adotar um.”
O quê?
Uma sugestão. Assim o livro termina pra cima, aponta pro futuro. E ainda rola uma consciência social.
“Mas estou pensando em adotar um.” Cara, você é bom! Todo mundo concorda?
Acho legal, mas olha, sem querer ser estraga-prazeres: o sujeito não tá morto?
O autor? Claro, achei que essa parte já estivesse clara pra todos nós. O autor morreu, por isso estamos aqui.
Não, quero dizer o narrador. O narrador morreu, como vai adotar uma criança?
Caramba, é mesmo. Que saco.
Hmmmmmmm.
Hmmmmmmmm.
Hmmmmmmmmm.
Quer saber? Esse fecho não tá rolando. Tem coisas que não dá pra consertar. E se a gente simplesmente cortar isso, der um sumiço no filho, na herança e na porra toda?
Issa!
Gênio!
Já é!
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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24/06/2009 - 12:16
Parabéns, gafanhoto. Você passou por todas as fases básicas do curso com louvor, sem dúvida um dos melhores aspirantes que já tive o prazer de treinar.
Obrigado, mestre.
Principalmente na questão da voz narrativa, no domínio do discurso indireto livre, nos exercícios de stream of consciousness, embora, como eu já disse outras vezes, ainda precise melhorar nos diálogos e na caracterização dos personagens.
Eu sei, mestre. Estou trabalhando nisso dia e noite.
Vai com calma, o aperfeiçoamento vem com o tempo. Na boa, não tenho mais nada a ensinar a você no Módulo Básico. O que significa dizer que está na hora de entrarmos no Módulo Avançado.
Jura, o misterioso Módulo Avançado? Já?
Podemos começar hoje.
Caramba, que sinistro! Desculpe se pareço nervoso, mestre. É que desde o início do curso o Módulo Avançado é uma tremenda caixa-preta, sempre me intrigou por que no currículo ele só aparece assim, M.A. Nem as matérias eu sei quais são.
Porque só quem já tem alguma estrada pode acessar essa informação, rapaz. Por acaso deixam um médico residente fazer cirurgia cerebral? O risco de usar mal as ferramentas do Módulo Avançado é enorme.
Entendo. E que ferramentas são essas?
Um pacote gigantesco de ferramentas, gafanhoto. O Módulo Avançado consiste de treze níveis de treinamento: Pose I, Pose II, Pose III…
Pose? Não sei se entendi bem.
Não sabe o que é Pose? Arrogância, atitude, marra, grossura, deboche, convencimento, nariz em pé, olhar perdido, sorrisinho de lado, ar blasê, jeito cool…
Mas…
Estamos falando do acabamento, do toque final na formação de qualquer escritor. O controle do modo como as pessoas vão enxergar você, e portanto do modo como vão ler seus textos. Não adianta rigorosamente nada escrever uma obra-prima se a Pose do autor não estiver à altura da qualidade literária.
Engraçado, eu achei…
Achou errado. Pose sem qualidade, sim, pode funcionar. Há casos de escritores, e eu poderia citar meia dúzia agora mesmo, que são tão bons em Pose, mas tão bons, que nunca precisaram escrever uma única linha decente para serem levados a sério. Agora, se você tiver qualidade e não tiver Pose, coitadinho!
Puxa. E será que eu levo jeito para posudo?
Bom, honestamente? Confesso que o seu caso me preocupa um pouco. Em todos esses meses de curso, você nunca arriscou nem uma barbicha. E essa camisa social aí, qual é? Foi sua mãe que te deu?
Minha avó.
Ah, gafanhoto… Temos um longo Módulo Avançado pela frente.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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16/06/2009 - 11:31
Meu querido Zeca,
Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar.
Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos.
Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil das letras, impõe-se-me o dever – e a suprema satisfação – de dar-te uns quantos piparotes à guisa de conselhos. Então, prepara o cocoruto, que lá vão!
Não te acanches, não te deixes intimidar pelos caiporas. Põe de fora tua cabecinha sem temer a guilhotina, que à indiferenciação da malta mesmo o gélido fio da plaina é de preferir.
Cultiva teu pomar, mas evitando sempre o preciosismo, a pirotecnia de um Faetonte. O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta que, colhida, à palma da mão expõe o avesso pútrido. Lembra-te sempre: mais vale a expressão genuína, tosca eventualmente embora, do que lhe galopa n’alma, que o fraseado bem polidinho dos imbecis, ricamente ataviado mas oco.
Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!
Cedo descobrirás que não, a vida artística não tem a placidez de um lago suíço. Dá-se mesmo o inverso: um mar bravio é seu símile perfeito, vindo sempre aos borbotões, escouceando-se e rasgando no ar mil cristas ríspidas de espuma onde tua amada carne, ai de mim, há de lanhar-se inapelavelmente. Sofre, pois de não sofrer mais se morre, mas consola-te com o bálsamo da musa.
Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios.
Eis meu modesto legado, querido Zeca. Lá de onde eu estiver, estarei acompanhando cada um de teus passos, velando por ti, feliz de saber que a atemporalidade abençoada das letras concedeu-me, no fim da vida, lançar esta ponte sobre o abismo das épocas e me entender contigo, feito fôssemos dois estudantes noite adentro, ébrios de futuro, no idioma universal dos poetas.
Bastaria isso para justificar minha existência.
Do bisavô que te abençoa,
Demóstenes Bastião
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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28/05/2009 - 14:36
Saudação, amigo de internet! Eu é Sr. Kumbundu Wahaha, um filho de extinto ilustre escritor Sr. Dr. Kuagananga Wahaha, maior de Nigéria. Meu pai tem sido assassinado em Dezembro passado ano, 2008, por fanáticos suportadores de ex-amigo então inimigo de letras, Sr. Tutu T. Pendengas, ilustre não este, bem bastardo como uma questão de fato.
A razão que eu escreve, amigo de internet, meu extinto querido pai tem deixado soma de US$ 2.993.345.558,20 (dois bilhão, novecentos noventa três milhão, trezentos quarenta cinco mil, quinhentos cinquenta oito dólares norte-americanos, mais vinte centavos) em conta de ele, fortuna de direitos de cópia de melhor-vendido de ele, “Marfins sangrentos”, de Kuagananga Wahaha. Dinheiro que tem tido bancário bloqueio devido explosiva política situação em Nigéria. Ajuda nós!
Caso recebemos número de conta de você em banco, senha, nome completo, eu faz hoje transferência bancária de US$ 2.993.345.558,20, via Switzerland, para amigo de internet! Depois Sr. devolve fortuna e conserva para próprio uso 20% do total valor, isto é, US$ 598.669.111,64 (quinhentos noventa oito milhão, seiscentos sessenta nove mil, cento onze dólares norte-americanos, mais sessenta quatro centavos) por modos de compensando incômodo. Eu, Sr. Kumbundu Wahaha, conta com amizade de Sr. amigo e completa discrição. Boa tarde!
Seu sinceramente,
Kumbundu Wahaha
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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20/05/2009 - 17:30
Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais. Eu posso dizer, ela disse, porque já fiz muita pesquisa de campo, qualitativa e quantitativa, e no entanto… Me fixou com seus olhos negros e acrescentou: Não pense que é por masoquismo que eu prefiro dormir com escritores. Muito longe disso. Fiquei aguardando ela me dizer por que, então, preferia dormir com escritores, mas o silêncio se prolongou. O garçom veio com a nova caipirinha. Ela retirou o canudo do copo, depositou-o sobre o guardanapo e tomou um gole longo. Aproveitei para observá-la: brincos em forma de serpente chegando quase aos ombros nus, sutiã corajosamente ausente. Tinha idade para ter conhecido a poesia marginal, calculei, tateando metáforas bêbadas: se existe algo como uma mão encarregada de passar o bastão entre as gerações literárias, então ela usa esmalte escarlate e está diante de mim bem agora. Apesar de sentir uma ponta de curiosidade, decidi não perguntar por que ela preferia dormir com escritores. Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela. Seria, talvez, porque assim se sentiam escritores na plenitude da palavra – escretores, excretores – essa condição fugidia e enganadora, vaidosa e mesquinha, que ao contrário do que se pensa é infinitamente mais fácil assumir perante o mundo do que na própria alma? Aí ela vinha e assinava embaixo: és escritor, sim; por que outro motivo eu estaria aqui fazendo o papel de tinteiro para a tua pena? Foi então que o teto do bar despencou sobre nossas cabeças. Com o corpo subitamente envolto num filme de suor gelado, joguei uma nota de vinte sobre a mesa e me levantei. Sabia que, ao proceder assim, puxava mais para baixo a nota dos escritores na pesquisa dela, mas não tinha escolha. Se corresse, talvez conseguisse chegar ao banheiro antes de vomitar.
Publicado em 16/6/2008. Republicado a pedidos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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04/05/2009 - 11:07
Em 658, o pequeno reino de Lu Xian Xu, o Sábio, ao norte do Rio da Fertilidade, foi invadido pelos mongóis. Os mongóis eram terríveis. Depois de reduzirem a papa os campos de arroz do povo de Xian Xu, queimaram suas vilas, uma a uma, e chegaram por fim à cidade real. A bela Tsuido Hen consistia apenas no palácio do monarca cercado de ruas labirínticas, e os mongóis entraram pisoteando com seus cavalos peludos o labirinto, que era de papel e bambu, e foram direto ao palácio. Puseram-se então a destruí-lo, como haviam feito com colheita, crianças, adultos, cidades, esperança.
Enquanto seu palácio ardia, Xian Xu, o Sábio, entrou nos aposentos de suas onze esposas e, anunciando a derrota, ordenou que o seguissem. Pegariam a passagem secreta – a última esperança. Arrastando aquela cauda de mulheres assustadas, Xian Xu venceu o corredor com passos apressados e abriu de par em par as portas do salão abobadado da Grande Biblioteca, um aposento de vitrais altos e piso de mármore onde se assentava o xadrez das prateleiras repletas de arcanos teológicos e criacionistas, poéticos e terapêuticos, morais, filosóficos, míticos e cômicos.
O Sábio avistou então Suri Kuoda, o jovem bibliotecário, espanando poeira de uns volumes grossos. Sorriu. A esperança tinha mesmo muitas vidas.
– Você vai na frente – disse.
Salvando Suri Kuoda, Xian Xu dava-se conta de repente, salvava tudo. A memória prodigiosa do bibliotecário levaria consigo a Grande Biblioteca, ou pelo menos a melhor parte dela: os poemas eróticos de Tsi Eh, as anônimas Revelações Azuis, toda a hermenêutica de Lishmura. Os mongóis trovejavam perto dali. Uma pedra atingiu um vitral, abriu-lhe um dente. Tendo Suri Kuoda a seu lado e as onze esposas em seu encalço – era um estranho séquito o que fugia pela biblioteca, rumo ao alçapão atrás da última prateleira, de onde dariam nos subterrâneos inexpugnáveis – Lu Xian Xu ia ferido, triste como um viúvo, mas sereno e orgulhoso. A inestimável cultura de seu povo teria um futuro.
Estavam a poucos passos do alçapão quando ouviu-se um grito bestial, e um homem pendurado numa corda atravessou um dos vitrais, espatifando-o. Só então o futuro ficou claro para Xian Xu, e não era o que ele tinha imaginado. O mongol, careca como um ovo, depois de cair de pé no parapeito, tirou arco e flecha e zum, tuc, de repente tinha um pedaço de pau espetado no coração de Suri Kuoda.
Lu Xian Xu viu a ponta da flecha saindo das costas do bibliotecário e compreendeu. Mandando suas esposas imitá-lo, sentou-se no meio do corredor de livros, no mármore frio, de pernas cruzadas, e esperou a morte.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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15/04/2009 - 16:56
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Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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