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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo da Categoria Primeira mão

10/06/2009 - 12:54

Reinaldo Moraes: ‘Pornopopéia’

É difícil dar uma idéia, para quem não estava na área naquele momento, do que significou o lançamento do livrinho “Tanto faz”, de um então recém-balzaquiano Reinaldo Moraes, pela editora Brasiliense em 1981. Para nós, a quem cabia desempenhar o papel de “novíssima geração” do momento, era como se a história do desbunde de um bolsista brasileiro em Paris finalmente introduzisse na literatura brasileira uma sintaxe, um vocabulário, um humor, uma sujeira, uma inteligência e uma falta de modos que atualizavam por aqui, de um golpe só, todo o lado B do século 20, de Knut Hamsun aos Beats. Sim, tínhamos coisas pop como “PanAmérica” de José Agrippino e “Catatau” de Leminski, entre outras, mas “Tanto faz” era diferente. Lia-se sem nenhum tropeço, puro prazer. Não soava como experimentalismo ou como a busca consciente – e inevitavelmente impostada – de uma voz “jovem”. Aquilo parecia natural no cara.

Ainda parece. O caminho aberto por “Tanto faz” teve seguidores em penca, a ponto de a “sujeira” ter se tornado um terreno minado por seus próprios clichês, numa espécie de beletrismo em negativo. Demorou (pelo menos para mim, que passei batido por “Abacaxi”, seu segundo romance), mas o que já li do tijolão “Pornopopéia” (Objetiva, 480 páginas, R$ 54,90) é o suficiente para me fazer crer que Reinaldo Moraes, hoje cinqüentão, continua na vanguarda dessa picada. Bom motivo para me fazer tirar de um longo período na geladeira a seção “Primeira mão” e reproduzir abaixo o trecho inicial do livro:

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu. Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar — vários eventos, aliás, todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional. E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!

Calma, calma. Pensa que o teu vídeo será visto “de Passo Fundo a Quixeramobim, do Rio de Janeiro a Corumbá”, como disse o Zuba, ao sentir minha reação pouco eufórica diante do tema. “E capricha na linguagem brasileira universal, tá?”, foi o que ele me pediu, como se linguagem brasileira universal fosse uma das opções do Final Draft ou do Magic Screen Writer. Você clica em LBU e seu texto será entendido nos pampas, serrados, praias, selvas, semi-áridos e caatingas do país, sem contar os aglomerados urbanos e seus múltiplos guetos. Teu único filme de cinema até agora, por exemplo, nunca passou em tantos lugares ao mesmo tempo. Na caatinga, por exemplo, nunca foi visto. Não que se saiba.

Volto a perguntar: qual a diferença entre arte e embutidos de frango? Ou melhor: por que embutidos de frango não podem se transformar em arte?

Mas não precisa pensar nisso agora, nem em merda nenhuma que não seja frango embutido. Faz logo essa porra, porra. É bico: oito minutos de duração, um curta-metragem. Não vai matar o artista que há em você, amice. Ou havia. Ou nunca houve nem haverá. Foda-se.

É isso aí: vídeo institucional, embutidos de frango, Granja Itaquerambu. Beleza.

O que fode é o prazo. Sempre a porra do prazo. Tá ligado que esse roteiro tem que estar escrito, aprovado, rodado, entregue em mídia DVCAM, e exibido pros vendedores até 15 dias antes do lançamento da campanha na mídia? Ou seja, daqui a nove dias. Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino. Conheço vários roteiristas desse naipe. Dúzias deles, na verdade. Tudo uma corja de bebum cafungueiro desempregado du caraio. Por uma peteca de pó e duas Original você contrata na hora um deles. Se calhar, o infeliz ainda leva teu carro no mecânico pra trocar a fricção e te faz o obséquio de encarar uma fila de banco pra pagar tuas contas atrasadas.

Bullshit. Não preciso, nunca precisei de roteirista nenhum. Merda por merda, deixa que eu mesmo chuto. Só que dessa vez travei geral. E o cara da Itaquerambu tá no pé do Zuba, que tá no meu pé, que tô em pé de guerra com os embutidos de frango. Ridículo, isso. Fala sério: nem uma réles ideiazinha pro vídeo pintou ainda na tua cabeça, meu filho. Nem a porra duma idéia de merda.

Pois é, nem a idéia.

Tá foda.

Embutidos de frango.

Foda.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
14/03/2008 - 12:27

Milton Hatoum: ‘Órfãos do Eldorado’

eldorado.jpgUm novo livro do amazonense Milton Hatoum é sempre uma notícia a ser festejada. Foram poucos desde que ele estreou em 1990 com “Relato de um certo Oriente”: até este “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 29) eram apenas três romances, todos de alguma forma substanciais, carnudos no vocabulário e na simbologia, com algo de amazônico e transbordante em sua fé na arte de narrar – “como os romances de antigamente”, ouvi certa vez de um leitor, e era elogio. Aliada ao talento de Hatoum, a falta de pressa se traduziu num padrão de qualidade elevado que o transformou em bicho-papão de prêmios literários. Com justiça.

No novo livro, lançado apenas três anos depois de “Cinzas do Norte”, os temas habituais de Hatoum – o território conflagrado das relações familiares, a paisagem amazônica como pano de fundo e metáfora de um profundo desencanto, o acerto de contas com um passado perigoso que a memória busca mas teme empreender – são retomados em chave diferente. Novela curta, escrita por encomenda para uma série internacional sobre temas mitológicos, “Órfãos do Eldorado” se deixa ler velozmente e com prazer. Só no fim é que me vi às voltas com uma suspeita incômoda: a de que, embora sejam bem-vindos os momentos em que a busca de concisão levou Hatoum a comprimir sua prosa até aproximá-la da (boa) poesia, todo esse enxugamento pode atrapalhar mais do que ajudar seu projeto ficcional.

O problema não é técnico e sim, digamos, de temperamento. Mesmo que a oralidade do narrador, um contador de histórias, funcione mais em tese que na prática, o descarnamento necessário a uma novela é conduzido com habilidade pelo autor. Historinha de fundo mítico, entre o sonho e a vigília, sobre um amor infeliz que engole a vida inteira do protagonista, a narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que lhe cai bem. Ao mesmo tempo deixa a sensação de que Hatoum, depois do passeio por esse afluente estreito, vai se sentir mais feliz e confortável quando conduzir seu barco de volta ao leito mais caudaloso e lento do romance-romance, com suas camadas de subtramas e caracterizações detalhadas, no qual navega como poucos.

Leia abaixo um trecho do meio do livro, o único momento em que o narrador, Arminto Cordovil, chega perto de satisfazer seu desejo pela misteriosa Dinaura.

Acordei de boca aberta, respirando como um asmático. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florita.

Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer.

Quando ela falava assim, parecia adivinhar meus sonhos. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Medo de alguém que nos conhece. Para disfarçar, pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. Quando me viu na pinta e perfumado, disse que eu não devia sair de casa.

Por quê?

Não respondeu. E eu confiei na minha intuição. Antes das cinco, fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana, o lugar onde vi Amando morrer. No chão, flores arrancadas pela ventania. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. A rua do Matadouro, deserta. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. Então ela apareceu sozinha, usando um vestido branco, os braços nus. Sentamos sob a árvore, o tronco cheio de flores. Acariciei os braços e os ombros de Dinaura, e admirei o rosto dela. O desejo no olhar cresceu. Não fiz pergunta, nem disse nada. Qualquer palavra era inútil para o amor urgente. Ventava com força. Ela não se assustou com as trovoadas, nem se esquivou do meu abraço. Eu guardava as palavras no meu pensamento. Um dia viajaríamos juntos, conheceríamos outras cidades. Ela olhava a outra margem do Amazonas, como num sonho. Íamos casar e depois viver em Manaus ou em Belém, quem sabe no Rio. A chuva se aproximou com uma zoada de cachoeira. parecia que estávamos sozinhos na cidade e no mundo. Ela deitou na terra molhada, o pano do vestido colado na pele morena; se despiu sem pressa, a anágua, o corpete e o sutiã, ficou de pé, nua, e tirou minha roupa e me lambeu e chupou com gana; depois rolamos na terra até a mureta da Ribanceira, e voltamos para perto da árvore, amando como dois famintos. Não sei quanto tempo ficamos ali, acasalados, sentindo a quentura nas entranhas da carne. mal pude ver a beleza do corpo, abismado com o jeito dela, de amar. Dançarina. O ciúme me queimou. Quis esquecer isso e olhei o céu, a árvore, a torre da igreja. As flores caíam molhadas e cobriam meus olhos. Acordei com os estalos da chuva no rosto, e cometi a imprudência de beijar Dinaura com um desejo quase violento. Queria tocar a pele, beijar o corpo dela. Queria mais. os olhos diziam não. Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura, mas a chuva me ensurdecia. E o que pude nos nos lábios: uma história. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse, voltava logo. Saiu correndo, como se fugisse de uma ameaça. Fui atrás dela e parei no meio da praça. Voltei, me vesti, esperei por ela no mesmo lugar. Ainda chovia quando alguém apareceu na entrada do colégio. Chamei por Dinaura, me aproximei e vi um homem caído. De joelhos. O mendigo recadeiro segurava um guarda-chuva preto. Estropiado. Iro soltou uns gemidos, ele esperava restos de comida do refeitório do colégio. Tirei do bolso uma nota molhada e joguei na barriga do homem.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão, Uncategorized Tags:
18/02/2008 - 11:04

Começos inesquecíveis: Tomás Eloy Martínez

eloymartinez.jpgPouco depois da morte de Mãe, a Brepe deu para pular dentro do sono de Carmona. Fitava o homem enquanto ele se despia e, quando ele apagava a luz, arqueava as costas e ia se erguendo nas patas, pronta para caçar o sonho de Carmona e depená-lo assim que levantasse vôo. Mas os sonhos de Carmona não eram pássaros, e sim gatos: ásperas trevas de gatos, línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz.

O homem dormia de boca aberta e, quando ele adentrava o cone de escuridão onde pairavam os sonhos, uma manada de gatos saía de sua boca rasgada por berros de cio e mergulhava no rio dos engenhos de açúcar.

É a primeira vez que promovo aqui o cruzamento das duas seções citadas no título acima, mas tenho um bom motivo. Normalmente, a eleição de um Começo inesquecível exige um tempo de maturação de leitura que é, por definição, incompatível com o espírito apressadinho abrigado sob a rubrica Primeira mão. Certo, mas as frases iniciais da recém-lançada edição brasileira de “A mão do amo” (Companhia das Letras, tradução de Sérgio Molina e Lucas Itacarambi, 168 páginas, R$ 36), romance publicado em 1991 pelo argentino Tomás Eloy Martínez, me agarraram pelo pescoço de tal forma que fico tentado a chamá-las aqui, meio pomposamente, de melhor tradução literária da sintaxe onírica que já li. Sempre gostei de ler – e de escrever – sobre sonhos, esses vizinhos ariscos da ficção, que parecem nunca estar em casa quando tocamos a campainha. Por alguma razão, a beleza feroz de “línguas de gato movendo-se entre tições de negra luz” me parece insuperável.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão, Uncategorized Tags:
20/07/2007 - 15:46

Leonardo Sciascia: ‘A cada um o seu’

sciascia.jpgO grande escritor siciliano Leonardo Sciascia (1921-1989) andava negligenciado pelas editoras brasileiras há alguns anos. Terá saído de moda a literatura engajada, sempre às voltas com temas políticos, de um escritor que acabaria mesmo se lançando na política partidária – inicialmente pelo PCI e depois pelo Partido Radical? É possível. Quantos leitores jovens saberão sequer que seu sobrenome é pronunciado Xaxa ? Seja como for, essa ausência temporária torna ainda mais digno de comemoração o lançamento do romance “A cada um o seu” (Alfaguara, tradução de Nilson Moulin, R$ 26,90, 136 páginas).

Na superfície, trata-se de uma história policial de leitura compulsiva, curta e seca, imperdível para os fãs do gênero. Mas basta cavar um palmo para encontrar um estudo penetrante e uma denúncia feroz da lógica mafiosa, com sua rede de silêncios, corrupção e violência – tema em que o autor não tem rival. Lançado na Itália em 1966, “A cada um o seu” traz Sciascia em grande forma e em dose concentrada.

A carta chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão, como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda; depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir, a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo branco com o endereço impresso.

– Não gosto desta carta – disse o carteiro.

O farmacêutico ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou:

– O que foi? – incomodado e curioso.

– Estou dizendo que não gosto desta carta. – No mármore do balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico. Sem tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la; levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de novo.

– Por que não gosta?

– Foi postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia.

– É – constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma decisão.

– É uma carta anônima – disse o carteiro.

– Uma carta anônima – repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica, caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava o cabrito que ia pôr no forno para o jantar.

– Aqui, a mania das cartas anônimas não acaba – disse o carteiro. Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão: aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções, é claro), confiando na cordialidade e ingenuidade do destinatário: “Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí ele me mostra.” De qualquer jeito, não ia embora sem saber. Tinha tempo.

– Uma carta anônima para mim? – indagou o farmacêutico, depois de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava, o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele bom homem, de coração aberto; alguém que, na farmácia, vendia fiado a todos e, no campo, nas terras que recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade. Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência que envolvesse a senhora.

De estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a, desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta escrita com palavras recortadas de um jornal. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão, Uncategorized Tags:
16/06/2007 - 00:01

Ian McEwan: ‘Na praia’

Qualquer livro novo do inglês Ian McEwan é, hoje, um grande evento, que está para a literatura “séria” como o novo “Harry Potter” está para a literatura de entretenimento. Evidentemente, a comparação não se refere ao impacto quantitativo ou financeiro de cada um, mas ao nível de burburinho e inquietação que ambos geram em seus respectivos públicos. Não é à toa que a Companhia das Letras correu – e como – para pôr nas livrarias a versão brasileira do romance curto ou novela On Chesil Beach, “Na praia” (tradução de Bernardo Carvalho, 136 páginas, R$ 33), pouco mais de dois meses depois do lançamento britânico e num honroso empate com o americano.

Se a pressa pode ter provocado alguns problemas de acabamento, o resultado geral é correto e tem o mérito de pôr o livro em circulação entre os leitores brasileiros enquanto ele ainda está, por assim dizer, quente. Em tempos globalizados de Amazon.com, talvez isso seja, mais do que luxo, uma necessidade. (Publiquei em dezembro, aqui, um link para o primeiro capítulo do livro na “New Yorker” – o excerto aí de baixo está lá no original.)

No quadro da produção recente de McEwan, “Na praia” não tem – nem poderia ter, dado o tamanho limitado da tela – a grandiosidade de “Reparação” (Atonement), forte candidato a melhor livro de ficção dos últimos vinte anos. Mas é superior a “Sábado”, um romance em que, embora dê seu show habitual de técnica, acelerando e freando a narrativa como e quando bem entende, o autor parece ter trombado com uma limitação ideológica ao retratar com simpatia por vezes piegas a autocomplacência de uma família inglesa quase perfeita diante de um mundo violento que a sombra do 11 de Setembro tornou ainda mais instável.

“Na praia” também não podia ser mais inglês, mas de autocomplacente não tem nada. A ação se passa na noite de núpcias dos jovens e inexperientes Edward e Florence num hotel à beira-mar. Estamos no verão de 1962, pouco antes daquilo que ficaria conhecido como Revolução Sexual, e a tensão construída pelo narrador onisciente se apóia nas posturas e expectativas conflitantes dos recém-casados diante do sexo. Num ponto eles concordam: a impossibilidade de falar do assunto. Antes que a tensão exploda em um clímax desolador, McEwan faz, mais uma vez, o que quer com a arte da ficção realista, misturando pesquisa histórica e monólogo interior, atmosfera de época e acuidade psicológica, forma e fundo, com uma elegância clássica e um virtuosismo que parecem querer não apenas desmentir, mas ridicularizar os arautos do “fim do romance”.

Por essas e outras, McEwan vem plantando tão firmemente os dois pés no posto de Grande Escritor de Nosso Tempo que já começa a levar pauladas por causa disso. Inevitável: dez anos atrás, era chique gostar dele; hoje começa a virar moda na Inglaterra – e no Brasil não será diferente – espinafrá-lo sem piedade. É do jogo: se qualquer coisa que cheire a ranking literário deve ser mesmo encarada com desconfiança, o que dizer dos superlativos “unânimes”? Para o gosto de alguns, McEwan se mostra, digamos, legível demais para ser realmente bom.

Convém apenas recomendar a quem ainda não conhece sua literatura que não se deixe levar pelo fútil e fascinante jogo dos juízos absolutos antes de conferir por si mesmo. Acredito que terá boas chances de acabar concordando com este blogueiro em seu juízo também absoluto: o cara é um monstro.

Quando se beijaram, ela sentiu imediatamente a língua dele, retesada e robusta, avançar entre seus dentes, como um rufião abrindo caminho à força até um quarto. Entrando nela. A sua própria língua se dobrou e retraiu numa aversão automática, dando ainda mais espaço à de Edward. Ele sabia muito bem que ela não gostava desse tipo de beijo, e nunca fora tão impositivo. Com os lábios firmemente pregados nos dela, devassou-lhe o fundo carnudo da boca, e em seguida fez um movimento circular por trás dos dentes da arcada inferior até o vazio onde três anos antes um dente de siso crescera torto, para acabar removido sob anestesia geral. Era nessa cavidade que a língua dela normalmente se perdia, quando ela própria estava perdida em pensamentos. Por associação, tinha mais a ver com uma idéia do que com uma localização, era mais um lugar privado e imaginário do que um vão na gengiva, e a ela parecia estranho que outra língua também pudesse ter a permissão de chegar até lá. Era a ponta aguçada e dura desse músculo alienígena, vivo e palpitante, que a repugnava. A mão esquerda dele estava espalmada acima das omoplatas dela, logo abaixo do pescoço, alavancando a cabeça dela contra a dele. A claustrofobia e a falta de ar se igualavam quando ela decidiu que não suportaria ofendê-lo. Ora ele estava sob a língua dela, empurrando-a para cima, contra o céu da boca, ora sobre a língua, empurrando-a para baixo, e depois deslizando com suavidade pelos lados e em círculo, como se achasse que podia dar-lhe um nó simples. Queria enredar a língua dela em algum tipo de atividade própria, induzi-la a um abominável dueto mudo, mas ela só conseguia se encolher e se concentrar em não reagir, não ter engulhos e não entrar em pânico. Se vomitasse na boca dele – e esse era um pensamento desvairado –, o casamento estaria terminado num instante, e ela teria de voltar para casa e explicar aos pais. Entendia perfeitamente que esse negócio de línguas, essa penetração, era uma representação em escala menor, um ritual do que ainda estava por vir, como um tableau vivant, o prólogo de uma velha peça que anuncia tudo o que acontecerá em seguida.

Enquanto esperava que esse momento particular passasse, com as mãos apoiadas por convenção nos quadris de Edward, Florence se deu conta de que havia topado com um lugar-comum, bastante evidente em retrospecto, tão primitivo e antigo quando danegeld ou droit de seigneur, e cuja definição era quase tão elementar: ao decidir casar-se, foi exatamente isso que ela aceitou. Tinha concordado que era certo fazer isso, e que isso fosse feito com ela. Quando ela e Edward e seus pais seguiram em fila para a lúgubre sacristia depois da cerimônia, para assinar o registro, foi nisso que puseram seus nomes, e todo o resto – a suposta maturidade, os confeitos e o bolo – era só uma distração educada. Se não gostasse, a responsabilidade era só dela, uma vez que todas as suas escolhas ao longo do ano anterior convergiram para isso, a culpa era toda sua, e agora ela realmente achava que ia vomitar. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
08/06/2007 - 22:00

Tahar Ben Jelloun: ‘Partir’

O romancista, poeta e ensaísta marroquino Tahar Ben Jelloun, nascido em 1944, foi educado em francês em sua terra natal e se mudou em 1971 para Paris, onde vive até hoje. Mais do que informação biográfica, a adoção do francês como língua literária é fundamental na obra de Ben Jelloun, pois o situa numa zona de fronteira cultural que o torna um dos escritores africanos de maior expressão da atualidade e, ao mesmo tempo, um alvo fácil para a parcela mais xiita da crítica internacional, que o acusa de traição aos valores autênticos da “Magreb de raiz” ou coisa parecida. Bobagem. Ben Jelloun não usa o deslocamento para fazer macumba-para-turista e sim para refletir, com real talento e sem proselitismo, sobre as muitas faces da guerra cultural surda que foi (re)inaugurada pelo mundo pós-colonial e globalizado entre a Casa Grande e a Senzala do planeta. O romance “Partir” (Bertrand Brasil, tradução de Mônica Cristina Corrêa, 288 páginas, preço a definir), que ele lançou ano passado, é mais um mosaico desse desenraizamento, denunciado no trecho abaixo pelo louco lúcido que faz as vezes de consciência crítica do livro – personagem retomado de outro título de Ben Jelloun, “Moha o louco, Moha o sábio”, lançado aqui pela Francisco Alves.

Moha, o velho Moha, Moha o louco, Moha o sábio, saiu de sua árvore, descabelado, a voz grave, o olho vivo, e se precipitou para Casabarata num café onde se fazem os tratos entre os passadores e os clandestinos.

No início, Casabarata era uma favela, mas, com o tempo, o lugar se transformou em feira para os pobres. Encontrava-se de tudo ali, de sapatos velhos furados a televisores.Vendia-se tudo que se pudesse imaginar. Progressivamente, os produtos chineses, as mercadorias falsificadas, foram invadindo tudo. Mas o que interessava Moha em Casabarata eram os homens que tomavam chá fumando cachimbos com kif.

Ele se apoderou de um jornal que estava sobre a mesa, pediu um isqueiro ao garçom, olhou fixamente dois homens com jeito abestalhado por terem fumado, sacudiu o jornal e depois o queimou.

Eu também estou queimando, estou queimando como este jornal que não conta a verdade, ele diz que está tudo bem, que o governo está fazendo tudo que pode para dar emprego aos jovens, diz que aqueles que atravessam o estreito são uns perdidos, desesperados, sim, há por que estar vazio de toda e qualquer esperança, mas a vida passa e nos deixa à margem, à margem de quê, vai-se saber, eu não direi, a vida, mas que vida, a que nos esmaga, nos dilacera? Peguem, juntem as cinzas das notícias que queimei, tem um monte delas, falsas notícias, como esta moça que escreve a coluna “coração no coração”, pé no pé, meu pé seu pé, para perguntar se deve deixar seu marido beijá-la nos lábios inferiores. Uma outra pergunta se a nossa religião autoriza colocar na boca o pênis do marido, mas que loucura é esta? Parece que essas cartas não existem, deve haver um cara cheio de imaginação que as escreve e envia ao jornal. Desde então, esse jornal de esquerda faz fortuna, é uma coisa de louco o quanto as pessoas têm vontade de saber como os outros se viram com seu sexo, bom, eu não vim aqui para dar lição de moral, se uma mulher quer se dar a seu marido, que o faça e não vá alardear nos jornais. Por isso vocês querem cair fora, partir, deixar o país, ir para o lado dos europeus, mas eles não estão esperando por vocês, ou melhor, eles os esperam com os cães, pastores alemães, algemas e um pontapé no traseiro, vocês acreditam que lá tem trabalho, conforto, beleza e graça, mas, meus pobres amigos, há tristeza, solidão, céu cinzento, tem também dinheiro, mas não para aqueles que vão sem serem convidados. Bom, vocês sabem do que estou falando, quantos caras partiram e se afogaram? Quantos caras partiram e foram mandados de volta? Quantos caras desapareceram no mato, não se sabe nem mesmo se ainda estão vivos, suas famílias não têm notícias, mas eu sei onde estão, estão aqui, no meu capuz, estão amontoados uns sobre os outros, emboscados como bandidos, à espera da luz para sair, isso não é vida. Ei você! O gordo com o gorro que esconde a testa e as sobrancelhas, você se acha esperto, embolsa dinheiro e os envia à morte, um dia você será devorado por todos esses afogados, eles virão encontrá-lo em sua cama e vão comer-lhe o fígado, o coração e os colhões, você vai ver, pergunte aonde foi parar o Sif, é, o que mandava que o chamassem de sabre porque manejava o sabre como um revólver, foi degolado por mortos, é, centenas de cadáveres se apresentaram e lhe pediram que prestasse contas, ele puxou o sabre, que derreteu sob os olhares vidrados dos mortos, e ele ficou colado na parece onde mãos tão cortantes quanto uma faca de açougueiro o despedaçaram. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
02/06/2007 - 00:01

Javier Cercas: ‘A velocidade da luz’

Chega às livrarias nos próximos dias o romance “A velocidade da luz”, de Javier Cercas (Relume Dumará, tradução de Antonio Fernando Borges, 208 páginas, R$ 34,90), mais uma oportunidade que o leitor brasileiro tem de ser apresentado ao escritor mais interessante e festejado da “nova geração” (nasceu em 1962 e publica desde os anos 80) da literatura espanhola. Cercas é autor de uma proeza rara, um arrasa-quarteirão reverenciado pela crítica, o romance “Soldados de Salamina”, de 2001, em que lança um olhar original sobre a Guerra Civil Espanhola embaralhando realidade e ficção – a ponto de criar um narrador chamado Javier Cercas e um personagem secundário, também escritor, que atende pelo nome de Bolaño, como o chileno que era seu amigo e primo literário. (Para quem quiser se aprofundar na história, aqui vai uma breve resenha do Roberto Bolaño verdadeiro sobre o livro.) Lançado no Brasil em 2004 pela Editora Francis, “Soldados de Salamina” não teve por aqui nem uma migalha da repercussão internacional que mereceu, daí se poder dizer que “A velocidade da luz”, o romance com que Cercas respondeu à expectativa criada por seu maior sucesso, é uma nova chance. Nova chance para o público brasileiro, bem entendido, e não para ele, que passa bem sem isso.

Embora nos dois casos a ficção se empenhe em sabotar noções estabelecidas de bem e mal, sucesso e fracasso, pelo menos num aspecto “A velocidade da luz” trabalha no avesso de “Soldados de Salamina”. Este gira em torno de um enigmático ato de misericórdia praticado em meio à guerra pelo soldado republicano que, fingindo não vê-lo escondido, salva a vida de Rafael Sánchez Mazas, personagem real que foi um dos pilares do fascismo espanhol. No novo livro, também de arquitetura engenhosa e esticada no tempo, o narrador, um professor universitário espanhol que sonha virar escritor, torna-se amigo de Rodney Falk, veterano do Vietnã cuja passagem pela guerra não foi marcada exatamente por atos de misericórdia, para dizer o mínimo. Mais tarde, quando seu sonho de glória literária se tornar realidade em forma de pesadelo, o narrador sem nome vai voltar à terrível história de Falk em busca de redenção.

No trecho abaixo, a amizade dos dois ainda está no início, e o alerta do americano sobre os riscos do sucesso soa premonitório:

– Achou tão ruim assim o que eu lhe entreguei?

– Ruim, não – respondeu Rodney. – Horroroso.

O comentário foi como um chute no estômago. Reagi com rapidez: procurei explicar que o que ele tinha lido era apenas um rascunho, procurei defender o esboço do romance que eu iniciava; em vão: Rodney tirou do bolso do jaquetão as páginas do romance, desdobrou-as e passou a triturar seu conteúdo. Fez isso sem paixão, como o legista que faz uma autópsia, o que me doeu ainda mais; mas o que mais me doeu foi que intimamente eu sabia que meu amigo tinha razão. Arrasado e furioso, com todo o rancor acumulado enquanto Rodney falava, perguntei-lhe se em sua opinião o que eu devia fazer era parar de escrever.

– Eu não disse isso – corrigiu-me, impávido. – O que você deve ou não deve fazer é assunto seu. Não há nenhum escritor que não tenha começado escrevendo um lixo como este ou até pior, porque para ser um escritor decente nem sequer é preciso ter talento: basta um pouco de esforço. Além do mais, talento não se tem, se conquista.

– Então, por que você me pergunta se eu tenho certeza de que quero ser escritor? – perguntei.

– Porque você pode acabar conseguindo isso.

– E qual é o problema?

– É que é um ofício muito filho-da-puta.

– Não é pior do que o de tradutor, imagino. Nem, por exemplo, do que o do minerador.

– Não tenha tanta certeza – disse, com uma expressão incerta. – Não sei, talvez só devesse ser escritor aquele que não possa ser outra coisa.

Ri como se procurasse imitar a risada feroz de um camicaze, ou como se estivesse me vingando.

– Ora, ora, Rodney: não vai me dizer agora que no fundo você é um maldito romântico. Ou um sentimental. Ou um covarde. Pois eu não tenho o menor medo de fracassar.

– Claro – disse ele. – Porque você não tem nem idéia do que seja isso. Mas quem falou em fracasso? Eu falava do sucesso. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
26/05/2007 - 00:01

Rafael Cardoso: ‘Entre as mulheres’

Se é um romance ou uma coleção de contos o livro “Entre as mulheres‘’ (Record, 256 páginas, R$ 35), de Rafael Cardoso, caberá ao leitor decidir. (Quem quiser pode aproveitar o momento interativo e decidir também se é de bom ou mau gosto essa capa que explica a piada, por assim dizer, praticamente abolindo a ambigüidade do título.) Aqui no meu canto, não acredito que seja importante chegar a uma definição sobre o gênero para ter prazer na leitura desses 16 perfis femininos traçados com sensibilidade – mas sem frescura – e uma sobriedade narrativa que evita toda pirotecnia, toda reinvenção da roda, para confiar apenas no poder das histórias que estão sendo contadas sob rubricas que mantêm o mesmo padrão: um nome de mulher, uma idade, um bairro carioca. Sim, além de uma declaração de amor às mulheres, Cardoso – que lançou pela mesma editora “A maneira negra” e “Controle remoto” – faz uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. Os contos ameaçam se tornar um romance por meio de cruzamentos ocasionais entre as histórias, principalmente aqueles promovidos pelo personagem Rafael, homônimo do autor. Não me parece que isso seja o bastante para caracterizar um romance, mas não importa. Continuam valendo histórias como a de “Jamilly, Copacabana, 25”, da qual foi tirado o trecho abaixo:

O guichê da Pluma era o de número 64, e a passagem para Santo Ângelo saía a R$146,68. Isso, fazendo o roteiro Rio de Janeiro-Uruguaiana, passando antes por União da Vitória, Concórdia, Erechim, Passo Fundo, Carazinho e Ijuí. Talvez fosse até mais rápido um semileito direto para Porto Alegre, mas aí teria que pegar outro ônibus lá. Além do mais, só o trecho Rio-Porto Alegre sairia quase cinqüenta reais mais caro pela Penha. Cinqüenta reais era um boquete avulso. De jeito nenhum ela ia dar um boquete, assim de graça, para uma companhia de ônibus qualquer. Dinheiro suado, aquele! Não que ela precisasse fazer economia. Não mais. Graças a Deus. Mas não dava para ficar gastando à toa. O dinheiro guardado tinha destino certo: a casa que ela ia comprar. Própria. Sua casinha, onde havia passado a primeira infância em Santo Ângelo, antes do exílio. Antes da morte dos pais biológicos.

Na hora de preencher a ficha de embarque, por pouco não principiou a escrever “Jamilly” na linha nome do passageiro. Que engraçado, logo agora que finalmente se habituara àquele nome ridículo, não iria usá-lo mais. Era que nem horário de verão, ela pensou: quando a gente acostuma, acaba. O nome havia sido herança de uma outra Jamilly, que a antecedera no apartamento. Agora, tinha ficado para trás, em Copacabana, para a próxima que tomasse seu lugar. Seria para sempre o nome secreto de sua porção carioca, ponderou. Maria Eduarda Rossi de Araújo, escreveu, com a letra meticulosa e firme de quem só pega em caneta para anotar recado. Achou estranho ver seu nome escrito assim. Há muito tempo não se pensava como Maria Eduarda. Duda, para os amigos e familiares, que em breve reencontraria na fria madrugada gaúcha, entre as lágrimas culposas da mãe adotiva e o abraço seco do canalha que se fingia de pai. De quem ela continuava querendo distância, mesmo depois de tanto tempo. Em breve, estariam todos juntos, celebrando o Natal. Sim, os estupradores também comemoram as datas festivas.

Passou um homem junto dela e esbarrou com força no seu braço. Virou-se desequilibrada, esperando um pedido de desculpas, mas só encontrou um sorriso de deboche e um olhar velhaco, os quais sumiram rapidamente em seguida na multidão. Quem teria sido? Ele, pelo menos, a reconhecera. O rosto não lhe era totalmente estranho, mas ela costumava evitar olhar muito para o rosto deles. Era uma estratégia de sobrevivência que aprendera logo de início. Quanto menos se encarava o bicho nos olhos, menos se sofria com o resto. Pensando bem, não era verdade que a Jamilly tivesse ficado em Copacabana. Continuava ali, junto dela, naquela luminosidade fluorescente da Rodoviária Novo Rio, como uma alma penada que se recusava a desencarnar. Não via a hora de subir no ônibus e se livrar de vez desse visgo. Ainda faltavam vinte e cinco minutos até à hora da partida. Tudo bem, ela continuaria a ser Jamilly por mais vinte e cinco minutos. Não ia morrer por causa disso. Depois, se daria ao luxo simbólico de sacudir a poeira dos tênis antes de embarcar no carro que a levaria de volta ao futuro perdido. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
20/04/2007 - 22:00

Roberto Bolaño: ‘A pista de gelo’

“A pista de gelo” (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 200 páginas, R$ 37), que chega às livrarias semana que vem, é um livro do chileno Roberto Bolaño. Isso bastaria para torná-lo um destaque entre os lançamentos da temporada. Um dos nomes mais citados aqui no Todoprosa, personagem de diversas notas nos últimos meses, Bolaño (1953-2003) vem se firmando no juízo da crítica internacional como o maior nome da literatura latino-americana pós-boom. Acontece que, além de tudo isso, este é o primeiro romance que ele publicou, em 1993, bem no início da torrente vertiginosa de lançamentos – romances, contos e poesia – que marcaria seus últimos dez anos de vida como expatriado em Barcelona. Nessa posição, se fica distante da grandiosidade de “Os detetives selvagens”, “A pista de gelo” tem um interesse especial para o admirador de Bolaño por apresentar pela primeira vez vários elementos de sua obra “madura” – adjetivo meio inadequado mas inevitável para o que o sujeito escreveria poucos anos depois.

Três narradores se alternam na condução da história, num prenúncio da megapolifonia que estava por vir. Um fundo de trama policial, mesmo passando longe de confinar o romance num gueto de gênero, fornece a eletricidade que move a narrativa e faz o leitor atravessar digressões, trechos “confusos” ou sujos, às vezes escatológicos (como este abaixo), com o passo firme de quem cumpre um percurso matematicamente calculado. Ah, sim, as obsessões semi-autobiográficas de Bolaño fazem de um dos narradores um poeta mexicano sem tostão que trabalha como vigia num camping da Catalunha. De alguma forma, já estava tudo lá, e ao mesmo tempo não estava. O livro é bom, mas a graça maior da leitura é procurar as fagulhas que em pouco tempo iam detonar a explosão, aquela que transformaria um escritor talentoso em excepcional. De Bolaño, a mesma editora publicou, em 2004, a novela “Noturno do Chile”.

Às vezes, quando eu ia até a cerca do camping, de madrugada, eu o via sair da discoteca do outro lado da rua, bêbado e sozinho, ou com gente que eu não conhecia, tampouco ele, a julgar pela sua atitude retraída, pelos seus gestos de astronauta ou náufrago. Uma vez eu o vi em companhia de uma loura, e essa foi a única ocasião em que me pareceu alegre, a loura era bonita e os dois davam a impressão de ser os últimos a sair da discoteca. As poucas vezes em que me viu nos cumprimentamos levantando a mão, e foi tudo. A rua é larga e nessas horas costuma ter um ar espectral, com as calçadas cheias de papel, restos de comida, latas vazias e vidros quebrados. De tanto em tanto você encontra uns bêbados que peregrinam para os respectivos hotéis e campings, e que terminam, a maioria, perdidos, dormindo na praia. Uma vez Remo astravessou a rua e me perguntou por entre as grades da cerca se o trabalho ia bem. Falei que sim e nos demos boa-noite. Não nos falávamos muito, ele quase não aparecia no camping. Bobadilla é que vinha todas as tardes, antes que eu começasse meu turno, e ficava um tempo olhando os livros e os arquivos. Com Bobadilla nunca cheguei a ter intimidade, cada quinze dias recebia meu pagamento e a isso se resumia nosso contato, um contato cortês, é verdade. Remo e Bobadilla, este em menor grau, eram apreciados por seus empregados: pagavam bem e sabiam se mostrar compreensivos se vez ou outra surgia algum problema. Os recepcionistas, uma moça de Z e um peruano que também era eletricista, e as três mulheres da limpeza, entre as quais havia uma senegalesa que em espanhol só sabia dizer olá e adeus, trabalhavam, dentro do possível, num ambiente descontraído que inclusive propiciava os romances: o peruano e a recepcionista tinham um caso. De todo modo, problemas entre empregados e patrões eram mínimos, e problemas entre empregados não existiam. Uma das causas possíveis dessa harmonia podia ser o caráter atípico do grupo que trabalhava ali: três estrangeiros sem visto de trabalho e três velhos espanhóis a quem em nenhum outro lugar queriam dar trabalho, e o quadro estava quase completo. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
13/04/2007 - 22:01

John Banville: “O mar”

O escritor e crítico literário irlandês John Banville, 61 anos, é quase um desconhecido do público brasileiro. O que não chega a ser surpresa: ele também não goza lá de grande fama entre os leitores anglófonos. Considerado um autor “difícil” por sua prosa poeticamente trabalhada e pelo ritmo lento de suas narrativas, Banville nunca teve vendas além de uns poucos milhares de exemplares – tiragem de ficcionista brasileiro – até ganhar o Booker Prize de 2005, e com ele uma avalanche de manchetes, por este “O mar” (Nova Fronteira, tradução de Maria Helena Rouanet, 224 páginas, R$ 29,90). O romance é narrado de forma não linear por um crítico de arte de meia-idade que, tentando se recuperar da morte da mulher, retorna à cidadezinha praiana onde passava férias na infância e mergulha num mar de memórias dolorosas. A maior parte da crítica internacional saudou o livro como a obra-prima de Banville, e os elogios, embora eu ainda esteja no início da leitura, me parecem fundados. Do autor eu só tinha lido o interessante “O livro das provas”, lançado aqui pela Record em 2002. “O mar” promete mais. A beleza hipnótica de sua prosa, conservada pela tradução, brilha no trecho abaixo, que abre o livro:

Os deuses partiram no dia daquela maré estranha. Durante toda a manhã, sob um céu leitoso, as águas da baía foram subindo, subindo, atingindo alturas inauditas, com pequenas ondas lambendo a areia ressecada que, por anos a fio, não soube o que era umidade, a não ser pela chuva, e chegando até a base das dunas. Os despojos enferrujados do velho navio encalhado lá na entrada da barra, e que, para qualquer um de nós, estavam naquele lugar desde sempre, devem ter achado que tinha chegado a hora de voltar a navegar. Depois daquele dia, nunca mais nadei. As aves gritavam e mergulhavam do céu, parecendo perturbadas pelo espetáculo daquela imensa bacia cheia de água que inchava como uma bolha de um azul quase chumbo malignamente reluzente. Naquele dia, os pássaros estavam mais brancos, com uma cor nada natural. As ondas iam deixando uma faixa de espuma amarelada na areia. Nenhuma vela manchava a linha do horizonte. Não, não voltei a nadar depois desse dia. Nunca mais.

Acabou de passar alguém sobre o meu túmulo. Alguém.

A casa se chama Os Cedros, como antigamente. Um punhado eriçado dessas árvores, de um marrom cor-de-macaco, um cheiro rançoso de resina e os troncos assustadoramente retorcidos, ainda cresce à esquerda da casa, diante de um gramado maltratado que fica defronte da grande janela abaulada do cômodo que era a sala de visitas, mas que Miss Vavasour, como boa profissional do ramo, preferia chamar de saguão. A porta da frente fica do outro lado, dando para um pátio quadrado, recoberto de cascalho manchado de óleo, logo depois do portão ainda pintado de verde, embora a ferrugem tenha reduzido aquela pomposa grade a uma frágil filigrana. Fiquei impressionado ao ver como tudo mudou tão pouco nos mais de cinqüenta anos que se passaram desde que estive aqui pela última vez. Impressionado, e desapontado. Diria até horrorizado, por razões que não consigo descobrir; afinal, por que eu desejaria que as coisas houvessem mudado, logo eu, que voltei a viver em meio aos escombros do passado? Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
30/03/2007 - 22:01

Jorge Franco: ‘Rosario Tijeras’

Na votação dos cem maiores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos, feita por críticos e escritores a pedido da revista “Semana” (veja nota abaixo), o romance “Rosario Tijeras”, lançado em 1999 pelo colombiano Jorge Franco (Alfaguara, tradução de Fabiana Camargo, 160 páginas, R$ 28,90), aparece na 87a posição. Pode parecer pouco. Não é. O número de bons autores que não chegaram a entrar na lista é grande o bastante para valorizar o feito desse escritor de 45 anos nascido em Medellín. O romance apresenta, numa narrativa supereditada e veloz, a história de uma assassina sexy do submundo de Medellín e dois rapazes de classe média apaixonados por ela. As semelhanças com uma certa corrente da literatura brasileira contemporânea fixada em sexo e violência — que podemos chamar de rubem-fonsequiana — são evidentes e curiosas. Mas os leitores que, até compreensivelmente, andam cansados do estilo devem levar em conta que “Rosario Tijeras” consegue trabalhá-lo com felicidade acima da média. O trecho abaixo abre o livro:

Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte. Mas tirou a dúvida quando afastou os lábios e viu a pistola.

— Senti um arrepio pelo corpo inteiro. Pensei que fosse o beijo… — me disse ela, desfalecida a caminho do hospital.

— Não fale mais, Rosario — disse-lhe, e apertando minha mão ela pediu que não a deixasse morrer.

— Não quero morrer, não quero.

Apesar de animá-la dando esperanças, minha expressão não a enganava. Até moribunda estava bela, fatalmente divina se esvaía em sangue quando entraram com ela na sala de cirurgia. A velocidade da maca, o vaivém da porta e a ordem estrita da enfermeira me separaram dela.

— Avisa a minha mãe — pude ouvi-la falar.

Como se eu soubesse onde morava sua mãe. Ninguém sabia, nem mesmo Emilio, que a conhecia tanto e teve a sorte de possuí-la. Liguei para ele. Ficou tão calado que tive de repetir o que eu mesmo não acreditava, mas, de tanto repetir para tirá-lo daquele silêncio, caí em mim e entendi que Rosario estava morrendo.

— Vamos perdê-la, cara.

Disse isso como se Rosario fosse dos dois, ou quem sabe tivesse sido um dia, num deslize ou no desejo constante dos meus pensamentos. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
17/03/2007 - 00:01

Julian Barnes: ‘Arthur & George’

Da grande geração de escritores ingleses que integra com Ian McEwan, Martin Amis e Salman Rushdie, Julian Barnes é o mais “europeu”, no sentido de sofisticado, afeito a sutilezas de composição e pensamento, numa tradição assumidamente francófila – pecado quase imperdoável em sua ilha. O que o torna também, previsivelmente, o de menor sucesso comercial dos quatro. Autor da obra-prima “O papagaio de Flaubert”, uma mistura de ensaio e ficção em que acerta contas com sua grande admiração literária, Barnes volta, em “Arthur & George” (Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro, 448 páginas, R$ 53,50), a transformar uma figura real da história da literatura em tema. Mas desta vez, embora a variedade sempre tenha sido uma marca de sua obra, surpreendeu até quem já esperava uma surpresa. O escritor cuja vida ele romantiza é popular e inglês até a alma: Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes. E o livro, o mais convencional que Barnes já escreveu. Ficção histórica consistente, cheia de pesquisa, “Arthur & George” conta em contraponto as histórias do médico Arthur Conan Doyle e de outro personagem real, o advogado George Edalji. Trata-se de dois antípodas: um inglês atlético e bem sucedido, um descendente de indianos acusado de um crime bizarro. Seus caminhos se encontram quando, procurado por George, Arthur decide imitar seu personagem famoso e investigar a injustiça de que o advogado foi vítima, expondo uma trama de ilegalidades e preconceitos na polícia e no Judiciário.

Ele tinha modernizado a investigação criminal. Ele a havia livrado dos representantes da velha escola de detetives de raciocínio lerdo, aqueles simples mortais que recebiam aplausos por decifrar pistas palpáveis deixadas no seu caminho. Em seu lugar, ele havia colocado uma figura fria e calculista que podia enxergar a pista de um assassinato num novelo de lã e condenação garantida num pires de leite.

Holmes trouxe fama instantânea a Arthur e – algo que o comando da equipe inglesa jamais teria trazido – dinheiro. Comprou uma casa de tamanho decente em South Norwood, cujo jardim de muros altos tinha espaço para uma quadra de tênis. Pôs o busto do avô no hall de entrada e alojou seus troféus árticos no alto de uma estante. Conseguiu um escritório para Wood, que parecia ter se estabelecido como auxiliar permanente. Lottie tinha voltado de Portugal, onde havia trabalhado como governanta, e Connie, apesar de ser a mais decorativa, estava se mostrando uma ótima datilógrafa. Ele tinha comprado uma máquina de escrever em Southsea, mas nunca conseguia manipulá-la com sucesso. Era mais habilidoso com a bicicleta de dois assentos que pedalava com Touie. Quando ela engravidou de novo, ele trocou a bicicleta por um triciclo, impulsionado unicamente por força masculina. Sempre que a tarde estava bonita, ele a levava em percursos de quase cinqüenta quilômetros pelas colinas de Surrey.

Ele se acostumou ao sucesso, a ser reconhecido e investigado, bem como aos diversos prazeres e embaraços das entrevistas de jornal.

– Aqui diz que você é um homem alegre, cordial e caseiro. – Touie estava sorrindo enquanto lia a revista. – Alto, de ombros largos e com um aperto de mão firme que, na sinceridade das boas-vindas, chega a machucar.

– Que revista é essa?

The Strand Magazine.

– Ah. Sr. How, se me lembro bem. Não exatamente um esportista, conforme desconfiei na ocasião. A pata de um poodle. O que ele diz de você, meu bem? Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
12/03/2007 - 10:50

Bernardo Carvalho: ‘O sol se põe em São Paulo’

Um escritor frustrado de São Paulo é abordado num restaurante da Liberdade por uma velha senhora japonesa que diz se chamar Setsuko. Ela deseja lhe contar a história de um triângulo amoroso de desenho cambiante, nebuloso, passado no Japão do pós-guerra. É assim que o narrador entra, e atrás dele o leitor, num labirinto de sombras, simulacros, mentiras e mal-entendidos, com personagens desenraizados em busca de uma verdade que sempre lhes escapa, deixando em seu lugar a versão, o texto. Ou lacunas. Bernardo Carvalho volta a confirmar sua posição de mais “pós-moderno” dos escritores brasileiros – o que é um clichê, sim, mas não apenas isso – com o romance “O sol se põe em São Paulo” (Companhia das Letras, 168 páginas, 34 reais). Sucessor coerente de “Nove noites” e “Mongólia”, o novo livro se aproxima mais do segundo por não ter a urgência e a visceralidade que, no caso do primeiro, isentam os constantes dribles narrativos da acusação de artificialismo. Mesmo assim, e apesar de um certo desleixo formal que se manifesta sobretudo em alguns tiques de estilo e informações repetidas, é inegável que a amplitude histórica, geográfica e, digamos, filosófica da tela na qual Carvalho risca suas histórias o torna um caso raro na literatura brasileira, e sua obra, um saudável manifesto antiprovincianismo. No trecho abaixo, tirado do primeiro capítulo, o narrador encontra pela primeira vez a misteriosa Setsuko:

Passados quase dez anos sem dar as caras, agora que estava desempregado e separado da minha mulher, depois de me foder por nada, trabalhando como redator de comerciais de uma agência de publicidade, eu voltava de vez em quando ao Seiyoken. Os garçons eram os mesmos e me tratavam como se eu fosse um velho conhecido. Pensando bem, o mais certo seria dizer que, se até então eu não a percebera, era porque ela não se fazia ver. E encontros como aquele esperam a hora certa. Era uma velha discreta, que uma noite saiu do seu canto debaixo da escada, como uma aparição, para me impor o mistério do seu recolhimento. Sempre que estava sozinho, eu preferia ficar no balcão. Pelo menos tinha a companhia do sushiman. Uma vez, lá pelas tantas, quando já não restava ninguém no restaurante, a velha que eu nunca tinha percebido saiu de trás da caixa registradora onde passava as noites – deve ter se levantado e se aproximado furtivamente, porque só a notei quando já estava ao meu lado – e foi direto ao assunto: “O senhor é escritor?”. Fiquei mudo. Devo ter arregalado os olhos de um jeito que costumava afligir a minha mulher, tanto que ela logo se explicou, como se pedisse desculpas, referindo-se a um garçom: “O rapaz me disse que o senhor é escritor”. Era uma velha de cabelos grisalhos e escorridos, presos num rabo-de-cavalo que lhe dava uma aparência escolar, um vestígio anacrônico da juventude distante, como se uma jovem atriz tivesse se maquiado para interpretar uma anciã no teatro. Acho que estava com um vestido de seda azul-escuro. Já não tenho certeza. Deve ter sido uma mulher bonita. Era magra. O nariz era pontudo. Não correspondia ao padrão oriental. Os olhos também não eram tão amendoados. Estavam inchados, intumescidos, como nas máscaras de teatro nô, como se ela tivesse acabado de acordar ou estivesse chorando. Não estava. Não era alta, mas para mim, sentado no balcão, a sua presença súbita, em pé ao meu lado, conferia à dona do restaurante uma imponência inesperada. Era o contrário de si mesma, de tudo o que se podia imaginar de uma velha japonesa. Eu não podia saber que naquela noite, pouco antes de sair do seu canto para me confrontar com a consciência de uma fantasia que eu achava já ter enterrado, ela recebera a pior notícia da sua vida.

“Não”, respondi, um pouco bêbado, incomodado com o que me pareceu a princípio algum tipo de ironia ou piada de mau gosto (ainda mais àquela altura, em que eu me via desempregado e sem nenhuma outra perspectiva), embora tivesse havido um tempo, dez anos antes, em que costumava alardear as minhas ambições mais íntimas em público, sem a menor vergonha, sempre que surgia a oportunidade. “Na verdade, nunca escrevi nada.”

“O melhor escritor é sempre o que nunca escreveu nada”, ela respondeu, sem dar a entender se a ironia era por decepção ou por alívio, e se recolheu à sombra da caixa registradora, debaixo da escada atrás da porta de entrada, de onde nunca devia ter saído.

Pela primeira vez, me senti mal de estar ali. Depois de tantos anos, vi o que já não queria ver, que a minha ilusão não ia acabar enquanto eu não escrevesse a primeira linha; entendi que não tinha vencido os sonhos de adolescente, como chegara a acreditar, porque ainda nutria aquela fantasia infernal, só que agora em silêncio, só para mim. No fundo, ainda achava que pudesse escrever – e um dia me salvar não sabia bem do quê. A loucura era que nunca tivesse escrito nada além de um punhado de roteiros de comerciais. E só isso permitia que eu seguisse pensando que podia ser (ou que era) escritor, e que podia me salvar. Terminei de comer o mais rápido que pude e pedi a conta. Estava envergonhado. Saí sem olhar para trás. Pensei em não voltar mais ao restaurante. Voltei na semana seguinte. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
24/02/2007 - 00:01

William Faulkner: ‘Luz em agosto’

“Luz em agosto”, do grande mestre americano William Faulkner (Cosac Naify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 448 páginas, R$ 69), já teve uma tradução lançada no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1983. Neste quarto de século, porém, tornou-se figurinha rara entre nós este romance que costuma ser considerado o mais acessível do autor (1897-1962) de “O som e a fúria”, a melhor porta de entrada em sua obra. Publicado em 1932, “Luz em agosto” talvez tenha mesmo mais ação e menos monólogos interiores do que os livros mais famosos do homem, embora não lhe faltem uma prosa luminosa e aquela atmosfera faulkneriana de decadência econômica e moral do Sul dos Estados Unidos. Como afirma a boa orelha assinada por Marçal Aquino, “há escritores que escrevem grandes livros. Há outros, mais raros, que instauram mundos”.

A acessibilidade não significa que o livro seja simples. O grande número de personagens faz de “Luz em agosto” uma malha de histórias que se cruzam, se completam e se corrigem, todas centradas na cidadezinha de Jefferson, no fictício condado de Yoknapatawpha. Os personagens que sustentam a construção, porém, são três, e todos párias: a adolescente Lena Grove, solteira e grávida, que chega em busca do pai fujão de seu filho; o reverendo Gail Hightower, que uma esposa infiel e suicida tornou malvisto no lugar; e o forasteiro Joe Christmas, figura misteriosa que compartilha com Jesus Cristo mais do que as iniciais e se situa exatamente a meio caminho entre o lugar do herói e o do vilão. Christmas é branco, mas acredita ter sangue negro (terá mesmo?), o que o condena à inadaptação aonde quer que vá. O trecho abaixo abre o capítulo 2 e marca sua entrada em cena:

Byron Bunch sabe o seguinte: foi numa manhã de sexta-feira, três anos atrás. E o grupo de homens que trabalhava no galpão da serraria levantou os olhos e viu o estranho ali parado, olhando na sua direção. Eles não sabiam há quanto tempo ele estava ali. Parecia um vagabundo, mas também não exatamente um vagabundo. Seus sapatos estavam empoeirados, e a calça, encardida. Mas ela era de sarja decente, bem vincada, e a camisa estava suja mas era uma camisa branca, e ele usava uma gravata e um chapéu de palha bastante novo inclinado num ângulo arrogante e provocador sobre o rosto impassível. Não parecia um vagabundo profissional em andrajos profissionais, mas havia nele alguma coisa definitivamente desarraigada, como se nenhuma vila ou cidade fosse sua, nenhuma rua, nenhuma parede, nenhum quadrado de terra seu lar. E parecia carregar sempre consigo essa consciência como se fosse uma bandeira, com um quê de implacável, solitário e quase altivo. “Como se”, disseram os homens mais tarde, “andasse apenas sem sorte por algum tempo e não pretendesse ficar nisso, e não fizesse caso de como se ergueria.” Ele era moço. E Byron o observou ali parado e olhando para os homens nos macacões manchados de suor, com um cigarro num canto da boca e o rosto sombria e desdenhosamente impassível meio de lado por causa da funaça. Passado um instante, ele cuspiu o cigarro sem encostar a mão, deu meia-volta e foi até o escritório da serraria, enquanto os homens de macacões desbotados e sujos do trabalho olhavam-no pelas costas com uma espécie de perplexo sentimento de afronta. “Devíamos passá-lo na plaina”, disse o capataz. “Talvez isso tirasse esse ar da sua cara.”

Não sabiam quem ele era. Nenhum deles jamais o vira antes. “Sem contar que é muito perigoso um homem exibir essa expressão no rosto em público”, disse um. “De repente ele se esquece e a usa em algum lugar onde alguém pode não gostar dela.” Depois eles o deixaram de lado, ao menos na conversa, e voltaram ao trabalho entre rangidos e chiados de eixos e correias. Mas não demorou dez minutos para o superintendente da serraria entrar com o estranho na cola.

“Empregue este homem”, disse o superintendente para o capataz. “Ele diz que se vira com uma pá. Pode colocá-lo no monte de serragem.”

Os outros não tinham parado de trabalhar, mas não havia um único homem no barracão que não estivesse olhando de novo para o estranho com suas roupas citadinas sujas, sua expressão insuportável e soturna e todo seu ar de frio e silencioso desprezo. O capataz olhou para ele rapidamente, o olhar tão frio como o do outro. “Ele vai fazer isso com essas roupas?”

“Isso é problema dele”, disse o superintendente. “Não estou contratando as roupas.” Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
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