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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

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02/07/2007 - 11:07

O melhor da Flip – de graça

Para quem, como eu, já está de malas prontas (não esquecer os tênis mágicos, de solado resistente ao calçamento mais absurdo do planeta) para ir a Parati, eis um aperitivo. Para quem não vai, uma ótima oportunidade de estragar um pouco o prazer alheio, usufruindo de graça daquilo que outros estão comprando caro.

Do ponto de vista estritamente literário, é inútil negar que a maior atração da Flip é o escritor sul-africano/australiano JM Coetzee, um sujeito com fama de recluso e esquisitão que já avisou: não admitirá perguntas do público, limitando-se a ler em primeiríssima mão trechos de seu próximo livro, Diary of a bad year (“Diário de um ano ruim”), que seria lançado em outubro mas, parece, está ficando para janeiro do ano que vem.

Fora a aura da presença grisalha do prêmio Nobel de 2003, portanto, o que Coetzee apresentará não é nada muito diferente do que pode ser usufruído aqui, neste trecho suculento antecipado pelo último número do “New York Review of Books” (em inglês, acesso livre).

O excerto revelado de Diary of a bad year alterna blocos de texto ensaístico produzido por um famoso escritor australiano de 72 anos – coisa cabeçuda, investigando o eterno e insolúvel conflito entre a legitimidade do Estado e a liberdade do indivíduo – com pequenas inserções pessoais em que o escritor fala de seu desejo por uma vizinha jovem e bonita que, cheio de segundas e terceiras intenções, convida para trabalhar como sua secretária enquanto tenta pôr de pé a ambiciosa obra.

Mais uma vez, o velho à beira da morte babando pela jovem cheia de vida. Quem achar que alguns dos maiores escritores dos últimos tempos têm batido insistentemente nesta tecla terá, na pior das hipóteses, uma boa tese para defender. E talvez não seja descabido usar nessa defesa, além da eternidade do tema, duas provas de aguda contemporaneidade, uma material, a outra circunstancial: o Viagra e o culto cada vez mais absolutista à juventude.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
30/06/2007 - 14:18

(Re)começou

“Era uma sexta-feira chuvosa e triste quando…”, escreveu, e se deteve.

Desde quando um clichê como aquele era um começo digno para o segundo volume?

PS: Ops, começamos com problemas técnicos. Quem entrou ontem à meia-noite neste blog encontrou a casa muito mais arrumada. Um tufão de origem ainda desconhecida passou de madrugada, deixou tudo de pernas para o ar. Peço desculpas – e um pouco de paciência.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
30/06/2007 - 14:12

Dicionário de papo furado

O Cânone – Documento misterioso (que ninguém jamais viu) idealizado (ninguém sabe quando) secretamente por uma conspiração (ninguém sabe onde) de pouquíssimos machos europeus mortos, a fim de ditar aquilo que todo mundo precisa ler.

O divertido Dictionary of Fashionable Nonsense, glossário satírico do “pensamento” (perdão pelo substantivo impreciso) politicamente correto escrito pelo pessoal do ótimo site inglês Butterflies and Wheels, merece uma visita – a dica é do blog de livros do “Guardian”.

Pode-se ler online uma amostra da versão de papel, com mais de quinhentos verbetes, que está à venda na Amazon.com. Duvido que a obra esgote o tema – que talvez seja inesgotável – mas, a julgar pelo trailer, deve garantir um bom sobrevôo no território da neoburrice.

Outros exemplos:

Educação – Introdução violenta e brutal de material arbitrário nas cabeças limpinhas e inocentes das crianças, que deviam ser deixadas vazias.

Elitista – Alguém que sabe mais do que eu.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/06/2007 - 22:58

Dois finais faltantes + um encontro marcado

Primeiro os finais, depois o encontro.

A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a sra. Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a Avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.

(Marcel Proust, “No caminho de Swann”)

Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.

(Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”)

Convido os leitores do Todoprosa a seguir o blog em sua travessia para um novo endereço, www.todoprosa.com.br, que estará funcionando a partir de sábado. Atualizem seus favoritos e espalhem a notícia, por favor. Espero todo mundo lá.

Sim, a área de comentários vai sobreviver à viagem. Nada muda, embora tudo mude.

(Mas que ninguém se surpreenda se o NoMínimo renascer com algum novo formato – os caminhos, afinal, são fugitivos – dentro de um ou dois meses. Merece respeito uma tradição de resistência que é quase tão velha quanto a internet brasileira. Mesmo com outro nome, vocês logo o reconhecerão. Não tem erro: é só procurar, bem na testa, a marca de nascença do jornalismo independente, do tipo que não subestima a inteligência do leitor. O artigo, como se sabe, é raro.)

E assim termina o primeiro volume. Não a obra, que, espero, ainda vai me consumir letrinhas à beça, com a ajuda de vocês.

Muito obrigado por tudo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
25/06/2007 - 15:42

Finais inesquecíveis

O NoMínimo vira história – em todos os sentidos – dentro de poucos dias, mas a frase de Tom Stoppard não está aí em cima por acaso. O Todoprosa ficará no ar. Aguardem notícias de seu novo paradeiro.

Não gosto de choradeira (não em público, pelo menos), mas não custa tentar corrigir algumas distorções na reta final. No fim de semana, pensando nesta etapa que se encerra, me ocorreu o desequilíbrio gritante em que o blog incorreu. Sabemos que o mundo é feito de tal forma que o número de começos, no fim das contas, é sempre exatamente igual ao número de fins. Por definição. Se não é igual, é porque o “fim das contas” ainda não chegou.

Traduzindo: depois de tantos Começos Inesquecíveis, me ocorreu o tamanho da dívida de Finais Inesquecíveis que acumulei. Tento saldar parte dela agora, enquanto é tempo. Com algum atropelo e, naturalmente, sem pretender fazer uma lista de “melhores” – como nunca foi a intenção dos Começos Inesquecíveis, aliás –, aí vai uma pequena antologia descaradamente impressionista. No mínimo, ficamos no clima da semana.

Alguns finais são melancólicos:

E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.

(F. Scott Fitzgerald, “O grande Gatsby”)

Outros gelam a espinha:

Mas, de pé no quarto já quase totalmente escuro, verifiquei que Ana Meneses não existia mais. Inclinei-me para cerrar-lhe as pálpebras e, não sei, julguei perceber que no seu semblante não havia nenhum sinal dessa paz que é tão peculiar aos mortos.

(Lúcio Cardoso, “Crônica da casa assassinada”)

Há os apocalípticos:

No momento em que os seus últimos representantes vão desaparecer, achamos legítimo render à humanidade esta última homenagem; homenagem que também acabará por apagar-se e perder-se nas areias do tempo; deve-se, entretanto, ao menos uma vez, fazê-la. Este livro é dedicado ao homem.

(Michel Houellebecq, “Partículas elementares”)

Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades.

(Italo Svevo, “A consciência de Zeno”)

Os metafísicos:

Caminhou contra as línguas de fogo. Elas não morderam sua carne, elas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.

(Jorge Luis Borges, “As ruínas circulares”)

Também os tristes, mas esperançosos:

Encerro hoje, aqui, este volume malfadado do meu Diário. Não posso imaginar volume pior, com a morte da camarada Camila!

Quero que amanhã, um dia qualquer, sem nada de especial, assinale o começo de nova vida para mim.

São quatro horas da tarde.

O dia continua frio, mas firme de tempo.

(Carlos Sussekind, “Que pensam vocês que ele fez”)

Os luminosos:

E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa.

(Chico Buarque, “Budapeste”)

E a vida que segue, lambona, deliciosa:

– Sh, sh! – disse ela, e botando a língua para fora me lambeu o rosto. – Criaturinha querida, adorável!

– Au, au! Au, au! – lati. – Au! Au, au, au!

(Henry Miller, “Sexus”)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/06/2007 - 00:01

Começos inesquecíveis: Herman Melville

Sou um homem de certa idade. A natureza das minhas ocupações, nestes últimos trinta anos, me levou a entrar permanentemente em contato com uma espécie de homens interessantes e um tanto singulares, da qual, que eu saiba, nada até agora se tem escrito: refiro-me aos copistas, escriturários ou escreventes a serviço de homens de leis. Conheci muitos, quer profissional quer particularmente, e poderia, se quisesse, contar sobre eles inúmeras histórias que fariam sorrir afáveis cavalheiros e levariam às lágrimas as almas sentimentais. Mas renuncio às biografias de todos os demais escriturários para relatar algumas passagens da vida de Bartleby, o mais estranho de todos que jamais vi e de quantos tive notícia.

Aproveitando o mote da nota “O nosso Bartleby”, aí embaixo, que sirva o início de “Bartleby, o escriturário” (Rocco, 1986, tradução de Luís de Lima) como convite para quem ainda não conhece essa brilhante novelinha – ou conto alentado – que o escritor americano Herman Melville (1819-1891) publicou anonimamente numa revista em 1853, dois anos depois de sua obra-prima “Moby Dick”, e em livro, já com seu nome, três anos mais tarde.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/06/2007 - 15:28

Caro Coetzee

É boa a temporada. Praticamente numa fornada única, a Companhia das Letras pôs nas livrarias novos títulos de três dos maiores autores de língua inglesa da atualidade. Logo depois de “Casa de encontros”, de Martin Amis, e colado em “Na praia”, de Ian McEwan, chega o romance “Homem lento”, de J.M. Coetzee, principal atração da iminente Flip (tradução de José Rubens Siqueira, 280 páginas, R$ 46). Além de uma manifestação de louvor (para a tradução) e outra de absoluto a$$ombro, nada tenho a acrescentar ao que já comentei sobre esse curioso livro aqui.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/06/2007 - 11:40

Quem tem medo de JT Leroy?

O “caso JT Leroy” foi tão embaraçoso para o establishment literário em geral que acabou sendo muito menos discutido do que merece. Levantou-se uma orelha do tapete, varreu-se o assunto, uma pena. Vale aproveitar o fato de a confusão ter finalmente chegado aos tribunais na forma de uma acusação de fraude – leia a reportagem do “New York Times”, mediante cadastro gratuito – para recordar a história.

Para quem não se lembra, o escritor-personalidade JT Leroy, apresentado como um jovem travesti drogado, prostituído e soropositivo, salvo por um triz da ruína por sua genialidade literária, entrou em cena em 2000 nos Estados Unidos para virar uma celebridade instantânea.

A questão constrangedora é: quanto da imediata e festiva adoção de JT pela imprensa literária se devia à sua biografia e quanto à literatura em si? Porque a biografia provou-se mais falsa do que uma prestação de contas do presidente do Senado. E se o texto era mesmo tão espetacular quanto andaram dizendo, que importância tinha um nom de plume? Por que, do dia para a noite, todo mundo que o cobrira de elogios saiu assobiando para cima?

JT Leroy, soube-se há dois anos, era na verdade uma dona de casa quarentona chamada Laura Albert. A irmã de um namorado dela andou representando o papel do “escritor maldito” em aparições públicas – inclusive no Brasil, onde a Geração Editorial lançou dois livros de Leroy, “Sarah” e “Maldito coração”, e o autor foi tratado como uma espécie de “novo Salinger”.

No julgamento, a defesa de Laura Albert tenta afastar de sua cliente a pecha de manipuladora cínica ao apresentá-la como uma pessoa perturbada, com problemas psíquicos que a fizeram desenvolver uma “personalidade alternativa”. O que talvez seja – ou não? – mais uma camada ficcional nessa história fascinante.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
20/06/2007 - 11:06

O nosso Bartleby

…a minha impressão sugere que Raduan é um caso atípico de Bartleby. Seu silêncio literário aparentemente não se origina das tensões internas da modernidade literária, não veio de um drama autoral frente ao um desafio extremo, Raduan apenas se encaminhou para fora. A estranheza vem do nosso olhar, acostumados que estamos a descrições de “literatura como destino”, “relação orgânica texto-autor” e a escritores que lançam livros a cada dois ou três anos sem ter nada a mostrar. O ‘caso Raduan’ é um problema para nós, não para o próprio.

Em seu blog, Marco Polli comenta com perspicácia o “caso Raduan Nasssar” à luz de “Bartleby e companhia”, do espanhol Enrique Vila-Matas – um estudo literário sobre escritores que, a exemplo do escriturário de Herman Melville, em algum momento se recusam a contribuir para o excesso de letrinhas no mundo e avisam: “Prefiro não fazer”.

A nota me fez pensar numa razão para que o “silêncio dos escritores”, que não foi inventado ontem e pode obedecer a um milhão de razões particulares, nos pareça, neste início de século, um tema cultural cada vez mais relevante e desafiador. Deve ser porque vivemos – e não apenas na literatura – dentro de uma evidente pandemia, a do escrever por escrever, falar por falar, apenas para ocupar espaços e exprimir alguma individualidade na qual ninguém está realmente interessado.

Para essa doença, o “prefiro não fazer” pode parecer mesmo o único remédio. Mas que há algo de profundamente desolador na escolha entre o blablablá e a mudez, há.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
18/06/2007 - 16:41

‘Os versos satânicos’ – tudo de novo?

O título de cavaleiro que o governo britânico concedeu a Salman Rushdie no último sábado está provocando reações de profunda insatisfação em diversos países islâmicos. Nenhuma que chegue perto, no tom de ameaça aberta, destas palavras de Mohammed Ijaz ul-Haq, ministro de Assuntos Religiosos do governo do Paquistão, em discurso no parlamento:

É hora de 1,5 bilhão de muçulmanos considerarem a gravidade dessa decisão. O Ocidente tem acusado os muçulmanos de extremismo e terrorismo. Se alguém explodir uma bomba atada ao corpo, estará certo em fazê-lo, a não ser que o governo britânico peça desculpas e retire (de Rushdie) o título de Sir.

A reportagem do “Guardian”, em inglês, pode ser lida aqui.

O escritor passou a década de 90 entocado, ameaçado de morte pela fatwa decretada pelo aiatolá Khomeini, do Irã, depois que seu livro “Os versos satânicos” foi considerado ofensivo ao Islã pelas autoridades religiosas do país.

Vai começar tudo outra vez?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
14/06/2007 - 21:16

Leia o clipe, veja o livro

Outro dia falamos do assunto aqui, a propósito do divertido “trailer cinematográfico” do livro “A guerra dos bastardos”, de Ana Paula Maia (Língua Geral), uma das poucas iniciativas do gênero no Brasil. No site BookVideos.tv, ligado à editora Simon & Schuster, o barato é um pouco diferente, mais interessado em glamourizar autores e seduzir o leitor com uma espiada nos “bastidores da criação”. Qualquer que seja o conteúdo, porém, a forma parece ir além do mero modismo. Para começar, a produção é barata. E a veiculação é mais ainda, pois a internet fornece um ambiente em que as peças mais bem recebidas se espalham, por assim dizer, sozinhas. Não duvido que editoras e autores se vejam, em breve, obrigados a pegar a onda do videoclipe como peça promocional de livros.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
13/06/2007 - 18:25

Os começos inesquecíveis de Amós Oz

Onde é que uma história começa, propriamente? Qualquer começo de história é sempre um tipo de contrato entre o escritor e o leitor. Há, é claro, todo tipo de contrato, incluindo aqueles que são insinceros. (…)

Há começos que funcionam mais como um papel pega-mosca: primeiro você é seduzido por uma fofoca maliciosa, ou por uma confissão reveladora, ou por uma aventura de gelar o sangue, mas finalmente descobre que não fisgou um peixe, mas sim um peixe empalhado. Em Moby Dick, por exemplo, há muitas aventuras, mas também muitos artigos de delicatéssen não mencionados no menu, nem mesmo insinuados no contrato inicial (“Pode me chamar de Ishmael”), mas conferidos a você como um bônus especial – como se comprasse um sorvete e ganhasse uma passagem para viajar pelo mundo.

Há contratos filosóficos, como o famoso trecho inicial de Anna Karenina, de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem umas às outras; cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira.” Na verdade, o próprio Tolstói, em Anna Karenina e em outras obras, contradiz essa dicotomia.

Às vezes somos confrontados com um contrato inicial ríspido, quase intimidante, que alerta o leitor logo de início: as passagens são bem caras aqui. Se você acha que não pode pagar um considerável valor adiantado, é melhor nem tentar embarcar. Não espere concessões ou descontos. Assim, por exemplo, é o início de O som e a fúria, de Faulkner.

Mas o que é, em última análise, um começo? É possível que exista, em teoria, um começo conveniente a qualquer história que seja? Não existe sempre, sem exceção, um “começo antes do começo” latente? Algo anterior à introdução e ao prólogo?

Em “E a história começa – Dez brilhantes inícios de clássicos da literatura universal” (Ediouro, tradução de Adriana Lisboa, 136 páginas, R$ 29,90), o escritor israelense Amós Oz – que mês que vem estará em Parati – trata com erudição e engenho de um tema caro a este blog: as estratégias de sedução empregadas pelos escritores para impedir que o leitor, bicho cada vez mais arisco, vá embora logo nas primeiras linhas para nunca mais voltar.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
11/06/2007 - 14:04

A propriedade social do livro

O movimento BookCrossing lançou há seis anos nos Estados Unidos a idéia de abandonar livros em lugares públicos para que outros os leiam e depois, por sua vez, também os “esqueçam” por aí. Agora o metrô de Londres criou um programa semelhante, o London Book Project, com a diferença básica de que os livros são fornecidos pela empresa e não por leitores voluntários. Exemplares de segunda mão foram espalhados nos assentos dos trens para que os passageiros comecem a lê-los na viagem. Se for fisgado pelo autor, qualquer um pode levar os volumes para casa à vontade, mas sempre tendo o cuidado de, ao fim da leitura, deixá-los de volta no metrô. Dos dois lados do Atlântico, cada exemplar é numerado para permitir que seus leitores relatem – e acompanhem – a trajetória do livro na internet.

Idéias muito, muito simpáticas. E inviáveis no Brasil, infelizmente. Ou não?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
06/06/2007 - 23:58

Desenciclopédia de Literatura Brasileira

O melhor que se pode fazer pela “Enciclopédia de Literatura Brasileira” que o Instituto Itaú Cultural pôs no ar em seu bonito site na terça-feira é não visitá-la. Não por enquanto. Vamos ser justos e, até por respeito aos seus “consultores editoriais” – os escritores Luiz Ruffato e Flávio Carneiro e a professora Regina Dalcastagné –, esperar que a aprimorem. Do jeito que está, o trabalho é um perigo para leitores desavisados.

Não é que Ivana Arruda Leite, uma escritora interessante, não mereça um verbete. Deve merecer. Mas de modo algum poderia furar uma fila em que Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst ainda aguardam a vez. Este é só um dos 277 furos que contei em três minutos e meio na “Enciclopédia”, um espantoso conjunto de 106 nomes de “todos os tempos” cuja única defesa parece ser a precipitação de pôr no ar um trabalho maciçamente inacabado e sem apreço a prioridades.

O blogueiro exagera? Julgue você mesmo. Que o meu colega de site Daniel Galera, talentoso que só, é um bom nome para uma enciclopédia dessas, estou pronto a defender com veemência. Mas se Campos de Carvalho não aparece, nem Lúcio Cardoso, nem Rubem Fonseca, nem Nelson Rodrigues, nem João Ubaldo, nem Carlos Heitor Cony, nem Luis Fernando Verissimo, aí estamos no terreno da maluquice.

A coisa vai ficando cada vez mais esquisita. Em alguns momentos, parece um pesadelo. Leila Míccolis está lá, mas Carlos Drummond de Andrade não. Fabrício Carpinejar barra Mario de Andrade – cheguei a pensar que fosse problema do sobrenome, algum tipo de implicância com os Andrades. Mas aí dei pela falta de nosso maior cronista, Rubem Braga, e daquele que o mundo conhece como “O Romancista Brasileiro”, Jorge Amado. Ausências vertiginosas. Já Frei Betto, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira não poderiam faltar, poderiam? Presentes!

Será que a “Enciclopédia” só está interessada em ultracontemporâneos, então? Que nada. Pero Vaz de Caminha ganha um verbete, embora seja português e mau escritor. De Marçal Aquino e Rubens Figueiredo, brasileiros e bons, nem sinal. O problema não é o passado, o presente ou o futuro. O problema, o único problema, é que o nome da coisa é “Enciclopédia”. Infelizmente, é um baita problema.

Atenção, não estamos falando de um mero conjunto de “nomes” bacanas da literatura brasileira, a critério de quem organiza a brincadeira. Não estamos falando de uma salada crítica de autores nem de uma provocação jornalística. Nesses gêneros impressionistas, um certo vale-tudo já firmou jurisprudência. Estamos falando de uma “Enciclopédia”.

Está em construção? Evidente que sim. Mas jamais se avisa que aquilo ali, mais do que provisório, é periclitante. Não se escancara para o leitor em momento algum o canteiro de obras. (Ainda que ele fosse apregoado em manchete, restaria uma armadilha de desinformação para os passantes, mas pelo menos haveria uma desculpa.) Os autores bafejados pela “Enciclopédia” são simplesmente apresentados – “enciclopédicos”.

Definitivamente, melhor não visitar ainda. Fico nervoso só de imaginar um garoto de 12 anos lendo aquilo por recomendação da professora distraída. Tendo contato com aqueles nomes pela primeira vez. Ah, tem um poeta central na literatura brasileira chamado Pedro Kilkerry. Ele é muito mais importante do que Vinicius de Moraes, que não é sequer mencionado. Pesadelo, eu acho que já disse isso.

Existe uma explicação, claro: página em construção, obra em progresso. Tudo agravado por um deadline apertado, sabe como é. Quando forem listados “pelo menos” 400 escritores brasileiros de todos os tempos – marca que a “Enciclopédia”, sem pressa alguma, promete atingir “até o final de 2008” – tudo deve fazer mais sentido. Melhor aguardar o final de 2008, então, antes de aparecer por lá.

O material de divulgação do Itaú Cultural declara o objetivo de “fornecer informações precisas sobre o tema no instável e pouco confiável ambiente de informações da internet”. Faz sentido. No mundo inteiro, a superabundância de informação torna mais necessária do que nunca uma boa “edição” que nos proteja da vocação da internet para borrar toda hierarquia, toda linha de força, toda perspectiva, transformando o conhecimento humano numa pasta. Pena que hoje, na web, não haja nada mais instável e menos confiável sobre literatura brasileira do que a Enciclopédia Itaú Cultural.

Se insistir em dar uma olhada, tire as crianças da sala.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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