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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo da Categoria A palavra é...

07/11/2009 - 16:27

Curiosidades etimológicas: Hipócrita

Recuando na história da palavra, vamos encontrar um parentesco entre o hipócrita (falso, dissimulado) e o adivinho grego, o hupokrites. De início, a palavra que hoje parece feita sob medida para letras de bolero designava um intérprete de sonhos, profeta ou vidente; em seguida, passou a nomear um ator, um comediante; por fim, o mentiroso genérico. De todos esses sentidos, o que transbordou para diversas línguas modernas, por meio do latim, foi o último.

Mero acaso? Ou será que a denúncia da falsidade que acabou prevalecendo em “hipócrita” se deve a uma progressiva desilusão – ou tomada de consciência, chamem como quiserem – da espécie humana ao longo da História, desde a crença cega em oráculos até o ceticismo que hoje exercitamos diante da TV Senado?

Publicado no “NoMínimo” em 19/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
31/10/2009 - 17:02

Curiosidades etimológicas: Bonito

A história da palavra “bonito” prova que tem raízes mais fundas do que se imagina a identificação entre as idéias de beleza e bondade, que num exame superficial talvez tenhamos a tentação de atribuir a uma “ditadura estética” inaugurada pela cultura de massa e cujos arquétipos poderiam ser dois personagens de velhos filmes de faroeste: o mocinho de traços finos e o bandido abrutalhado com uma cicatriz na cara. No entanto, depois de descontados os contrabandos raciais com que o cinema americano temperou a seu modo o paralelo entre beleza e bondade (olhos azuis para cá, negros para lá), as idéias continuam de mãos dadas. A palavra “bonito” chegou ao português no século 16. Descende do latim bonus (bom), provavelmente depois de uma tabelinha com o espanhol bueno, do qual é um diminutivo. Em resumo: bonito, na origem, é bonzinho. E para não deixar dúvida alguma no ar, “belo” vem do latim bellus, também diminutivo de bonus.

Publicado no “NoMínimo” em 30/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
24/10/2009 - 13:35

Curiosidades etimológicas: Garnisé

O nome desse galináceo pequeno e invocado, reizinho dos quintais de todo o país, de agitação inversamente proporcional à estatura, é um tributo ao cruzamento de culturas como forma de enriquecimento da língua. Pega bem lembrar a história do garnisé nesses tempos bicudos, quando anglicismos de todos os formatos vêm cantar de galo em nosso terreiro e dão a tanta gente a sensação apocalíptica de que o inglês, apesar das esporadas do Itamaraty, vai matar a galinha dos ovos de ouro da língua. Calma, pessoal. O nome do garnisé, de sonoridade brasileiríssima, vem da ilha britânica de Guernsey, de onde foram importados os primeiros exemplares desses galinhos, no século 19. Quer dizer: no fim dá certo, é só não desesperar.

Publicado no “NoMínimo” em 25/1/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
17/10/2009 - 17:01

Curiosidades etimológicas: Esculachar

“Esculachar”, um dos verbos centrais da linguagem bandida de hoje, significa, como se sabe, baixar o cacete. Seu charme marginal lhe garante presença no vocabulário de um grande número de falantes urbanos, especialmente jovens. A maioria nem deve imaginar que se esculacha no Brasil faz tempo.

Tudo indica que a palavra nos chegou com os imigrantes italianos no início do século 20. Sculacciare vem de culo e quer dizer dar palmadas na bunda, especialmente de crianças. Entre nós, teve seu sentido ampliado para se tornar, ao longo de quase todo o século passado, o verbo mais expressivo para a ação de repreender de forma violenta ou grosseira.

Fazia tempo que o esculacho andava fora de moda: nas últimas décadas foi perdendo a preferência dos falantes para o esporro. O mais interessante é que volta à cena assumindo um significado mais próximo do original, ligado à violência física, do que daquele que por muito tempo foi o mais corrente. Algumas palavras hibernam.

Publicado no “NoMínimo” em 11/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
12/09/2009 - 10:46

Curiosidades etimológicas: Luau

O leitor Aian Cotrim tem uma dúvida de grafia que qualquer dicionário poderia ter sanado. Mas vale a pena falar um pouco sobre a história da palavra “luau”.

Caro Sérgio, nessa semana travei uma discussão com colegas da faculdade sobre a grafia correta de uma palavra: é ‘luau’ ou ‘lual’? Defendi com todas as minhas forças a opção ‘luau’ por achar as vogais mais características da nossa lingua, porém não tenho qualquer fundamento mais organizado para embasar minha resposta. Espero que você possa responder a minha pergunta.

Aian acertou, mas pelas razões erradas: “nossa língua” não tem nada a ver com isso. Provavelmente devido ao fato de “luau” ser uma festa praiana de estilo havaiano que ocorre à noite, muita gente acha que a palavra tem alguma relação com “lua”, “luar”. A pista não poderia ser mais falsa. “Luau” vem do havaiano lu’au, que, antes de nomear por extensão também a festa, era apenas o nome de um prato típico servido nessas celebrações – folhas de taro, um tipo de inhame, cozidas com leite de coco.

Publicado no “NoMínimo” em 16/4/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
05/09/2009 - 10:30

Curiosidades etimológicas: Subornar

Subornar vem de sub + ornar. Ornar deriva do latim ornare – “fornecer, equipar, armar, aparelhar, preparar, embelezar, ornar, distinguir, honrar”, segundo o Houaiss. Trata-se de um verbo um tanto culto, mas ainda vivo como sinônimo menos freqüente de enfeitar, adornar, ornamentar, ataviar, emperiquitar, empetecar.

Subornar é, na origem, pôr uma pulseira de ouro no subornado, um brinco de brilhante em sua orelha, uma gravata italiana em seu pescoço. Até aí faz sentido, mas… por que o “sub”? Justamente pelo caráter sorrateiro, dissimulado da operação. O prefixo “sub”, aqui, tem o mesmo sentido que exibe no adjetivo “sub-reptício”: denuncia ação furtiva, aquela que só é praticada quando se imagina que ninguém – ou, em termos mais modernos, nenhuma microcâmera – está de olho.

Publicado no “NoMínimo” em 1/7/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
29/08/2009 - 11:01

Curiosidades etimológicas: Gravata

Se passarmos a fita da história ao contrário vamos presenciar, numa daquelas eras que antigamente se chamavam de priscas, o encontro da palavra “gravata”, acessório polido do vestuário masculino, com a palavra “croata”. Veremos então que os dois vocábulos, um tanto surpresos, se apalpam, se cheiram – e se fundem. A cena se passa bem longe dos salões urbanos em que a gravata brilharia: o que vemos ao fundo, contra o céu roxo, são colunas de fumaça numa paisagem sangrenta de trincheiras.

Pois é. A “gravata”, que, já perfumada, nos chegou do francês cravate na virada entre os séculos 17 e 18, antes disso (passando a palavra ao filólogo Silveira Bueno) “veio para o centro da Europa trazida pelos cavaleiros croatas, durante as guerras com a Alemanha desde 1636, depois pelos mercenários croatas dos reinados de Luis XIII e XIV, que compunham o regimento Royal Cravate. A forma primitiva foi o eslavo hrvat passada a um dialeto alemão Krawat”.

Simplificando a prosopopéia: os soldados croatas tinham o costume de amarrar no pescoço uma tira de tecido que, vejam só, caiu no gosto dos europeus urbanos. Entre os alemães, o acessório se tornou conhecido também como “croata”, em versão dialetal. Que virou cravate em francês. Gravata, em português. Ou, numa das divertidas grafias antigas de nossa língua, garovata.

Não deixa de ser apropriado que, tendo partido do campo de batalha, e depois de uma volta pela sociedade chique, a gravata arranjasse um jeito de voltar a campos semânticos violentos na língua brasileira, nomeando tanto um golpe de luta livre quanto, na fala gaúcha, a degola.

Publicado no “NoMínimo” em 4/4/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
15/08/2009 - 00:10

Enigmas etimológicos: Picareta

A leitora Vivian Pontes gostaria de saber qual é a relação entre a picareta e o picareta, ou, nas palavras dela, “entre a ferramenta e o sentido figurado da palavra, que serve como uma luva para os membros do nosso governo”. Boa pergunta.

Sabe-se que picareta – substantivo e adjetivo de dois gêneros que designa uma pessoa embusteira, aproveitadora, que recorre a expedientes acanalhados para se dar bem – é um brasileirismo velho de muitas décadas, mas parece ter se perdido o elo entre a acepção original da palavra e seu uso figurado. O palpite arriscado pelo etimologista Silveira Bueno é o seguinte: “Picareta – Instrumento de ferro e ponta, próprio para cavar a terra, revolver pedras, abrir buracos. Fig. pessoa descarada e audaciosa que em tudo mete a cara para cavar dinheiro, emprego”.

E quem quiser que conte outra, certo? Então eu conto: não parece mais razoável supor que picareta adquiriu seu sentido figurado por influência da palavra “pícaro”, que quer dizer, justamente, ardiloso, astuto, velhaco?

Publicado no “NoMínimo” em 18/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
08/08/2009 - 00:02

Enigmas etimológicos: Babaca

– Você acha que a palavra “babaca” vem do latim baburrus, “tolo, palerma”, ou é uma forma reduzida de babaquara, do tupi mbae’be kwa’a ara, “o que nada sabe, mas manda”? Ou não engole nada disso, acha que babaca vem mesmo é do português basbaque, embasbacado?

– Eu sei lá. Larga esse Houaiss.

– Diz que a data pra acepção de “vulva” é 1939. A de “bobo”, veja só, trinta anos depois. A babaquinha vem antes do babacão.

– Rá, rá.

– Chuta aí: latim, tupi ou português?

– Babaquice.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
01/08/2009 - 12:12

Lendas etimológicas: Crasso

O post de hoje é a reunião de dois textos publicados no NoMínimo em 7 e 8/11/2005:

O adjetivo “crasso”, do latim crassus (gordo, espesso), ganhou em português o sentido figurado – e hoje dominante – de “grosseiro, tosco”. Pode-se falar, por exemplo, numa pessoa crassa, num acabamento crasso, num discurso crasso, entre infinitas possibilidades mais ou menos crassas. Mas isso é teoria. Curiosamente, “crasso” acabou restrito, no mercado real das palavras, ao emprego de ajudante do substantivo “erro”. Algumas palavras se casam, entre juras de fidelidade eterna, e não é mole separá-las.

*

Volto à palavra de ontem porque vários leitores – alguns deles, justiça seja feita, com uma dose saudável de ceticismo – me escreveram para dizer que, segundo uma tese de sucesso na internet, inclusive na Wikipedia, os erros grosseiros começaram a ser chamados de “crassos” por alusão a um grave equívoco de estratégia militar cometido por Marco Licínio Crasso, membro do primeiro triunvirato romano, ao lado de Pompeu e Júlio César.

Pode ser verdade? Pode, nunca se sabe. Mas que tem cheiro de etimologia romântica, tem. Consultando tomos vetustos e outros nem tanto, não encontrei nenhum etimologista sério que dê crédito a essa tese. De resto, se “crasso” precisa da mediação erudita de um figurão romano para se transformar em “grosseiro”, por que o substantivo “graxa”, que tem a mesma origem, não precisaria também? Será que Marco Licínio Crasso era obeso? Será que inventou a graxa de sapato?

Enfim, o caso de “crasso” me parece suspeitamente semelhante ao de larápio, sem deixar de ter pontos de contato com o de aguardente, termos já comentados aqui na coluna. Cercadas de uma mitologia “etimológica” que, por ser pitoresca, se espalha na internet feito fogo em mato seco, tudo indica que essas palavras sejam veículos de velhas e imaginosas lendas. E quem está ligando para isso?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
18/07/2009 - 10:26

Lendas etimológicas: Sincero

Recebo o seguinte texto “inspirador”, que circula como corrente na internet:

A palavra SINCERO foi inventada pelos romanos. Eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes.

Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto – um colar, uma pulseira ou um dado –, que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso assim, fino e límpido, dizia o romano vaidoso:

– Como é lindo!!! Parece até que não tem cera!!!

“Sine cera” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana. O vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado. Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras os verdadeiros sentimentos de seu coração.

Estilo açucarado à parte, essa história de vaso fino tem lá sua beleza, não tem? Infelizmente, tudo indica ser uma daquelas lendas muito comuns na etimologia, baseadas em semelhanças fortuitas de som e sentido. Muitas vezes (embora não seja o caso aqui), os mal-entendidos se incorporam à história da palavra e mudam seu curso – dá-se ao fênomeno o nome de etimologia popular. “Floresta”, por exemplo, veio do francês antigo forest (hoje forêt) e só não virou “foresta” porque o pessoal achava que a palavra tinha alguma coisa a ver com “flor”. Não tinha. Agora tem.

A verdadeira origem de “sincero”? Provavelmente, a junção dos elementos latinos sim (um só) + cerus (que cresce, se desenvolve): aquilo que tem desenvolvimento único, sem bifurcações, sem surpresas; reto, íntegro.

Tem muito menos graça, pois é.

Texto publicado no NoMínimo em 21/1/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
11/07/2009 - 11:15

Lendas etimológicas: Aguardente

Dando prosseguimento à série que a Flip interrompeu, segue um texto publicado em minha coluna diária sobre palavras no site “NoMínimo” em 2/3/2005:

A leitora Luiza Fontes, de São Paulo, envia uma historinha de certo sucesso na Internet sobre a origem das palavras “aguardente” e “pinga” – texto creditado, não se sabe se acertadamente, ao Museu do Homem do Nordeste, no Recife. “Você pode confirmar sua veracidade?”, pergunta Luiza. Não posso, lamento: a história é grotescamente falsa. Obra de algum etimologista bêbado ou apenas exemplo daquele conjunto de crendices divertidas que faz divisa com a etimologia popular, a coisa, no entanto, é instrutiva ao seu modo – embora não sobre aquilo que pretende ensinar. Vamos à lenda:

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente, era a cachaça já formada que pingava, por isso o nome (PINGA). Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ÁGUA ARDENTE. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional!!!

De saída, algumas inconsistências históricas. A aguardente (palavra e coisa) já existia quando se começou a fabricar cachaça no Brasil. Os primeiros registros do vocábulo “aguardente” em português datam do século 15, antes de Cabral pisar aqui. Até hoje um dicionário como o da Academia das Ciências de Lisboa diz que esse tipo de bebida alcoólica é obtido pela “destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce”. Como se vê, nossa cana-de-açúcar não ganha nem citação nominal, ofuscada, por exemplo, pela bagaceira.

Preconceito contra a branquinha? Que nada. “Aguardente”, a palavra, deve tanto à cultura da cana quanto a invenção do cinema deve, por exemplo, a Cacá Diegues. É uma das inúmeras descendentes do latim aqua vitae, “água da vida”, nome genérico dos espíritos que os alquimistas acreditavam ter o poder de prolongar a vida. Dessa matriz, direta ou indiretamente, saíram o espanhol aguardiente, o italiano acquavite, o francês eau-de-vie, o holandês vuurwater (literalmente “água ardente”), o russo vodka (diminutivo de zhiznennia voda, água da vida), o sueco akvavit e até o inglês whiskey (por meio do gaélico uisge beatha, também água da vida).

Se a palavra “aguardente”, como ficou demonstrado, é bem anterior à primeira gota de marvada destilada em terras nacionais, “pinga” é um caso diferente – veio muito tempo depois. O primeiro registro conhecido do uso da palavra com esse sentido traz a data de 1813. E convenhamos que, comparada à versão do álcool que pinga do teto, a explicação singela do etimologista Silveira Bueno soa cristalina: pinga é simplesmente “a gota que lenteja do alambique na destilação do álcool de cana-de-açúcar e, por extensão, é o próprio álcool, a aguardente”.

No fim das contas, fatos históricos à parte, um certo contorcionismo barroco – e aparentemente gratuito – bastaria para denunciar a falsidade da história que intrigou a leitora. Se a aguardente arde na garganta, por que imaginá-la irritando feridas abertas por chibatadas? Se pinga do alambique, por que descrevê-la pingando do teto após uma estranha evaporação acidental? Por ignorância – é uma tese respeitável, mas creio que insuficiente.

Falta explicar por que alguém acreditaria que no Brasil, essa terra tão inocente, a “descoberta” da aguardente se deu por acaso. Tenho uma teoria: porque assim é possível encaixar na historinha escravos preguiçosos e desleixados, que deixam o melado estragar, e além de tudo trapaceiros, porque escondem o ocorrido do feitor; escravos cachaceiros, já se vê, mas fundamentalmente musicais – quando bebem, têm “vontade de dançar”.

Não deve ser por outro motivo que a cachaça virou “símbolo nacional”. Com três pontos de exclamação.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
27/06/2009 - 10:01

Lendas etimológicas: Larápio

Com o fim da “Revista da Semana”, da editora Abril, a coluna que eu escrevia lá e republicava aos sábados no Todoprosa está momentaneamente suspensa. Mas a etimologia não vai sair do ar aqui. Começo hoje uma série retrospectiva sobre “lendas etimológicas”, aquelas historinhas engraçadas ou curiosas – embora provavelmente falsas – que muita gente ajuda a espalhar, inclusive autores de livrinhos populares sobre a origem das palavras. Garimpado no arquivo que “A palavra é…” acumulou em sua primeira encarnação, entre 2004 e 2007, quando era uma coluna diária no site NoMínimo, o texto abaixo foi publicado em 29/8/2005:

A origem da palavra “larápio” é um dos maiores motivos de quebra-pau entre os estudiosos da etimologia. Vale a pena perder algum tempo com o assunto: ainda que a palavra – que, como se sabe, quer dizer ladrão, gatuno – não tivesse triste atualidade, a controvérsia que provocou e ainda provoca seria o bastante para lhe garantir um interesse didático. Especialmente num momento em que certa “etimologia de almanaque”, que privilegia sempre as teses engraçadinhas sem consideração por sua consistência histórica, faz tanto sucesso editorial.

O respeitado etimologista brasileiro Antenor Nascentes foi buscar num livro popular chamado “Frases e curiosidades latinas”, de Arthur Rezende, a seguinte explicação para “larápio”: “Houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L.A.R. Appius. Daí chamar-lhe o povo larappius, nome que ficou sinônimo de gatuno”. Hmmm, será? O próprio Nascentes não parece pôr a mão no fogo: encerra o verbete com o famoso dito italiano: “Se non è vero…”. Mas o fato de ter dado abrigo à tese em seu prestigioso “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa” lhe valeu cascudos de colegas como o português José Pedro Machado e o compatriota Silveira Bueno, que anotou: “A imaginação, em ciência, nem sempre ajuda”.

E o que propõem os críticos de Nascentes no lugar da tese do pretor corrupto? Nada, esse é o problema. “Origem obscura”, diz-se nessas horas. O que pode ser – e é – um jeito mais rigoroso e sério de abordar o problema, mas certamente ajuda a entender o sucesso que fazem historinhas imaginosas como a de “larápio”, passadas de geração em geração. Entre a fria indeterminação e a mentira que consola, a humanidade nunca teve um segundo de dúvida.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
20/06/2009 - 10:19

Êxito

Êxito, todos sabem, é sinônimo de sucesso, triunfo. Não foi sempre assim. É ilustrativo – não só da vivacidade mutante das palavras, mas também do quanto há de relativo nos sucessos e fracassos – pensar que o seu sentido hoje dominante nasceu como forma reduzida de “bom êxito”. A princípio, êxito queria dizer apenas resultado, conseqüência, termo, sem qualificação. Designava o lugar ou estado a que se chega ao fim de determinado processo. O êxito podia – e ainda pode, pois não se trata de modo algum de uma acepção arcaica – ser bom ou mau, péssimo ou excelente, dependendo da situação.

A própria palavra sucesso, que de início designava apenas um fato, uma ocorrência, passou por processo semelhante. Que está longe de ser incomum: a qualidade está aí para provar. Em sua primeira acepção o termo é neutro, mas diz-se informalmente, o tempo todo, que algo é “de qualidade” – e ninguém tem a menor dúvida sobre o caráter elogioso da expressão.

No latim exitus, o sentido original é ainda mais estrito: a palavra significa saída ou ação de sair. A medicina antiga usava o termo preferencialmente para funções fisiológicas, para tratar das “fluxões que fazem êxito para fora do corpo por alguma parte dele”, nas palavras do “Vocabulário Português e Latino”, dicionário do início do século 18.

No próprio latim, o sentido de êxito se ampliou para abarcar as acepções de resultado, conseqüência, conclusão, termo, fim e – mais distante ainda do êxito como normalmente o concebemos – morte. Curiosamente, cabe ao inglês, onde exitus foi dar em exit, que se manteve colado à matriz latina com o sentido de saída, nos trazer de volta um pouco do espírito original do vocábulo. Artigos e livros especializados têm traduzido literalmente a expressão médica lethal exit, eufemismo para morte, como “êxito letal”.

Publicado na “Revista da Semana”, da Editora Abril, que após 93 edições está sendo – para usar um eufemismo corporativo semelhante ao êxito letal – “descontinuada”. Esta coluna é dedicada ao Fabio, ao Wagner e a toda a redação, que fizeram um belo trabalho. E vamos em frente.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
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