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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

Arquivo da Categoria A palavra é...

21/11/2009 - 13:21

Curiosidades etimológicas: Chulé

Quem se divertiu com a embrulhada do forró, que teria vindo mas não veio de for all, como muita gente – inclusive gente professora – acredita e repete por aí, vai gostar dessa: chulé viria de shoeless (descalço). Um achado digno de rivalizar com o for all but dogs (para todos, menos cachorros) que um leitor pôs na roda para dar conta de forrobodó – palavra bem anterior à Segunda Guerra, do repertório de Chiquinha Gonzaga, o que liquida a tese da influência americana de for all: pode-se afirmar com segurança que forró é a forma reduzida de forrobodó, baile, furdunço.

A teoria shoeless já foi desmentida em três golpes firmes pelo bom professor Cláudio Moreno em sua coluna (vai nas minhas palavras): o termo “chulé” nomeia um fato universal e ancestral; existe em português desde quando a influência do inglês sobre nosso idioma era muito pequena; não tem a menor correspondência de sentido com shoeless, que em sua língua significa apenas descalço – nada a ver com o olfato.

O trabalho de demolição foi bem feito por Moreno, mas talvez tenha faltado dizer que, diante de for all, shoeless leva pelo menos uma vantagem: não há etimologia sólida a respeito do odor fétido dos pés, bromidrose em linguagem científica, que com o tempo veio a virar também adjetivo derrisório em julgamentos como “decoração chulé”, “emprego chulé” etc.

O Houaiss conta que Antenor Nascentes e o português José Pedro Machado defenderam a tese da importação de uma palavra do cigano, chulló (ou chullí), mas avisa que existem outras hipóteses, e Silveira Bueno não nos decepciona: informa que a origem cigana chulló, gordura de porco rançosa, foi combatida por Carlo Tagliavini – seja lá como for que um lingüista italiano tenha vindo parar aqui. A passagem de chulló a chulé (não se menciona o chulli), ou seja, do ó para o é, seria improvável demais. A opinião de Bueno: “A nosso ver, chulé é do mesmo grupo de ‘chulo’, ‘chula’, alterado na gíria do povo, sob a influência de ‘pé’, cuja terminação acentuada se fez sentir em chulé”.

Quando a briga dos doutores chega a esse ponto, é porque ninguém tem certeza de nada. Surpreende que não se fale ainda em alguma palavra do banto, algo como zulé, “peixe podre”. Numa hora dessas, por que shoeless não teria direito a tentar a sorte? Com suas fichas concentradas na plausível casa da americanofilia, que de um século para cá tem feito muito para moldar nossa língua, shoeless pode até arrebanhar seu séquito de conversos, por que não?

Uma parte fraca da tese que ninguém ainda mencionou é que pés shoeless, descalços, não criam chulé. Ficam sujos, imundos até, mas basicamente arejados. O que provoca o fedor é justamente o calçado, a química de bactérias e suor que ele fermenta.

E só no fim, ora veja, descubro que tudo já estava em Glauco Mattoso, o mais maldito dos poetas contemporâneos, autor de um – entre muitos – poema dedicado ao chulé que diz:

Qualquer que seja a gíria ou dialeto,
ninguém o termo tem para “chulé”.
“Shoeless” até tentaram ver se fé
ganhava como um étimo indireto.

Publicado no NoMínimo em 5/12/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
14/11/2009 - 15:10

Curiosidades etimológicas: Puxa!

Todo mundo pode falar “puxa!”. Tem ótimo trânsito na família brasileira essa interjeição, faz tempo que vem se perdendo nela a memória da puta. Puxa vida! Vida cadela! Está no Houaiss: puxa, “forma eufemística do substantivo puta, tomada de empréstimo ao espanhol pucha (c1500) ‘eufemismo por puta; interjeição de surpresa, desgosto etc.’”

Puxa é como cacilda, caramba, caraca, tabuísmos atenuados. De todos eles, é provavelmente o que disfarça melhor a sua origem. Não para Glauco Mattoso, que não tem dúvida sobre ela em seu bilíngüe “Dicionarinho do palavrão & correlatos” (Record): manda direto de Puxa!, Puxa vida! para Puta merda!, e traduz para o inglês: “Hell’s bells! Hot damn! Holy shit! Holy fuck! Holy cow! Fuck a duck!”, e por aí vai.

Mas puxa é diferente, todo mundo fala. Confunde-se com o verbo puxar, parece uma interjeição inocente. O Houaiss informa que Antenor Nascentes e Cândido Jucá brigaram pela grafia pucha, “mais consentânea com o étimo”, mas perderam. Ainda bem.

Curioso: de poxa, que o dicionarinho do poeta Glauco não registra, os dicionarões dizem apenas isto: o mesmo que “puxa”. Nem uma palavra sobre a óbvia mudança de palavrão que a troca de vogal provoca.

Publicado no “NoMínimo” em 16/5/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
07/11/2009 - 16:27

Curiosidades etimológicas: Hipócrita

Recuando na história da palavra, vamos encontrar um parentesco entre o hipócrita (falso, dissimulado) e o adivinho grego, o hupokrites. De início, a palavra que hoje parece feita sob medida para letras de bolero designava um intérprete de sonhos, profeta ou vidente; em seguida, passou a nomear um ator, um comediante; por fim, o mentiroso genérico. De todos esses sentidos, o que transbordou para diversas línguas modernas, por meio do latim, foi o último.

Mero acaso? Ou será que a denúncia da falsidade que acabou prevalecendo em “hipócrita” se deve a uma progressiva desilusão – ou tomada de consciência, chamem como quiserem – da espécie humana ao longo da História, desde a crença cega em oráculos até o ceticismo que hoje exercitamos diante da TV Senado?

Publicado no “NoMínimo” em 19/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
31/10/2009 - 17:02

Curiosidades etimológicas: Bonito

A história da palavra “bonito” prova que tem raízes mais fundas do que se imagina a identificação entre as idéias de beleza e bondade, que num exame superficial talvez tenhamos a tentação de atribuir a uma “ditadura estética” inaugurada pela cultura de massa e cujos arquétipos poderiam ser dois personagens de velhos filmes de faroeste: o mocinho de traços finos e o bandido abrutalhado com uma cicatriz na cara. No entanto, depois de descontados os contrabandos raciais com que o cinema americano temperou a seu modo o paralelo entre beleza e bondade (olhos azuis para cá, negros para lá), as idéias continuam de mãos dadas. A palavra “bonito” chegou ao português no século 16. Descende do latim bonus (bom), provavelmente depois de uma tabelinha com o espanhol bueno, do qual tomou emprestado o diminutivo. Em resumo: bonito, na origem, é bonzinho. E para não deixar dúvida alguma no ar, “belo” vem do latim bellus, também diminutivo de bonus.

Publicado no “NoMínimo” em 30/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
24/10/2009 - 13:35

Curiosidades etimológicas: Garnisé

O nome desse galináceo pequeno e invocado, reizinho dos quintais de todo o país, de agitação inversamente proporcional à estatura, é um tributo ao cruzamento de culturas como forma de enriquecimento da língua. Pega bem lembrar a história do garnisé nesses tempos bicudos, quando anglicismos de todos os formatos vêm cantar de galo em nosso terreiro e dão a tanta gente a sensação apocalíptica de que o inglês, apesar das esporadas do Itamaraty, vai matar a galinha dos ovos de ouro da língua. Calma, pessoal. O nome do garnisé, de sonoridade brasileiríssima, vem da ilha britânica de Guernsey, de onde foram importados os primeiros exemplares desses galinhos, no século 19. Quer dizer: no fim dá certo, é só não desesperar.

Publicado no “NoMínimo” em 25/1/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
17/10/2009 - 17:01

Curiosidades etimológicas: Esculachar

“Esculachar”, um dos verbos centrais da linguagem bandida de hoje, significa, como se sabe, baixar o cacete. Seu charme marginal lhe garante presença no vocabulário de um grande número de falantes urbanos, especialmente jovens. A maioria nem deve imaginar que se esculacha no Brasil faz tempo.

Tudo indica que a palavra nos chegou com os imigrantes italianos no início do século 20. Sculacciare vem de culo e quer dizer dar palmadas na bunda, especialmente de crianças. Entre nós, teve seu sentido ampliado para se tornar, ao longo de quase todo o século passado, o verbo mais expressivo para a ação de repreender de forma violenta ou grosseira.

Fazia tempo que o esculacho andava fora de moda: nas últimas décadas foi perdendo a preferência dos falantes para o esporro. O mais interessante é que volta à cena assumindo um significado mais próximo do original, ligado à violência física, do que daquele que por muito tempo foi o mais corrente. Algumas palavras hibernam.

Publicado no “NoMínimo” em 11/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
12/09/2009 - 10:46

Curiosidades etimológicas: Luau

O leitor Aian Cotrim tem uma dúvida de grafia que qualquer dicionário poderia ter sanado. Mas vale a pena falar um pouco sobre a história da palavra “luau”.

Caro Sérgio, nessa semana travei uma discussão com colegas da faculdade sobre a grafia correta de uma palavra: é ‘luau’ ou ‘lual’? Defendi com todas as minhas forças a opção ‘luau’ por achar as vogais mais características da nossa lingua, porém não tenho qualquer fundamento mais organizado para embasar minha resposta. Espero que você possa responder a minha pergunta.

Aian acertou, mas pelas razões erradas: “nossa língua” não tem nada a ver com isso. Provavelmente devido ao fato de “luau” ser uma festa praiana de estilo havaiano que ocorre à noite, muita gente acha que a palavra tem alguma relação com “lua”, “luar”. A pista não poderia ser mais falsa. “Luau” vem do havaiano lu’au, que, antes de nomear por extensão também a festa, era apenas o nome de um prato típico servido nessas celebrações – folhas de taro, um tipo de inhame, cozidas com leite de coco.

Publicado no “NoMínimo” em 16/4/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
05/09/2009 - 10:30

Curiosidades etimológicas: Subornar

Subornar vem de sub + ornar. Ornar deriva do latim ornare – “fornecer, equipar, armar, aparelhar, preparar, embelezar, ornar, distinguir, honrar”, segundo o Houaiss. Trata-se de um verbo um tanto culto, mas ainda vivo como sinônimo menos freqüente de enfeitar, adornar, ornamentar, ataviar, emperiquitar, empetecar.

Subornar é, na origem, pôr uma pulseira de ouro no subornado, um brinco de brilhante em sua orelha, uma gravata italiana em seu pescoço. Até aí faz sentido, mas… por que o “sub”? Justamente pelo caráter sorrateiro, dissimulado da operação. O prefixo “sub”, aqui, tem o mesmo sentido que exibe no adjetivo “sub-reptício”: denuncia ação furtiva, aquela que só é praticada quando se imagina que ninguém – ou, em termos mais modernos, nenhuma microcâmera – está de olho.

Publicado no “NoMínimo” em 1/7/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
29/08/2009 - 11:01

Curiosidades etimológicas: Gravata

Se passarmos a fita da história ao contrário vamos presenciar, numa daquelas eras que antigamente se chamavam de priscas, o encontro da palavra “gravata”, acessório polido do vestuário masculino, com a palavra “croata”. Veremos então que os dois vocábulos, um tanto surpresos, se apalpam, se cheiram – e se fundem. A cena se passa bem longe dos salões urbanos em que a gravata brilharia: o que vemos ao fundo, contra o céu roxo, são colunas de fumaça numa paisagem sangrenta de trincheiras.

Pois é. A “gravata”, que, já perfumada, nos chegou do francês cravate na virada entre os séculos 17 e 18, antes disso (passando a palavra ao filólogo Silveira Bueno) “veio para o centro da Europa trazida pelos cavaleiros croatas, durante as guerras com a Alemanha desde 1636, depois pelos mercenários croatas dos reinados de Luis XIII e XIV, que compunham o regimento Royal Cravate. A forma primitiva foi o eslavo hrvat passada a um dialeto alemão Krawat”.

Simplificando a prosopopéia: os soldados croatas tinham o costume de amarrar no pescoço uma tira de tecido que, vejam só, caiu no gosto dos europeus urbanos. Entre os alemães, o acessório se tornou conhecido também como “croata”, em versão dialetal. Que virou cravate em francês. Gravata, em português. Ou, numa das divertidas grafias antigas de nossa língua, garovata.

Não deixa de ser apropriado que, tendo partido do campo de batalha, e depois de uma volta pela sociedade chique, a gravata arranjasse um jeito de voltar a campos semânticos violentos na língua brasileira, nomeando tanto um golpe de luta livre quanto, na fala gaúcha, a degola.

Publicado no “NoMínimo” em 4/4/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
15/08/2009 - 00:10

Enigmas etimológicos: Picareta

A leitora Vivian Pontes gostaria de saber qual é a relação entre a picareta e o picareta, ou, nas palavras dela, “entre a ferramenta e o sentido figurado da palavra, que serve como uma luva para os membros do nosso governo”. Boa pergunta.

Sabe-se que picareta – substantivo e adjetivo de dois gêneros que designa uma pessoa embusteira, aproveitadora, que recorre a expedientes acanalhados para se dar bem – é um brasileirismo velho de muitas décadas, mas parece ter se perdido o elo entre a acepção original da palavra e seu uso figurado. O palpite arriscado pelo etimologista Silveira Bueno é o seguinte: “Picareta – Instrumento de ferro e ponta, próprio para cavar a terra, revolver pedras, abrir buracos. Fig. pessoa descarada e audaciosa que em tudo mete a cara para cavar dinheiro, emprego”.

E quem quiser que conte outra, certo? Então eu conto: não parece mais razoável supor que picareta adquiriu seu sentido figurado por influência da palavra “pícaro”, que quer dizer, justamente, ardiloso, astuto, velhaco?

Publicado no “NoMínimo” em 18/8/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
08/08/2009 - 00:02

Enigmas etimológicos: Babaca

– Você acha que a palavra “babaca” vem do latim baburrus, “tolo, palerma”, ou é uma forma reduzida de babaquara, do tupi mbae’be kwa’a ara, “o que nada sabe, mas manda”? Ou não engole nada disso, acha que babaca vem mesmo é do português basbaque, embasbacado?

– Eu sei lá. Larga esse Houaiss.

– Diz que a data pra acepção de “vulva” é 1939. A de “bobo”, veja só, trinta anos depois. A babaquinha vem antes do babacão.

– Rá, rá.

– Chuta aí: latim, tupi ou português?

– Babaquice.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
01/08/2009 - 12:12

Lendas etimológicas: Crasso

O post de hoje é a reunião de dois textos publicados no NoMínimo em 7 e 8/11/2005:

O adjetivo “crasso”, do latim crassus (gordo, espesso), ganhou em português o sentido figurado – e hoje dominante – de “grosseiro, tosco”. Pode-se falar, por exemplo, numa pessoa crassa, num acabamento crasso, num discurso crasso, entre infinitas possibilidades mais ou menos crassas. Mas isso é teoria. Curiosamente, “crasso” acabou restrito, no mercado real das palavras, ao emprego de ajudante do substantivo “erro”. Algumas palavras se casam, entre juras de fidelidade eterna, e não é mole separá-las.

*

Volto à palavra de ontem porque vários leitores – alguns deles, justiça seja feita, com uma dose saudável de ceticismo – me escreveram para dizer que, segundo uma tese de sucesso na internet, inclusive na Wikipedia, os erros grosseiros começaram a ser chamados de “crassos” por alusão a um grave equívoco de estratégia militar cometido por Marco Licínio Crasso, membro do primeiro triunvirato romano, ao lado de Pompeu e Júlio César.

Pode ser verdade? Pode, nunca se sabe. Mas que tem cheiro de etimologia romântica, tem. Consultando tomos vetustos e outros nem tanto, não encontrei nenhum etimologista sério que dê crédito a essa tese. De resto, se “crasso” precisa da mediação erudita de um figurão romano para se transformar em “grosseiro”, por que o substantivo “graxa”, que tem a mesma origem, não precisaria também? Será que Marco Licínio Crasso era obeso? Será que inventou a graxa de sapato?

Enfim, o caso de “crasso” me parece suspeitamente semelhante ao de larápio, sem deixar de ter pontos de contato com o de aguardente, termos já comentados aqui na coluna. Cercadas de uma mitologia “etimológica” que, por ser pitoresca, se espalha na internet feito fogo em mato seco, tudo indica que essas palavras sejam veículos de velhas e imaginosas lendas. E quem está ligando para isso?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
18/07/2009 - 10:26

Lendas etimológicas: Sincero

Recebo o seguinte texto “inspirador”, que circula como corrente na internet:

A palavra SINCERO foi inventada pelos romanos. Eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes.

Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto – um colar, uma pulseira ou um dado –, que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso assim, fino e límpido, dizia o romano vaidoso:

– Como é lindo!!! Parece até que não tem cera!!!

“Sine cera” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana. O vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado. Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras os verdadeiros sentimentos de seu coração.

Estilo açucarado à parte, essa história de vaso fino tem lá sua beleza, não tem? Infelizmente, tudo indica ser uma daquelas lendas muito comuns na etimologia, baseadas em semelhanças fortuitas de som e sentido. Muitas vezes (embora não seja o caso aqui), os mal-entendidos se incorporam à história da palavra e mudam seu curso – dá-se ao fênomeno o nome de etimologia popular. “Floresta”, por exemplo, veio do francês antigo forest (hoje forêt) e só não virou “foresta” porque o pessoal achava que a palavra tinha alguma coisa a ver com “flor”. Não tinha. Agora tem.

A verdadeira origem de “sincero”? Provavelmente, a junção dos elementos latinos sim (um só) + cerus (que cresce, se desenvolve): aquilo que tem desenvolvimento único, sem bifurcações, sem surpresas; reto, íntegro.

Tem muito menos graça, pois é.

Texto publicado no NoMínimo em 21/1/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
11/07/2009 - 11:15

Lendas etimológicas: Aguardente

Dando prosseguimento à série que a Flip interrompeu, segue um texto publicado em minha coluna diária sobre palavras no site “NoMínimo” em 2/3/2005:

A leitora Luiza Fontes, de São Paulo, envia uma historinha de certo sucesso na Internet sobre a origem das palavras “aguardente” e “pinga” – texto creditado, não se sabe se acertadamente, ao Museu do Homem do Nordeste, no Recife. “Você pode confirmar sua veracidade?”, pergunta Luiza. Não posso, lamento: a história é grotescamente falsa. Obra de algum etimologista bêbado ou apenas exemplo daquele conjunto de crendices divertidas que faz divisa com a etimologia popular, a coisa, no entanto, é instrutiva ao seu modo – embora não sobre aquilo que pretende ensinar. Vamos à lenda:

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente, era a cachaça já formada que pingava, por isso o nome (PINGA). Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ÁGUA ARDENTE. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional!!!

De saída, algumas inconsistências históricas. A aguardente (palavra e coisa) já existia quando se começou a fabricar cachaça no Brasil. Os primeiros registros do vocábulo “aguardente” em português datam do século 15, antes de Cabral pisar aqui. Até hoje um dicionário como o da Academia das Ciências de Lisboa diz que esse tipo de bebida alcoólica é obtido pela “destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce”. Como se vê, nossa cana-de-açúcar não ganha nem citação nominal, ofuscada, por exemplo, pela bagaceira.

Preconceito contra a branquinha? Que nada. “Aguardente”, a palavra, deve tanto à cultura da cana quanto a invenção do cinema deve, por exemplo, a Cacá Diegues. É uma das inúmeras descendentes do latim aqua vitae, “água da vida”, nome genérico dos espíritos que os alquimistas acreditavam ter o poder de prolongar a vida. Dessa matriz, direta ou indiretamente, saíram o espanhol aguardiente, o italiano acquavite, o francês eau-de-vie, o holandês vuurwater (literalmente “água ardente”), o russo vodka (diminutivo de zhiznennia voda, água da vida), o sueco akvavit e até o inglês whiskey (por meio do gaélico uisge beatha, também água da vida).

Se a palavra “aguardente”, como ficou demonstrado, é bem anterior à primeira gota de marvada destilada em terras nacionais, “pinga” é um caso diferente – veio muito tempo depois. O primeiro registro conhecido do uso da palavra com esse sentido traz a data de 1813. E convenhamos que, comparada à versão do álcool que pinga do teto, a explicação singela do etimologista Silveira Bueno soa cristalina: pinga é simplesmente “a gota que lenteja do alambique na destilação do álcool de cana-de-açúcar e, por extensão, é o próprio álcool, a aguardente”.

No fim das contas, fatos históricos à parte, um certo contorcionismo barroco – e aparentemente gratuito – bastaria para denunciar a falsidade da história que intrigou a leitora. Se a aguardente arde na garganta, por que imaginá-la irritando feridas abertas por chibatadas? Se pinga do alambique, por que descrevê-la pingando do teto após uma estranha evaporação acidental? Por ignorância – é uma tese respeitável, mas creio que insuficiente.

Falta explicar por que alguém acreditaria que no Brasil, essa terra tão inocente, a “descoberta” da aguardente se deu por acaso. Tenho uma teoria: porque assim é possível encaixar na historinha escravos preguiçosos e desleixados, que deixam o melado estragar, e além de tudo trapaceiros, porque escondem o ocorrido do feitor; escravos cachaceiros, já se vê, mas fundamentalmente musicais – quando bebem, têm “vontade de dançar”.

Não deve ser por outro motivo que a cachaça virou “símbolo nacional”. Com três pontos de exclamação.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
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