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“Do momento em que peguei o seu livro
até o momento em que o larguei, fui
tomado de gargalhadas convulsivas.
Um dia pretendo lê-lo.” GROUCHO MARX

08/02/2010 - 14:10

Está rindo de quê, ô?

“A comédia me parece ser tudo o que resta para um escritor trabalhar no mundo atual. Drama, romance, épico, tudo isso de alguma forma parece corresponder a outras épocas, a outras formas de ver o mundo.” A declaração do inglês Martin Amis, em entrevista que fiz com ele para o “Jornal do Brasil” em 2001, é categórica demais para não conter muito de exagero. Mesmo assim, nunca mais a tirei da cabeça. De vez em quando me divirto imaginando como se sairia, julgada por critério tão absoluto, a literatura brasileira contemporânea e sua irmã, a crítica, que parecem ter se esquecido por completo da lição de Machado e – num país basicamente absurdo, o que é mais absurdo ainda – tentam empurrar o humor e a ironia para fora de seus domínios, como se fossem recursos estéticos necessariamente menores.

Amis, claro, é um provocador profissional. Parecia usar a mesma régua do humor, além de um certo ressentimento pelo Nobel alheio, quando declarou recentemente que o “depressivo” J.M. Coetzee “não tem talento” – o que é ridículo. Mas Amis é também um escritor inquieto e ambicioso que a meu ver, mesmo quando quebra a cara, dá um jeito de quebrá-la de forma interessante (como em “Casa de encontros”, lançado aqui em 2007 pela Companhia das Letras). Em outro momento daquela entrevista de 2001, num desdobramento do tema da comédia, explicou-me que gosta de “escrever sobre discrepâncias marcadas… Em vez de um conflito sutil na cabeça de um personagem, prefiro criar logo dois personagens opostos, pô-los em confronto direto e explorar as conseqüências.” Ou seja, escrever para fora e não para dentro. O que mais uma vez me deixou pensando nos problemas aqui de casa e em nossa tendência, que me parece hegemônica, ao intimismo, ao “conflito sutil na cabeça de um personagem”. Curiosamente, inclinação que parece até conflitante com uma certa vocação geral da cultura brasileira.

Todas essas memórias vêm a propósito de um artigo nada literário que li hoje na “New Scientist”, sobre as pesquisas de diversos neurocientistas em torno do modo como o cérebro humano processa o humor. A certa altura, especula-se lá que a depressão pode ser uma das condições que bloqueiam a resposta de prazer deflagrada no sistema límbico por aquilo que achamos engraçado. Me ocorreu então a terrível imagem de uma literatura que, intimidada pela sombra de seus gigantes mortos, seus Machados, seus Gracilianos, seus Rosas, se esgueira sorumbática pelos cantos, olhos no chão, fazendo o possível para não chamar a atenção do leitor.

Mas talvez isso seja só uma piada.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/02/2010 - 00:06

Curiosidades etimológicas: Arco-da-velha

O leitor Daniel Brazil pergunta de onde vem o arco-da-velha, hoje presente quase exclusivamente na expressão “do arco-da-velha”, que significa “inacreditável, inverossímil, fantasioso”. Bem, arco-da-velha é simplesmente um dos nomes tradicionais do arco-íris. É sinônimo de arco-da-aliança, arco-celeste, arco-da-chuva e arco-de-deus. Como todos esses termos, anda em desuso.

E por que da velha? O que uma senhora idosa tem a ver com o bonito fenômeno meteorológico? “Ainda não se deu explicação suficiente”, anota o filólogo Silveira Bueno, para em seguida apresentar uma ótima explicação: “A maioria pensa que seja em referência do fato bíblico: após o dilúvio, quando Noé oferecia um sacrifício a Deus, apareceu o arco-íris, sinal do termo da velha aliança e do começo da nova aliança”.

Nova e velha aliança, no caso, referem-se aos pactos que, segundo as Escrituras, Deus estabelece com os mortais. Após o dilúvio, começava uma nova era, um novo pacto, uma nova aliança. A existência da expressão arco-da-aliança como sinônimo de arco-da-velha parece corroborar essa tese.

Quanto ao sentido de coisa inverossímil, fantástica, bem – mesmo que se deixe de lado a própria história de Noé, o arco-íris, com sua beleza impalpável e fugaz, sempre se cercou de fabulações delirantes, do pote de ouro à mudança instantânea de sexo.

Isso liquida a questão, certo? Não exatamente. Acontece que “arco” tem muitos sentidos e um deles é “baú, arca”, o que pode trazer a expressão para um campo semântico bem diferente. Uma história do arco-da-velha seria, assim, apenas tirada “do baú da anciã”, quem sabe “da bruxa”. A palavra “carochinha”, também usada nesse papel, veio de “carocha”, regionalismo português que quer dizer “mulher velha, feiticeira”.

Entre a Bíblia e o paganismo, o arco-da-velha balança. E o bacana da etimologia, embora seja também meio desconcertante, é que as duas interpretações podem ter contribuído ao longo do tempo para o sucesso do expressão.

Publicado no NoMínimo em 1/12/2006.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
04/02/2010 - 12:20

Gabo, o político

Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes – como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 – deram-se ao trabalho de lamentar seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários”. Cem anos de solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982.

Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou em 2008, após 17 anos de trabalho, e que chega agora ao Brasil: Gabriel García Márquez: uma vida (Ediouro, tradução de Cordélia Magalhães). Não adianta dizer que o homem político interessa pouco, que só se deve julgar um escritor por sua obra: García Márquez se impõe no papel não só por sua estética “terceiro-mundista”, influenciadora de gerações de escritores ditos pós-coloniais, mas sobretudo por uma atuação pública de esquerda que sobreviveu à própria ideia de esquerda. Como separar vida e obra de quem prometeu em 1975, após lançar O outono do patriarca, que não voltaria a escrever romances enquanto o ditador chileno Augusto Pinochet estivesse no poder – promessa felizmente descumprida?

Assim começa minha resenha para a “Bravo!” que está chegando às bancas, com capa dedicada à relação promíscua entre escritores e ditadores ao longo da história – no caso de García Márquez, claro, estamos falando de Fidel Castro. O ponto fundamental é que, ao contrário do que disse em linhas gerais a crítica de países anglófonos sobre a biografia autorizada de Martin, parecendo meio frustrada no desejo de ver o linchamento moral do escritor colombiano, o livro me pareceu digno e ponderado ao tratar de seu polêmico apoio ao líder cubano – fuzilamento de dissidentes inclusive.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/02/2010 - 12:07

Mudando (mas não muito) de assunto

Não me lembro de outra época em que a imprensa literária mundial tenha se ocupado tão pouco de… literatura. No lugar dela, fala-se de:

1. Tecnologia do livro digital: iPad x Kindle x etc.;

2. Política da difusão de literatura: a Amazon brigando de foice com a editora Macmillan, que aproveitou a nova concorrência da Apple para impingir ao grande varejista um aumento no preço do livro digital, enquanto os independentes vislumbram um futuro de ligação direta entre autor e leitor em que gigantes como Amazon e Macmillan virarão pó;

3. A nova estrutura legal que necessariamente emergirá dessa confusão, com o Brasil (onde ainda é proibido copiar uma obra intelectual mesmo para uso próprio, num pen-drive) discutindo uma reforma da legislação de direitos autorais;

4. Numa apoteose de tudo isso, uma certa metafísica da literatura, a perda de status cultural da ficção, o futuro da leitura de fôlego, o potencial que o meio digital apresenta para uma literatura “aberta e colaborativa”, o papel evolutivo da necessidade humana de se enredar em narrativas e outros esoterismos do gênero.

São todos assuntos fascinantes, complexos, atualíssimos, dos quais o mundo inteiro e este blog, que não é autista e também respira o Zeitgeist, vêm se ocupando há anos – nunca tão intensivamente quanto em 2010. Não é pouca coisa que está em jogo neste momento. Que atores da peça vão estar em cena no próximo ato e quais terão sido embalsamados no museu? Como os escritores pagarão o aluguel num possível mundo em que todos os bens culturais terão circulação gratuita, como parece ser a vocação do meio digital? Ou isso não importa porque, como se vem tentando fazer há anos com o jornalismo, “todo mundo vai ser escritor e leitor ao mesmo tempo”?

Tudo bem, tudo bem: ninguém escolhe o momento histórico em que vive e o quebra-pau parece longe de terminar. O único problema é que hoje acordei com uma saudade danada de um tempo, não muito distante, em que a imprensa literária estava cheia de assuntos ligados basicamente à literatura: autores, grandes livros, livros quase bons, livros péssimos, livros superestimados, livros subestimados, gêneros literários, a polêmica hierarquia cultural dos gêneros literários, a guerra surda ou declarada das escolas estéticas e até aquelas velhas e ingênuas questões nas quais, adolescentes eternos, não nos cansamos de cismar – por que escrevemos?, por que lemos?, por que nunca conseguimos achar na estante aquele Robinson Crusoé com anotações infantis nas margens quando, já incertos sobre o que um dia nos terá levado a entrar nessas águas turvas para começo de conversa, mais precisamos dele?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
01/02/2010 - 12:08

A rotina do adeus

Depois de J.D. Salinger, em rápida seqüência, vão-se o crítico literário Wilson Martins (nascido em 1921) e o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (1934). Está ficando cada vez mais difícil entender a filiação estética desse coletivo de bruxas. Pero que las hay, las hay.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/01/2010 - 00:18

Curiosidades etimológicas: Xará

O leitor Sérgio Luiz Fernandes pergunta:

Caro xará, qual a origem desta palavra para designar alguém com o mesmo nome?

Parece não haver dúvida de que o brasileirismo “xará” vem do tupi. Os filólogos Antônio Geraldo da Cunha e Silveira Bueno concordam nisso, embora apresentem notações um pouco diferentes: xa’ra, de xe rera, “meu nome”, de acordo com o primeiro; e che-rera-á, “o que é tirado do meu nome”, nas palavras do segundo. Detalhes que não alteram a substância.

Publicado no “NoMínimo” em 9/3/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
28/01/2010 - 16:09

J.D. Salinger (1919-2010)

Depois de passar décadas enterrado voluntariamente em vida, J.D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, está morto. Segundo comunicado da agência literária que o representa, o escritor morreu ontem “de causas naturais” e “sem dor” na casa de campo em que se isolou há meio século, em Cornish, no estado americano de New Hampshire.

Salinger é praticamente o inventor do adolescente moderno – ou pelo menos seu maior porta-voz literário – na figura de Holden Caulfield, 16 anos, narrador e personagem principal de seu livro mais famoso, lançado em 1951 (disponível em português, em edição da Editora do Autor, aqui).

Polêmico, “O apanhador no campo de centeio” virou um best-seller imediato, especialmente entre jovens, e vende regularmente até hoje. Seu alcance cultural transcendeu os limites da literatura para entrar no terreno do mito – a ponto de, para mencionar um exemplo maluco, o assassino de John Lennon, Mark Chapman, ter declarado que a explicação para o crime podia ser encontrada em suas páginas.

Holden Caulfield se expressava de forma coloquial, era desbocado para os padrões da época e desconfiado de tudo o que se referisse ao mundo “fajuto” (phony) dos adultos. Um adolescente-mala como a ficção jamais produziu antes ou depois e que continua sendo leitura divertida e instigante no século 21, embora o livro, inevitavelmente, tenha perdido boa parte de seu impacto.

A pequena obra de Salinger conta ainda com os contos de “Nove histórias”, “Franny e Zooey” (também da Editora do Autor) e “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour: uma apresentação” (L&PM), este o último livro que publicou, em 1963 – todos influentes, embora de alcance mais restrito aos meios literários.

No auge da fama, Salinger se trancou em casa e, após uma última novela aparecida na “New Yorker” em 1965, nunca mais publicou uma linha. “Há uma paz maravilhosa em não publicar… Publicar é uma terrível invasão de minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas escrevo apenas para mim e para meu próprio prazer”, disse em uma rara entrevista de 1974.

Se a idéia era alimentar o mito, conseguiu. Em memórias publicadas em 1998, uma ex-namorada, Joyce Maynard, descreveu-o como um ególatra hipocondríaco; dois anos depois foi a vez de sua própria filha, Margaret, lançar um livro em que o retratava como um louco que bebia a própria urina. Mas a ex-namorada confirmou que, sim, Salinger continuava escrevendo. A caça ao seu suposto baú ainda promete render muitas histórias.

(Atualizado às 17h41.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/01/2010 - 13:23

Livros no iPad? Prefiro não

ipad_a_phoneO iPad, tablete da Apple anunciado ontem, está apanhando mais que o Cristo do Mel Gibson na comunidade geek. Sem multitarefa e sem entrada USB, acusam-no basicamente de ser só um iPhone gigante que, para piorar, não faz fotos e nem telefone é. Para o que vem ao caso aqui – a leitura de livros digitais – não se pode negar que é interessante o esforço investido na criação da iBookstore, a associação com grandes editoras e tal. O amadurecimento de um mercado em que absolutamente tudo está se definindo neste momento agradece. O probleminha chato é que, vamos falar sério, sem uma tela de tinta eletrônica (aquilo que o TechEBlog, na brincadeira acima, chama de matte screen, “tela fosca” – valeu, Polza!) não dá nem para se inscrever no páreo contra Kindle, Sony e similares. No meu modo de entender os leitores eletrônicos, o iPad é simplesmente outra coisa, habita outra categoria – no caso específico da leitura de fôlego, uma categoria inferior. Talvez seja mesmo o aparelho perfeito para passar os olhos em jornais e revistas à mesa do café da manhã, certo, mas livros? Nada disso significa que a possibilidade de um sucesso comercial deva ser descartada: hype é hype, e com certeza o pessoal da Amazon está roendo as unhas. Significa apenas que eu não me vejo trocando meu Kindle – ou meu laptop, por falar nisso – por essa bonita engenhoca que Steve Jobs chama de “mágica”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/01/2010 - 13:35

Dane-se o leitor?

Seria de imaginar que o rápido despejo da literatura das páginas das revistas comerciais fosse uma bênção para as revistas literárias, especialmente nos ambientes acadêmicos que se tornaram portos seguros para (e mecenas de fato de) escritores cujas obras não vendem o suficiente para gerar receita. Seria de esperar que os leitores leais de escritores estabelecidos promovessem um aumento na tiragem dessas pequenas revistas e que as universidades passassem a enxergá-las sob uma nova luz – não apenas como promotoras do prazer da literatura, mas como promulgadoras de uma nova era de escrita socialmente consciente nesses tempos pós-comerciais. Mas quanto menos comercialmente viável a ficção foi ficando, menos ela parecia se preocupar com seu público, que por sua vez tornou-a ainda menos comercial, até que, como uma estrela moribunda, ela parece à beira de implodir. Na verdade, a maioria dos escritores americanos parece ter esquecido como escrever sobre grandes temas – como se dar a mínima pelota para o mundo fosse algo que ficou esmagado sob a sola da bota do pós-modernismo.

As reflexões amargas de Ted Genoways – editor da “Virginia Quarterly Review”, uma pequena e (cada vez menos) prestigiosa revista literária acadêmica dos EUA – merecem ser traduzidas para o ambiente bem menos profissional da literatura brasileira. Tenho notado que um descaso semelhante, de escritores ressentidos com o leitor indiferente, alimenta por aqui um círculo vicioso que só interessa às hordas do filistinismo. Basta ver os mal-entendidos que costumam cercar a discussão sobre o crescente divórcio entre ficção nacional e “leitores comuns”. Alguém observa que fulano, autor criado no vácuo, não sabe escrever pedrinhas e logo vira um defensor da literatura “fácil”, “vendida”. Mas desde quando fácil é sinônimo de competente? Vendido é o texto que tenta, pelo menos tenta, se projetar além da cabecinha opaca do autor?

Estranho ser tão difícil entender o óbvio. Sim, qualidade literária e sucesso comercial são coisas tão distantes entre si quanto, digamos, sexo e automóvel (embora, como estes, possam se encontrar). Mas não, sustentar que um autor é bom porque ninguém o lê não faz o menor sentido – não mais do que dizer que a caixa registradora é o único crítico literário digno desse nome. A verdade é que no fim das contas, oh mundo cruel, não existe literatura sem leitores – poucos, muitos, mais ou menos – e tentar produzi-la no vácuo gera um volume insalubre de literatura de qualidade inferior.

A saída, já que o leitor anda mesmo difícil de laçar? Aprimorar o laço, não tem outra. Ou que venha o dilúvio.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
26/01/2010 - 10:47

Depois do Kindle, o Kandle

kandleEsta é para os leitores do Todoprosa que compartilham com o blogueiro a paixão pelo Kindle, um aparelho que, como se sabe, é tão brilhantemente bisonho e jurássico que não só se mantém cego, surdo e mudo diante do tumulto da internet como ostenta uma tela sem luz própria. Devemos estar mesmo na temporada dos acessórios engenhosos para leitura (pelo menos enquanto não chega o tablete da Apple, que, dizem, pode até dispensar o cidadão de ler, lendo tudo sozinho e apresentando um resumo desenhado depois): suspeito que o Kandle, abajurzinho portátil para Kindle, seja a maior invenção do planeta desde o Thumbthing. (Via Pontolit.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/01/2010 - 12:00

Apontamentos levianos para um ensaio gravíssimo: a TDN

A chamada Técnica do Deputado Nordestino (denominação em que há inegavelmente uma dose de preconceito, visto que políticos de qualquer latitude dela lançam mão), ou apenas TDN, é a maior aliada do escritor que precisa preencher determinado espaço com suas letrinhas em prazo curto – o que a torna especialmente valiosa para cronistas.

Trata-se, em resumo, de uma longa reiteração, de um incansável repisar da mesma idéia, com variações vocabulares, sintáticas e imagísticas engenhosamente dispostas de modo a disfarçar o fato desolador de que o texto não vai a lugar nenhum, limitando-se a bater na mesma tecla e sovar uma única proposição até que ela amoleça, se liqüefaça, desmanche diante do leitor e possa ser sorvida com canudinho – mais ou menos, repare, como se faz aqui, agora.

Sabe-se que o movimento é importante para o sucesso de um texto, que deve sair de um ponto A e chegar a um ponto B – ou G, ou X, conforme a capacidade do autor – por meio de um desdobramento dialético em que, não raro, cada passo corresponde a um parágrafo. Infelizmente, sabe-se também que isso dá um trabalho danado. O número de sinapses necessário para ligar esses pontos pode ser de fato desanimador, dependendo do prazo e da remuneração. É aí que entra a TDN, que substitui o movimento por um rodopio neurótico no mesmo lugar. Por que dizer apenas “minha administração será marcada pela honestidade” quando o comício é longo e pode ser preenchido por algo como “minha administração, minha gestão, minha atuação à frente da coisa pública será pautada, será marcada, será fundada e balizada pela honestidade, pela retidão, pela transparência e, por que não dizer, pela absoluta priorização do bem geral da população contra qualquer interesse espúrio, qualquer negociata, qualquer dessas pragas que…” – e por aí vai, indefinidamente.

A TDN é um truque antigo, mas sempre eficaz. Vítor Martins, letrista de Ivan Lins, construiu toda uma carreira com ela (analise “Começar de novo”, por exemplo), e muitos cronistas de renome veriam sua vasta obra minguar a três ou quatro páginas sem o auxílio desse inestimável expediente. Que, para completar, ainda costuma valer ao autor comentários boquiabertos como este:

“Puxa, como ele sabe trabalhar a linguagem!”

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
23/01/2010 - 18:42

Curiosidades etimológicas: Spa

A cidadezinha de Spa, na província de Liège, é mais conhecida como sede do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, realizado no bonito circuito de Spa-Francorchamps, certo? Errado. Spa tem um lado bem mais famoso. Tradicional balneário de águas quentes que já foi o mais elegante da Europa, acabou tendo seu nome adotado em inglês como substantivo comum para designar qualquer estância hidromineral ou hotel chique de veraneio.

O nome da cidade belga, por sua vez, viria das iniciais do latim Salus per aquam, Sanitas per aquam ou coisa parecida, isto é, “saúde por meio da água”. A internet está cheia de sites comerciais que batem nessa tecla. Tudo indica, porém, que as teses que ligam o “spa” de hoje diretamente ao latim, ignorando a cidade belga, buscam uma respeitabilidade “clássica” que obedece a critérios mais marqueteiros do que etimológicos.

O sentido de qualquer biboca dedicada ao aprimoramento ou restabelecimento físico ou mental do freguês, dominante no Brasil, é uma extensão mais recente.

Publicado no “NoMínimo” em 4/6/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
21/01/2010 - 19:26

Fala baixo

Um dos segredos mais bem guardados do mundo literário é que, embora possam ser, individualmente, pessoas até adoráveis, escritores em comunidade são tão interessantes quanto dentistas em congresso.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/01/2010 - 22:58

A epígrafe

Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como lhe parecia apropriado aos gênios irascíveis e rabiscando nanocontos em guardanapos com nódoas de azeite. Mas aquela carta de recusa…

Prezado Nareba,

Abri seu manuscrito com grande interesse e, já na primeira página, fui ao delírio com a epígrafe. Genial mesmo, parabéns. Infelizmente, não consegui passar da epígrafe, motivo pelo qual sou obrigada a recusar a publicação de “Sou phodão & outras modéstias”. Como sinal de boa vontade, uma crítica construtiva: a epígrafe é genial mas precisa ser aprimorada. Os versos “Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…” são do Castro Alves e não do Chacal.

Isso posto, não desista jamais. Ou desista, phoda-se.

Bia Escarpin

Gratuito, não? Mais que gratuito, humilhante. Típico dessa alta burguesia editorial insensível e decadente que aí está. Mesmo assim, o plano de estrangular Bia Escarpin não teria ido longe se, ao sair do botequim certa madrugada, um cigarro fumegando em cada ouvido e dois engradados e meio de cerveja no sangue, Nareba, numa dessas coincidências incríveis que a literatura aprecia, não tivesse topado com a famosa editora no calçadão do Leblon. Piscou para espantar a aparição, mas o fantasma continuou lá. Sozinha, veias saltadas na testa, Bia parecia nervosa, escarpin tiquetaqueando de um lado para o outro nas pedras portuguesas, celular no ouvido, echarpe de seda ao vento.

Enquanto estrangulava Bia Escarpin com a echarpe, ele pensou naquele personagem de Tolstoi que mata a velhinha – como era mesmo o nome dele, Nabokov? Foi quando se decidiu por uma epígrafe em russo para o seu próximo livro, atualmente em produção, chamado “Meu companheiro de cela é phodão & outras delícias”. Tinha que ser em russo, talvez alguma coisa do Ibsen. Um abaixo-assinado pela imediata libertação de Lúcio Nareba rola na internet.

O famoso Lúcio Nareba volta a dar as caras por aqui para lembrar que “Sobrescritos”, o livro, sai pela Arquipélago Editorial no início de março.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
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