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“Do momento em que peguei o seu livro
até o momento em que o larguei, fui
tomado de gargalhadas convulsivas.
Um dia pretendo lê-lo.” GROUCHO MARX

24/11/2009 - 16:12

Uma ilha, um livro

uma ilha um livro 2– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz.

– Um só?

– Um só. Qual você escolhe?

Ele pensa um pouco.

– Nenhum.

– Como, nenhum?

– Nenhum. Não vou ler, morto não lê.

– Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro.

– Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes.

– Se mata…

– Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte.

Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete.

Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único livro sobreviver ao fim do mundo deve ser mesmo insuportável. Está até um pouco espantado, quase eufórico: caramba, acho que não dei apenas uma resposta espirituosa, isso é uma tremenda verdade! Um livro só? Melhor morrer. Quer anotar a idéia num guardanapo, depois desiste, distraído com o decote que se descortina do outro lado da mesa. E também pensa que a noite promete.

Agora a promessa já se cumpriu. Na cama dele, sob o lençol amarfanhado, ela ronrona, cabelos espalhados em seu peito, enquanto ele fuma. É o momento daquela volta lenta ao mundo da linguagem articulada, depois da rendição momentânea aos grunhidos da selva. Foi bom, foi muito bom. E ele fala:

– Sabe aquela história da ilha deserta?

– Hmm.

– Eu disse que me matava se tivesse só um livro…

– Ah, eu adorei. Nunca ninguém me respondeu assim.

Ele fica uns segundos em silêncio, espreme o cigarro no cinzeiro.

– E se fosse um game?

– O quê?

– Se em vez de um livro eu pudesse levar um videogame. Um só. Sabe qual seria?

Ela ergue a cabeça do travesseiro peludo do peito dele. Sente frio de repente.

– Hmm.

– Sonic. Sou louco pelo Sonic. É antiguinho, mas eu podia ficar a vida inteira fazendo aquele porco-espinho pular…

Diz isso e, com um sorriso, se deixa levar pelo sono: menos de um minuto depois está ressonando.

Ela pula da cama. Arrepiada de frio, sai andando nua pelo apartamento, que mal teve tempo de ver quando chegaram, ocupados que estavam em se morder, arrancar as roupas e atravessar a sala na direção do único quarto.

A sala tem um sofazinho de dois lugares. Uma poltrona, jornais espalhados pelo chão. Uma estante pequena com prateleiras tomadas por garrafas de cachaça, licor, uísque, canecão de chope com o escudo do Flamengo, CDs. Ah, sim, um livro também. Um livro solitário. Ela se aproxima, temerosa, e lê na lombada, à luz fraca da rua que entra pela janela: Onze minutos, de Paulo Coelho.

Mas já é tarde demais.

*

A reprise deste conto é um mero pretexto para publicar aqui a ilustração, esta sim inédita, do artista gaúcho Gilmar Fraga, responsável por todos os traços da edição de “Sobrescritos – 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos”, que a Arquipélago Editorial lança em março.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:

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52 comentários para “Uma ilha, um livro”

  1. Rodrigo disse:

    Sexta-feira ou os limbos do pacífico, do Tournier, eis um excelente livro para se ler numa ilha deserta.

  2. Tibor Moricz disse:

    Com a devida licença do Sergio,
    Antonio Xerxenesky escreveu Areia nos dentes e está sendo uma grata surpresa na copa de literatura. Eu o entrevistei no De Bar em Bar, com direito a zumbis, faroeste e Alone In The Dark. Leiam e divirtam-se: http://esooutroblogue.wordpress.com/

  3. Laisa disse:

    “Os Trabalhadores do Mar” e “Servidão Humana” são meus favoritos. Mas levaria um do Joyce para ler, reler, reler de novo…até, quem sabe, conseguir entender as migalhas compreensíveis que ele teve a bondade de espalhar aqui e ali em suas páginas. Ler Joyce é empreitada de uma vida inteira.

  4. Ana Lúcia disse:

    A D O R E I !!!!!!!!!!! E ri muito no final!… Deve ter dado uma raiva imeeeeennnsa!!! Tomara ao menos que a noite tenha valido a pena!

  5. cely disse:

    muito boa ilustração!….o conto….é um conto ou é uma piada extensa?
    quanto à ilustração,é assim que idealiso o Férmim de ” A sombra do vento ” de Zafón .

  6. Saint-Clair Stockler disse:

    Eu levaria uma G Magazine…

  7. Luis Filipe disse:

    Adorei! rsrsrs

    Adoro o Sonic, mas acredito que ela não ia se decepcionar com a minha prateleira, rs.

  8. Daniel Brazil disse:

    Levaria um livro em branco. E uma caixa de lápis.

    • Ju disse:

      aham! com tanta coisa para ver nos primeiros dias…meses, maybe anos…

  9. R. disse:

    É bom porque é maldoso.

  10. [...] Sérgio Rodrigues, um mineiro dos bons radicado há alguns anos no Rio de Janeiro. É dele o blog “Todo Prosa”, que está aportado no site da IG. Vale a pena [...]

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