Hay que sufrir…
Quer ser um bom escritor? O primeiro passo é não ser feliz demais, sugere uma pesquisa recente (em inglês). (Via blog de livros da “New Yorker”.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:“Do momento em que peguei o seu livro
até o momento em que o larguei, fui
tomado de gargalhadas convulsivas.
Um dia pretendo lê-lo.” GROUCHO MARX
Quer ser um bom escritor? O primeiro passo é não ser feliz demais, sugere uma pesquisa recente (em inglês). (Via blog de livros da “New Yorker”.)
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Evidentemente, a pesquisa em momento algum relacionou o sofrimento dos autores com o conteúdo de seus textos. Aliás, a pesquisa não fala só sobre autores, mas sobre todas as pessoas que, após passarem por momentos de tristeza, tendem a ser mais cuidadosas, apegadas aos detalhes, atenciosas. No fim, é-nos muito pertinente a seguinte frase do artigo que os full time felizes devem ter esquecido de ler: “Being happy really does seem to make us dumb and dangerous.”
Vamos lá, Elton.
O artigo se refere ao trabalho desenvolvido pelo professor psicologia Joe Forgas. Ele fez uma série de experimentos, um dos quais foi o seguinte: um grupo de pessoas assistiu a um drama sobre câncer e outro grupo, a uma comédia qualquer. Terminada a sessão, foi solicitado a todos que escrevessem um texto argumentativo. O resultado, segundo o cientista, foi que as pessoas submetidas ao torturante drama sentimentalóide sobre câncer produziram argumentos mais coesos que os redigidos pelos que assistiram à comédia. A partir desse engenhoso experimento, o tal Joe Forgas foi extraindo conclusões com a pretensão de universalidade, como, por exemplo, o de que as pessoas de mal-humoradas seriam dotadas de um “detector de tolices” (bullshit detector) mais eficiente que as bem-humoradas, aquelas sendo mais capazes que estas de discernir lendas urbanas. Para variar, o Joe Forgas tem uma explicação para o fenômeno baseada na teoria da evolução: os estados afetivos desempenharam um papel na adaptação da espécie; o estado negativo, particularmente, seria uma espécie de alarme que indicaria que dada situação é problemática, demandando do sujeito maior cautela e atenção. Etc e tal.
Eu, sinceramente, não sei até que ponto tal experimento tem validade científica. Todo experimento científico deve, em princípio, ser passível de repetição. Mas como, pergunto, repetir o experimento do Joe Fargas se a avaliação do resultado baseia-se num critério altamente subjetivo, que a aferição da qualidade de textos argumentativos? Ademais, questiono, como é que algo completamente circunstancial, como é a sessão cinematográfica, exerce tal influência sobre o espectador a ponto de modificar, ainda que momentaneamente, sua habilidade de produzir argumentos? Outra dúvida: se eu assisto um drama insuportavelmente triste, será que meu humor será tão afetado assim?
Você acha mesmo, Elton, que esse experimento deve ser levado a sério?
Não gosto da premissa evolucionista e acho esses experimentos comportamentais bem ingênuos; penso, porém, que a intuição está certa. Acredito que experiências de tristeza, melancolia ou decepção são momentos de desencantamento que podem trazer às pessoas um olhar mais rigoroso para o mundo que as pessoas embriagas pela felicidade. Acho isso bastante plausível. Claro que, neste momento, as habilidades literárias ainda não entraram em campo.
Outra coisa, não existem pessoas full time felizes, assim como não existem pessoas full time felizes. Há pessoas mais inclinadas à melancolia e outras mais inclinadas à euforia, mas todos, sendo humanos, oscilam de um estado ao outro, em maior ou menor velocidade. O que é falso é essa imagem do artista, difundida principalmente no Romantismo doentio da primeira metade do Século XIX, como aquela pessoa particularmente sensível, que percebe com mais intensidade que o comum dos mortais as contradições dessa vida; um ser iluminado, com uma percepção mais aguda dos aspectos mais obscuros da existência.
Há muito de teatro e pose nessa imagem. Lord Byron, talvez o mais ilustre fomentador dessa imagem, foi, sem dúvida, o mais hábil marqueteiro de si próprio daquela época.
O escritor, e os artistas em geral, não tem nada de especial, que o destaque dos demais seres humanos, salvo o talento particular de que a Natureza o dotou de escrever, de pintar ou de compor músicas. O mais é fumaça e aparência.
Pois é. Não queria abusar do lugar-comum, mas acho que você está lutando contra dragões quando não passamos de moínhos-de-vento. Acho que ninguém mais defente este tipo de artista. Take it easy, Rafael. :)
Não é o que parece, Elton, já que alguns aqui sustentam absurdos como este: se fulano fosse uma pessoa feliz, não teria escrito livros, o que, a contrario sensu, significa que a tristeza, a melancolia, o ensimesmamento, o tédio, a desgraça, as tragédias pessoais, o desconcerto do mundo seriam os fatores determinantes da qualidade literária.
Todo bom escritor viu algo que o outro não viu… Todo bom escritor…
Nâo é como telenovelas, que todos já sabem o que verão mas são outonamente invernos para verem aquilo tudo, outra vez , na primavera…
Ai que cheguei atrasada numa boa discussão. Concordo com o Rafael quando ele diz que a “experiência” do Joe Forgas é tolice – e acredito que seja mais tolice ainda o Mark Peters, autor do artigo, relacionar a pesquisa com a orientação que ele dá aos alunos para que sejam específicos ou prestem atenção aos detalhes. Pra começar, quem disse que isso garante boa literatura?
(Um pequeno off-topic: Elton, o que quer dizer “não gosto da premissa evolucionista”? A pesquisa do Forgas pode não ter nada que comprove qualquer traço evolutivo, mas tristeza, melancolia e decepção, como você cita, são sentimentos que podem levar ao medo, e o medo pode servir como instrumento de defesa etc etc etc).
A mim parece óbvio que qualquer generalização, em literatura ou nas artes em geral, está fadada ao fracasso. Como disse alguém, e como disse o próprio Sérgio no post do Sexo Bom, não existe receita. Sei lá se Hemingway teria sido melhor se não fosse alcoólatra (doente, portanto, e não triste). Sei lá quantos escritores do passado se enquadrariam no diagnóstico do que hoje conhecemos como depressão (outra doença). E também não sei o quanto dos mestres da galhofa, como diz o Rafael, não enveredaram por esse caminho pra não afundar na tristeza.
Isabel, eu falei de uma forma genérica, no entanto, pontual. É cada vez mais comum ver argumentos como “isso é uma herança dos nossos ancestrais” ou “na pré-história acontecia assim”. Geralmente isso é pura especulação, pois a própria arqueologia, que é quem estuda o comportamento desses homens, é muito prudente e geralmente não endossa os argumentos citados acima. Não era o caso do artigo em questão, que cita fenômenos comprováveis em animais “infeiores”(estado de alerta). Enfim… nada a ver com a teoria da evolução das espécies que é inquestionável.
No mais, continuo achando que o sofrimento e o desajuste ajudam mais que seus contrários. Mas é claro que isso não é determinante pois, e é chato ter que lembrar isso a todo momento, no fim vai contar mesmo é o talento literário que irá converter a experiência vivida (seja “alegre” ou “triste”) em texto.
Entendido! :-) Eu fiquei achando que você tinha falado do Darwin… Um abraço
Kafka não parecia feliz, Coetzee não parece um cara sorridente, Borges parecia meio louco, Lispector era introspectivamente triste, Woolf era introspectivamente desesperada… Douglas Adams parecia muito feliz, senão feliz propriamente dito, mas pelo menos se divertia escrevendo suas coisas nonsnes.
Aco que vai de cada um.
Agora que já clinicaram a tristeza, agora já tem remédio pra isso, não tem mais graça nenhuma. Institucionalizaram mais uma coisa na alma humana.
Mas que tem escrtitor brasileiro que gosta de fazer tipo, ah, isso tem de sobra. Principalmente os de escritores malditos…
Mr. WRITER, assino embaixo sobre os escritores brasileiros ditos malditos (sorry), para quem a tristeza, a pobreza, a violência e tudo quanto é “mal” humano serve de mote pra virar literatura “visceral” (e ruim, a meu ver) – uma variação do tipinho deprê a que o Rafael se referiu no primeiro comentário.
Agora, tristeza não foi clinicada, não. Foram clinicadas doenças que podem levar à sensação de tristeza. Não existe remédio possível contra o sentimento tristeza – porque há diferença, certo, entre sensação e sentimento.
(Sérgio, esse sistema de comentários do iG é uma desgraça. Eu escrevo, aperto o “enviar” e perco a mensagem – tinha acabado de responder ao Mr. WRITER, mas nada aparece. Aliás, eu sigo o blog pelo Bloglines e, desde ontem, eles exibem um aviso de que o feed do Todoprosa está com algum problema. Será que procede?)
Isabel, o recado para Mr Writer acabou entrando, não? Quanto a esse problema do Bloglines, não estava sabendo, obrigado. Vou checar isso. Abraços.
Aristóteles questionava em um de seus ‘Problemas’: “Why is it all men who have become outstanding in philosophy, statesmanship, poetry or the arts are melancholic, or are infected by the diseases arising from black bile?”
Teixeira Coelho, num pósfácio a obra de Balzac “A obra-prima ignorada”, coloca a questão brilhantemente com o ensaio “Entre a vida e a arte. E melhor, sem colocar a História de forma estanque e engessada.
Isabel,
na verdade me referi ao fato de que hoje em dia se alguém está triste tem logo que procurar um médico.
Entendo o que você diz com sensação de tristeza, mas já virou vício do pessoal sentir uma angustia, por menor que seja, e correr para um consultório.
Hoje em dia se você está triste está doente, se está feliz também está doente… e por aí vai.
Nossa alma está em laboratórios para que tudo possa ser tratado em sonsultório.