Reificação da hegemonia pós-capitalista é a…
Uma divertida ferramenta da Universidade de Chicago, chamada “Monte sua própria frase acadêmica” (em inglês), permite a qualquer pessoa escrever sentenças tão boas quanto – ou melhores que – as de muitos pós-doutores cascudos. Ou seja, coisas inteiramente destituídas de sentido, mas com aquele ar hermético de altíssima sabedoria que é fundamental para enganar trouxas.
Funciona assim: você escolhe quatro substantivos cabeludos em quatro listas e recebe uma frase pronta. Se não gostar dela, basta um clique e os termos voltam numa nova ordem. Tanto faz, claro, porque nada quer dizer nada. Eis alguns exemplos traduzidos do que arranjei por lá:
A reificação da hegemonia pós-capitalista revive (de forma paródica) a historicização da economia especular.
A cultura dos valores normativos carrega em si a política da esfera pública.
A poética da cultura pop pede para ser lida como a autenticação do poder/conhecimento.
Uma única limitação impede a brincadeira de ser genial, como observa Macy Halford, do blog de livros da “New Yorker” (onde eu soube da novidade): as frases são curtas demais. Nenhum acadêmico que se preze seria tão sucinto. No entanto, com um certo jogo de cintura sintático, é possível emendá-las e corrigir o problema. Assim:
Conquanto a reificação da hegemonia pós-capitalista reviva (de forma paródica) a historicização da economia especular, levando a política dos valores normativos a carregar em si a cultura da esfera pública, a autenticação da cultura pop pede para ser lida como a poética do poder/conhecimento.
Ou talvez fique melhor assim:
Se a poética da cultura pop pede para ser lida como a autenticação do poder/conhecimento, visto que a historicização da hegemonia pós-capitalista revive (de forma paródica) a reificação da economia especular, conclui-se que a cultura dos valores normativos carrega em si a política da esfera pública.
Vai dizer que não?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Sem problemas, o nacial lerolero gera muitas frases com padrão academico http://www.dicas-l.com.br/lerolero/
Ops, errei: nacional
Rosângela,
Você deveria considerar que aqui neste espaço o propósito é discutir, sobretudo, a ficção (correto, Sérgio?). Ninguém aqui, acredito, se interessa pela Bíblia como manifestação da inteligência divina, nem como realidade histórica, nem como a revelação da Palavra ou coisa que o valha. A Bíblia é uma ótima antologia de histórias, ela é fonte de inspiração de inúmeros escritores, ela é repositório de lendas e símbolos que marcaram a cultura ocidental. As questões teológicas que ela suscita não nos interessa. Se o Sétimo Selo está na iminência de ser rompido, isso não nos interessa. Se a trombeta do Juízo Final já tocou a primeira nota, que venha o Fim, mas isso também não nos interessa.
Se você quiser discutir a técnica narrativa do Livro de Jó, isso sim nos interessa. Se quiser discutir o mito da Queda, a simbologia da Serpente, as metáforas por trás dos episódios do Gigante Golias, do sacrifício de Isaac, da Torre de Babel, da fuga dos Judeos para a Terra Prometida, eis aí uma boa pauta.
Mas, lembre-se: a Bíblia nos interessa tanto quanto nos interessa a Ilíada ou Rei Lear, como fruto da inteligência humana, da imaginação e da inspiração.
Vale
Me parece muito bem dito, Rafael. Rosângela, é por aí.
Rafael, não sabia que você era o Ombudsman do blog.
A propósito, o tema deste artigo me parece tão menos literário quanto o que você aponta em seu comentário. E ainda assim, dialogamos.
Você ia bem em seu comentário até antes da palavra “Ninguém”. Aí, começou a escrever a sua “própria palavra”, pois niguém o autorizou (eu pelo menos não) a se pronunciar pelos outros que de vez enquanto passam por aqui, imaginando que seja um epaço democrático.
O blog não possui uma FAQ ou ‘manual de bom comportamento’ provavelmente porque o Sérgio considera que as discussões seguem seu fluxo de forma natural, madura e responsável. Sem moderadores oficiais (o próprio Sérgio, quando entende que houve algum ‘excesso’) ou extra-oficiais.
É isso ou não? Se eu estiver errado, por favor, me avisem.
Caro Soares,
Obrigado pela oportunidade que você me está oferecendo de explorarmos o fascinante mundo da semântica. Quando escrevi “ninguém” (esta modesta palavrinha parece ter sido suficiente para atiçar sua fúria) não pretendia, obviamente, fazer um juízo universal, que não admitisse nenhuma exceção e que se aplicasse indistintamente a todos os frequentadores desta caixa de comentários. Apesar do valor negativo que esse pronome encerra, trata-se, devo lembrar, de um indefinido, um vocábulo que carrega consigo uma certa imprecisão. Quando a adolescente, depois de discutir com os pais que não aceitam seu namoradinho, tranca-se no quarto e diz, entre soluços, “ninguém me entende!”, ela se referindo a seus pais, talvez aos professores e quiçá aos adultos em geral, mas não à Humanidade inteira.
Você mesmo, quando afirma “ninguém o autorizou”, usa do mesmo recurso estilístico; mesmo assim, eu nunca o acusarei de estar “pronunciando pelos outros”.
Sempre acreditei que as únicas criaturas que levavam o pronome “ninguém” ao pé da letra fossem os ciclopes, que se deixaram enganar pela malícia do sagaz Ulisses (não o de Joyce, mas o de Homero). Parece que havia me enganado…
Engraçado, o C S Soares, que costuma falar tanto, ficou bem calado…
1) O tema não é bobagem, apenas o modo como normalmente é abordado. Mostra que não somos muito diferentes de uma máquina, criada à nossa imagem e semelhança, e que nos expressamos todos por padrões, formatos, ou seja, de forma muito previsível (mesmo quando usamos pseudônimos). Freud e Skinner já o sabiam. E isso vale não só para acadêmicos, mas os jornalistas, os consultores, advogados e analistas de sistemas, para os seres humanos apesar de todo seu orgulho, altivez e ignorância. Há alguns meses, escrevi sobre o Booklamp (que identifica o estilo de escritores estatisticamente): desconfiem de sua originalidade! E se Steven Pinker estiver certo (acredito que esteja), a língua é uma janela para a natureza humana. Se por um lado Forrest Gump afirma “A vida é como uma caixa de chocolates, você nunca sabe o que vai encontrar”, por outro, Umberto Eco retruca: “querendo conexões, o que achamos são… conexões”.
2) Se “falo tanto” neste espaço on-line (nem sei se falo tanto assim) é porquê (de forma coerente, basta ver meus projetos on-line) dou atenção e valor à escrita e leitura em ambiente on-line e claro, a este blog, um belo trabalho do Sérgio, apesar de não poucas vezes discordarmos um do outro. Mas isso faz parte do jogo democrático. Acho incoerente, por exemplo, quem vem para a internet falar mal da internet. Como Prometeu nos apoderamos de algo que ainda não entendemos muito bem. Olhos, ouvidos e mente abertos, além de uma certa humildade, sempre serão benéficos… Isso vale para todos nós. A falta, mas também o excesso de luz cegam.
Divertido e tal, mas cá entre nós, faz parecer que somente entre os acadêmicos persiste essa mania de retórica vazia. Em todos os campos dos saberes humanos tem sempre um querendo criar uma imagem favorável a seu respeito dizendo sem dizer. Um exemplo muito simples: numa festinha uma amiga me apresenta um mané que na primeira frase me solta um termo técnico da medicina pra todo mundo saber a partir dali que o cara é, err…, ‘daseliti’. A mesma situação patética.
Leandro, jargão existe em qualquer ofício, mas há uma diferença qualitativa entre o exibicionismo eventual do estudante de medicina e o texto ilegível típico do academiquês. Este está acima do jargão, é uma linguagem com pretensões universais, enraizada na história (alimenta-se em grande parte de colagens) e testada dia a dia em sua capacidade de mediar as relações de poder acadêmico em qualquer especialidade. Para se chegar perto de um paralelo, seria preciso buscar talvez o juridiquês – este sim uma algaravia capaz de discorrer sobre tudo o que há no universo de modo a que só outros iniciados entendam, ou finjam que.
“…ou finjam que.”
O direito de ser pedante de alguém vai até onde começa o do outro.
Não esquecer nunca: jornalista é merda. Merda. Merda.
Esses trechos parecem do energúmeno do Tarso Genro falando…ele fala uns troços empolados, usando palavras das quais nao tem a mínima ideia do que significam, achando que tá falando bonito…