Como escrever um grande romance
A reportagem do “Wall Street Journal” (em inglês, acesso gratuito) pergunta a um punhado de escritores qual é sua rotina ao escrever. Previsivelmente, aparecem métodos, hábitos, rituais e manias de todos os tipos – ou alguém achou que o título deste post, que é também o da reportagem, anunciava um passo-a-passo de validade universal?
De qualquer modo, é sempre interessante saber o que se passa na mesa de trabalho dos outros. O que mais me impressionou foi descobrir que ainda existem tantos adeptos – Michael Ondaatje, Kazuo Ishiguro, Orhan Pamuk, Amitav Gosh – da velha caneta (ou lápis) no papel.
Eu acreditava que esse tipo de escritor, com a óbvia exceção dos poetas, estivesse rumando para a extinção. Pelo visto, não está. Talvez a turma da caligrafia concorde com Graham Greene, que disse: “Meus dois dedos numa máquina de escrever nunca se conectaram com meu cérebro. Minha mão numa caneta, sim. Uma caneta tinteiro, é claro”. Ressalvado o direito sagrado de cada um escrever como bem entende, alguma coisa nessa tirada de Greene sempre me incomodou. Um dia descobri o que era: os dois dedos. O cara catava milho!
Da minha parte, para retomar a feliz idéia de “conexão” com o cérebro, acho o processador de texto o melhor amigo do escritor. Quando as sinapses estão desembestadas – o que pode ser raro, mas acontece – dedos bem treinados conseguem correr no teclado numa velocidade que só bons taquígrafos poderiam superar. Sem falar nas correções limpas, nos comandos de busca, no corta-e-cola, na magnífica tecla Del…
E já entrando no terreno das manias em que a reportagem do WSJ se detém com tanta volúpia, sempre uso Times New Roman, corpo 12, entrelinha 1,5. Há muitos anos, quando ainda alimentava alguma nostalgia da máquina de escrever, brinquei com o Courier New. Mais tarde fiz umas experiências com o elegante Garamond, mas parei logo. A prosa estava ficando bonitinha demais.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Por que é mais fácil falar sobre as ferramentas que sobre a obra, hein?
Outra coisa! Este é o único blog de que participo e que há muitos comentários. Dizem por aí que é por minha causa que param os comentários. O Sinclair quase me fez acreditar. ( Tomara que ele nem leia isso aqui… Meu Deus!)
Oi Sérgio! Gostei muito do post! Eu também escrevo e comprei um netbook (menor que o notebook) justamente para escrever meus textos, mas não sei o que há que o processo desanda…
Agora, quando pego caneta e papel, tudo flui muito mais fácil… será o hábito? Sou jovem e já sou dessa geração “internerd”. Mas não hora de escrever materiais longos, meu caderno é meu melhor amigo. Valeria um estudo científico sobre o caso. risos
Imagina ter que escreve rum livro em papel e depois passar para o computador. Estou passando por desafio semelhante =/
O bom de escrever a mão é que dá pra ser mais rápido e mais livre, ao menos comigo. A ausência do delete faz com que eu não me preocupe tanto em voltar pra corrigir alguma coisa (frase mal estruturada, erro de ortografia). Assim eu me preocupo mais com as ideias.
Gosto muito de escrever em caderno, folhas, etc. Mas por causa de blogs acostumei com o teclado. Claro que erro muito, pois as mãos não acompanham o pensamento. E se não cuido, envio com muitos erros e isso não é bom.
Eu tenho um problema parecido: Só consigo escrever digitando, e só no Notepad! Se tento postar direto no site, ou no word (para usar o corretor) a obra não vai para a frente. Tenho de primeiro escreve-la num .TXT, copiar no word, passar a revisão ortográfica (e uma segunda leitura) para só depois postá-la.
Sergio, acho que não precisamos usar uma só forma de escrever, como você comenta ao estranhar que alguém ainda escreva à mão. Sempre estive atenta para não criar qualquer tipo de dependência (rituais ou materiais-fetiche), por isso sempre levo um caderno sem pauta na bolsa para onde for, caso estiver longe do computador. Morando no Rio, sabe perfeitamente que não é bom chamar a atenção e como escrevo desde pequena, já carregava meu caderno para a pracinha onde minhas filhas brincavam. Mais tarde meu netbook foi roubado no metrô e voltei ao hábito de levar o caderno na bolsa. Não o uso para escrever trechos inteiros de um texto ou de uma sinopse (sou pesquisadora, ghost writer e roteirista) , mas para anotar ideias, os famosos insights que (você sabe!) podem ocorrer em qualquer hora ou lugar. Não me aborreço em filas de banco ou salas de espera, sempre carrego livros para ler/estudar e meu caderno. Adoro escrever no computador porque aprendí a usar todos os dedos com um velho programinha, questão de exercício e empenho. Mas às vezes as sinapses são tão velozes que nem os dedos treinados as acompanham e daí escrevo esses insights em outro caderno sem pauta que mantenho sobre a mesa só para isto, assim como também posso usar o gravador para registrar ideias em frases soltas. Meu único foco é sempre dar espaço ao fluxo do pensamento criativo sem restrições, sem me preocupar com redações perfeitas.
É coisa de maluco a rotina de quem escreve, mas cada um acaba achando o método que melhor lhe convem, é só o que interessa!