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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de setembro, 2009

21/09/2009 - 10:37

Vou ali e já volto

Como a disputa agora é séria, e só elegeremos o melhor começo inesquecível de todos os tempos uma vez, que tal deixar a votação (no post abaixo) rolando por duas semanas?

É o tempo que o Todoprosa vai tirar de folga. Dia 7 de outubro eu volto a atualizá-lo.

Abraços a todos e até lá.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
20/09/2009 - 09:32

Começos inesquecíveis: uma seleção (final)

Herman Melville e Fiodor Dostoievski, nessa ordem, foram os mais votados da última rodada classificatória, com Miguel de Cervantes num honroso terceiro lugar. Chegamos assim à finalíssima dessa disputa sumamente desimportante – mas, espero, divertida – para eleger o mais inesquecível começo de romance de todos os tempos.

Agradeço a todos os que participaram das rodadas classificatórias, animando a conversa muito além do que eu tinha imaginado ao propor a brincadeira.

Aos votos, pois, moçada! Como diria meu amigo Humberto Werneck, chegou a hora da onça beber água. Apenas um lembrete: cada eleitor deve escolher um único início, por favor.

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. (Vladimir Nabokov, “Lolita”.)

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. (Albert Camus, “O estrangeiro”.)

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. (Leon Tolstoi, “Ana Karenina”.)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.)

Chamem-me Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. (Herman Melville, “Moby Dick”.)

Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside meu mal. (Fiodor Dostoievski, “Memórias do subterrâneo”.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/09/2009 - 00:39

Na Bienal

Esta é só para os leitores do Rio: amanhã, domingo, último dia da Bienal do Livro, estarei no Café Literário às 17h para falar, ao lado de Carlos Heitor Cony, sobre o tema “A política entre a ficção e a realidade” – no meu caso, leia-se “Elza, a garota”; no de Cony, leia-se uma obra inteira e, de forma mais diretamente ligada ao mote político, “Pessach: a travessia”. Quem quiser aparecer será muito bem-vindo. A mediação ficará por conta de Marcelo Moutinho.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/09/2009 - 17:46

À moda do Zózimo

E a relação dos finalistas do Portugal Telecom, hein?

Nos seis anos de existência do galardão (os quatro primeiros, é verdade, em âmbito apenas nacional), só um português – o luso-angolano Gonçalo M. Tavares, em 2007 – ganhou o primeiro prêmio.

Tem muita gente apostando que chegou a hora de equilibrar um pouco mais o jogo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/09/2009 - 12:08

Potterlândia

potterlandO gigantesco parque temático de Harry Potter que abrirá ano que vem em Orlando, na Flórida, leva o blogueiro Alison Flood a especular (em inglês, acesso gratuito) quais as outras obras literárias que mereceriam essa glória mundana – ele fala de C.S. Lewis e de Stephenie Meyer, tudo meio óbvio. Gostei mais quando aquele estranho parque temático de Dickens inaugurado na Inglaterra há dois anos – comentado na época aqui – inspirou em colegas blogueiros fantasias irônicas como a de um aterrorizante Castelo de Kafka.

É engraçado imaginar por dois minutos o tipo de empreendimento paraliterário do gênero que poderíamos ter no Brasil se houvesse por aqui mais dinheiro para gastar/apreço pela literatura/paixão por parques idiotas – sei lá qual é a melhor alternativa. Exercício para mentes desocupadas? Provavelmente sim. Mas que parece um desperdício nunca termos podido visitar o Sítio do Picapau Amarelo, comprar um potinho de purpurina com a marca Pirlimpimpim e almoçar uma galinha ensopada no Tia Nastácia, isso parece. (Sim, dizem que aquele que existe em Taubaté é simpático, mas parece estar mais para Museu Lobato, filho ilustre da terra, do que para parque temático.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/09/2009 - 11:10

Se imprimissem a internet inteira…

…numa única impressora a jato de tinta, o trabalho levaria 3.805 anos e produziria uma pilha de papel de 544 mil toneladas; e outros números igualmente inúteis – aqui.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/09/2009 - 09:15

Começos inesquecíveis: uma seleção (III)

Tolstoi promoveu um massacre na última rodada: o famoso início de “Ana Karenina” teve 28 votos e deixou a emoção restrita à disputa do segundo lugar, esta sim dura. E Guimarães Rosa acabou eliminando Charles Dickens por apenas um voto. (Campos de Carvalho também teve participação honrosa. Meu preferido era Juan Rulfo, mas o que se há de fazer.)

Assim, já estão classificados para a rodada decisiva, domingo que vem, os começos inesquecíveis de “Lolita”, “O estrangeiro”, “Ana Karenina” e “Grande sertão: veredas”.

Da lista abaixo sairão os dois últimos finalistas. Agora é com vocês…

Chamem-me Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. (Herman Melville, “Moby Dick”.)

Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. (Miguel de Cervantes, “D. Quixote”.)

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar. (João Ubaldo Ribeiro, “Viva o povo brasileiro”.)

Esta é uma história para ser lida na cama de uma casa velha em noite chuvosa. Os cachorros dormem e os cavalos de montaria – Dombey e Trey – podem ser ouvidos em suas baias do outro lado da estrada de terra, para lá do pomar. (John Cheever, “Ah, até parece o paraíso”.)

Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside meu mal. (Fiodor Dostoievski, “Memórias do subterrâneo”.)

Estou em pé à janela de um casarão no sul da França enquanto a noite cai, a noite que me conduzirá à manhã mais terrível da minha vida. (James Baldwin, “O quarto de Giovanni”.)

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne; suponho que o processo esteja na lembrança de todos e que não seja necessário dar maiores explicações sobre minha pessoa. (Ernesto Sabato, “O túnel”.)

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. (Marcel Proust, “No caminho de Swann”.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/09/2009 - 10:46

Curiosidades etimológicas: Luau

O leitor Aian Cotrim tem uma dúvida de grafia que qualquer dicionário poderia ter sanado. Mas vale a pena falar um pouco sobre a história da palavra “luau”.

Caro Sérgio, nessa semana travei uma discussão com colegas da faculdade sobre a grafia correta de uma palavra: é ‘luau’ ou ‘lual’? Defendi com todas as minhas forças a opção ‘luau’ por achar as vogais mais características da nossa lingua, porém não tenho qualquer fundamento mais organizado para embasar minha resposta. Espero que você possa responder a minha pergunta.

Aian acertou, mas pelas razões erradas: “nossa língua” não tem nada a ver com isso. Provavelmente devido ao fato de “luau” ser uma festa praiana de estilo havaiano que ocorre à noite, muita gente acha que a palavra tem alguma relação com “lua”, “luar”. A pista não poderia ser mais falsa. “Luau” vem do havaiano lu’au, que, antes de nomear por extensão também a festa, era apenas o nome de um prato típico servido nessas celebrações – folhas de taro, um tipo de inhame, cozidas com leite de coco.

Publicado no “NoMínimo” em 16/4/2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
11/09/2009 - 10:34

Esse seu cachorro, não sei não…

revolta dos robôs“Seu cachorro é gay?”, “Guerra nuclear: o que você pode ganhar com ela”, “Torne sua casa à prova de bombas”, “A vagina mal-assombrada” (“É difícil amar uma mulher cuja vagina é um portal para o mundo dos mortos”, diz a apresentação), “Caixões: faça você mesmo”, “Origami de toalha”, “A termodinâmica da pizza” e o sensacional “Como sobreviver a uma revolta dos robôs” (foto ao lado) são alguns dos títulos disponíveis na recém-criada seção de livros esquisitos do sebo online AbeBooks.com. Vale fazer uma visita com calma.

(Via blog de livros do Guardian.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/09/2009 - 19:46

Oficina de ficção

Enquanto o livro não vem, e para não fugir do assunto de ontem, reedito um Sobrescrito publicado em fevereiro do ano passado:

Conheceram-se na oficina de ficção coordenada por um escritor de barba espessa e fama rala. O que primeiro chamou a atenção dela foi a qualidade do diálogo que ele conseguia escrever, vozes se cruzando com uma espontaneidade e um fio inacessíveis a ela, aos outros alunos e talvez até, quem sabe, ao professor. Já a atenção dele foi despertada primeiro por aquele olhar, o olhar morno e lento que ela ficava revezando entre ele e seus próprios pés, como se seu pudor viesse em ondas, enquanto o ouvia ler em voz alta o diálogo habilmente plagiado do Sabino. Foi depois desse dia, a princípio num espírito de retribuição mas logo com curiosidade genuína, que ele expandiu sua atenção dos olhos para o texto, e não demorou a se impressionar com a força dos adjetivos luxuriantes que ela espalhava aqui e ali numa narrativa de resto seca, feito plantas carnívoras de estufa em vasos perdidos no deserto. Não é incomum, especialmente em ambientes artificiais como o de uma oficina de ficção, que metáforas ganhem vida: ele logo descobriu que estava projetando no corpo dela, sardento e quebradiço nos trechos que o decote e a saia deixavam entrever, a expectativa de uma vegetação sumosa escondida em dobras propícias. O diálogo, quando chegou a hora do diálogo, foi banalíssimo, vamos jantar, vamos, vamos para minha casa, vamos, o que a decepcionou um pouco, mas a essa altura seus olhares já tinham se cruzado tantas vezes, enquanto o professor dissecava algum conto mal-ajambrado e reduzia a pó mais um aluno infeliz, que a narrativa tinha que se desenrolar até aquele final, um final sem adjetivo luxuriante nenhum, apenas este: previsível, um final previsível. Na semana seguinte ele abandonou a oficina de ficção sem nem se despedir. Poucos dias depois ela começou a namorar o escritor de barba espessa e fama rala, com quem acabou se casando.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
08/09/2009 - 12:10

Oficinas literárias, a discussão do ano

Para quem nunca estudou letras nem gostou de ler crítica, é a chance de ter contato, mesmo que resumido, com as principais técnicas, discussões e correntes da história da literatura. Parece burocrático, mas evita a tentação de reinventar a roda. (…)

Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.

(…) oficina não dá talento a ninguém, e sim melhora a técnica, que é o instrumento para levar o talento à página em branco. Não imagino como possa acontecer o contrário, isto é, as aulas castrarem o potencial de alguém.

O escritor gaúcho Michel Laub, que lançou este ano o romance “O gato diz adeus”, é freqüentemente citado como argumento vivo em defesa das oficinas literárias por ter passado, como Cintia Moscovich e Daniel Galera, pelas aulas de Assis Brasil. Agora ele verbaliza o argumento e o desdobra em dez partes, nesta lista sensata publicada pelo jornal “Zero Hora” e republicada em seu blog. Nunca passei por oficina nenhuma, mas tendo a concordar com tudo ou quase tudo. Bom motivo para soprar as brasas da discussão que há pouco tempo andou rolando aqui – e aqui.

Agradeço ao Drex Alvarez pela dica.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/09/2009 - 10:34

Começos inesquecíveis: uma seleção (II)

Os começos de “Lolita”, de Vladimir Nabokov, e “O estrangeiro”, de Albert Camus, empatados, foram os mais votados pelos leitores do Todoprosa na chave de domingo passado e estão classificados para a rodada final.

Da segunda chave, hoje, sairão mais dois começos inesquecíveis – e quem, voluntariosamente, tiver escolhido por antecipação algum dos candidatos da lista abaixo deve fazê-lo de novo, pois só agora esses votos serão computados.

Domingo que vem rola a última rodada classificatória. Bons sufrágios!

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. (Leon Tolstoi, “Ana Karenina”.)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.)

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. (Campos de Carvalho, “A lua vem da Ásia”.)

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. (Italo Calvino, “Se um viajante numa noite de inverno”.)

Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio – foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza –, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. (Jeffrey Eugenides, “Virgens suicidas”.)

Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia em direção àquele riso. (Hilda Hilst, “Com os meus olhos de cão”.)

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. (Juan Rulfo, “Pedro Páramo”.)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…). (Charles Dickens, “Um conto de duas cidades”).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/09/2009 - 10:30

Curiosidades etimológicas: Subornar

Subornar vem de sub + ornar. Ornar deriva do latim ornare – “fornecer, equipar, armar, aparelhar, preparar, embelezar, ornar, distinguir, honrar”, segundo o Houaiss. Trata-se de um verbo um tanto culto, mas ainda vivo como sinônimo menos freqüente de enfeitar, adornar, ornamentar, ataviar, emperiquitar, empetecar.

Subornar é, na origem, pôr uma pulseira de ouro no subornado, um brinco de brilhante em sua orelha, uma gravata italiana em seu pescoço. Até aí faz sentido, mas… por que o “sub”? Justamente pelo caráter sorrateiro, dissimulado da operação. O prefixo “sub”, aqui, tem o mesmo sentido que exibe no adjetivo “sub-reptício”: denuncia ação furtiva, aquela que só é praticada quando se imagina que ninguém – ou, em termos mais modernos, nenhuma microcâmera – está de olho.

Publicado no “NoMínimo” em 1/7/2005.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
04/09/2009 - 12:29

Uma revista F…

Na primeira missa do dia, ouviu o coro entoando o mais estranho dos latinórios:

Membrum virile, mulier super virum, vas naturaaaalis…

Vas prepooosterum!

A voz de Alfombra ficou martelando em seus ouvidos as obscenidades extraídas de autos brutais pelo resto da manhã. Ocorreu-lhe a certa altura que o gordo ancião trocaria de bom grado uma galeota repleta de tonéis de vinho verde pelas confissões encadernadas em letra de fôrma.

Vas prepooosterum!

Lembrou-se que na noite anterior sonhara com Santo Agostinho, um Santo Agostinho invertido que começava a vida impoluto e a terminava se esbodegando em todas as orgias. No fim, Frei Alfombra o passava no espeto. Havia um outro condenado, Glauceste. Antes de marchar para a fogueira, o grande árcade soprara em seu ouvido:

– É esta a nobre causa, Simão! Presta atenção: é esta a verdadeira Inconfidência!

A edição F – isto é, a sexta – da bela revista de contos trimestral “Arte e Letra: Estórias” (96 páginas, R$ 18,50) traz um conto inédito meu, “Vas preposterum”, uma fantasia cívico-pornográfica ambientada em Vila Rica no tempo da Inconfidência Mineira.

Lá estou na excelente companhia de, entre outros, William Faulkner, Antonio Tabucchi, Arthur Conan Doyle, Ryûnosuke Akutagawa, Luiz Vilela e – para mim uma revelação, embora eu já conhecesse os elogios rasgados feitos a ela por Cristovão Tezza – a catalã Mercè Rodoreda (1908-1983), que comparece com o conto “O sangue”.

A revista, feita em Curitiba, até dá as caras em livrarias, mas costuma ser mais fácil adquiri-la no site da editora.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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