Arquivo de agosto, 2009
30/08/2009 - 10:04
Em quase três anos e meio de Todoprosa, foram tantos os Começos Inesquecíveis que já me esqueci de uma parte deles. Talvez tenha chegado a hora de, como dizem em sala de aula, recapitular a matéria. Domingo que vem a seleção continua. E quem sabe, os leitores se animando, a gente possa eleger aqui, no fórum da caixa de comentários, o mais inesquecível entre os inesquecíveis?
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. (Vladimir Nabokov, “Lolita”.)
Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. (Gabriel García Márquez, “Cem anos de solidão”.)
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. (Albert Camus, “O estrangeiro”.)
Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco. (James Joyce, “Um retrato do artista quando jovem”.)
Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. (Jorge Luís Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”.)
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. (Machado de Assis, “Memórias póstumas de Brás Cubas”.)
Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. (Ernest Hemingway, “O sol também se levanta”.)
Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto. (Franz Kafka, “A metamorfose”.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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29/08/2009 - 11:01
Se passarmos a fita da história ao contrário vamos presenciar, numa daquelas eras que antigamente se chamavam de priscas, o encontro da palavra “gravata”, acessório polido do vestuário masculino, com a palavra “croata”. Veremos então que os dois vocábulos, um tanto surpresos, se apalpam, se cheiram – e se fundem. A cena se passa bem longe dos salões urbanos em que a gravata brilharia: o que vemos ao fundo, contra o céu roxo, são colunas de fumaça numa paisagem sangrenta de trincheiras.
Pois é. A “gravata”, que, já perfumada, nos chegou do francês cravate na virada entre os séculos 17 e 18, antes disso (passando a palavra ao filólogo Silveira Bueno) “veio para o centro da Europa trazida pelos cavaleiros croatas, durante as guerras com a Alemanha desde 1636, depois pelos mercenários croatas dos reinados de Luis XIII e XIV, que compunham o regimento Royal Cravate. A forma primitiva foi o eslavo hrvat passada a um dialeto alemão Krawat”.
Simplificando a prosopopéia: os soldados croatas tinham o costume de amarrar no pescoço uma tira de tecido que, vejam só, caiu no gosto dos europeus urbanos. Entre os alemães, o acessório se tornou conhecido também como “croata”, em versão dialetal. Que virou cravate em francês. Gravata, em português. Ou, numa das divertidas grafias antigas de nossa língua, garovata.
Não deixa de ser apropriado que, tendo partido do campo de batalha, e depois de uma volta pela sociedade chique, a gravata arranjasse um jeito de voltar a campos semânticos violentos na língua brasileira, nomeando tanto um golpe de luta livre quanto, na fala gaúcha, a degola.
Publicado no “NoMínimo” em 4/4/2007.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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28/08/2009 - 10:56
Caso raro de filantropo cultural na história do país, Lírio Stuckert, o hoje sessentão herdeiro do império de mineração Stuckert, sobe ao palco com passos lentos, caminha até o microfone instalado sobre um púlpito de madeira de lei e, varrendo o auditório lotado com um olhar vago, pigarreia meia dúzia de vezes.
Após trinta anos de expectativa, o famoso Desafio Stuckert está prestes a chegar ao fim.
Como sabe qualquer um que não viva em Marte, Lírio Stuckert deixou para trás em 1979, ao completar 33 anos, uma juventude boêmia rascunhada no submundo internacional das artes moderninhas – entre São Paulo, Paris, Nova York e Tóquio – para dedicar os anos mais produtivos de sua vida e uma gorda fração de sua fortuna à procura do mais valioso e mitológico dos diamantes: o Escritor Genial Inédito, criminosamente ignorado pelas editoras e perdido nos confins deste Brasilzão.
Ao longo de três décadas, a Fundação Stuckert recebeu 1.528.777 originais que, garante seu patrono, foram todos lidos com lupa, linha a linha, por uma equipe eclética de especialistas e não-especialistas, de pós-doutores a diletantes renomados.
E agora, diante de representantes de toda a imprensa nacional, Lírio Stuckert está finalmente anunciando o resultado da busca de uma vida inteira.
– Bom dia a todos – diz ao microfone. – Gugu-dadá, bezerrinho quer mamar.
Um murmúrio perplexo percorre a audiência. O grande filantropo cultural ergue a voz e bate no peito:
– Krig-ha, bandolo!
Então, desabotoando a braguilha, despeja um fio curvo e dourado sobre os jornalistas da primeira fila:
– Conheceu, papudo?
Dois brutamontes de branco entram correndo no palco com uma camisa-de-força. Antes de ser carregado às pressas para os bastidores, Lírio Stuckert ainda tem tempo de encher o salão com berros melodiosos:
– Pedro de Lara, lá, lalalalá, lalá, lalalalá, lalalalalalá…
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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26/08/2009 - 12:16
“Édipo Rei” – Cotação média dos leitores: Quatro estrelas. Sófocles é um autor satisfatório que escreve numa prosa clara e ágil. Os jovens em especial podem aprender bastante imitando o Sr. Rei, até o momento em que ele sai um pouco dos trilhos perto do fim. Nada que vá fazer o chão tremer, mas a coisa tem tutano. Devo admitir que ainda estou meio confuso com a subtrama bizarra envolvendo a mãe do Sr. Rei.
O satirista americano Joe Queenan consegue alguns momentos divertidos ao imaginar, no Wall Street Journal (em inglês, acesso gratuito), como seriam as resenhas de certos clássicos se em sua época já existissem os leitores da Amazon. Nada que vá fazer o chão tremer, mas… (Via Arts & Letters Daily.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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25/08/2009 - 13:06
Com este argumento eu ainda não tinha esbarrado: uma pesquisa (em inglês) sustenta que os leitores digitais de livros têm o potencial de reduzir as emissões de dióxido de carbono em quase 10 milhões de toneladas nos próximos três anos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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23/08/2009 - 10:43
Ninguém tomava ao pé da letra as coisas que Martin Pemberton dizia; ele era melodramático demais, ou atormentado demais, para falar sem floreios. Por isso as mulheres o achavam atraente – viam-no como uma espécie de poeta, embora ele fosse mais crítico do que poeta, um crítico de sua própria vida e época. Assim, quando Martin começou a dizer que seu pai ainda estava vivo, nós que o ouvíamos falar e nos lembrávamos de seu pai tínhamos a impressão de que ele estava se referindo à persistência do mal, em termos gerais.
Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário. O que sugere um paradoxo: o que há de mais “profundo” na escrita estaria logo ali na superfície, numa combinação de sinais gráficos que leva o leitor a submergir naquilo – ou ir embora. O primeiro parágrafo de “A mecânica das águas”, do escritor americano E.L. Doctorow (Companhia das Letras, 1995, tradução de Paulo Henriques Britto), é um ótimo exemplo de como pode ser poderoso esse negócio de uma-palavra-depois-da-outra.
Publicado em 1/5/2007.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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22/08/2009 - 12:29
A associação de palavras é um jogo curioso. De repente, surfando a onda dos debates exasperados sobre “judiar” e “denegrir”, são muitos os leitores que me perguntam ao mesmo tempo sobre “coitado”. Não chego a entender bem por que isso acontece, o fato é que a palavra se impõe. Querem saber se é verdade que vem de coito, cópula, e significa em sua origem “submetido a coito, fodido”.
Não, não é verdade. Não encontrei em autor algum essa ligação, que tudo indica ser mais uma das lendas etimológicas que vicejam por aí. Reconheça-se que é uma das mais tinhosas: parece fazer o maior sentido, mas só parece.
Coito vem de uma forma nominal do verbo latino coire – ir com, engajar-se em sexo com – que encontra eco numa expressão ainda popular como “ela vai com qualquer um”. Coitado, por seu turno, é só o particípio do verbo coitar (fazer sofrer, atormentar), hoje em desuso, descendente do latim vulgar coctare e inteiramente desvinculado de coito. É o que juram os sábios.
Às vezes me sinto meio estraga-prazeres.
Publicado no “NoMínimo” em 28/11/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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21/08/2009 - 14:04
Devo a uma repórter que teve recentemente a desfaçatez de me fazer uma pergunta batida – “Qual foi o primeiro livro inesquecível da sua vida?” – o retorno de uma memória poderosa que se encaixa bem na discussão que andou rolando na caixa de comentários do último post, sobre a importância da embalagem e dos apelos extraliterários na descoberta dos livros. Porque foi exatamente isso, uma descoberta, o que eu fiz quando, aos sete anos de idade, decidi subir numa cadeira para alcançar aquele portentoso volume de capa dura na estante de meus pais, chamado “A Divina Comédia”.
Calma, não vou dizer aqui que li Dante aos sete anos. Imagino que tenha no máximo passado os olhos pelas palavras, sem nada entender. O que me fisgou – e me fez voltar repetidamente ao livro, anos a fio – foram as ilustrações do francês Gustave Doré (1832-1883), principalmente as do Inferno. O Inferno de Dante segundo a visão gótica e romântica de Doré revelou aos meus olhos um território estonteante de terror e sensualidade. Imagino que o impacto não seria o mesmo para as crianças de hoje, com seu acesso mais ou menos livre a imagens fortes, mas, naquele finalzinho dos anos sessenta, eu não tinha a menor idéia de que uma coisa daquelas pudesse existir. De repente meus sonhos ficaram mais atormentados, o mundo mais perigoso – e mais excitante.
Hoje percebo que, embora os versos de Dante não tenham entrado no jogo, o que se deu ali foi mesmo uma descoberta da literatura. Porque depois daquilo eu estava vacinado por trezentos e oitenta anos contra essa balela tão difundida de que livros são coisas chatas.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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19/08/2009 - 20:48
Descubro no blog de livros do Guardian esta capa para uma nova edição de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë, inspirada – para usar um termo gentil – na estouradíssima série de livros de vampiros para adolescentes de Stephenie Meyer, “Crepúsculo”.
E para não deixar ninguém em dúvida, um aviso em letras brancas sobre um disco vermelho logo na capa explica que se trata do “livro preferido de Bella e Edward”, heróis da série.
São os ventos uivantes do marketing, paciência. Por enquanto, não tem graça. Mas imagino que seja de rolar de rir daqui a uns tantos anos, quando (suponho ou torço?) os livros de Meyer estarão completamente esquecidos e o de Brontë, não.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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18/08/2009 - 12:20
No ‘Para escrever’ de Luiz Antonio de Assis Brasil, a terceira regra básica é a seguinte: “Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis”. Leia outra vez, por favor. Em outras palavras, preciso ter muito dinheiro para escrever, uma vez que tudo que foi listado aí custa caro (um Moleskine custa em torno de uns 50 reais). Não posso, por exemplo, escrever no meu caderno da extinta Papelaria União?! Ou na minha caderneta Tilibra?!
*
No ‘Para escrever’ de Marcelino Freire, a quinta regra básica é esta: “Ler e beber muito. E, no mais: viver”. Tudo bem quanto a ler muito. Mas e “beber muito”?! Beber água?! Coca-cola?! Chá?! Não. Acredito que “beber muito” se refira beber muita cerveja, vodka, tequila e etc. E “viver”?!. Até onde eu saiba nenhum morto é capaz de escrever. Viver é experimentar a vida?! Viver e “beber muito” estão, quase com certeza, relacionados a uma imagem de escritor junkie/beatnik/freak.
A reportagem (só para assinantes) sobre a onda das oficinas literárias publicada pelo caderno Mais! da “Folha de S.Paulo”, domingo agora, provocou o comentário acima no blog Pesa-Nervos. De fato, as “regras básicas” que o blogueiro aponta entre as que aparecem listadas no jornal por oficineiros disputados são bons exemplos de Febeali. Hemingway gostava de descascar laranjas antes de escrever, mas não consta que um dia tenha tentado impor sua mania como “regra básica” aos aspirantes. Conheço uma poeta que só consegue escrever pelada – problema dela. Transformar singelos gostos pessoais ou idiossincrasias cabeludas em lições universais é bobagem.
Fiquei pensando aqui se, apesar de tudo, eu teria uma “regra básica”, basicona mesmo, e de consumo rápido. Só me ocorre a seguinte: sempre leia o que acabou de escrever, mesmo que sejam cinco linhas para um box de matéria de jornal, com os dois pés atrás – as chances de aquilo (ainda?) não ser bom são de 99 em cem, e se você não descobrir os enguiços o leitor o fará. Observado esse princípio, acho que o resto tende a correr bem.
E já que se falou em preferência pessoal: a caderneta Tilibra nunca me decepcionou.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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16/08/2009 - 11:24
Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta.
Um rapaz de dezessete anos, viciado em drogas (já chegou a roubar e prostituir-se para comprá-las) e com pretensões rimbaudianas a poeta maldito, tem um ciúme doentio da mãe divorciada, principalmente de um caso que ele desconfia que ela mantém com um homem muito mais jovem. Uma noite, a vê chegar em casa parecendo ligeiramente alegre de bebida, e com ares de quem veio de um encontro amoroso, usando uma blusa decotada e saia justa. Enquanto ela se despe em seu quarto, ele ali entra, abruptamente, vestido apenas com uma bermuda, e observa o sutiã vermelho e a calcinha preta que ela usa.
– Isso é roupa de vagabunda.
– Não fala assim da sua mãe.
Ele puxa o corpo dela para si e o aperta:
– Quem sabe você faz comigo também?
E já que a seção entrou definitivamente na era do conto, aí vai o início do espantoso Um conto nefando?, um dos mais surpreendentes do excelente “O vôo da madrugada” (Companhia das Letras, 2003), de Sérgio Sant’Anna.
Publicado em 7/11/2007.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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15/08/2009 - 00:10
A leitora Vivian Pontes gostaria de saber qual é a relação entre a picareta e o picareta, ou, nas palavras dela, “entre a ferramenta e o sentido figurado da palavra, que serve como uma luva para os membros do nosso governo”. Boa pergunta.
Sabe-se que picareta – substantivo e adjetivo de dois gêneros que designa uma pessoa embusteira, aproveitadora, que recorre a expedientes acanalhados para se dar bem – é um brasileirismo velho de muitas décadas, mas parece ter se perdido o elo entre a acepção original da palavra e seu uso figurado. O palpite arriscado pelo etimologista Silveira Bueno é o seguinte: “Picareta – Instrumento de ferro e ponta, próprio para cavar a terra, revolver pedras, abrir buracos. Fig. pessoa descarada e audaciosa que em tudo mete a cara para cavar dinheiro, emprego”.
E quem quiser que conte outra, certo? Então eu conto: não parece mais razoável supor que picareta adquiriu seu sentido figurado por influência da palavra “pícaro”, que quer dizer, justamente, ardiloso, astuto, velhaco?
Publicado no “NoMínimo” em 18/8/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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13/08/2009 - 18:14
Não é bacana essa edição pulp de um livro de Sherlock Holmes – “O vale do medo”, o último da série estrelada pelo detetive mais famoso da literatura – que será lançada em dezembro (em inglês, acesso gratuito) por uma editora popular americana? Para o comprador potencial não perceber que se trata de uma obra do “embolorado” Arthur Conan Doyle, que tem um certo ranço de clássico, o autor virou A.C. Doyle. A arte dispensa apresentações.
Fiquei pensando se um truque parecido não poderia ser usado por aqui para vender, sei lá, “Grande sertão: veredas”, de J.G. Rosa, em bancas de jornal. Na capa, a fumaça dos clavinotes deixaria entrever, ao fundo, uma silhueta feminina tomando banho de rio. Sob o título, algo bem kitsch como: “O diabo lhe deu poder. Ela só queria lhe dar amor”. Ou coisa parecida. Sugestões são bem-vindas.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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12/08/2009 - 15:18
Está certo, você veio parar aqui por acidente. Estava atrás de Roberto Bolaños, um artista mexicano plural mais conhecido como Chaves, e ficou furioso ao saber que o tema era um tal de Roberto Bolaño, escritor chileno singular. Acontece – o armazém da internet tem prateleiras infinitas e nem sempre a sinalização ajuda. Conheço um sujeito que andava à procura de artigos sobre Francis Bacon, o filósofo, e vivia caindo em páginas sobre a Perdigão. A diferença é que ele nunca culpou a banha de porco por seus infortúnios.
O assunto aqui é literatura, desculpe. Isso não quer dizer que o blogueiro e seus leitores não tenham outros prazeres na vida. Sei que parece difícil de acreditar, mas a grande maioria de nós trepa, vê séries de TV americanas, ouve música, vai ao cinema e até – sim, eu juro – tem paixão por algum time de futebol. Acontece que, como o fornecimento dessas mercadorias já é farto em outras bibocas da rede, há quem prefira investir neste nicho exótico. Não existem comunidades inteiras dedicadas à podolatria? À volta de D. Sebastião? À arte de cultivar maná-cubiu? Pois então. Esquisitices.
Não fazemos por mal. Ninguém o julgará uma besta apenas por não gostar do ambiente e ir embora. Mas se resolver ficar, dar uma volta, quem sabe aprender uma ou duas coisas inesperadas – de utilidade duvidosa, reconheço, mas nunca se sabe – este decálogo de armadilhas mais comuns pode ser útil:
1. Machado aqui é um escritor antes de ser um instrumento de cortar madeira.
2. Joyce é irlandês e maluco antes de ser carioca e cantora.
3. Calvino é mais italiano e fabuloso do que francês e protestante.
4. Borges é argentino e cego, jamais espanhol e azeite.
5. Alencar, embora José, não ocupa a vice-presidência da República.
6. Rosa pode até nomear uma flor de boniteza, mas é mais provável que designe um buquê de precisão.
7. Romance não é – não necessariamente – uma história água-com-açúcar. Água com cicuta também vale. Na verdade, vale mais.
8. Conto só é de réis quando o editor, coisa rara, paga por ele.
9. Ensaio não é o que os atores fazem antes de estrear a peça.
10. Novela não é o que a Glória Perez comete para viver.
Confuso? Você se acostuma. Ou não. De qualquer modo, o armazém é bem grande. Já deu uma passada na prateleira de maná-cubiu?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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