Arquivo de julho, 2009
31/07/2009 - 13:03
Revi dia desses, graças ao Torrent, depois de um quarto de século, um dos episódios que mais tinham me marcado na velha e brilhante série americana de TV Twilight Zone (“Além da Imaginação”) – uma paixão que compartilho com Molina, protagonista de meu último livro. O filmete de meia hora se intitula Time enough at last e conta a história de um caixa de banco chamado Henry Bemis, uma caricatura de rato de livraria com seus óculos fundo-de-garrafa e seu jeito de perfeito bundão. Bemis não quer nada desta vida além de ler, ler, ler, mas habita um mundo de antiintelectualismo exponencial, filisteu até a raiz e violentamente hostil ao seu prazer – basta dizer que sua mulher, que o trata como o maior dos fracassados, o proíbe de ler em casa.
Para encurtar a história, o episódio acaba com Bemis sobrevivendo sozinho ao holocausto nuclear e se vendo, enfim, com tempo e calma para devorar todas as letrinhas do mundo. Pena que, antes de abrir o primeiro volume, seus megaóculos se espatifem no chão, deixando-o para sempre cegueta entre as infinitas pilhas de livros.
Bom, o reencontro com a história deu naquilo que costuma ocorrer nesses casos: enxerguei defeitos aos montes no filminho, que não me proporcionou mais que uma vaga sombra do prazer que tive no início dos anos 80 (quando ele já era velho de mais de vinte anos), ao descobri-lo na sessão coruja da TV Record. Mas isso não vem ao caso. O que quero comentar é uma revelação nova, uma associação poderosa que Bemis me despertou desta vez, embora, curiosamente, não me lembre de ter pensado nisso na época em que travei conhecimento com ele.
A revelação é que eu conheço aquele mundo de antiintelectualismo exponencial, filisteu até a raiz e violentamente hostil ao prazer de ler! Lembro-me de ter vivido nele durante algum tempo em minha adolescência. Como Bemis, houve momentos em que li às escondidas, envergonhado, malocando volumes pelos cantos. Havia uma atmosfera difusa onde a leitura figurava no mínimo como perda de tempo e no máximo como um vício deformador do caráter – a não ser, talvez, para moçoilas suspirosas.
Do lugar onde estou hoje, entre estantes abarrotadas e fazendo dos livros um ganha-pão, isso parece irreal. Tão irreal que precisei da ajuda de Henry Bemis para desenterrar essa memória. Mas sei que aquela atmosfera existiu, certamente ainda existe em nosso país. Depois disso, confesso que fiquei um pouco mais pessimista quanto aos papos de despertar nos jovens o gosto pela leitura e coisa e tal.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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29/07/2009 - 13:52
Para quem ainda não sabe: semana passada foi divulgada a lista dos concorrentes à terceira edição da Copa de Literatura Brasileira, um divertido – e ambicioso na medida inversa de sua pompa – prêmio literário em formato de torneio esportivo mata-mata que sempre mereceu a torcida deste blog.
Este ano vai ser diferente: pela primeira vez não tenho envolvimento algum na Copa. Depois de estar entre os concorrentes do primeiro ano (meu romance “As sementes de Flowerville” chegou à semifinal) e entre os jurados na temporada seguinte (minha resenha levou “O dia Mastroianni” à final contra “O filho eterno”, que acabou campeão), agora estou na posição de simples torcedor.
Uma boa posição. De fora é mais fácil parabenizar o organizador da CLB, Lucas Murtinho, por ter desistido de levar em conta o “voto popular”, que ano passado transformou alguns escritores em candidatos a vereador e chegou perto de estragar a brincadeira. É também mais tranqüilo elogiar a lista de concorrentes, um interessante recorte no universo de romances brasileiros publicados em 2008:
“Acenos e afagos”, de João Gilberto Noll.
“Areia nos dentes”, de Antonio Xerxenesky.
“A arte de provocar efeito sem causa”, de Lourenço Mutarelli.
“O conto do amor”, de Contardo Calligaris.
“Cordilheira”, de Daniel Galera.
“Dias de Faulkner”, de Antônio Dutra.
“O fazedor de velhos”, de Rodrigo Lacerda.
“Flores azuis”, de Carola Saavedra.
“Galiléia”, de Ronaldo Correia Brito.
“Jonas, o copromanta”, de Patrícia Melo.
“O livro dos nomes”, de Maria Esther Maciel.
“Manual da paixão solitária”, de Moacyr Scliar.
“Órfãos do Eldorado”, de Milton Hatoum.
“O ponto da partida”, de Fernando Molica.
“O vencedor está só”, de Paulo Coelho.
“O verão do Chibo”, de Vanessa Barbara e Emilio Fraia.
Li apenas cinco dos 16: “Cordilheira”, “Dias de Faulkner”, “Órfãos do Eldorado”, “O ponto da partida” e “O verão do Chibo”. A proporção de 30% pode até ser considerável comparada à da média dos leitores, mas é pequena demais para que eu arrisque sem leviandade um favorito pessoal. Seja como for, o saldo que me ficou dos altos e baixos dessa amostra foi suficientemente positivo para garantir meu interesse pela Copa 2009 – sem mencionar as boas menções que li e ouvi a outros títulos.
E ainda nem falei do que promete ser a atração principal, pelo menos na primeira fase: Paulo Coelho, que está acostumado a ser uma ausência mais que conspícua nos prêmios ditos sérios. Descartar liminarmente o homem, hábito da intelectualidade brasileira, é fácil – mas é também tedioso. Quero ver como o pessoal se sai tendo que lê-lo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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27/07/2009 - 14:13
Talvez o Kindle nem precisasse caprichar tanto na arte de atirar no próprio pé, afinal: o leitor eletrônico da Apple – sonho ou pesadelo de muita gente, dependendo de sua posição nesse mercado ainda bebê – está finalmente com lançamento marcado para o primeiro trimestre do ano que vem, segundo o site AppleInsider. Seria um tablete multifuncional com cara de iPod Touch gigante, na proporção da ilustração (não oficial) ao lado. Se a notícia for tão quente quanto sugere sua fonte e vier por aí mais um produto do nível do iPod ou do iPhone, muda tudo no mundo dos livros virtuais. Fica uma dúvida fundamental: caso a tela seja mesmo tão luminosa quanto sugere a ilustração – e não de e-ink, como a do Kindle, que parece papel e é mais propícia a leituras longas – a chance da Amazon crescerá muito.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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26/07/2009 - 15:17
Publicado em 28/8/2007:
Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989.
“O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2006), um dos bons livros brasileiros do [então] ano passado, tem uma frase inicial ainda melhor. Digna de antologia ou manual para escritores, ela consegue condensar em pouquíssimas palavras, com a falsa simplicidade que a ocasião exige, uma apresentação clássica de tom, tema e marcos temporais (de passado e presente) entre os quais se estenderá a corda da narrativa. Não falta ainda uma sutil estranheza – como assim, o futebol está morto? – que fica zumbindo ao fundo enquanto nos damos conta de que o defunto pode ser outro.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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25/07/2009 - 00:12
O post de hoje é a junção de duas colunas publicadas no NoMínimo em 9 e 11/11/2005.
A leitora Natalia Vale Asari pega uma carona no tema do sucesso que fazem as teorias “etimológicas” pitorescas para tratar de outra palavra, esta bem brasileira: forró.
“A sua discussão sobre ‘etimologia romântica’ lembrou-me do acesso de fúria que o meu avô teve ao saber da produção de um filme chamado ‘For All’”, diz a leitora. “Ele adquiriu uma certa antipatia pelos estadunidenses que trabalharam na base militar em Natal e não admitia que essa crença de que ‘forró’ vinha de ‘for all’ estivesse se espalhando. Preferia acreditar na versão (mais plausível) de Câmara Cascudo, de que ‘forró’ vem de ‘forrobodó’. Enfim, qual das duas versões tem mais embasamento histórico?”
A resposta está na própria mensagem de Natália. Para a maioria dos etimologistas, forró é simplesmente a forma reduzida de “forrobodó”, que significa “baile popular, arrasta-pé” e também “confusão, balbúrdia”. A intromissão de for all nessa história parece ser mais um caso de excesso de imaginação. E mais um, também, em que a versão engraçadinha suplanta em popularidade, com muitos corpos de vantagem, aquela que procura manter os pés no chão.
*
Alguns leitores se queixaram, com razão, de que faltou explicar a origem da palavra “forrobodó”, da qual “forró” é a forma reduzida, segundo a maioria dos lingüistas.
Também aqui as teorias descabeladas dão as caras. Um leitor levanta a possibilidade de que “forrobodó” venha de for all body, mas cabe à leitora Ana Flores a contribuição mais saborosa de todas. “Para botar mais lenha na fogueira”, escreve ela, “a versão que eu sempre ouvi sobre a origem de ‘forró’ é que vem, realmente, de forrobodó, mas que esta palavra viria de for all but dogs, uma alusão à restrição de entrada dos animais nas festas.”
For all but dogs! Traduzindo: para todo mundo, menos cachorros. Eu, ignorante, não conhecia essa versão e ri muito com ela, que sem dúvida merece algum tipo de prêmio pela criatividade. Mas, mais uma vez, sou obrigado a dizer que não – não parece ser o caso.
A origem de “forrobodó” é controversa. Antenor Nascentes, Antonio Geraldo da Cunha e até o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa acreditam que esse brasileirismo surgiu por “formação expressiva”, aquele processo em que os sons pulam na frente e trazem os sentidos a reboque. Silveira Bueno concorda, e registra que a palavra “bode”, provavelmente, tem alguma coisa a ver com isso.
Cabe ao Houaiss – um dicionário que, como quem não quer nada, dá um discreto show de etimologia – apontar outros caminhos e registrar que o gramático Evanildo Bechara viu na palavra uma variação do galego forbodó, por sua vez associado a fabordão, do francês faux-bourdon, que tem o sentido de “sensaboria, desentoação”. Mas o que o forrobodó tem a ver com a desentoação, em termos de sentido? É que, prossegue o Houaiss, “na região pesquisada, segundo registra Bouza-Brey, a gente ‘danza com absoluta seriedad a golpe de bombo, los puntos monorrítmicos monótonos de ese baile que se llama forbodo’”.
Soa plausível, não? Além do mais, alguém já ouviu falar de um único cachorro que tenha sido barrado no forró?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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23/07/2009 - 13:13
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Sugestões, pessoal?
Hm.
Hmm.
Bom, de saída eu vejo um problema: o que é legado?
Herança. Legado é sinônimo de herança.
Então por que não ser inclusivo e escrever logo herança, cazzo? Legado é tão elitista.
Acho que funciona: “… a herança da nossa miséria”.
Apoiado, mas essa miséria também é de um negativismo que vou te contar… E logo na última frase do livro!
Hmmm.
Hmmmm.
Uma péssima última impressão, eu acho.
Entendi seu ponto. Talvez “a herança de nossas modestas aquisições” fique maneiro. Porque combina com o personagem, que é um cara assim meio fracassado, mas não puxa tanto pra baixo.
E no fundo diz a mesma coisa.
Beleza.
O que mais?
Olha, eu ainda não tinha falado nada, mas pra mim esse negócio de não ter filhos e anunciar isso cheio de orgulho é que é mó deprê. Muito leitor ou leitora que seja pai ou mãe vai se sentir agredido ou agredida.
É.
Que tal isso? “Não tive, infelizmente, a oportunidade de ter filhos…”
Epa, mas aí seria uma agressão aos leitores e leitoras que optaram por não ter filhos!
Tá, a gente tira o “infelizmente”.
Hmmmmm.
Hmmmmmm.
Como tá ficando esse troço?
“Não tive a oportunidade de ter filhos, não transmiti a nenhuma criatura a herança de nossas modestas aquisições.”
“Mas estou pensando em adotar um.”
O quê?
Uma sugestão. Assim o livro termina pra cima, aponta pro futuro. E ainda rola uma consciência social.
“Mas estou pensando em adotar um.” Cara, você é bom! Todo mundo concorda?
Acho legal, mas olha, sem querer ser estraga-prazeres: o sujeito não tá morto?
O autor? Claro, achei que essa parte já estivesse clara pra todos nós. O autor morreu, por isso estamos aqui.
Não, quero dizer o narrador. O narrador morreu, como vai adotar uma criança?
Caramba, é mesmo. Que saco.
Hmmmmmmm.
Hmmmmmmmm.
Hmmmmmmmmm.
Quer saber? Esse fecho não tá rolando. Tem coisas que não dá pra consertar. E se a gente simplesmente cortar isso, der um sumiço no filho, na herança e na porra toda?
Issa!
Gênio!
Já é!
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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22/07/2009 - 12:06
Como autor, fico preocupado com o envolvimento da [editora] Scribner nessa “edição restaurada”. Com tal remodelação como precedente, o que fará a Scribner se, por exemplo, um descendente de F. Scott Fitzgerald exigir que seja removido de “Paris é uma festa” o capítulo sobre o tamanho do pênis de Fitzgerald, ou se o neto de Ford Madox Ford quiser suprimir as referências ao odor corporal de seu ancestral?
O lançamento de uma nova versão de “Paris é uma festa”, livro de memórias de Ernest Hemingway, com muitos cortes e acréscimos feitos por um neto do autor em nome de uma suposta fidelidade maior às suas “intenções”, é demolido com método e fúria neste artigo (em inglês, mediante cadastro) publicado no “New York Times” por A.E. Hotchner. O articulista exibe a autoridade de quem recebeu o manuscrito pronto das mãos do próprio Hemingway no início dos anos 1960, pouco antes de sua morte. A motivação por trás da nova versão feita pelo neto, acusa Hotchner, é escusa e mesquinha – poupar a imagem da avó de comentários desairosos.
Mas esse episódio de aparente stalinismo editorial rende um debate mais profundo do que parece à primeira vista. Não exige muita imaginação enxergar aí, sob o caô de uma respeitosa “restauração”, uma espécie de tratamento Wiki da literatura, um discurso sobre o discurso, uma vez que, como apregoa certa crendice da moda, “o autor está morto”. No caso de Hemingway, está mesmo, literalmente e por um ato de vontade. Mas tratar como morta a própria idéia de autoria, em seu caso, envolve complicações adicionais.
Poucos sujeitos terão sido mais chatos e exigentes quanto ao peso e ao lugar de cada palavra, de cada vírgula. A escola de escrita que esse estilo popularizou, e que foi mais influente do que a maioria consegue hoje sequer imaginar, anda com as salas de aula vazias e teias de aranha pelos cantos. Isso não muda o fato de que, em sua ética, a troca de um único artigo à revelia do autor é simplesmente criminosa.
Wiki-Hemingway? Pode ser. Mas, se é verdade que o autor morreu, por que não tiram seu nome da capa?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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21/07/2009 - 11:22
A notícia anda circulando por aí, sobretudo em sites de tecnologia, entre risinhos e estupefação, e deve circular ainda mais. A princípio pensei que fosse piada. Não é.
Quem baixou – e pagou, e começou a ler – uma versão eletrônica de “1984”, de George Orwell, para o Kindle, levou um susto no fim da semana passada. Aparentemente, houve um mal-entendido entre o editor e a Amazon sobre o licenciamento da obra. O que levou a maior livraria virtual do mundo a, sem aviso prévio, entrar sorrateiramente no Kindle de seus consumidores, deletar o livro e depositar um crédito em sua conta. O mesmo ocorreu com “A revolução dos bichos”, também de Orwell.
Bonito, não? Se a idéia era atrasar em um punhado de anos a confiabilidade do livro eletrônico, um golpe de gênio. Embora talvez meio forçado nesse paralelismo óbvio com o Big Brother. Não seria preferível ser mais sutil?
Pensando melhor, claro que a história só podia ser verdadeira: como disse Mark Twain, por que a realidade não seria mais inverossímil que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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19/07/2009 - 14:02
– Você não vem?
– Vou já, mamãe.
Mas não foi: nem iria nunca. “Coitada de mamãe”, pensou, numa tristeza maior. D. Margarida não sabia, não desconfiava de nada. Se soubesse, se pudesse imaginar! Disse baixinho: “Daqui a pouco estarei morta”. E repetiu, como se custasse a acreditar: “Estarei morta”.
Assim, com a morte rondando o seio da família, começam as peripécias rocambolescas de “Núpcias de fogo” (Companhia das Letras), o quarto folhetim escrito por Nelson Rodrigues com o pseudônimo de Suzana Flag. “O Jornal” publicou-o em capítulos em 1948. A primeira edição em livro só saiu em 1997.
Publicado em 18/11/2006.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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18/07/2009 - 10:26
Recebo o seguinte texto “inspirador”, que circula como corrente na internet:
A palavra SINCERO foi inventada pelos romanos. Eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes.
Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto – um colar, uma pulseira ou um dado –, que estivesse colocado no interior do vaso.
Para o vaso assim, fino e límpido, dizia o romano vaidoso:
– Como é lindo!!! Parece até que não tem cera!!!
“Sine cera” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana. O vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado. Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações.
O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras os verdadeiros sentimentos de seu coração.
Estilo açucarado à parte, essa história de vaso fino tem lá sua beleza, não tem? Infelizmente, tudo indica ser uma daquelas lendas muito comuns na etimologia, baseadas em semelhanças fortuitas de som e sentido. Muitas vezes (embora não seja o caso aqui), os mal-entendidos se incorporam à história da palavra e mudam seu curso – dá-se ao fênomeno o nome de etimologia popular. “Floresta”, por exemplo, veio do francês antigo forest (hoje forêt) e só não virou “foresta” porque o pessoal achava que a palavra tinha alguma coisa a ver com “flor”. Não tinha. Agora tem.
A verdadeira origem de “sincero”? Provavelmente, a junção dos elementos latinos sim (um só) + cerus (que cresce, se desenvolve): aquilo que tem desenvolvimento único, sem bifurcações, sem surpresas; reto, íntegro.
Tem muito menos graça, pois é.
Texto publicado no NoMínimo em 21/1/2005.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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17/07/2009 - 16:45
…um autor contemporâneo que não tenha sido premiado ou, para dizer o mínimo, indicado a alguma honraria da praça.
Detalhes aqui.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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16/07/2009 - 14:29
Na Flip, o mexicano Mario Bellatin contou como, estudante de comunicação em Lima, lançou sua primeira obra: vendendo vale-livros (ricamente impressos) para amigos e conhecidos em nome de uma editora fictícia, a fim de financiar uma edição do autor. A parte surpreendente da história é o sucesso que a estratégia fez, botando Bellatin no mapa definitivamente.
Achei curioso voltar de Parati e descobrir que o blogueiro Alex Castro – que não conhecia a história de Bellatin até eu mencioná-la – está tramando em esquema semelhante de pré-venda o lançamento de seu primeiro romance de papel, “Mulher de um homem só”, que já andou disponível em pdf no site do autor. A editora, a independente Os Viralata, não é exatamente uma ficção, mas o resto bate.
Num tributo ao fetiche da celulose, que não dá o menor sinal de agonia em meio a toda a fanfarra virtual, os primeiros compradores terão seus nomes listados na edição.
Fica a dica para quem quiser se lançar no mercado neste momento em que o apetite das grandes editoras por novos nomes, após a voracidade do início do século, vai se aproximando da anorexia.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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14/07/2009 - 11:48
Chico Buarque ganhou uma nova e ilustre companhia naquela estrada entre a literatura e a música. Philip Roth acaba de estrear como vocalista – ou ululador – nesta vinheta dance que está virando um sucesso cult na internet, produzida pelo crítico James Marcus a partir de um trecho de entrevista em que o escritor ridicularizou, ganindo, a adaptação cinematográfica de “O complexo de Portnoy”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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12/07/2009 - 10:28
O vidro martelado da porta tem um letreiro em tinta preta trincada: “Philip Marlowe…. Investigações”. É uma porta razoavelmente decadente no fim de um corredor razoavelmente decadente, num edificio do tipo que era novo ali pelo ano em que o banheiro com azulejo até o teto se tornou a base da civilização. A porta fica trancada, mas ao lado dela há uma outra, com letreiro igual, que não fica. Pode entrar – não há ninguém aqui além de mim e de uma enorme mosca varejeira. Mas não se você for de Manhattan, Kansas.
O início de “A irmãzinha” (The little sister, The Library of America, tradução caseira), de Raymond Chandler, o grande estilista da literatura policial americana hard boiled, já devia ser inesquecível quando foi publicado pela primeira vez, em 1949. Ainda mais inesquecível se tornou, porém, depois que milhares de escritores mundo afora fizeram questão de lembrá-lo, lembrá-lo e lembrá-lo de novo, numa avalanche de imitações, sátiras, pastiches, glosas e homenagens que encheriam bibliotecas. Um processo de lugar-comunização tão avassalador que, a esta altura, estará desculpado quem preferir esquecer o inesquecível. É estranho pensar que nunca mais será possível ler esse parágrafo sem ouvir os ecos de suas palavras ricocheteando entre as estantes infinitas.
Publicado em 2/5/2008.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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