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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

16/06/2009 - 11:31

Carta ao bisneto

Meu querido Zeca,

Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar.

Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos.

Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil das letras, impõe-se-me o dever – e a suprema satisfação – de dar-te uns quantos piparotes à guisa de conselhos. Então, prepara o cocoruto, que lá vão!

Não te acanches, não te deixes intimidar pelos caiporas. Põe de fora tua cabecinha sem temer a guilhotina, que à indiferenciação da malta mesmo o gélido fio da plaina é de preferir.

Cultiva teu pomar, mas evitando sempre o preciosismo, a pirotecnia de um Faetonte. O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta que, colhida, à palma da mão expõe o avesso pútrido. Lembra-te sempre: mais vale a expressão genuína, tosca eventualmente embora, do que lhe galopa n’alma, que o fraseado bem polidinho dos imbecis, ricamente ataviado mas oco.

Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!

Cedo descobrirás que não, a vida artística não tem a placidez de um lago suíço. Dá-se mesmo o inverso: um mar bravio é seu símile perfeito, vindo sempre aos borbotões, escouceando-se e rasgando no ar mil cristas ríspidas de espuma onde tua amada carne, ai de mim, há de lanhar-se inapelavelmente. Sofre, pois de não sofrer mais se morre, mas consola-te com o bálsamo da musa.

Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios.

Eis meu modesto legado, querido Zeca. Lá de onde eu estiver, estarei acompanhando cada um de teus passos, velando por ti, feliz de saber que a atemporalidade abençoada das letras concedeu-me, no fim da vida, lançar esta ponte sobre o abismo das épocas e me entender contigo, feito fôssemos dois estudantes noite adentro, ébrios de futuro, no idioma universal dos poetas.

Bastaria isso para justificar minha existência.

Do bisavô que te abençoa,

Demóstenes Bastião

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:

28 comentários para “Carta ao bisneto”

  1. Eric Novello disse:

    Bem sacado o jogo cultural, Sérgio.
    Gostei bastante. Abss!

  2. Ernani Ssó disse:

    Esforços luso-parlatórios. Gozei.

  3. Tomás disse:

    Gostei dos nomes que ficarão gravados “pela eternidade afora”, haha.

  4. isaac disse:

    humberto campos é o horrível do horrível!!

  5. Daniel Brazil disse:

    Faina inconsútil das letras?!? Eis o único ponto mal costurado deste belo e saudosista testamento. Muito bom!

  6. Eric, Ernani, Tomás: valeu.

    Daniel: o que exatamente o incomodou em faina inconsútil (trabalho ininterrupto)?

    Abraços a todos.

  7. will disse:

    Bloomsday !!!

    Abraço

  8. Daniel Brazil disse:

    A idéia de perfeição, de coisa sem emendas, sem rasuras, sem costuras, que parece incompatível com a literatura. E a lembrança de Jorge de Lima, claro.

  9. Pois é, Daniel, o inconsútil é figurado, qualifica a faina (sem trégua, sem interrupção) e não a literatura. Mas será que, se indicasse perfeição, seria o maior dos equívocos do velho Bastião?

  10. Daniel Fernandes disse:

    “Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!”
    Sérgio esta frase está um primor, como diria o velho Bastião, supimpa mesmo. Adorei!

  11. João Athayde disse:

    Grande Sérgio! O primeiro contato que tive com seus escritos foi através do conto A fruta por dentro, publicado na revista Piauí – li o texto de um só fôlego. Aí descobri seu blog, visita obrigatória todos os dias, assim que abro o computador. Por artes do sortilégio ganhei seu romance Elza, a garota – devorei-o numa sentada. Já estou providenciando as outras obras que você colocou na praça com a certeza de que sentirei o mesmo imenso prazer com a leitura. E lhe digo uma coisa, os contos que você disponibiliza no blog – entre outros inéditos, certamente – vão causar furor assim que forem enfeixados entre duas capas. Um abraço.

  12. Daniel Brazil disse:

    Fez sentido, Sérgio. Vejo que você não dá ponto sem nó, mesmo em questões inconsúteis. Abraço!

  13. Rodrigo O. disse:

    Só faltou dizer que Zequinha, ao término da carta, jogou-a numa gaveta sem nada compreender, apenas confirmando algo que já suspeitava há muito: a insanidade do avô.
    Daí foi teclar com colegas no MSN, relegando a carta ao esquecimento até que o tempo – ou o Aurério – possam-lhe explicá-la.

    Isso dava um romance.
    Excelente, como sempre, Sérgio.

  14. Sal disse:

    Coisa linda de se ver…

    Caro Sérgio, sou leitor assíduo deste seu espaço, mas muito tímido e dotado de pouquíssimas luzes para enriquecê-lo com algum comentário.

    Só queria lhe dar os parabéns por esta pérola.

    um abraço,

  15. Mr. WRITER disse:

    Sobrescritos para livro… já…

  16. Sonia disse:

    Nabokov se gabava de conseguir mimetizar a prosa de qualquer escritor.

    Acho que tens futuro. Que tal sobrescritos mimetizando Henry James, Joyce, Euclides da Cunha, os cronópios de Cortázar…

    Amo muito os sobrescritos!

  17. Rui disse:

    Sergio: o que exatamente o incomodou em faina inconsútil (trabalho ininterrupto)?

    Brazil: a preguiça de consultar um dicionário.

  18. Flora de A Favorita disse:

    Mais sobrescritos.
    Eu quero MAIS sobrescritos.

  19. Sérgio, desculpe a confessa ignorância de Google, mas… Camilo, o inigualável? É quem, mesmo?
    Fora isso, gostei. Deu frase do dia: “A vida artística não tem a placidez de um lago suíço”, grande verdade disfarçada de aforismo. Ontem mesmo eu tentava explicar isso ao meu irmão engenheiro.
    .

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