Carta ao bisneto
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:Meu querido Zeca,
Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar.
Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos.
Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil das letras, impõe-se-me o dever – e a suprema satisfação – de dar-te uns quantos piparotes à guisa de conselhos. Então, prepara o cocoruto, que lá vão!
Não te acanches, não te deixes intimidar pelos caiporas. Põe de fora tua cabecinha sem temer a guilhotina, que à indiferenciação da malta mesmo o gélido fio da plaina é de preferir.
Cultiva teu pomar, mas evitando sempre o preciosismo, a pirotecnia de um Faetonte. O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta que, colhida, à palma da mão expõe o avesso pútrido. Lembra-te sempre: mais vale a expressão genuína, tosca eventualmente embora, do que lhe galopa n’alma, que o fraseado bem polidinho dos imbecis, ricamente ataviado mas oco.
Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!
Cedo descobrirás que não, a vida artística não tem a placidez de um lago suíço. Dá-se mesmo o inverso: um mar bravio é seu símile perfeito, vindo sempre aos borbotões, escouceando-se e rasgando no ar mil cristas ríspidas de espuma onde tua amada carne, ai de mim, há de lanhar-se inapelavelmente. Sofre, pois de não sofrer mais se morre, mas consola-te com o bálsamo da musa.
Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios.
Eis meu modesto legado, querido Zeca. Lá de onde eu estiver, estarei acompanhando cada um de teus passos, velando por ti, feliz de saber que a atemporalidade abençoada das letras concedeu-me, no fim da vida, lançar esta ponte sobre o abismo das épocas e me entender contigo, feito fôssemos dois estudantes noite adentro, ébrios de futuro, no idioma universal dos poetas.
Bastaria isso para justificar minha existência.
Do bisavô que te abençoa,
Demóstenes Bastião

Pobre Camilo…
Olá,
Como outros que, afetados por esse texto, se resolveram a comentar, sou leitora assídua, e etc.
Para mim, é principalmente do amor que fala esse sobrescrito. Muito bom!!! o afeto se comunica e prevalece ao estranhamento com a linguagem.
Ao lado do amor, o humor: “O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta ..” é muito engraçado!! Seria uma ironia do autor ou um exemplo de relativismo?
Adorei!
Um abraço!
Dos melhores, Sérgio. E aumento o coro: já é hora de esses sobrescritos serem escritos sobre papel.
Noga, meu irmão engenheiro sabe quem é o Camilo referido.
O curioso é que em resposta à minha cândida confissão de não saber quem é Camilo, uma lacuna, claro, inaceitável n’alguém que se pretende escritora — “a nível” de desculpa eu poderia deplorar o ensino básico das letras lusas no Brasil, já que, vamos combinar, não sou exatamente uma “iletrada ignorante” e até me arvoro em público de especialista em Joyce, imaginem — ninguém, nem uma só alma piedosa foi generosa a ponto de dizer simplesmente, Camilo é tal e tal. Por que será, hein? Não seria bem mais simples?
Ah, tá bom. Pior a emenda que o mal soneto, deixa quieto que é melhor.
Que o mau soneto.
Noga, desculpe não ter levado a sério sua dúvida, achei que era só ironia. Bastião está falando de Camilo Castello Branco, escritor português que por muito tempo foi considerado um modelo de estilo e que hoje ninguém mais lê. Convém ler o “inigualável” com o distanciamento recomendado pela “imortalidade” dos outros nomes que ele cita.
Aos leitores do Todoprosa em geral e especialmente aos que gostaram deste Sobrescrito, tenho o prazer de anunciar que a seção já está em processo de migração para o papel, com lançamento agendado para o segundo semestre. Darei mais notícias em breve.
Abraços a todos.
[...] Que se enforquem os especialistas, por Noga Lubicz Sklar Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios. Sérgio Rodrigues, em “Sobrescritos” [...]
Tá certo, Ernani, obrigada pela correção: mau soneto; e Sérgio, obrigada também, é nisso que dá a constante ironia, não? Ou seria o contrário? rsrs.
Pelo menos rendeu assunto, isto é, post.
Quanto ao coment aí de cima não faço ideia de quem enviou, não fui eu, viu?
Assunto encerrado. E parabéns pelos “Sobrescritos” em papel, boa notícia.