Arquivo de junho, 2009
30/06/2009 - 17:04
Amanhã de manhã estou indo para a Flip, minha quinta em sete anos. Esta é diferente para mim. Em 2004 trabalhei como mediador em duas mesas – a de Jeffrey Eugenides com Jonathan Coe e a de Luiz Vilela com Sérgio Sant’Anna – mas é a primeira vez que, como autor convidado, viro uma vidraça propriamente dita.
Vou abrir mão da piadinha previsível sobre telhado de vidro e escassez capilar, mas não posso fugir da constatação de que isso mudará um pouco o jeitão da cobertura que os leitores do Todoprosa – como todo ano – encontrarão aqui. Para começo de conversa, a agenda de um convidado tem lá suas incompatibilidades com a de um blogueiro integralmente dedicado a produzir posts em série.
O que importa é dar aqui a notícia de que o blog vai continuar aberto e funcionando, com pelo menos um post por dia, diretamente das ruas de Parati. Talvez se pareça mais com o diário de um autor na Flip do que com uma cobertura convencional, o que pode ser uma variação interessante no cardápio todoprosaico. Seja como for – e quem quiser suspirar de alívio, pode – não me vejo gastando muitas linhas para resenhar o café da manhã da Pousada da Marquesa.
No mais, qualquer que seja a agenda, acho muito difícil que eu perca a chance de ver e ouvir Richard Dawkins, Atiq Rahimi com Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza com Mario Bellatin, Chico Buarque com Milton Hatoum, Sophie Calle, Gay Talese, Lobo Antunes e Simon Schama. As outras mesas talvez sejam negociáveis, talvez não. Quem ler verá.
Em tempo: estarei na mesa “Verdades inventadas”, ao lado de Arnaldo Bloch (”Os irmãos Karamabloch”) e Tatiana Salem Levy (”A chave de casa”), com mediação de Beatriz Resende, às 15h de quinta-feira, para falar da mistura de pesquisa e ficção em meu romance “Elza, a garota”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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28/06/2009 - 18:25
Foi no verão de 1994, já faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor. Minto. Dessas três ocorrências, as duas primeiras eram exatas, exatíssimas; a terceira não era tanto assim. Na verdade, minha carreira de escritor nunca decolou; portanto, dificilmente poderia tê-la abandonado.
Grande parte do apelo do romance “Soldados de Salamina”, sucesso internacional do espanhol Javier Cercas (Francis, 2002, tradução de Wagner Carelli), está no seu jeito – despretensioso só na aparência – de alternar constantemente o foco entre a História (mundial) e uma história (pessoal). O efeito ganha profundidade ao longo de 240 páginas, com outro par de opostos – realidade e ficção – para complicar. As primeiras linhas do livro expõem todo o projeto como miniatura.
Publicado em 10/12/2007.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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27/06/2009 - 10:01
Com o fim da “Revista da Semana”, da editora Abril, a coluna que eu escrevia lá e republicava aos sábados no Todoprosa está momentaneamente suspensa. Mas a etimologia não vai sair do ar aqui. Começo hoje uma série retrospectiva sobre “lendas etimológicas”, aquelas historinhas engraçadas ou curiosas – embora provavelmente falsas – que muita gente ajuda a espalhar, inclusive autores de livrinhos populares sobre a origem das palavras. Garimpado no arquivo que “A palavra é…” acumulou em sua primeira encarnação, entre 2004 e 2007, quando era uma coluna diária no site NoMínimo, o texto abaixo foi publicado em 29/8/2005:
A origem da palavra “larápio” é um dos maiores motivos de quebra-pau entre os estudiosos da etimologia. Vale a pena perder algum tempo com o assunto: ainda que a palavra – que, como se sabe, quer dizer ladrão, gatuno – não tivesse triste atualidade, a controvérsia que provocou e ainda provoca seria o bastante para lhe garantir um interesse didático. Especialmente num momento em que certa “etimologia de almanaque”, que privilegia sempre as teses engraçadinhas sem consideração por sua consistência histórica, faz tanto sucesso editorial.
O respeitado etimologista brasileiro Antenor Nascentes foi buscar num livro popular chamado “Frases e curiosidades latinas”, de Arthur Rezende, a seguinte explicação para “larápio”: “Houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L.A.R. Appius. Daí chamar-lhe o povo larappius, nome que ficou sinônimo de gatuno”. Hmmm, será? O próprio Nascentes não parece pôr a mão no fogo: encerra o verbete com o famoso dito italiano: “Se non è vero…”. Mas o fato de ter dado abrigo à tese em seu prestigioso “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa” lhe valeu cascudos de colegas como o português José Pedro Machado e o compatriota Silveira Bueno, que anotou: “A imaginação, em ciência, nem sempre ajuda”.
E o que propõem os críticos de Nascentes no lugar da tese do pretor corrupto? Nada, esse é o problema. “Origem obscura”, diz-se nessas horas. O que pode ser – e é – um jeito mais rigoroso e sério de abordar o problema, mas certamente ajuda a entender o sucesso que fazem historinhas imaginosas como a de “larápio”, passadas de geração em geração. Entre a fria indeterminação e a mentira que consola, a humanidade nunca teve um segundo de dúvida.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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26/06/2009 - 11:02
Tenho 140 caracteres para lhes provar que minha mulher me traiu sordidamente com meu melhor amigo, depois passo à “História dos Subúrbios”.
Dois calouros da Universidade de Chicago venderam para a Penguin a idéia de um livro chamado “Twitterature”, que vai recontar alguns dos maiores clássicos da literatura mundial “em vinte tweets ou menos”. Rapazes prolixos: por que não em um?
Virei chefe de homens, Deus esteja. Sou pactário? Mas Diadorim depois que morreu era mulher, mire e veja, viver é muito perigoso. Travessia.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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24/06/2009 - 12:16
Parabéns, gafanhoto. Você passou por todas as fases básicas do curso com louvor, sem dúvida um dos melhores aspirantes que já tive o prazer de treinar.
Obrigado, mestre.
Principalmente na questão da voz narrativa, no domínio do discurso indireto livre, nos exercícios de stream of consciousness, embora, como eu já disse outras vezes, ainda precise melhorar nos diálogos e na caracterização dos personagens.
Eu sei, mestre. Estou trabalhando nisso dia e noite.
Vai com calma, o aperfeiçoamento vem com o tempo. Na boa, não tenho mais nada a ensinar a você no Módulo Básico. O que significa dizer que está na hora de entrarmos no Módulo Avançado.
Jura, o misterioso Módulo Avançado? Já?
Podemos começar hoje.
Caramba, que sinistro! Desculpe se pareço nervoso, mestre. É que desde o início do curso o Módulo Avançado é uma tremenda caixa-preta, sempre me intrigou por que no currículo ele só aparece assim, M.A. Nem as matérias eu sei quais são.
Porque só quem já tem alguma estrada pode acessar essa informação, rapaz. Por acaso deixam um médico residente fazer cirurgia cerebral? O risco de usar mal as ferramentas do Módulo Avançado é enorme.
Entendo. E que ferramentas são essas?
Um pacote gigantesco de ferramentas, gafanhoto. O Módulo Avançado consiste de treze níveis de treinamento: Pose I, Pose II, Pose III…
Pose? Não sei se entendi bem.
Não sabe o que é Pose? Arrogância, atitude, marra, grossura, deboche, convencimento, nariz em pé, olhar perdido, sorrisinho de lado, ar blasê, jeito cool…
Mas…
Estamos falando do acabamento, do toque final na formação de qualquer escritor. O controle do modo como as pessoas vão enxergar você, e portanto do modo como vão ler seus textos. Não adianta rigorosamente nada escrever uma obra-prima se a Pose do autor não estiver à altura da qualidade literária.
Engraçado, eu achei…
Achou errado. Pose sem qualidade, sim, pode funcionar. Há casos de escritores, e eu poderia citar meia dúzia agora mesmo, que são tão bons em Pose, mas tão bons, que nunca precisaram escrever uma única linha decente para serem levados a sério. Agora, se você tiver qualidade e não tiver Pose, coitadinho!
Puxa. E será que eu levo jeito para posudo?
Bom, honestamente? Confesso que o seu caso me preocupa um pouco. Em todos esses meses de curso, você nunca arriscou nem uma barbicha. E essa camisa social aí, qual é? Foi sua mãe que te deu?
Minha avó.
Ah, gafanhoto… Temos um longo Módulo Avançado pela frente.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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23/06/2009 - 11:59
O site canadense Revenge Lit está organizando um concurso de minicontos (em torno de 250 palavras) com um tema que muita gente vai considerar irresistível: escritores que matam críticos literários. Confesso que não é um desejo que um dia eu tenha entretido – nunca fui além do impulso devidamente refreado de uns cachações – mas pode ser uma iniciativa saudável. Não disse o tio Nelson que “o personagem é vil para que não o sejamos”?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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21/06/2009 - 10:22
Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.
Há uma única e melancólica razão para que o início de “Moby Dick”, de Herman Melville, o começo mais “inesquecível”, citado e parodiado da literatura americana, tenha demorado quase dois anos para vir parar nesta seção: a insistência com que os tradutores brasileiros que conheço vertem a famosíssima frase de abertura do livro, Call me Ishmael, nesta fórmula criminosa: “Chamai-me Ismael”. Ressonâncias bíblicas, alegais em vossa defesa, ó escribas? E desde quando isso é motivo para decepar logo na primeira linha o barato de gerações e gerações de brasileiros diante de um livro de aventuras empolgante e, de certa forma, simples feito água? Será que o pernóstico imperativo na segunda pessoa do plural, que nos soa pomposo ou ridículo há séculos, tem alguma afinidade com o humor moderno de Melville em geral e especialmente neste parágrafo, em que o narrador confessa o desejo gratuito de sair à rua e “aplicar murros na cara dos passantes” – ou melhor ainda, no original, knocking people’s hats off?
Para mim, a resposta sempre foi não, de jeito nenhum. E foi assim que “Moby Dick” se manteve ao largo do blog, rodeando-o, arisco e furioso feito um cachalote ferido, até me ocorrer agora há pouco a idéia óbvia de traduzir o trecho eu mesmo. E já que estava pondo mãos à obra, achei melhor dar logo vazão a um ardor modernista que, sei muito bem, incorre no pecado do anacronismo: “Me chamem de Ismael”, com o pronome pessoal átono abrindo a frase – e, escândalo dos escândalos, o livro! É claro que o Brasil, proclítico por natureza, só começaria a se encarar no espelho ali por volta de 1922, mais de meio século, portanto, após o nascimento da baleia branca de Melville. Até então, engolíamos vossas ênclises disciplinadamente, escribas, para não mencionar vossos pronomes pessoais em desuso, como bons macaquinhos amestrados. Mas deixai estar, deixai estar, que o que se perde no anacronismo é restituído com juros na adequação do tom.
Quem for menos dado a traquinagens de estilo pode optar por um discreto “Chamem-me Ismael” – curiosamente (ou não?), uma solução que parece ser mais comum entre tradutores portugueses do que entre brasileiros.
Publicado em 16/01/2008
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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20/06/2009 - 10:19
Êxito, todos sabem, é sinônimo de sucesso, triunfo. Não foi sempre assim. É ilustrativo – não só da vivacidade mutante das palavras, mas também do quanto há de relativo nos sucessos e fracassos – pensar que o seu sentido hoje dominante nasceu como forma reduzida de “bom êxito”. A princípio, êxito queria dizer apenas resultado, conseqüência, termo, sem qualificação. Designava o lugar ou estado a que se chega ao fim de determinado processo. O êxito podia – e ainda pode, pois não se trata de modo algum de uma acepção arcaica – ser bom ou mau, péssimo ou excelente, dependendo da situação.
A própria palavra sucesso, que de início designava apenas um fato, uma ocorrência, passou por processo semelhante. Que está longe de ser incomum: a qualidade está aí para provar. Em sua primeira acepção o termo é neutro, mas diz-se informalmente, o tempo todo, que algo é “de qualidade” – e ninguém tem a menor dúvida sobre o caráter elogioso da expressão.
No latim exitus, o sentido original é ainda mais estrito: a palavra significa saída ou ação de sair. A medicina antiga usava o termo preferencialmente para funções fisiológicas, para tratar das “fluxões que fazem êxito para fora do corpo por alguma parte dele”, nas palavras do “Vocabulário Português e Latino”, dicionário do início do século 18.
No próprio latim, o sentido de êxito se ampliou para abarcar as acepções de resultado, conseqüência, conclusão, termo, fim e – mais distante ainda do êxito como normalmente o concebemos – morte. Curiosamente, cabe ao inglês, onde exitus foi dar em exit, que se manteve colado à matriz latina com o sentido de saída, nos trazer de volta um pouco do espírito original do vocábulo. Artigos e livros especializados têm traduzido literalmente a expressão médica lethal exit, eufemismo para morte, como “êxito letal”.
Publicado na “Revista da Semana”, da Editora Abril, que após 93 edições está sendo – para usar um eufemismo corporativo semelhante ao êxito letal – “descontinuada”. Esta coluna é dedicada ao Fabio, ao Wagner e a toda a redação, que fizeram um belo trabalho. E vamos em frente.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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19/06/2009 - 13:05
Que conselho o senhor daria a alguém que deseja dedicar-se à literatura no papel de escritor?
Meu conselho-padrão, que muita gente acha que é piada mas é sério, costuma ser o seguinte: desista se for capaz. O mundo da literatura parece charmoso e tal, mas a verdade é que o jogo é muito duro e nem sempre leal, as recompensas são fugidias e as chances de fracasso – não só comercial, mas estético mesmo – estão todas contra você. Agora, se depois de considerar tudo isso o sujeito ainda for incapaz de desistir do seu plano maluco, então é escritor mesmo, e nesse caso todos os conselhos se tornam fúteis. Cada um tem que encontrar seu próprio caminho. Ler muito, ler tudo, e não ter pressa demais de publicar talvez sejam recomendações úteis. Arranjar um jeito de sustentar seu “vício” também me parece um bom toque. A menos que seja rico de berço ou de baú, um escritor deve ter outra profissão, sob pena de ser levado pela ânsia do profissionalismo a vender seus escritos cedo demais, tornar-se um marqueteiro juramentado ou sair à caça de bocadas estatais – e nada disso é muito saudável para aquilo que realmente importa, isto é, o texto.
Da minha entrevista ao “Rascunho” deste mês, que está online.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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18/06/2009 - 13:18
O Brasil não está a fazer o que Portugal está a fazer, por exemplo. Portugal tem o Instituto Camões cujo objetivo é exatamente o de promover a língua portuguesa no mundo e o Brasil não tem nada equivalente. O Brasil, por exemplo, não dá apoio às traduções de seus autores no estrangeiro. Portugal tem uma política eficiente de apoiar tradução, apoiando inclusive autores africanos também e o Brasil não tem esta política. De vez em quando, a Biblioteca Nacional apoia uma ou outra tradução, mas não há uma política definida. O Brasil tem que fazer isso. O Brasil tem que entender que a cultura traz muito dinheiro ao país. (…) Tem que compreender que sua afirmação no mundo passa também pela afirmação da língua portuguesa e tem que criar estruturas de promoção da língua e tem que começar a apoiar seus escritores, seus cantores e seus músicos.
Sei que ninguém gosta de ver um estrangeiro apontando mazelas aqui dentro, mas está certíssimo o escritor angolano José Eduardo Agualusa, em entrevista à Rádio ONU. É imperdoável a miopia oficial para ações de afirmação cultural num momento em que o Brasil, embalado pela onda BRIC, quer ser reconhecido como potência mundial. Faltam bolsas para treinamento de tradutores de português de diversas nacionalidades, auxílio para viagens de autores brasileiros ao exterior, um trabalho mais competente em feiras internacionais de livros – a lista do descaso é gigantesca. E não custaria tanto assim: uma pequena fração do que escoa no ralo do Senado já dá para fazer uma festa.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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17/06/2009 - 11:48
David Sedaris, o autor de “Veludo cotelê e jeans”, que já andou passeando em Parati, foi recentemente visto – e fotografado – autografando as costas de um Kindle a pedido de um leitor. O “New York Times” diz que isso não é tão incomum, apenas um sinal dos tempos. E Sedaris acrescenta que a experiência é tranqüila comparada à do jamegão que certa vez pespegou na perna mecânica de uma leitora.
Fica por minha conta a suposição de que a moda de autografar Kindles pode até pegar, desde que o rabisco absurdamente analógico na superfície do maior símbolo da leitura digital seja também ele digitalizado como fotografia, antes de ser sugado pelos poros de um Perfex.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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16/06/2009 - 11:31
Meu querido Zeca,
Por ocasião de teu aniversário de dúzia, ocasião tão venturosa quão promissora, endereço-te algumas palavras repletas das mais puras intenções. Teu bisavô não dura um ano; quando muito dois, se calhar, como imagino que saibas. Mas não transporei o Aqueronte naquela barca fatal sem antes deixar-te nesta margem um saquinho com as parcas pepitas que – garimpeiro inábil que fui, mas de longuíssimo curso – me foi dado amealhar.
Pois não andam teus pais exultando diante do talento bruto que vislumbram em teus primeiros esforços de expressão literária? Perdoa este velho tão velho, para quem a velhice já é eufemismo: pouco entendo do mundo contemporâneo. Contam-me que pertences a um grupo de vanguardistas precoces chamado, creio, MSN, ou outra dessas siglas que o Zeitgeist favorece. Não sei o que isso possa significar em termos de filiação estética, e confesso que o exemplo textual com que meus netos pimpões ilustraram seu argumento carecia de nexo; talvez lhe faltasse uma página, ou vinte letras, e certamente faltava revisão; será isso, ou meus óculos andam vencidos.
Mas pouco se me dá, Zequinha. Só me importa que, tendo submetido por toda a vida esta carcaça e esta moringa à faina inconsútil das letras, impõe-se-me o dever – e a suprema satisfação – de dar-te uns quantos piparotes à guisa de conselhos. Então, prepara o cocoruto, que lá vão!
Não te acanches, não te deixes intimidar pelos caiporas. Põe de fora tua cabecinha sem temer a guilhotina, que à indiferenciação da malta mesmo o gélido fio da plaina é de preferir.
Cultiva teu pomar, mas evitando sempre o preciosismo, a pirotecnia de um Faetonte. O vocábulo pinçado com esmero demasiado na cornucópia do vernáculo é como a bela fruta que, colhida, à palma da mão expõe o avesso pútrido. Lembra-te sempre: mais vale a expressão genuína, tosca eventualmente embora, do que lhe galopa n’alma, que o fraseado bem polidinho dos imbecis, ricamente ataviado mas oco.
Sê irreverente, gostosamente impudico, como quem estala um bofete franco, insolente e ao mesmo tempo ameigado, na bochecha da existência!
Cedo descobrirás que não, a vida artística não tem a placidez de um lago suíço. Dá-se mesmo o inverso: um mar bravio é seu símile perfeito, vindo sempre aos borbotões, escouceando-se e rasgando no ar mil cristas ríspidas de espuma onde tua amada carne, ai de mim, há de lanhar-se inapelavelmente. Sofre, pois de não sofrer mais se morre, mas consola-te com o bálsamo da musa.
Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios.
Eis meu modesto legado, querido Zeca. Lá de onde eu estiver, estarei acompanhando cada um de teus passos, velando por ti, feliz de saber que a atemporalidade abençoada das letras concedeu-me, no fim da vida, lançar esta ponte sobre o abismo das épocas e me entender contigo, feito fôssemos dois estudantes noite adentro, ébrios de futuro, no idioma universal dos poetas.
Bastaria isso para justificar minha existência.
Do bisavô que te abençoa,
Demóstenes Bastião
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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14/06/2009 - 10:27
Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores.
A primeira frase de “As cidades invisíveis”, obra-prima lançada em 1972 por Italo Calvino (Companhia das Letras, tradução de Diogo Mainardi, 1990), pode não parecer, em si, inesquecível. É preciso ler esse espantoso conjunto de relatos de viagem por cidades imaginárias para descobrir que é, sim.
Publicado em 4/6/2007.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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13/06/2009 - 10:21
Segundo o site da BBC Brasil, a empresa americana Global Language Monitor (GLM), que mede a ocorrência de vocábulos na rede mundial de computadores, anunciou que a língua inglesa acaba de ganhar sua milionésima palavra: Web 2.0. A “descoberta” foi criticada por dicionaristas, mas nem chega a se qualificar como polêmica: sua falta de rigor fica evidente no fato de que Web 2.0 não é sequer uma palavra, mas uma locução composta de uma palavra e dois algarismos. Isso lança descrédito sobre outra informação da GLM, a de que o inglês ganha um novo vocábulo a cada 98 minutos.
É inegável, porém, que a língua de James Joyce – para citar um escritor que gostava de inventar palavras – leva vantagem quantitativa quando se trata de vocabulário. Enquanto o inglês aspira a um número de sete dígitos, o maior dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, tem cerca de 228.500 verbetes. Uma prova de subdesenvolvimento do português?
Vamos com calma. Latim contemporâneo, o inglês é o idioma em que a maioria das inovações técnicas e científicas dos últimos cem anos foi batizada primeiro. Se o critério numérico impressiona os desavisados, está longe de medir saúde linguística. Grande parte dessa “riqueza” é composta de obscuros termos especializados sem circulação social.
Curiosamente, palavra veio do latim parabola, por sua vez saído do grego parabole. Parábola, como se sabe, é uma história alegórica que dá seu recado indiretamente. A mensagem indireta que se pode extrair da fúria quantificadora da GLM é que as palavras, por mais numerosas que sejam em estado de dicionário, dependem do aspecto qualitativo para ganhar vida. Enquanto Machado de Assis precisou de 2 mil para escrever sua obra-prima “Dom Casmurro”, gasta-se muita palavra por aí com notícias que, espremidas, rendem no máximo um artiguete ameno como este.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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