O livro proibido de Tezza
O caso do recolhimento, pelo governo de Santa Catarina, de 130 mil exemplares do livro “Aventuras provisórias”, do catarinense Cristovão Tezza, depois de adquiri-los para distribuição na rede escolar em licitação do ano passado, está bem contado nesta reportagem do “Diário Catarinense”, que ouve todos os lados envolvidos na história. Inclusive uma professora que justifica a proibição com ataques morais ao livro – “chulo e em alguns parágrafos a relação sexual é abordada de maneira banal” – e o próprio escritor, que, elegantemente, evita dar ao caso o tratamento de escândalo censório.
Não creio mesmo que se trate disso. É claro que pedagogos têm o direito de escolher o que vão apresentar a seus alunos – mesmo que, no caso presente, a faixa etária de 15 a 18 anos permita supor que as cenas de sexo descritas no romance (a reportagem cita um trecho que menciona sexo oral) contenham pouca ou nenhuma novidade para a quase totalidade deles.
O que o imbroglio catarinense me parece deixar evidente, com sua bateção de cabeças entre esferas do mesmo governo, é outro tipo de problema: a dificuldade extrema que o sistema educacional brasileiro tem para lidar com a literatura contemporânea, provavelmente bandeira de uma dificuldade ainda mais grave – a de lidar com o próprio ambiente contemporâneo, aquele em que os estudantes se movem, conversam, pensam e, sim, o horror!, se agarram voluptuosamente.
Quando aquela mesma professora diz que “o vocabulário (do livro de Tezza) é exagerado e essas palavras, queremos extingui-las da boca dos alunos”, é inevitável pensar que sua pretensão está fadada ao mais espetacular dos fracassos. O que sai da boca dos alunos – e o que entra também – não está sob seu controle. Sim, cabe à autoridade escolar determinar até que ponto as discussões sobre tais questões serão levadas para dentro da sala de aula. Nesse sentido, seu direito de recomendar determinado título e vetar outro é soberano. Pode até ser uma ode à burrice e à hipocrisia, dependendo da situação. Mas é soberano.
De repente fica claro por que a escola prefere botar a garotada para se entediar mortalmente com José de Alencar: dá muito menos dor de cabeça. Não há registro de nenhum pai ou mãe que um dia tenha protestado contra a nudez de Iracema. Afinal, a moça era virgem.
Que meninos e meninas se comam, paciência. Mas sem verniz literário!
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Caro Sérgio, esta semana aconteceu também o caso Joca Terron. Mas a diferença é que dois poemas que foram aprovados para a faixa etária mais alta foram para em livros para alunos mais novos por engano.
Tezza é um bom autor. Mas o estado querer dar Joca Terron para nossos alunos prova que a coisa desandou mesmo. Ê, Brasilzão.
Tanta coisa boa poderia ser publicada, veiculada e vendida (130 mil exemplares? Aí tem coisa podre!), e logo o Cristõao que não é lá esse escritor todo, como nem o Joca Terron. Uma vida de arte não se faz em vinte ou trinta anos. Por isso, as editoras querem ser “modernas” lançam os livros “da hora”, que depois, como os do Paulo Coelho, servirão para calçar estantes e, litero-culturalmente não acrescentarão nada a nada. Pior do que a apreeensão, é a distribuição sem critério, a falta de seleção cultural dos educadores e mesmo a própria publicação. Um desastre total. E tanta gente boa pelaí esperando os frutos de décadas, de bons trabalhos recusados pelas chamadas grandes editors do eixo Rio/SP.
Sérgio, seria interessante reler um texto do Monteiro Lobato, chamado “Os Livros Fundamentais”, publicado, salvo engano, na coletânea A Onda Verde, recentemente reeditada. Nesse texto, Monteiro Lobato presta homemagem ao livro Teresa, Filósofa, obra anônima erótica do século XVIII que, segundo o escritor paulista, incentivava o interesse pela leitura nos meninos. O incentivo era alimentado, obviamente, pelas cenas picantes com que os jovens onanistas de então se esbaldavam (não havia internet e o fácil acesso à pornografia).
E Teresa, Filósofa, convenhamos, deixaria o pobre Tezza corado!
Espero que a reedição da obra adulta do Monteiro Lobato lance uma “lufada de ar fresco” (como diria o Roberto Schwarz) no nosso acanhado meio pedagógico.
Perfiro um José de Alencar , que era relamente um escritor
Sinceramente nada me surpeende neste mecanismo cultura X educação. Ambas deveriam andar juntas e a facilidade de se lidar com a hipocrisia dos fatos, somente reforça a violêcia nas escolas, a falta de estruturas emocionais que não são discutidas em casa e proibidas nas escolas. Hora “gentes”, em um mundo diversificado, com informações de todos os lados, ou temos os nerds tecnológicos ou jovens adolescentes normais com os hormônios a pleno vapor., não discutir sexo nem reconhecê-lo como forma de discussão, reflexão e debate, só aumenta a ignorância de uma forma em geral e a curiosidade. Para mim o paraíso é uma espécie de livraria.
Sérgio, tem um blog que vem buscado falar de literatura contemporânea, é de uma garota de Minas, não sei se conhece. Chama livrolivreconscientecoletivo.blogspot.com , tenho acompanhado e gostado bastante. Vale uma visita.
130 000 * 11,75 = R$ 1.527.500,00 -> É o que custou aos cofres públicos. Essa é a questão fundamental. Volta para a conta quando?
Mas que biscoito fino:
— A tua grande fraqueza — me disse Mara na cama, a primeira vez, quando eu broxei vergonhosamente mesmo depois de baixar a calcinha dela com os dentes e chupá-la como um pêssego maduro, na boca um gostinho de sal molhado — é que teu orgulho te castra. Disfarçadamente, você exige que todos te dêem atenção, te bajulem, te achem o máximo. Se alguém recusa o jogo, mesmo sem maldade, como eu (e olhe, eu gosto muito de você, você é sensível), você entra em pane e fecha a Couraça.
Pode ser hipocrisia, embora muitas regiões de Santa Catarina ainda estejam com um pé na metade do século passado em termos de conservadorismo, mas, acerta sem querer na baixa qualidade literária do prelúdio sexual.
Segue um dos trechos polêmicos:
“— A tua grande fraqueza — me disse Mara na cama, a primeira vez, quando eu broxei vergonhosamente mesmo depois de baixar a calcinha dela com os dentes e chupá-la como um pêssego maduro, na boca um gostinho de sal molhado — é que teu orgulho te castra. Disfarçadamente, você exige que todos te dêem atenção, te bajulem, te achem o máximo. Se alguém recusa o jogo, mesmo sem maldade, como eu (e olhe, eu gosto muito de você, você é sensível), você entra em pane e fecha a Couraça.”
“Chupá-la como pêssego maduro” e “gostinho de sal molhado” e de doer.
Será que ele já não emplacou alguma vez aquele prêmio de piores descrições do ato sexual?
Tezza mostrando que é competitivo e versátil em termos de premiações.
Já que o Sérgio Rodrigues rechassa o tédio visto por ele na leitura pueril de José de Alencar, certamente rechassaria, também, o didatismo objetivo de Robert Wüsthof e Clara Rappaport na série JOVEM HOJE, que ora sugiro ao governo catarinense.
Mas Sérgio, não seja por isso, você pode pessoalmente sugerir ao goveno de Santa Catarina, e demais estados, que procurem obras editadas pelo chefe da boca do tráfico do Morro do Turano ou da Rocinha; ou até mesmo as melhores letras dos funkeiros dos morros cariocas.
A AQUISIÇÃO DE TAL LIVRO, SEM APROVAÇÃO PRÉVIA PELOS EDUCADORES, NÃO PASSOU DE MERO REPASSE FINANCEIRO PARA UMA NEMPRESA, CERTAMENTE COMO DEVOLUÇÃO DOS VALORES ADIANTADOS NA CMAPNHA ELEITORAL.. ALGUEM TEM DUVIDA DISSO?
DEVERIA SER VERIFICADO QUAL A EMPRESA QUE RECEBEU OS r$1.527.000,00 PELA VENDA DE TAL PRODUTO, QUE AGORA, ESTÁ SENDO DEVOLVIDO PELOS EDUCADORES… QUEM VAI PAGAR ESTE PREJUIZO AOS COFRES PÚBLICOS? ESTA É A DISCUSSÃO QUE DEVERIA SER FEITA..
As autoridades de Santa Catarina, se forem escrupulosas e justas, deverão colocar esse “elegante” Tezza na cadeia, para que o mesmo fique “tezzo” no meio de meia duzia de detentos “atrasados”, para que ele não mexa, nunca mais, em “casa de marinbondos”, como ele teve a audácia de mexer, lá em Santa Catarina. Lá, a formação cultural do povo é outra e ele jais levantará a cabeça se tentar ficar naquela terra.
RF
Sérgio, escrevi sobre isso ontem aqui: http://arlequinal.novasvisoes.com.br/2009/05/28/a-minha-literatura-com-sacanagem-por-favor/
De forma que concordo com você e reitero minhas palavras de ontem.
Reservate, eu não entendi a relação entre o Cristovão Tezza e o “chefe da boca do Morro Turano ou Rocinha”.
É inacreditável. Poucas coisas me dão preguiça da humanidade. Esse moralismo tacanho é uma delas, talvez até a única. Dá vontade de ir dormir. Ou ir ler um livro. Cheio de putaria.
[...] Atualização de 29/05/09: Sérgio Rodrigues escreveu um bom post sobre o tema no Todoprosa. [...]
Sérgio, aqui é a Ana, filha do Cristovão. Estamos impressionados com o furor de Criciúma! E muito felizes com a sua leitura, e de vários outros, do caso
Parece que o livro é um manual de pornografia. Quem se deu ao trabalho de ler o livro (com olhos acostumados à arte, ao contrário das pedagogas de SC) sabe que estas cenas são momentos de um ótimo (e premiado) livro.
Se pensarmos um pouco, onde há pessoas, há sensualidade…
Que pena que não souberam superar o olhar moralista ao lê-lo. Poderiam fazer um belo trabalho de leitura com os alunos.
E já que as cenas de sexo chamaram tanta atenção, por que não usá-las como pretexto para trabalhar responsabilidade na vida sexual dos adolescentes, já que proliferam as adolescentes grávidas precocemente… Certamente não foi com literatura que aprenderam a engravidar.
Bom, é a consagração: todo grande escritor tem um livro proibido! Nabokov e D. H. Lawrence que o digam…
Grande abraço
Tenho a certeza de que o Diogo não sabe comentar nada porquê tem m… na cabeça. Vai dormir ou ler um livro para idiotas, “cara…
RF
Ana,
Eu não poderia concordar mais com você. Esse caso me lembrou uam passagem de “Filho Eterno” em que as páginas desse mesmo livro vão para a escola por causa de um desenho em seu verso.
Abraços
SINTO MUITO, MAS PARA GANHAR VENDA ESTÃO TRANSFORMANDO LIVROS EM REVISTAS PORNOGRAFICAS, SÓ FALTA BOTAR CAPA DE PLASTICO, TUDO EM PROL DO r$, SINTO MUITO JÁ PASSOU A ERA DE BONS LIVROS