Arquivo de março, 2009
31/03/2009 - 13:11

Quando olho para trás, fixo-me no século 18, no Iluminismo, em sua fé no poder do conhecimento e no mundo de idéias em que ele operou – aquilo a que o iluminista se referia como República das Letras.
O século 18 imaginava a República das Letras como um reino sem polícia, sem fronteiras e sem desigualdades, exceto as determinadas pelo talento. Qualquer um podia juntar-se a ela exercendo os dois atributos principais da cidadania: escrever e ler. Escritores formulavam idéias e leitores as julgavam. Graças ao poder da palavra impressa, os julgamentos se estendiam por círculos cada vez mais amplos, e os argumentos mais fortes venciam.
Este trecho do ótimo artigo do historiador Robert Darnton, chamado O Google e o futuro dos livros – que consegue fazer um alerta progressista e não tecnofóbico sobre a avalanche do Google Book Search – estabelece um diálogo sutil com a revista-livro em que é uma das atrações: a inteligentíssima “Serrote” (224 páginas, R$ 29,90). Publicação quadrimestral do Instituto Moreira Salles, ela mal foi lançada e já é uma das melhores provas disponíveis no mercado brasileiro de que os ideais (utópicos?) do Iluminismo não se apagaram por completo.
Um produto para a elite? Sem dúvida nenhuma: elite cultural, ou seja, a melhor delas. Que, convém lembrar, só coincide tão bem com a econômica – embora o Brasil tenha alguns dos ricos mais ignorantes do planeta – porque aqueles ideais setecentistas fracassaram parcialmente. Como o próprio Darnton adverte, “a República das Letras só era democrática em princípio. Na prática, ela era dominada pelos bem-nascidos e pelos ricos”. No início do século 21, se República das Letras houver, esse domínio não mudou muito.
O problema aqui não é tanto o preço, que é camarada para a qualidade material e imaterial do produto, mas a bagagem que a “Serrote” (nome inspirado em Murilo Mendes) exige do leitor como taxa de admissão à mesa, antes de recompensá-lo com seu menu-degustação. Alguns pratos: desenhos inéditos de Saul Steinberg, Pancetti pintando ao ar livre em fotos de Marcel Gautherot, um ensaio de Edmund Wilson sobre os primórdios da hoje envelhecida indústria automobilística americana, Tostão penteando as palavras num breve e convincente elogio do passe como fundamento do futebol, aforismos de Kafka traduzidos por Modesto Carone, uma carta com a marca da generosidade egocêntrica de Mario de Andrade a um jovem Otto Lara Resende e as curiosas correspondências descobertas por Samuel Titan Jr. – um dos editores da revista, ao lado de Flavio Pinheiro, Matinas Suzuki Jr. e Rodrigo Lacerda – entre “Memórias póstumas de Brás Cubas” e o ambiente editorial da “Revista Brasileira”, onde o romance apareceu primeiro como folhetim.
Diz a carta dos editores que o gênero fundamental da “Serrote”, o ensaio, tomou no Brasil “forma acadêmica, o que é uma pena, pois fica sem o que tem de bom, a espontaneidade. Por causa dela, Vinicius de Moraes achava que o essay estava na origem da brasileiríssima crônica. O ensaio ideal poupa citações e supõe que as notas de rodapé são um terreno minado”. Só por essa declaração de princípios a revista já mereceria vida longa.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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29/03/2009 - 09:41

Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside meu mal. Não me trato, e nunca me tratei, por muito que considere a medicina e os médicos, pois sou altamente supersticioso, pelo menos o bastante para ter fé na medicina. (Possuo instrução suficiente para não ser supersticioso e, no entanto, sou…) Não, se não me trato é por pura maldade: é assim mesmo. O senhor não compreenderá isto, por acaso? Pois compreendo-o e basta. Não há dúvida de que eu não conseguiria explicar a quem prejudico neste caso, com a minha maldade. Compreendo perfeitamente que, não me tratando, não prejudico a ninguém, nem sequer os médicos; sei melhor do que ninguém que só a mim próprio prejudico. Não importa; se não me trato é por maldade. Tenho o fígado doente? Pois que rebente!
Eis o início de um impressionante caso de existencialismo antes do tempo: o de “Memórias do subterrâneo” (Nova Aguilar, volume II da Obra Completa, tradução de Natália Nunes), novela lançada em 1864 por Fiódor Dostoiévski.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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28/03/2009 - 10:34
Vestibular, aquilo que o Ministério da Educação estuda agora extinguir, é um brasileirismo para algo que em Portugal costuma ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular, qualificativo de telefone que tenta – e na maioria das vezes consegue – expulsar a palavra principal de cena sob uma pertinente alegação de redundância, tomando para si o lugar de substantivo. Pois o exame vestibular, de tão consagrado no vocabulário de gerações e gerações de estudantes brasileiros que perderam o sono por causa dele, acabou conhecido como vestibular só. E qualquer associação remota com a palavra que está em sua origem – vestíbulo – se perdeu nesse processo.
Quando ainda era claramente um adjetivo, ficava mais fácil perceber a metáfora que, com certa dose de pernosticismo, levou a palavra vestibular a ser escolhida para qualificar o processo de seleção de candidatos ao ensino superior. Vestíbulo (do latim vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que significa pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma ante-sala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta de entrada e o corpo principal de uma casa, apartamento, palácio ou prédio público. Para quem prefere uma solução anglófona, estamos falando de hall ou lobby.
Como é um ambiente de transição entre o lado de fora e o lado de dentro, vestíbulo ganhou ainda por extensão, em anatomia, o sentido de “cavidade que dá acesso a um órgão oco” (Houaiss). Antes de ser admitido no vocabulário da educação, “sistema vestibular” já tinha aplicação na linguagem médica como nome dos pequenos órgãos situados na entrada do ouvido interno, responsáveis por nosso equilíbrio.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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27/03/2009 - 19:34
Hoje às 21h30 estarei no programa “Espaço Aberto”, da GloboNews, conversando com Edney Silvestre sobre “Elza, a garota”. Horário ingrato, eu sei. Mas rolam reprises amanhã em três horários (1h30, 8h30 e 16h30), domingo às 6h05 e, por fim, segunda-feira às 12h30.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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26/03/2009 - 12:42
Todos os leitores do Todoprosa estão convidados a comemorar comigo:

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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24/03/2009 - 18:16
Atendendo a pedidos, segue um trecho do capítulo 5 de “Elza, a garota”. Quem conta esta história é Xerxes, um velho comunista de 94 anos que conheceu (biblicamente, será?) a moça do título:
Na noite de sábado, peguei o trem para São Paulo com mais três camaradas, dois que eu nem me lembro e o Guarani. Descemos na Estação da Luz na manhã do domingo, o domingo em que seria a passeata, junto com gente que vinha de tudo quanto era lado, de Santos, do Sul, do Rio, de Minas, estivadores do tamanho daquelas estátuas realistas-socialistas ao lado de funcionários públicos com óculos fundo-de-garrafa e musculatura de louva-deus – tinha de tudo. Na estação, já começamos a sentir o clima. Estava um dia bonito, e como tínhamos algumas horas para matar antes da passeata propus um passeio pela cidade, que eu não conhecia, mas o Guarani disse que o combinado era irmos direto para a casa de um camarada nosso, um gráfico chamado Enzo, que morava no Brás. Lá seria a concentração de alguns companheiros, almoçaríamos de graça antes de seguir num grupo maior para a Praça da Sé. Chegamos antes das dez e a casa já estava cheia. Era uma casa modesta, branca de janelas amarelas, mas tinha um quintal espaçoso com algumas árvores, uns bancos compridos de madeira debaixo de videiras, gaiolas de passarinho. Enzo, um italiano de fisionomia severa, bigodão, nos recebeu meio seco, mas a hospitalidade foi mais que garantida pela mulher dele, que era uma dona muito simpática, muito sorridente. Veio da cozinha de avental sujo avisar que o cardápio era macarronada com polpetone, me lembro disso como se fosse o almoço de ontem. No quintal, nos juntamos a um grupo que já devia ter vinte pessoas ou mais, todo mundo bebendo vinho. O Enzo tinha duas filhas, Francesca e Gina, que eles chamavam bem à italiana, Frantchesca e Djina. Duas deusas, uma Sophia Loren e uma Gina Lollobrigida, que ficavam zanzando lépidas de pés descalços, indo de grupinho em grupinho com os garrafões, enchendo copos, fazendo piadas, rindo para todo mundo. Mas este lugar é o paraíso, eu me lembro de ter pensado, enquanto o Guarani me cutucava para ir com calma na bebida. Isso não é festa, ele disse, deixa a festa para depois do trabalho. O trabalho era a porradaria contra os integralistas. Confesso que não segui à risca o conselho de Guarani e estava zonzo quando saímos da casa de Enzo rumo à guerra. Gina e Francesca também foram. Isso me deixou preocupado quando nos aproximamos do nosso ponto de encontro, que seria no Largo de São Bento, observados à distância por batalhões de policiais a cavalo, e eu comecei a ver gente com soco-inglês, porrete na mão, outros levando livros do Lênin, A Classe Operária, A Plebe ou A Manha enrolados em canudos, como se fossem para matar moscas. Mas a maioria de mãos abanando mesmo, olhos brilhantes de confiança e só. E precisava mais? Entendi então que ninguém estava preocupado com detalhes como força física ou experiência em escaramuças de rua, tinha muita mulher no meio, tinha até criança. Aquilo era uma festa cívica. Perdi Gina e Francesca de vista, mas relaxei. Um frisson absolutamente irresponsável, delicioso, percorria as fileiras antifascistas: era chegada a hora de acertar contas com aquela escória. Tínhamos gosto de sangue na boca, minha cabeça girava e eu acho que não era mais só por causa do vinho. Se Hitler e Mussolini estavam fora do alcance de nossos paus e pedras, os camisas-verdes de Plínio Salgado não estavam.
Eu seguia os comandos de companheiros que não conhecia, tudo uma confusão de gente e palavras de ordem, e já não via nem o Guarani nem conhecido nenhum. Mas sabia que o caos era apenas aparente. A estratégia militar tinha sido traçada pelo João Cabanas e pelo Roberto Sisson, caras que entendiam do riscado. Tinha pontos de concentração no Largo João Meneses, no pátio do Convento do Carmo, na Praça Ramos de Azevedo… Você conhece o centro de São Paulo? Dizem que a passeata dos galinhas-verdes chegou a tomar dois quilômetros da Brigadeiro Luiz Antônio, coisa de oito mil pessoas, não sei se é verdade. Só sei que, chegando na Praça, com mulheres e crianças fazendo o papel de abre-alas, bandeiras do Sigma tremulando, aquele rio verde começou a ser comprimido nas duas margens pelos rochedos vermelhos. Se eles eram oito mil, quantos seríamos nós? E a troca de insultos começou. Foi um tal de morra! pra cá, viva! pra lá, alguns mais esquentadinhos já começaram a sair no tapa ali mesmo. De repente, ouvimos tiros, mas era impossível saber de onde tinham vindo. Sentindo-se seguros com a proteção policial, que era de centenas de homens, uma fartura que eu nunca tinha visto de bombeiros, cavalarianos e policiais civis armados, os oradores integralistas começaram a discursar na escadaria da catedral debaixo de uma vaia de ensurdecer. Plínio Salgado, que não era besta, não apareceu, ficou com o rabo entre as pernas na sede do partido. Era impossível ouvir qualquer coisa. Eu comecei a suar em bicas no meio daquela panela de pressão, o sal me entrava nos olhos deformando tudo. De repente, bem claro, como se viesse do céu, um som picotado e inconfundível que até então eu só conhecia dos filmes de guerra: uma rajada de metralhadora. Por instinto, dei meia-volta e ia sair correndo, mas fui salvo do vexame por uma velhota de xale preto nos ombros, cara soturna de siciliana, que naquele momento me pareceu a própria Morte. Ela me agarrou o braço e disse: Coragem, homem. Sem graça, murmurei: É que eu preciso ir ao banheiro. Sei, respondeu a velha, já está se cagando. Tentei salvar a honra com um riso de desdém, mas tratei de sair rapidamente de perto da bruxa. De todo modo não fugi, tinha passado o impulso de covardia. Fui caminhando com lentidão estudada para a direita, na direção de um grupo mais denso onde naquele momento, em cima de um caixote, começava a improvisar um pequeno comício paralelo um sujeito que eu reconheci das fotos dos jornais que lia na casa do meu tio João Mateus: era Edgard Leuenroth, o grande líder anarquista. Fiquei por ali, aplaudindo cada palavra dele como se aplaudisse meu próprio passado. Percebi que pequenos comícios como aquele iam pipocando em outros pontos da praça. E de repente o tiroteio rebentou de vez.
Nunca se soube quem começou. As balas zuniam, corria gente para todo lado, e tome pop-pop-pop. Fui procurar proteção atrás de uma árvore e no caminho vi que a velha com cara de siciliana continuava impassível em seu lugar, plantada lá com seus sapatos pretos: era a única pessoa parada no meio daquele redemoinho de gente, como se fosse o próprio eixo da roda de insanidade em que se transformara a Praça da Sé. Vi pessoas caindo, não sei se porque tinham sido alvejadas ou porque tropeçavam mesmo, mas de uma forma ou de outra eram pisadas por quem vinha atrás, e ouvi gritos de dor, uivos de pânico, ordens contraditórias, por aqui, calma, para cima, é agora, socorro! De repente, um garoto camisa-verde mais desorientado cruzou na minha frente e sem pensar eu lhe mandei um murro bem no meio do nariz. Ele caiu de joelhos e começou a chorar feito um bebê, o sangue jorrando. Muito bem, companheiro, senti tapinhas nas costas quando finalmente alcancei a árvore que mantinha na mira. A dor em minha mão era aguda.
Os tiros tinham ficado mais esparsos, o frenesi começou a baixar. Alguém gritou que os galinhas estavam batendo em retirada, e era verdade: a Praça da Sé excretava jatos verdes por todos os poros, uma cena linda. Alguns arrancavam as camisas enquanto corriam, tentando se livrar da cor que os denunciava, e essas peças infames eram coletadas por companheiros eufóricos, que as erguiam como troféus, berrando: Vitória! Vitória!
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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23/03/2009 - 23:46
Posso vender meu peixe mais um pouco? É esta semana só: mais uns dias e a gente vira o disco, melhor dizendo, passa para a próxima lista de reprodução.
Quem estiver interessado numa entrevista mais lenta e profunda sobre “Elza, a garota”, e transcrita de uma forma fascinantemente literal que expõe a gagueira mental do autor (como diria Silvio Romero), não deve perder a versão integral da conversa que tive com Miguel Conde, do “Prosa & Verso”, publicada no blog homônimo. Sobre a versão condensada de pingue-pongue que, no último sábado, escoltava a densa resenha de Sérgio de Sá no “Globo” de papel, ela leva a vantagem nada desprezível do espaço virtual ilimitado.
E quem morar no Rio e não tiver programa melhor para esta quinta-feira, dia 26, será muito bem-vindo para tomar um prosecco e trocar dois dedos de prosa comigo na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, onde estarei autografando o livro a partir das 19h.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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22/03/2009 - 10:04

A primeira coisa que a parteira notou ao ajudar Michael K a sair de dentro da mãe para dentro do mundo foi que tinha lábio leporino. O lábio enrolado como pé de caramujo, a narina esquerda fendida. Escondeu a criança da mãe por um momento, enfiou o dedo no botãozinho de boca e ficou agradecida de ver que o palato estava inteiro.
O começo de “Vida e época de Michael K” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira), romance de J.M. Coetzee lançado em 1983 e premiado com o Booker, marca também o início da consagração internacional do grande escritor sul-africano.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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21/03/2009 - 10:12
O bônus da discórdia que a seguradora AIG quer pagar a seus principais executivos é uma palavra que o vocabulário financeiro americano importou no último quarto do século 18 do latim bonus, um adjetivo que significa bom, para nomear uma remuneração suplementar, um ganho extra pago aos investidores.
Quando bônus desembarcou no português com esse mesmo sentido, cerca de um século mais tarde, já existiam por aqui tanto o verbo bonificar quanto o substantivo bonificação, do francês bonifier e bonification. O significado é idêntico e a origem, no mínimo, semelhante. (Bonificar também queria dizer inicialmente beneficiar, tornar mais produtivo, mas tal acepção caiu em desuso.)
De todo modo, foi na cultura americana que o bônus – como palavra e como prática – se consolidou primeiro com o sentido restrito que agora provoca polêmica. Uma reportagem da revista eletrônica “Slate” situa a origem do bônus como suplemento salarial na moda, surgida em diversas empresas em fins do século 19, de dar presentes de Natal a seus principais funcionários.
Poucos anos depois, alguns empresários tinham trocado os presentes por uma remuneração em dinheiro – suplemento que em 1952, por lei, passou a ser considerado parte integrante do salário sempre que fosse pago todo ano na mesma época e em valores previsíveis. Na prática, embora cada vez mais vinculado ao desempenho da empresa ou do funcionário, o mimo deixava de ser um bônus – um ganho extra – para se tornar obrigação contratual. O que está justamente no centro da briga entre o governo Obama e a AIG.
Segundo a “Slate”, o valor total de bônus pagos por Wall Street ano passado despencou 44% em relação a 2007 por causa da crise financeira, mas ainda foi o sexto mais elevado da história. Será que isso é bonus, quer dizer, bom? Como se vê, há controvérsia.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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20/03/2009 - 15:53
Barack Obama ganhou perto de 2,5 milhões de dólares em direitos autorais ano passado.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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19/03/2009 - 11:59
Algumas das melhores perguntas que me fizeram até agora sobre meu romance “Elza, a garota” partiram do jornalista e escritor Luciano Trigo, que acaba de publicar a entrevista em sua coluna no G1. Não pretendia voltar ao assunto agora, mas o quebra-pau político que se esboçou aqui na caixa de comentários esta semana me convenceu da pertinência de abusar mais um pouco da autopromoção e publicar esta amostra do papo:
G1: Você não teme que seu livro seja “apropriado” pela direita? Acredita que haverá reações negativas por parte da esquerda? Isso causa preocupação?
SÉRGIO: Qualquer pessoa que leia o livro vai perceber logo nas primeiras páginas que ele não pode ser apropriado pela direita. A direita brasileira sai muito mal disso tudo. Isso não quer dizer que a esquerda saia bem. Acredito mesmo que essas categorias, pelo menos em termos tão absolutos, estejam virando relíquias da Guerra Fria, o papo hoje é um pouco diferente. Mas, mesmo quando elas faziam todo o sentido, julgar uma obra de literatura por esses parâmetros sempre foi má idéia. E espero que o “Elza” seja julgado como literatura, porque é o que ele é. Dito isso, claro que me preocupa um pouco o uso político que possam tentar fazer do livro. Principalmente porque muita gente, claro, não vai se dar ao trabalho de ler nem a orelha do Zuenir Ventura antes de formar uma opinião acachapante. A irresponsabilidade intelectual é grande, e as paixões que o tema desperta são intensas. Mas considerar meu romance um livro “de direita” é como dizer que “Memórias póstumas de Brás Cubas” é um livro espírita, isto é, coisa de gente muito desinformada. De todo modo, seria ingenuidade mexer num vespeiro desse tamanho e esperar unanimidade. A quem se sentir incomodado só de ouvir falar do livro, faço um único pedido: leia-o primeiro.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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18/03/2009 - 18:22
Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e bem no fundo de suas motivações jaz um mistério. Escrever um livro é uma luta terrível, exaustiva, como um longo padecimento de alguma doença dolorosa. Algo que nunca se deve fazer, a menos que se seja movido por um demônio irresistível que não se pode compreender. Até onde nos é dado saber, esse demônio é o mesmo instinto que faz um bebê se esgoelar por atenção. No entanto, também é verdade que ninguém escreverá nada legível a menos que se esforce constantemente para apagar sua própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça. Não posso dizer com certeza qual dos meus motivos é o mais forte, mas sei qual deles merece ser seguido. E lançando um olhar retrospectivo sobre minha obra, vejo que é invariavelmente quando me faltava um propósito político que eu escrevi livros sem vida e fui traiçoeiramente atraído por passagens pedantes, frases sem sentido, adjetivos decorativos e bobagens em geral.
Dica do leitor Diego Hartmann, esse texto (em inglês, acesso gratuito) de George Orwell sobre o que o levava a escrever ficou ressoando por um bom tempo aqui em casa. “Propósito político”, diz o pai do Big Brother, o original. Hmmm. Soa terrivelmente fora de moda e, apesar de ou talvez por isso mesmo, verdadeiro, e não só no caso óbvio do autor de “1984” e “A revolução dos bichos”. A idéia merece exame mais detido, além de doses cavalares de cautela contra qualquer sinal de (argh!) panfletarismo. Mas algo me diz que eu tenderia a concordar com Orwell ainda que não estivesse lançando um romance para todos os efeitos… político.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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16/03/2009 - 11:47
“Elza, a garota” (Nova Fronteira, 240 páginas, R$ 29,90), meu novo livro, começou a chegar às livrarias neste fim de semana e já nos próximos dias deve estar com boa distribuição nacional. Para quem ainda não sabe, trata-se de um romance histórico que mistura de forma pouco convencional pesquisa jornalística, ensaio e, claro, ficção para contar a tragédia de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza Fernandes, uma menina de 16 anos que ficou sob suspeita de traição ao PCB e, condenada à morte pelos companheiros, foi estrangulada com uma cordinha de varal.
Isso ocorreu em março de 1936, quando o governo Vargas caía de sarrafo na oposição após o fracasso da chamada Intentona Comunista. Foi um erro histórico da esquerda e um momento de apoteose do anticomunismo canarinho, com conseqüências que marcariam os rumos do país por todo o século 20. Como diz Zuenir Ventura na orelha, “acabar com o comunismo foi fácil; difícil é se libertar do anticomunismo”.
O caso Elza é notícia velha, mas recalcadíssima. Mais do que fechar o foco no crime em si, que alimentou sua cota de manchetes histéricas na época, o que me interessa no livro é investigar as décadas de silêncio que o Brasil lhe despejou em cima desde então. E o que esse silêncio, paradoxalmente, nos diz – grita, na verdade – sobre quem somos. Para isso a ficção me parece o melhor instrumento que existe por aí.
A imprensa começou a tratar do romance antes de sua chegada às prateleiras. Em reportagem na “Folha de S.Paulo” do último dia 7 (aqui, só para assinantes do jornal ou do UOL), Luiz Fernando Vianna dá destaque à mistura de não-ficção com ficção e observa que, nesta, “há um fundo falso”. Na “Bravo!” deste mês (acesso livre à íntegra aqui), a resenha de Jonas Lopes foi a primeira a adiantar alguns juízos críticos:
Graças ao ritmo de thriller, “Elza” é difícil de largar. Seu maior mérito, no entanto, é adentrar o território da ficção com base em eventos históricos, algo pouco usual na literatura brasileira contemporânea – com raras exceções, caso de “Nove noites”, de Bernardo Carvalho. E, como provam os melhores autores estrangeiros, de Philip Roth a W.G. Sebald, mergulhar em traumas coletivos ainda é a maneira mais eficiente de exorcizá-los.
Na “Veja” que está agora nas bancas (quem for assinante Abril pode ler a íntegra do texto aqui), Jerônimo Teixeira aponta uma suposta inverossimilhança da parte ficcional – o ponto mais forte do livro, na minha opinião –, mas ressalva que isso não compromete o todo:
O drama de Elza (…) é exemplarmente reconstituído, e confere ao livro um certo motivo trágico: o estúpido sacrifício da inocência em prol do que se supõe ser uma causa maior. Não há nenhuma diatribe ideológica no romance.
A última edição da “Revista da Semana”, da qual sou colaborador, adianta em duas páginas luxuosas o trecho inicial do primeiro capítulo – infelizmente, sem versão online.
Finalmente, uma deliciosa notícia sobre os bastidores do livro – que nasceu da encomenda de um relato estritamente jornalístico feita pela Nova Fronteira primeiro a ele, que recusou o convite por falta de tempo e indicou o meu nome – acaba de ser dada pelo jornalista e escritor Geneton Moraes Neto em seu blog. O post termina assim:
Em uma frase: “Elza, a garota” é um dos melhores livros brasileiros lançados nos últimos tempos. Feita esta declaração, o autor-que-foi-sem-nunca-ter-sido recomenda: corram para as livrarias.
Deve-se dar um desconto: Geneton é meu amigo e portanto suspeito. No entanto, mais suspeito ainda, eu acho que quem correr não se arrependerá.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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15/03/2009 - 10:02

Estou em pé à janela de um casarão no sul da França enquanto a noite cai, a noite que me conduzirá à manhã mais terrível da minha vida.
A primeira frase de “O quarto de Giovanni” (Giovanni’s room, Penguin Books, 1990, tradução caseira), novela lançada em 1956 por James Baldwin, está entre os começos mais singelos e perfeitos – no sentido de conjurar de saída um clima, uma voz e uma expectativa na cabeça do leitor – que se pode encontrar na literatura em qualquer tempo. Há quem considere a trágica história de amor entre o americano David e o italiano Giovanni, ambientada na Paris dos anos 1950, um dos pontos mais altos de uma certa “literatura gay”. O rótulo é reducionista e desnecessário, mas o resto da frase continua valendo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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