iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de fevereiro, 2009

28/02/2009 - 09:11

Ditadura

Ditabranda, o polêmico neologismo com que a “Folha de S.Paulo” se referiu ao regime de exceção instaurado com o golpe militar de 1964, é um trocadilho baseado na sonoridade da palavra e não em seu sentido histórico. O adjetivo “dura”, por mais que soe apropriado neste caso, nada tem a ver com ditadura além da sugestão que acidentalmente evoca.

O termo existe no português desde o século 16 e veio do latim dictatura, isto é, cargo ocupado pelo ditador – autoridade da Roma Antiga que, em situações de emergência que exigiam medidas extremas, era investida pelo senado de poderes absolutos por um período de até seis meses. Levando-se em conta a curta duração e o fato de não representar uma ruptura institucional, aquilo sim poderia ser chamado de ditabranda. Pelo menos até Júlio César, o último dos ditadores, manobrar como um Hugo Chávez da Antiguidade e se perpetuar no posto até morrer.

Isso significa que, do ponto de vista da formação da palavra, ditadura tem mais a ver com termos como cavalgadura, amargura e tortura, nos quais o sufixo -ura atua como formador de substantivos, do que com linha-dura ou cabeça-dura. Mas seu parentesco etimológico é mesmo com o verbo ditar. O ditador romano era assim chamado porque ditava leis e ordens que ninguém podia questionar.

O sentido de ditadura se expandiu desde então. Difícil melhorar a definição do Houaiss: “Governo autoritário exercido por uma pessoa ou um grupo de pessoas, que tomam o poder desrespeitando as leis em vigor, com supremacia quase absoluta do poder executivo, apoiado pelas forças armadas, e com o poder legislativo inexistente ou enfraquecido e subordinado ao poder do(s) ditador(es), o mesmo acontecendo com o judiciário, e onde geralmente não há estado de direito, imprensa livre, liberdade de associação, de expressão, nem eleições livres e regras claras de sucessão”. Como se vê, tivemos ditadura mesmo.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
27/02/2009 - 14:53

Quando todo mundo acordar escritor…

Peço licença para, correndo o risco de parecer obsessivo, citar mais um trecho do brilhante “O livro do riso e do esquecimento”, de Milan Kundera, que andou por aqui há pouco tempo. A atualidade destas palavras escritas em 1978 – muito antes, portanto, de haver sombra de internet no horizonte – tem algo de dolorosamente profético:

Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si mesmo e para todos os outros) ou nada. E porque nunca será dado a ninguém ser tudo, nós todos que escrevemos livros não somos nada. Somos desconhecidos, ciumentos, azedos, e desejamos a morte do outro. (…)

A irresistível proliferação da grafomania entre os políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes me demonstra que todo homem sem exceção traz em si sua potencialidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia com todo direito sair na rua e gritar: Somos todos escritores!

Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras.

Quando um dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
25/02/2009 - 16:05

NoMínimo, vida após a morte

Para quem ainda se lembra com saudade do NoMínimo, eis uma página boa de visitar. O site se espatifou em meados de 2007, mas a cola virtual junta os caquinhos. Obrigado à Shirlei Horta pela lembrança.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/02/2009 - 11:47

Começos inesquecíveis: Javier Marías

Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois de a menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensangüentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele.

Eis o início de “Coração tão branco” (Companhia de Bolso, 2008, tradução de Eduardo Brandão), romance lançado em 1992 pelo espanhol Javier Marías. Sem comentários.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/02/2009 - 00:10

Oscar

A origem do nome da estatueta careca que a Academia de Artes e Ciências de Hollywood distribuirá mais uma vez neste domingo 22 é controversa. A tese mais aceita sustenta que, em 1931, uma funcionária comentou que o prêmio – até então sem nome – lhe lembrava seu tio Oscar. A observação teria sido presenciada por uma jornalista de fofocas hollywoodianas e, por meio de sua coluna, ganhado o mundo. Há até quem acrescente que o sujeito imortalizado por acaso pela sobrinha era um fazendeiro chamado Oscar Pierce. Mas convém guardar algum ceticismo. A atriz Bette Davis também já foi citada como autora do nome, suposta gozação com seu primeiro marido, o músico Harmon Oscar Nelson.

Seja como for, não é a origem de Oscar que provoca controvérsia no português, mas seu uso. As dúvidas costumam se concentrar em dois pontos. O plural de Oscar é Oscars ou simplesmente Oscar? E naqueles casos, bastante freqüentes, em que a palavra tem o papel de substantivo comum – como no clichê jornalístico “Grammy, o Oscar da música” –, faz sentido, como querem nossos principais dicionários, escrever “óscar”?

Bem, o plural de Oscar é uma das questões sem resposta definitiva de que a língua é cheia. Na tradição do português, há ótimos autores que levam os nomes próprios para o plural – a vocação primordial de nosso idioma parece ser essa. A partir do século 19, porém, surgiram bons representantes da escola – influenciada pelo francês – que mantém os nomes invariáveis. A maior parte de nossa imprensa especializada opta hoje por escrever “três Oscar”.

Quanto à forma óscar, esta me parece, apesar de dicionarizada, um tanto canhestra e desnecessária. Em “Grammy, o Oscar da música”, a grafia com inicial maiúscula não representa problema algum se, em vez de substantivo comum, interpretarmos Oscar como um nome próprio empregado em função metafórica.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
19/02/2009 - 10:51

O blog é meu, ninguém tasca, eu vi primeiro!

De vez em quando eu dou para os outros, vocês, o endereço informático e depois me arrependo. Um blog ainda contém certos resquícios gutenberguianos. Feito a revista que a gente assina, recebe em casa e não empresta para ninguém, nem deixa exposta em cima de coffee table na sala de visitas. Nós, ou ao menos este criado que vos fala, quer exclusividades. Não estou aqui também, sou franco, para dar hit e page impression para malandro nenhum. Podem me fazer de dado estatístico, mas minha alma informatizada, nem que seja apenas para as aparências, continua sendo minha, só minha.

Ivan Lessa encontra paralelos insuspeitados entre o papel e a tela do computador. Imaginei um conhecido meu, com seu português de legenda de filme, interpelando o homem: “Mas, senhor Lessa, a internet é sobre compartilhando!”

Mas fiquei bem curioso para saber: será que mais alguém aí tem ciúme e sentimentos de posse em relação a seus blogs favoritos?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/02/2009 - 16:59

A recusa de um manuscrito em 99 versões

O livro mais engraçado que leio em um bom tempo é o recém-lançado “A arte de recusar um original” (Rocco, tradução de Pedro Karp Vasquez, 144 páginas, R$ 24), do escritor canadense de língua francesa Camilien Roy. A idéia é simples: Roy enfileira 99 cartas de recusa de originais, nos mais variados estilos, todas enviadas ao autor por editores a quem ele submeteu pelo correio o manuscrito de seu primeiro romance. Algumas dessas peças, supõe-se, devem ser baseadas nas que o autor de verdade recebeu um dia – como se diz no prólogo, ninguém, nem Proust, escapou disso –, mas o caráter furiosamente ficcional da brincadeira não demora a ficar claro. A vida real pode ser tão cruel quanto aquilo, sem dúvida. Mas não é tão divertida.

Em meio a uma variedade quase inimaginável de tocos editoriais, do mais rebuscadamente insultuoso (“O pântano pestilento que lhe serve de cérebro, e do qual o senhor extraiu a inspiração para essa nauseabunda aberração, me paralisa de desgosto”) ao mais cinicamente modesto (“Nossos recursos são insuficientes para enfrentar as responsabilidades decorrentes do estrondoso sucesso que lhe é predestinado”), passando por cartas em verso e em forma de peça teatral, aparecem de repente umas linhas que enchem de esperança o pobre escritor inédito:

Meu caro senhor,

Antes de tudo, permita-me dizer: Bravo! Seu manuscrito é perfeito sob todos os pontos de vista. Eu o adorei e não fui o único. Minha esposa, Viviane, e nossa contadora, Gisele, também ficaram fascinadas. Ambas o leram com lágrimas nos olhos. Sim, devo confessar que, por julgar seu livro tão excepcional, tomei a liberdade de fazer circular seu manuscrito para que outros pudessem sentir o mesmo prazer que tive ao lê-lo. Espero que o senhor não se aborreça com isso.

No começo, senti-me um pouco perdido. Sou um entusiasta dos policiais de Simenon e devo admitir que seu estilo me deixou um tanto exasperado. Mas, ao cabo de trinta páginas, eu estava completamente fisgado: impossível largar o livro sem terminá-lo. Não resta a menor dúvida de que seu livro será publicado. Contudo, devo dizer que houve um pequeno problema de endereçamento. Seu manuscrito chegou bem ao número 20 aqui da rua Vaugirard, mas acontece que nós não somos editores. Minha esposa e eu somos comerciantes, temos uma pequena loja de utilidades domésticas. Aqui o senhor pode encontrar verdadeiramente de tudo para o seu lar, mas, no que diz respeito à publicação de livros, nós não podemos ajudá-lo. O que lamentamos muito, diga-se de passagem.

No fim do pequeno volume, o comerciante de utilidades domésticas volta a dar as caras para um involuntário golpe de misericórdia no já quase comatoso escritor, mas não vou estragar a surpresa. A essa altura, de qualquer modo, faz pouca diferença: a mensagem está captada desde que o cara recebeu aquela outra cartinha:

Senhor,

A resposta é NÃO! NÃO! NÃO! Creio que fui claro.

E talvez o livro fosse até bom, quem sabe? Nós nunca saberemos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/02/2009 - 11:10

Começos inesquecíveis: Milan Kundera

Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio.

Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald.

O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus.

Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia do palácio. De Clementis, só restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald.

Assim começa “O livro do riso e do esquecimento” (Companhia de Bolso, 2008, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca), lançado em 1978 pelo tcheco Milan Kundera, que comecei a ler há poucos dias – seguindo uma dica de Philip Roth em “Entre nós”, comentado aqui no fim do ano passado – e não entendo como pode ter me escapado até hoje. O esquecimento é provocado, o riso é amargo e o livro é imperdível.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/02/2009 - 00:11

Antropofagia

A palavra antropofagia, que andou no noticiário esta semana, chegou ao português no século 19, por influência do francês, mas o membro mais antigo da família, antropófago, estreou em nossa língua em 1537. Foi o ano em que, com a grafia antropophago, ele apareceu na tradução que o matemático português Pedro Nunes publicou do clássico medieval “Tratado da Esfera” (Tractatus de Sphaera), do astrônomo Johannes de Sacrobosco.

É curioso pensar que, apenas onze anos depois do nascimento oficial da palavra em nosso idioma, desembarcou no país para uma estada infernal o mercenário alemão Hans Staden. Capturado pelos tupinambás, povo antropófago, Staden viveu meses como prisioneiro deles. Escapou milagrosamente de virar refeição e, de volta à Europa, publicou na Alemanha em 1557 “A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América”. Sucesso imediato de público, o livro é um dos mais saborosos relatos de viajantes europeus da época.

O costume bárbaro de comer gente, claro, não era novo – o latim tinha ido buscar a palavra no grego anthropo (homem) + phágos (que come) – mas as grandes navegações que estavam em curso davam uma atualidade sinistra ao termo. Poucas décadas antes, tinha surgido no espanhol a palavra caníbal, supostamente derivada do termo caribe, como os conquistadores chamavam diversos povos indígenas das Antilhas, especialmente os hostis e comedores de seres humanos. O termo canibal, sinônimo de antropófago, ganharia seu primeiro registro em português no início do século 18.

Em 1928, com seu famoso “Manifesto antropófago”, o escritor modernista Oswald de Andrade investiu o termo de um sentido simbólico: segundo ele, o caminho para uma arte verdadeiramente nacional num país periférico não seria a negação das influências estrangeiras, mas sua deglutição.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
12/02/2009 - 16:18

Livros no celular… e sem sotaque

Estava nu e do lado de fora do apartamento. Situação difícil em qualquer lugar do mundo. Mas aqui não é qualquer lugar. Aqui é o Rio de Janeiro. E no Rio é tudo praia, sol, Cristo, bunda, bala. Homem pelado aqui não é problema.

– Que porra é essa, meirmão?

O corredor vazio. Nove da manhã. Apenas o pelado e um careca.

– Meu senhor, a porta bateu. Fiquei na rua. Compreenda.

O sujeito ajeitou a calça e entrou no apartamento. Minutos depois, voltou com um calção vermelho.

– Agora vê se não vacila.

– Ô amigo, sem palavras.

Despediram-se com um leve sinal de cabeça.

O dia correu normalmente.

O continho paródico acima, uma boa zoação com Fernando Sabino, chama-se O homem vestido e faz parte do livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo. A novidade é que o livro está disponível para ser baixado gratuitamente e lido no celular, um dos sete títulos – todos inéditos – que a recém-criada Editora Plus, de Porto Alegre, lançou neste formato que os japoneses adoram. Enquanto as grandes casas editoriais não querem nem ouvir falar em livro digital, fingindo enquanto podem que o tempo parou, as pequenas se mexem – assim caminha a humanidade. Boa sorte à Plus.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/02/2009 - 19:03

A volta das cartas manuscritas?

Apesar da turbulência financeira, as vendas de canetas e papel estão disparando. Pode chamar de retro chic ou de esnobada nas engenhocas eletrônicas, mas as cartas e cartões estão vivendo um renascimento. E já era tempo, porque ninguém deixa de se impressionar com uma nota manuscrita.

Hmmm, será? O excelente The Elegant Variation, onde eu achei o link para esse artigo do “Daily Telegraph” (em inglês, acesso gratuito), acha que ele pode ser mais a expressão de um desejo do que o retrato de uma tendência. Além de serem frágeis os fatos apresentados para sustentar a tese, eu confesso que não consigo me lembrar de ninguém que ainda escreva cartas à mão. Você consegue?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/02/2009 - 17:00

Cortázar redescoberto

Na próxima viagem, sem dúvida, irei a Montparnasse, à Pont des Arts onde a Maga passeia, comerei a sopa de lentilhas de sempre do Pollydor onde, descubro hoje, se passa “62 modelo de armar”, um livro que não li. Mas aí já será uma outra Paris, soma fantasmagórica das que conheci em outros tempos e mais a dele, que, assim como quem não quer nada, voltou às prateleiras, às leituras, à vida.

A redescoberta de Julio Cortázar em Paris inspira uma bonita crônica de Paulo Roberto Pires em seu blog no site da “Bravo!”

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
08/02/2009 - 12:05

Começos inesquecíveis: Ralph Ellison

Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibras e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu.

Assim começa o prólogo de “Homem invisível”, romance lançado em 1952 com grande sucesso por Ralph Ellison (Marco Zero, 1990, tradução de Márcia Serra) e em geral considerado o ponto mais alto da literatura negra americana – o que bem pode ser verdade, embora eu confesse um fraco pela prosa mais fina de James Baldwin. Quando se fala em romance de tese (como acredito ser o caso aqui, com um “homem invisível” e sem nome que simboliza todos os negros vivendo numa sociedade racista), é difícil imaginar começo mais direto e eloqüente.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/02/2009 - 11:20

Maquiagem

“Governo maquia PAC com inclusão de obras antigas”, anunciava a manchete principal do jornal “O Globo” de quinta-feira, 5 de fevereiro. Ilustrando a notícia, uma foto gigante de Dilma Rousseff com maquiagem pesada, penteado de cabeleireiro e colar de pérolas – uma imagem de glamour até então inédito da ministra da Casa Civil, talvez o ponto culminante do processo de “suavização” de sua estampa que, com mira na eleição presidencial de 2010, teve início no fim do ano passado.

A graça dessa primeira página está na forma como texto e fotografia dialogam em torno do verbo maquiar, um francesismo que tem tanto a acepção positiva de cobrir de maquiagem com propósitos de embelezamento (sentido ilustrado pelo retrato de Dilma) quanto a negativa de mascarar, falsear (como o jornal afirma que o governo fez com o PAC).

Os dois sentidos estão ligados: embelezar e fraudar são ações fronteiriças, separadas pela linha nem sempre muito nítida entre a boa e a má-fé. O curioso é observar que, no idioma em que a palavra nasceu, o primeiro registro do verbo maquiller com o significado de falsificar é de 1815, cerca de um quarto de século antes de surgir, no jargão do teatro, a acepção de pintar o rosto. A fraude veio antes da vaidade.

Maquiller e maquillage derivaram do holandês maken, “fazer” (a mesma palavra que deu no verbo to make em inglês, língua em que maquiagem é make-up). Em seus primeiros séculos de existência em francês, as duas palavras queriam dizer apenas, respectivamente, “trabalhar” e “trabalho”. Mas foi seu sentido moderno que o português importou, aclimatando a grafia, em meados do século 20. No Brasil, embora o Houaiss insista em citar “maquilar” e “maquilagem” como formas preferenciais (existem ainda “maquilhar” e “maquilhagem”), a opção preferida pelo Aurélio e usada pelo “Globo” está além da consagração.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
Voltar ao topo