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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

26/12/2008 - 09:02

O trema vai-se tranquilamente

Fique tranquilo: não são tão frequentes assim as palavras que têm sua grafia alterada pelo novo acordo da língua portuguesa, que estreia oficialmente na virada do ano. Se a ideia o deixa paranoico, temendo uma sequência de erros que acabe em quiproquó, recomenda-se aguentar firme. Um parágrafo como este, com seus oito exemplos de alteração em poucas linhas, seria um acidente raro se não fosse deliberado.

Dos exemplos acima, a maioria tem a ver com a morte do trema. Abolido em Portugal desde 1946, esse sinal diacrítico tem seus simpatizantes, mas representa o menor dos problemas que aguardam os brasileiros nessa fase de transição ortográfica. Isso porque se trata de uma regra cristalina e, sobretudo, sem exceção: cinquenta, linguiça, delinquente, equidade, sequestrador… Basta abolir os dois pontinhos horizontais de tudo (menos, claro, de vocábulos estrangeiros, que estão sujeitos a outras regras) que não há como errar. Vale lembrar que a pronúncia dessas palavras permanece a que sempre foi. A reforma é ortográfica, ou seja, limita-se à forma de escrever.

Os demais exemplos do parágrafo de abertura se referem a outra mudança de impacto, no sentido de afetar um grande número de palavras, mas também de fácil assimilação por sua clareza. Em termos técnicos, estamos falando da queda do acento dos ditongos abertos ei e oi em palavras paroxítonas. Trata-se da regra que cria as grafias heroico, geleia, tipoia, patuleia – como sempre, mantendo-se a pronúncia. Essa mudança só é mais traiçoeira que a do trema por não afetar palavras oxítonas, isto é, cuja sílaba tônica seja a última. Os heróis e seus troféus permanecem acentuados.

A poda de acentos vai mais longe. Os circunflexos desaparecem de vocábulos como enjoo, voo, veem (do verbo ver) e leem (do verbo ler). Somem também os acentos que diferenciavam, por exemplo, pára (do verbo parar) de para (preposição) e pêlo (substantivo) de pelo (contração prepositiva). Isso cria a possibilidade de construir frases curiosas: “Ele para para comprar pão” ou “A água escorria pelos pelos do animal”. Nada que o contexto não esclareça.

O verdadeiro problema, no caso do extermínio dos acentos diferenciais, está nas exceções que comporta. Os circunflexos continuam vivos para distinguir pode de pôde, pôr (verbo) de por (preposição), tem (singular) de têm (plural). Quanto ao que discrimina fôrma de forma, passa a ser facultativo. E antes de dizer que isso parece confuso, convém dar uma espiada no capítulo do hífen.

As regras absurdamente tortuosas que regiam o uso do famigerado tracinho, a maioria com suas exceções, eram um dos pilares a sustentar o velho chavão de que “o português é uma língua muito difícil”. Nesse caso era mesmo, a tal ponto que até profissionais experientes tinham que recorrer ao dicionário com frequência. A má notícia é que, apesar dos esforços – tímidos – de simplificação, o hífen continua sendo um pesadelo. Sim, o pára-quedas agora é paraquedas e a auto-escola, autoescola. Em compensação, o microondas virou micro-ondas e o antiinflamatório, anti-inflamatório.

É pena, mas o mesmo acordo ortográfico que acabou com a hipocrisia de fingir que não existiam em nossa língua as letras k, w e y capitulou diante do hífen. Melhor conservar sempre à mão um bom dicionário. Pelo menos até a próxima reforma.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

25 comentários para “O trema vai-se tranquilamente”

  1. Pedro Curiango disse:

    Caro João Daltro: “Nosso caro Pedro Curiango, por exemplo, critica o acordo tendo-o lido numa edição vagabunda.””
    ++ Li-o também, como digo na minha intervenção, na edição mais oficial de todas, a que foi publicada pelo Congresso Nacional. SE CITEI A NOTA DE PÉ DE PÁGINA da “vagabunda” foi apenas para mostrar como se está recebendo o acordo, pelo menos aqui no Brasil… É lógico que o acordo será aceito… e continuará a mesma confusão e analfabetismo geral. Melhor seria que o governo deixasse de lado tudo que diz respeito à língua. Neste caso, seria bom seguirmos o exemplo dos EUA que nem sequer determinam uma língua nacional.

  2. César Dorneles disse:

    Quando será que as regras de hífen levarão em conta as necessidades da comunicação do povo em geral?

    Regras para tornar tudo mais complicado, bem ao gosto de um elitismo lingüístico insuportável.

  3. João Daltro disse:

    Caro Sérgio Rodrigues, desculpe se me expressei mal quando falei de seus exemplos, pois pelo visto não me fiz entender. O que quis dizer sobre o “pôr”, resumindo: não se pode acusá-lo de exceção a uma regra (mudança, o que for) que trata de paroxítonas; é coerente diante da regra geral (e aqui, coisa puramente normativa) de se acentuarem graficamente os monossílabos quando necessário. Quanto à pronúncia “teem” (dois “e”) do plural do verbo, sinto muito, mas ela jamais foi culta, pelo contrário, é mais um exemplo de “supercorreção” da linguagem popular, como pronunciar um “a” mais longo no tipo mais comum de crase assinalada (a + a, ou a + a…), ou pronunciar o “s” no dígrafo “sc”.
    Também não quis dizer que o acordo seja um monumento de lógica cartesiana, apenas reclamei de quem o chama de incoerente, coisa que ele não é. À exceção dos hífens, barafunda que ele, repito, não piorou, em tudo mais ele apenas simplificou, o que é sempre bem-vindo. A língua não é lógica, nem precisa ser. Qualquer tentativa de fixar a escrita tem a vida contada, mudanças virão inexoravelmente, mais cedo ou mais tarde.
    Claro que quem se der ao trabalho de ler e reler o acordo, e tiver bagagem linguística suficiente para entender todas as suas minudências (não é o meu caso), vai descobrir um bando de furos. Ou pelo menos de densas nebulosidades, espero que sem raios e trovões. Deixo a tarefa de enfrentá-las aos que têm (opa, ele de novo) competência, como o Bechara.
    De repente me deu a sensação de que todos aqui estamos falando a mesma coisa… e buscando argumentos como se estivéssemos discordando fundamentalmente. É bem engraçado. Nunca mais vou rir quando me disserem que os medievais se engalfinhavam pelo sexo dos anjos. Claro, hoje sabemos que os anjos são mulheres, etc., etc. (Vocês viram, eu ponho vírgula antes do etc. Vamos começar uma nova “briga”.)

  4. conceição disse:

    achei ótimo seu comentário nota dez só queria uma explicação por favor eu posso dizer que o trema realmente acabou ou eu posso dizer com exceção de alguns nomes estrangeiros se me fosse perguntado em uma prova eu teria que falar que esta instinto(está certa essa palavra )por favor poderia de auxiliar nessa dúvida ,desculpe-me meus erros de gramática ok estou tentando estudar,muito obrigada por seu carinho ,muitos abraços.

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