“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Antes que o ano vire, transformando o talão de cheques numa armadilha para o automatismo da mão apegada ao passado recente e, em sábia compensação, tornando cada vez mais raro à medida que o século envelhece o próprio uso desse mico-leão-dourado analógico chamado talão de cheques;
Antes, portanto, que seja tarde demais para dar a uma frase longa e convulsa como a do parágrafo anterior o desconto do urgente espírito retrospectivo impressionista que baixa todo fim de ano sobre escribas dos mais variados estilos e confissões;
Antes, enfim, que estourem fogos e rolhas e sacos, declare-se aqui com a clareza permitida pela ressaca do último espumante que, das leituras que fiz em 2008, não só o já mencionado “Austerlitz” merece citação nominal pela capacidade de se manter na memória;
Pois haveria grande injustiça em não lembrar livros como “Sem sangue” (Companhia das Letras), de Alessandro Baricco, e “Black music” (Objetiva), de Arthur Dapieve, duas novelas curtas tão diferentes e ao mesmo tempo tão curiosamente conectadas, com seu recheio de violência extrema e suas cenas finais de sexo carregadas de uma simbologia estranha, de uma luz triste mas ainda redentora – no caso do italiano, a cópula reinventada como agridoce vingança; no do brasileiro, o boquete inaugurado como um exercício de profundo humanismo;
Como seria também absurdo deixar passar sem menção dois livros que merecem ser lidos como grandes romances, embora em sentido estrito não o sejam, mas duas longas, ambiciosas e muitíssimo bem escritas reportagens: O santo sujo (Cosac Naify), de Humberto Werneck, sobre Jayme Ovalle, e “Os irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras), de Arnaldo Bloch, sobre a ascensão e queda de um império familiar; dois livros que ajudam a borrar as fronteiras cada vez mais borradas entre a História e as histórias, a pesquisa e a invenção, e de quebra nos ensinam que o destino é capaz de ter lá suas benevolências, feito a de plantar um estilista como Werneck no ponto de convergência de tantos vetores folclóricos ovallianos ou o de pôr no fim da linha de decadência empresarial dos Bloch um escritor de talento para imortalizar sua saga mais que romanesca;
Antes, assim, que 2009 nos deixe um pouco mais próximos do futuro sem literatura – “daqui a dez ou vinte anos” – previsto na “pergunta para si mesmo” que o jovem escritor americano Gary Shteyngart, com veia irônico-catastrofista, faz e responde na excelente terceira edição da “Granta” brasileira (Alfaguara), convém lembrar que o mesmo ano que levou prematuramente David Foster Wallace deixou Machado de Assis mais vivo do que nunca, o que de alguma forma parece suficiente para provar que todas essas profecias apocalípticas da moda não passam de galhofa infinita, ainda que escritas com a tinta da melancolia;
E lembrar, de resto – em meio a tantos livros que ficaram na fila para serem descobertos após a virada do calendário, como afinal deve ser mesmo –, que o “Diário de um ano ruim”, de J.M. Coetzee, saiu por aqui num ano bom. Feliz 2009 a todos.
O blog voltará a ser atualizado no dia 2 de janeiro.
Não restam muitas dúvidas de que 2009 será marcado por uma recessão econômica mundial: o debate entre otimistas e pessimistas se concentra agora apenas em sua duração. Apesar da sombra que essa perspectiva lança sobre um período tradicionalmente reservado para festejos e votos de esperança, pouco se pode fazer para amenizá-la além de lembrar que podia ser pior. A palavra do ano que vem podia ser depressão.
Qual é a diferença? Como a economia nunca foi uma ciência exata, isso depende de muitos fatores, desde a filiação acadêmica do falante até a posição que ele ocupa no jogo político entre situação e oposição. Ronald Reagan, ator e presidente americano, popularizou uma boa frase: “Recessão é quando seu vizinho perde o emprego. Depressão é quando você perde o seu”. Relativismo à parte, a definição geralmente mais aceita sustenta que, se o Produto Interno Bruto e o nível de emprego passam por um declínio de seis meses a um ano, temos uma recessão. A depressão começa a partir daí.
A palavra veio do latim recessionis, “ato de se afastar, recuo”, mas seu sentido econômico surgiu no inglês. Significativamente, fez sua primeira aparição em 1929, o ano da grande quebra da bolsa de Nova York – que, aliás, deflagraria bem mais que uma simples recessão, entronizando definitivamente a acepção econômica da palavra depressão na consciência do mundo, embora àquela altura fosse cedo para saber disso.
Segundo o dicionarista britânico John Ayto, da equipe do Oxford, há no vocábulo recessão “mais que um traço de eufemismo”, o que o torna parente de contorcionismos tecnocráticos como “crescimento negativo”. De fato, com seu jeitão técnico, a recessão parece ter surgido para jogar água na fervura do pânico que um termo como crise pode provocar. Mas isso foi no início. Hoje, desgastado o eufemismo, a palavra já não ameniza nada.
Fique tranquilo: não são tão frequentes assim as palavras que têm sua grafia alterada pelo novo acordo da língua portuguesa, que estreia oficialmente na virada do ano. Se a ideia o deixa paranoico, temendo uma sequência de erros que acabe em quiproquó, recomenda-se aguentar firme. Um parágrafo como este, com seus oito exemplos de alteração em poucas linhas, seria um acidente raro se não fosse deliberado.
Dos exemplos acima, a maioria tem a ver com a morte do trema. Abolido em Portugal desde 1946, esse sinal diacrítico tem seus simpatizantes, mas representa o menor dos problemas que aguardam os brasileiros nessa fase de transição ortográfica. Isso porque se trata de uma regra cristalina e, sobretudo, sem exceção: cinquenta, linguiça, delinquente, equidade, sequestrador… Basta abolir os dois pontinhos horizontais de tudo (menos, claro, de vocábulos estrangeiros, que estão sujeitos a outras regras) que não há como errar. Vale lembrar que a pronúncia dessas palavras permanece a que sempre foi. A reforma é ortográfica, ou seja, limita-se à forma de escrever.
Os demais exemplos do parágrafo de abertura se referem a outra mudança de impacto, no sentido de afetar um grande número de palavras, mas também de fácil assimilação por sua clareza. Em termos técnicos, estamos falando da queda do acento dos ditongos abertos ei e oi em palavras paroxítonas. Trata-se da regra que cria as grafias heroico, geleia, tipoia, patuleia – como sempre, mantendo-se a pronúncia. Essa mudança só é mais traiçoeira que a do trema por não afetar palavras oxítonas, isto é, cuja sílaba tônica seja a última. Os heróis e seus troféus permanecem acentuados.
A poda de acentos vai mais longe. Os circunflexos desaparecem de vocábulos como enjoo, voo, veem (do verbo ver) e leem (do verbo ler). Somem também os acentos que diferenciavam, por exemplo, pára (do verbo parar) de para (preposição) e pêlo (substantivo) de pelo (contração prepositiva). Isso cria a possibilidade de construir frases curiosas: “Ele para para comprar pão” ou “A água escorria pelos pelos do animal”. Nada que o contexto não esclareça.
O verdadeiro problema, no caso do extermínio dos acentos diferenciais, está nas exceções que comporta. Os circunflexos continuam vivos para distinguir pode de pôde, pôr (verbo) de por (preposição), tem (singular) de têm (plural). Quanto ao que discrimina fôrma de forma, passa a ser facultativo. E antes de dizer que isso parece confuso, convém dar uma espiada no capítulo do hífen.
As regras absurdamente tortuosas que regiam o uso do famigerado tracinho, a maioria com suas exceções, eram um dos pilares a sustentar o velho chavão de que “o português é uma língua muito difícil”. Nesse caso era mesmo, a tal ponto que até profissionais experientes tinham que recorrer ao dicionário com frequência. A má notícia é que, apesar dos esforços – tímidos – de simplificação, o hífen continua sendo um pesadelo. Sim, o pára-quedas agora é paraquedas e a auto-escola, autoescola. Em compensação, o microondas virou micro-ondas e o antiinflamatório, anti-inflamatório.
É pena, mas o mesmo acordo ortográfico que acabou com a hipocrisia de fingir que não existiam em nossa língua as letras k, w e y capitulou diante do hífen. Melhor conservar sempre à mão um bom dicionário. Pelo menos até a próxima reforma.
O dramaturgo inglês Harold Pinter morreu ontem, de câncer, aos 78 anos.
Nobel de Literatura de 2005, Pinter, muito doente, não pôde comparecer à cerimônia de premiação, mas gravou um discurso que foi exibido em Estocolmo. Então ficou claro que a saúde debilitada não tinha enfraquecido sua combatividade. O discurso incluía este irônico monólogo para George W. Bush – que àquela altura, convém lembrar, ainda tinha pencas de defensores ferrenhos por aí:
Deus é bom. Deus é ótimo. Deus é bom. O meu Deus é bom. O deus de Bin Laden é mau. É mau o deus dele. O deus de Saddam também era mau, a não ser pelo fato de que ele não tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos cabeças. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou um bárbaro. Sou o líder democraticamente eleito de uma democracia que ama a liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Aplicamos eletrocussões compassivas e injeções letais compassivas.
Por mais que seja revoltante confrontar dessa forma um dos grandes escritores do século 20 com um anão moral, não deixa de ser tentador pensar que, agora que Bush está (espera-se) politicamente morto, Pinter pôde finalmente se deixar morrer também.
A íntegra do seu discurso de aceitação do Nobel pode ser lida no site oficial de Pinter. Ali ainda não se fala de sua morte. Mas fala-se bastante de sua vida (e obra), que afinal é o que importa.
Leia aqui, em inglês, a matéria do “Times” de Londres.
Às sete horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.
— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.
O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.
— Eu acho que o jeito…
O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.
O “Conto de Natal” do maior cronista brasileiro está muito longe de ser daqueles que aquecem o coração. Mas é bom. Feita essa advertência, clique aqui se quiser ler a história inteira, publicada no site Releituras. Feliz Natal.
Eu tinha decidido não fazer uma retrospectiva este ano – não uma convencional, pelo menos, daquele tipo que elege os três ou cinco ou dez melhores livros que me passaram pelos olhos entre janeiro e dezembro. E não só porque o formato me parece meio cansado, mas porque 2008 para mim foi um ano de leituras atípicas. Li muito, mas de forma dirigida e sobretudo obras de não-ficção, como pesquisa para o romance histórico que estava escrevendo. O resultado foi que boa parte dos romances e contos que teriam me interessado em condições normais engarrafou numa fila monumental.
Foi o convite do Daniel Lopes, editor do Amálgama, que me obrigou a revirar a memória para buscar o livro mais marcante que li em 2008 – e só então descobri que o ânimo retrospectivo que assola a imprensa todo fim de ano tem lá sua razão de ser. Sem essa pauta, acho que eu não teria me tocado de algo que parece, mais que óbvio, necessário: meu romance (agora pronto) não passou o ano cercado apenas de velhos volumes de História e montanhas de recortes de jornal.
Reproduzo abaixo o textinho que saiu hoje no Amálgama. Para ler as indicações dos outros quinze escritores e jornalistas entrevistados pelo site, clique aqui.
O estranho “Austerlitz” (Companhia das Letras, 2008), do não menos estranho W.G. Sebald, foi minha leitura marcante do ano que está terminando. Talvez estivesse destinado a garantir essa primazia em qualquer situação: é absurdamente original seu modo de insinuar uma história dramática por meio – ou mais propriamente por trás – de uma linguagem fria e minuciosa de acadêmico; é de cortar os pulsos a desolação da paisagem interior que o personagem-título, um judeu que teve a família e a própria memória massacradas pela Segunda Guerra, projeta nas fortificações e estações ferroviárias européias que são seus objetos de estudo. Às vezes parece que, mais do que tema, a História sopra cada palavra da narrativa.
Só que, como se tudo isso não bastasse, entrou em cena o acaso, um dos deuses brincalhões da História segundo Sebald: li “Austerlitz” num momento em que escrevia meu novo livro, também ele um romance histórico, chamado “Elza, a garota”, a ser lançado em março pela Nova Fronteira. Contra a influência direta acho que me protegi bastante bem (seria preciso ter uma autoconfiança sobrenatural para arriscar um estilo tão monótono e não-romanesco), mas talvez fosse inevitável que ecos de “Austerlitz” ficassem escondidos aqui e ali, atrás de certas esquinas do texto. Aquele sopro da História não é fácil de esquecer.
Irmãos humanos, permitam-me contar como tudo aconteceu. Não somos seus irmãos, vocês responderão, e não queremos saber. É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês. Corre o risco de ser um pouco longa, afinal aconteceram muitas coisas, mas, se calhar de não estarem com muita pressa, com um pouco de sorte arranjarão tempo. Além do mais, isso lhes diz respeito: vocês verão efetivamente que lhes diz respeito.
A voz metálica de Max Aue, o ex-nazista monstruoso – mas, ele tem razão, humano – que carrega uma história “um pouco longa” de 900 páginas e 6 milhões de mortos para contar, preenche o início de “As Benevolentes” (Alfaguara, 2007, tradução de André Telles), de Jonathan Littell, com uma ressonância sinistra que, entre modulações mais ou menos violentas, persiste até o fim. Quem se interessar em saber mais sobre o romance, um grande livro grande, pode ler a resenha que publiquei na época aqui.
Os sapatos que o jornalista iraquiano Muntazer Al Zaidi atirou em George W. Bush com excelente pontaria – mas não tão boa quanto o reflexo do presidente americano ao se desviar dos petardos – têm tudo para ficar na história como a imagem mais marcante de um melancólico fim de mandato. O peso simbólico da cena já era evidente antes mesmo de sermos informados de que, na cultura árabe, é um insulto humilhante atirar calçados contra alguém. Pouco importa que, na Europa da Idade Média, um costume de origem obscura considerasse o mesmo ato um gesto simpático, equivalente a um voto de boa sorte.
Para os propósitos desta coluna, a elevação de um objeto tão corriqueiro ao estrelato do noticiário político internacional é uma oportunidade única para abordar um aspecto bem diferente da questão: a posição singular ocupada pelo sapato, que é um artefato dos mais – digamos assim – pedestres e rasteiros, mas ao mesmo tempo um dos grandes mistérios etimológicos ocultos em nosso vocabulário cotidiano.
Os etimologistas nunca conseguiram sequer chegar perto de um acordo sobre a origem do termo português sapato, do espanhol zapato, do francês savate, que significa sapato (ou chinelo) velho, e do italiano ciabatta, pantufa, chinelo – todos surgidos entre os séculos 12 e 13. A aposta que sempre concentrou mais fichas, embora não se possa chamá-la de vitoriosa, foi o árabe zabat (segundo Antenor Nascentes) ou sabbat (como prefere Silveira Bueno). Mas o primeiro estudioso enumera outras teses, numa lista que inclui desde o grego diabathron, calçado feminino, até o persa xabat, passando pelo turco chabata e pelo vasconço zapata. (As grafias reproduzidas aqui são as do dicionário de Nascentes.)
O que isso prova? Nada, é claro. A não ser que, muito antes de voar na direção de Bush, o sapato já era uma pedra no sapato dos filólogos.
Desconfio das palavras “pessimismo” e “otimismo” – diz Milan Kundera. – Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. Não sei se minha nação vai morrer e não sei qual dos meus personagens tem razão. Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e dessa maneira faço perguntas. A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo. Quando dom Quixote saiu pelo mundo afora, esse mundo se transformou num mistério diante de seus olhos. É esse o legado que o primeiro romance europeu deixou para toda a história subseqüente do romance. O romancista ensina o leitor a compreender o mundo como uma pergunta. Nessa atitude há sabedoria e tolerância. Num mundo baseado em certezas sacrossantas, o romance morre. O mundo totalitário – seja ele baseado em Marx, no Islã ou em qualquer outra coisa – é um mundo de respostas e não de perguntas. Seja como for, creio que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar e não compreender, responder e não perguntar, de modo que a voz do romance é difícil de ouvir em meio a toda a tagarelice insensata das certezas humanas.
O luminoso trecho reproduzido acima é a parte final da entrevista que Milan Kundera deu a Philip Roth em 1980 e que faz parte do livro “Entre nós – um escritor e seus colegas falam de trabalho”, recém-lançado aqui pela Companhia das Letras com tradução de Paulo Henriques Britto (176 páginas, R$ 36). É um prazer ver um grande escritor como Roth assumindo o papel quase humilde de entrevistador, ou seja, jornalista, para conversar com pares do gabarito de Kundera, Primo Levi e Isaac Bashevis Singer sobre as agruras e recompensas do ofício que têm em comum – o grande tema unificador do livro, embora a discussão do judaísmo na literatura chegue perto de lhe roubar essa primazia.
Não que Roth seja um jornalista típico. Suas próprias teses, algumas rebuscadas, ficam sempre claras, deixando evidente a maior parte do tempo que estamos diante de uma conversa de iguais mais do que de uma entrevista. Mas a humildade é marcante em diversas passagens, como quando Primo Levi desmonta com um simples “não concordo” as longas digressões de seu interlocutor, e mais ainda na reprodução da crítica pesada de “anti-anti-semitismo patológico” que Mary McCarthy lhe faz por carta – uma crítica que Roth rebate, mas não deixa de registrar integralmente.
E não porque ela, a crítica, tenha sido indolor, como o próprio Roth sugere em outro capítulo, ao narrar seus encontros com Bernard Malamud, escritor judeu da geração imediatamente anterior à sua:
Embora na maioria dessas ocasiões eu e Bern terminássemos falando sobre livros e o trabalho do escritor, um quase nunca mencionava a obra do outro, observando uma regra jamais escrita que rege o comportamento dos romancistas, tal como o de jogadores de times rivais, que compreendem que é impossível ser totalmente sincero por maior que seja o respeito mútuo. Segundo Blake, “a oposição é a verdadeira amizade”, mas embora a frase pareça de um vigor admirável, em particular para aqueles que gostam de discutir, e embora no melhor dos mundos possíveis talvez ela fosse aplicável, em meio aos escritores deste nosso mundo, em que a mistura de suscetibilidade com orgulho pode se tornar muito explosiva, as pessoas se contentam com algo um pouco mais ameno do que a oposição desabrida, senão se torna impossível fazer amigos entre seus pares. Até mesmo os escritores que adoram oposição normalmente não agüentam mais do que a dose que recebem no seu trabalho cotidiano.
Não apenas para escritores, mas para qualquer pessoa envolvida com literatura de forma menos casual, eis um presente de Natal de sucesso garantido.
Enquanto isso, vão crescendo os sinais de desespero nas hostes estropiadas de uma certa “literatura do caralho”:
Eu sou bom pra caralho, e se vocês não concordam, vão todos se fuder!
Meus amigos também são bons pra caralho. E o Tezza é uma merda. O Tezza não é meu amigo, porra! Nunca respondeu meu email. E vão todos se fuder.
Não concordam, seus ridículos, idiotas, débeis mentais? Então vão cagar pra dentro! Sentar numa touceira de pica! Agasalhar uma brachola bem gorda!
Manja se fuder? Pois é. O Lula falou sifu, eu não, que eu não tenho essas etiquetinhas de burguês, porra! Eu incomodo mesmo e foda-se. Se fuder, valeu? Fu-der!
Seus filhos bastardos de uma égua leprosa, pederastas escrotos, eu sou tão bom! Publicado ou não, lido ou não, solenemente ignorado ou não, publicamente humilhado ou não, eu sou bom, bom, bom, booooom! Entenderam ou querem que eu repita? Sou, porra. Meus amiguinhos também.
O Tezza não. O Tezza é uma merda. Novela das oito perde, uma merda inacreditável. Se a gente tivesse neste país uma crítica de alto nível, com argumentos de verdade, não sobrava nada dele. Mas o nível de vocês é tão baixo, tão baixo! Eu não agüento isso.
O Hatoum também. O Hatoum é outra bosta. O Bernardo Carvalho, nem se fala. E mesmo esse tal de Galera aí, jovenzinho e tal, sei não… E os caras ainda são premiados, porra. E lidos! Sinceramente, não dá pra agüentar. Comigo, não! Eu cultivei um pezinho de literatura silvestre aqui no quintal e ele floresceu que é uma beleza. Sou bom, mais que bom, sou bom pra caraaaaalho!
Ah, não concordam? Então vão todos se fuder, seus imbecis do caralho! Aprendam a ler. Aprendam a me ler. Leitorezinhos de merda, paisinho de merda, grunf-grunf pra vocês!
Presente de Natal do YouTube, esse Papai Noel moderno: Vladimir Nabokov falando longamente de literatura em seu inglês de forte sotaque russo num documentário narrado em francês (via Omnivoracious, o blog da Amazon). Além de ler as primeiras linhas de “Lolita” em seu idioma natal e naquele que adotou, o grande escritor despeja diante da câmera, com uma marra monumental que me pareceu temperada por uma leve mas inequívoca sugestão de molecagem, strong opinions mais devastadoras que as de qualquer personagem de Coetzee. Como estas:
Fico perplexo e me divirto com as idéias fabricadas sobre supostos “grandes livros”. Que, por exemplo, o asinino “Morte em Veneza”, de Mann; o melodramático e pessimamente escrito “Doutor Jivago”, de Pasternak; ou as crônicas caipiras de Faulkner possam ser considerados obras-primas, ou pelo menos aquilo que os jornalistas chamam de “grandes livros”, é para mim o mesmo tipo de ilusão de quando uma pessoa hipnotizada faz amor com uma cadeira.
Nunca é demais lembrar: ano que vem a Alfaguara brasileira participa do lançamento mundial de The original of Laura, um Nabokov inédito.
É bem bonitinha essa animação – uma cidade toda feita de livros, pela qual transitam personagens de papel – que o selo editorial americano Fourth Estate, da HarperCollins, lançou na internet para comemorar seus 25 anos. (Dica do blog de livros da “New Yorker”, que recomenda o filminho para quem anda cabisbaixo com a morte anunciada do livro de papel.)
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; (…)
Nunca, na literatura brasileira, teve a velha quiromania, o onanismo, a punheta, o cinco-contra-um tratamento verbal tão suntuoso quanto no início – aqui em corte arbitrário, pois os pontos-e-vírgulas ainda vão longe – do romance “Lavoura arcaica” (Companhia das Letras, 3a. edição, 1989), obra-prima publicada em 1975 por Raduan Nassar.
Bem que a língua portuguesa tentou forjar um similar nacional: mercadologia e até mercadização são palavras dicionarizadas, mas de aplicação cada vez mais rara na vida real. O vocábulo importado diretamente do inglês, marketing, sem outra adaptação que não a do sotaque local, acabou prevalecendo de tal forma que suspirar hoje por seus sucedâneos fracassados seria tão cômico quanto lamentar que o futebol não se chame balípodo ou ludopédio. Pois é mesmo no marketing e não no balípodo que, pelo menos até prova em contrário, Ronaldo Fenômeno continua sendo craque.
Segundo o Houaiss, a língua de Henry Ford viu nascer por volta de 1920 a moderna acepção de marketing, palavra que até então era apenas a forma nominal do verbo to market, “negociar”. Surgia a acepção de conjunto mais ou menos organizado de técnicas comerciais com foco fechado no consumidor, que desse modo deveria ser sondado por meio de pesquisas, bajulado por campanhas publicitárias e acompanhado no chamado “pós-venda”. O mesmo dicionário registra a chegada do termo por aqui em torno de 1960. Hoje, quando não existe uma única área da atividade humana em que o marketing não se aplique, já há descendentes locais, como o termo (pejorativo) marqueteiro.
A raiz da palavra inglesa é idêntica à do nosso mercado: o latim mercatus, “comércio, negócio”, que por sua vez saiu do verbo mercare, “negociar”. E por que, se tem DNA latino, o marketing resistiu a ser traduzido? A resposta não é simples, e provavelmente inclui em algum momento o reconhecimento de que, para a cultura brasileira contemporânea, qualquer coffee break será sempre aguardado com mais ansiedade que uma simples pausa para o café. Por que os shopping centers nunca emplacaram como centros comerciais? Talvez porque dessa forma vendam mais. No fundo, uma questão de marketing.
Escritor, publicou o romance histórico “Elza, a garota”, além de “O homem que matou o escritor” e “As sementes de Flowerville”, entre outros livros. Jornalista, trabalhou como repórter, colunista e editor na maioria das principais empresas de comunicação do país. Mineiro, vive há trinta anos no Rio. sergio@todoprosa.com.br