América II
Na semana passada falamos sobre o hábito que têm os americanos de chamar de América um país que, em nossa língua, é conhecido como Estados Unidos. Sem pretender lhes negar o direito de se referir desse modo a seu país, o argumento usado aqui foi o de que o português tem sua história, seu próprio jeito sedimentado ao longo de séculos, e ao não respeitá-lo corremos o risco de resvalar no servilismo cultural.
Curiosamente, o raciocínio que recomenda evitar em nosso idioma a palavra América como nome do país de Barack Obama é o mesmo que nos incentiva a chamar seus nativos de americanos. Contradição? Num certo sentido, sim. Mas não se for levada em conta a tradição. Faz tempo que chamamos os americanos de americanos, um gentílico consagrado por, entre outros, o mais-que-canônico Machado de Assis.
Um exemplo: em seu famoso ensaio Instinto de nacionalidade, Machado, ao citar o poema épico Song of Hiawatha, chama seu autor, Henry Wadsworth Longfellow, de “cantor admirável” da “terra americana”, assim como Shakespeare o é da inglesa. Não se trata de dizer que está certo porque Machado escreveu, mas de provar que esse uso está enraizado em nossa cultura.
A crítica mais comum a esse sentido de americano não encontra sustentação lingüística alguma: a de que, como americanos somos todos os nascidos nas três Américas, tal uso está simplesmente “errado”. Uma lógica que deixa de levar em conta um princípio básico das línguas: palavras podem ter mais de uma acepção. Americano é uma coisa sem, naturalmente, deixar de ser a outra.
É claro também que a minoria de falantes que, quase sempre por razões político-ideológicas, prefere o sabor vagamente espanholado do termo estadunidense (ou estado-unidense), tem todo o direito de fazê-lo. Mas não o de acusar de vendido ou ignorante quem se atém à corrente principal da língua.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
Em nome do bom senso e da observação de como funcionam as línguas, sou obrigado a concordar com o Sérgio Rodrigues. O fenômeno lingüístico é comum. Não há garantias de que na evolução do sentido das palavras elas assumam sempre sentidos que respeitem a lógica. Os sentidos são sociais. Chamar os norte-americanos de americanos não tem nada de errado, nem revela qualquer tipo de subserviência ou servilismo e coisas do gênero. Mesmo que um estudo da origem do uso dessa palavra mostre seus compromissos com certa ideologia imperialista, a história do uso da palavra se encarregou de apagar da memória esses compromissos. O Sérgio acertou em sua observação e o gentílico é adequado para uso.
Sérgio,
Tomei a liberdade de fazer a paródia porque o próprio Oswald usava esse recurso e achei os temas afins.
Fábio, a sacada foi muito boa e a realização, melhor ainda. Perguntei porque queria saber a quem dar os parabéns. Parabéns e abraço.
Como eles não conseguiram criar exatamente um nome, mas uma sigla de uma federação, algumas vezes usurpada de outros, ficaram sem opção (assim como não conseguem expressar, em sua língua, a shakespeariana e fundamental diferença entre “ser” e “estar”). Se quiserem, poderiamos chamá-los de “EUAnos” ou no original, “USAnos’ (“useans”), hehe
Não vou repetir aqui os palpites que dei sobre o assunto no tópico anterior, não quero dar uma de chato. Mas o exemplo fornecido pelo Sérgio Rodrigues nada tem a ver. Machado não estava se referindo ao país Estados Unidos ao falar de “terra americana”, mas sim ao continente. Terra americana como é terra americana o Brasil ou qualquer outro país da América, incluídos os EUA. Como o Sérgio deve conhecer bem a literatura brasileira da época de Machado, sabe que a consciência de ser América calava fundo em nossos autores de então, principalmente nos indianistas – basta ver a Iracema, do José de Alencar, que todos nós aprendemos desde os bancos do primário ser um anagrama de América. Então, embora ele esteja certo em defender que cada um chame os EUA e seus nativos do jeito que quiser, o exemplo utilizado é mais do que fajuto.
Vamos para de procurar cabelo em ovo – é somente uma América dividida em três partes – NORTEAMERICANOS – CENTROAMERICANOS E SULAMERICANOS e pronto ai cada pais tem a sua denominação, (mexicano, gaualtemalteco, estadunidense, canadense, brasileiro, argentino etc.) não tem nada de ideológico de ser contra ou a favor é só seguir a regra formal e pronto – o resto é falta de assunto.
João Daltro: desculpe, mas fajuto é o seu “raciocínio”. No ensaio “Instinto de nacionalidade” (atenção para o título!), Machado usa a palavra americano como gentílico para nativo dos EUA mesmo. “Terra americana e inglesa”, com Longfellow como exemplo de uma e Shakespeare da outra. Você acha que Machado era tão mau escritor que propusesse uma simetria entre um continente, de um lado, e um país do outro? Não, não era.
O que me leva à conclusão de que isto aqui virou um diálogo de surdos. Existe mais de uma acepção de americano, o que há nisso que seja tão difícil de entender?
Aliás, em resposta a um monte dos comentários acima e como eu já disse no texto da semana passada, vale observar que o nome do país dos caras é América mesmo. Espertíssimo branding: eles são os Estados Unidos da América como nós já fomos os Estados Unidos do Brasil. Tem arrogância imperialista em “americano”? Claro que tem. Sem deixar de ter também uma derivação irretocável. Mundo complicado, não?
No mais, como eu disse no texto acima, buscando um equilíbrio democrático, quem quiser usar estadunidense (forma pernóstica, mas isso é apenas o meu gosto) tem todo o direito de fazer isso. Só não vale inventar argumentos “científicos” toscos para tentar dirigir a língua. Ela não se deixa dirigir tão facilmente, ainda bem – e acreditar no contrário é prova de ingenuidade ou coisa de gente autoritária, que só consegue encarar um debate na base da desqualificação do outro.
Abraços.
O problema não é a língua ou a palavra pronunciada seja estado-unidense ou americano, o problema é como esta palavra pode ser usada para afirmar ou não um continente sem fronteiras onde existam estados com pessoas consideradas de primeira e de segunda classe.
Onde para uns existam fronteiras intransponíveis e para outros, não.
Onde uns sejam considerados libertadores e catequistas e outros sejam considerados terroristas e malfeitores.
Se um dia o homem chegar a conclusão de que suas verdades nem sempre são as verdades do outro e houver respeito mútuo sobre tudo, aí sim as fronteiras poderão ser extinguidas sem traumas.
Até lá sempre haverá resistência nem que seja interior e contida e esta é a mais perigosa sendo uma ferida aberta.
Existem exemplos de feridas abertas em outros continentes que sempre serão contestados, mesmo porque os interesses são enormes e quem sempre pagará por isso são os inocentes que fecharão os olhos.
Vou apontar só uma ferida e sei que serei contestado se alguém ler o texto.
POVO BASCO na Espanha.
Acho que tudo isso passa pela política da educação. Já não sabemos quem somos e nem quem são os outros. Perdemos referências. Somos viciados em coca-cola e adoramos hamburguer. O que é de fora, é sempre melhor. Não gostamos de filmes brasileiros, nâo valorizamos a nossa cultura. As escolas comemoram o Halloween todo ano, mas ninguém se lembra do dia 22 de agosto. As nossas vitrines, em época de natal, são decoradas com neve, pinheiro e um velho branco de bochechas avermelhadas, uma roupa de frio vermelha e superquente conduzido por renas. Portanto, não há como falar de uma coisa, sem falar de outra. Tá tudo embutido, ligado, efeito cadeia. De quem é a culpa? A propósito, o que você acha da educação no Brasil?!!! Isabel Cristina
Percebo que a discussão é irrelevante e o que devemos é trabalhar para um futuro melhor em nosso país, hoje o Brasil é respeitado, fruto do trabalho árdua dos seus filhos. Vamos sim, ficar orgulhosos de ser chamados de brasileiros, os deixem serem chamados de americanos, afinal, devem ter vergonha do nome “deles”.
O que tem no dia 22 de agosto?
A maioria dos paises sao divididos em estados (inclusive paises da America do Norte, Central e Sul). Usar o nome do continente americano e colocar o nome “estado” parece estranho. Que tal fazermos uma peticao para o governo dos EUA mude de nome ou melhor ainda podemos mudar o nome do nosso pais. Que tal mudarmos o nome do Brasil paral Estados Unidos do Mundo (EOM) ou Estados Unidos do Planeta (EUP). Sera que fariamos os cidadaos dos outros paises invejosos?
Adorei quando alguém disse que Tio Sam foi um presidente americano.
Olha, neologismo pra “americano” acho que ele não criaria, não, mas talvez usasse mesmo o “estadunidense”. Agora, pra brasileiro tenho certeza de que ele arrumaria uma forma de latinizar a coisa: brasinatus, ou algo do gênero. :-)
Não. Disseram San, Tio San. Tio Sam todos sabem que se trata daquele vovô simpático da série The Waltons. Ou será Bonanza? Minha memória anda me pregando peças ultimamente.
Good night Jonh Boy…
22 de agosto?
Sera que os habitantes da Africa do Sul não podem ser chamados de sul-africanos, porque existem outros paises no sul da Africa.
Tremenda bobagem essa de “estadunidense”, se o termo “americano” ja foi popularizado, ele sim é o correto, sem por isso deixarmos de ser todos cidadãos americanos, no sentido de nascer no continente americano.
Estadunidense é um termo tão carregado -e fétido- quanto americano, simples e puramente…sendo assim, continuo com “norte-americano”, o mais neutro, ao meu ver, de todos os termos em discussão…
Tem razão, o blogueiro. Eu mesma já tentei usar estadunidense e reclamar de quando eles se referem aos EUA como américa, mas esse texto, assim como argumentos sensatos de amigos e outros, já me fizeram mudar de idéia. Tudo isso é bobagem. Deixa eles se chamarem de américa e deixa a gente chamar eles de americanos. Não muda nada trocar palavras…é chato!
Acho que a questão toda é uma raiva histórica, mas isso é outra bobagem num mundo que está prestes a dar uma virada também histórica. Somos todos do planeta terra, isso é que importa.
Senhor… Como o pessoal que contraiu a gonorréia juvenil do esquerdismo é chato…
Belo texto, Sérgio.
Eu ainda falo americano, mas aposto que estadunidense vai crescer ainda. Esse negócio de tentar estereotipar o falante é ridículo em ambos os lados da discussão. Eu sou de esquerda e falo americano. Conheço gente que tá bem longe de esquerda que fala estadunidense.
O pessoal tem que entender que usar termos fortes como “fétido” e tentar imaginar um oponente pra bater pode ser muito divertido e gratificante, mas é ridículo pra quem vê.