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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

11/11/2008 - 11:24

Carta aberta aos leitores da Copa

Reproduzo aqui o comentário que publiquei no site da Copa de Literatura Brasileira, da qual sou um dos jurados este ano. Um reconhecimento de derrota que é ao mesmo tempo uma tentativa de salvar o que for possível. A luta continua.

Caros,

Enquanto minha resenha não vem (o que fazer, se já tinha me comprometido?), gostaria de explicar por que considero a Copa 2008 um fracasso. Divertida, pode ser, num sentido meio espírito-de-porco. Mas um desperdício e uma tristeza.

Não é de hoje que o clima por aqui andava beirando o das torcidas organizadas, mas o fator decisivo para o bolo solar foi a não-resenha dadaísta de André Sant’Anna. Ao investir corajosamente contra uma cidadela imaginária, desconstruir o que está em farelos há décadas, ela ganha leituras como a de Isaac, entre tantas semelhantes – “todo julgamento é estúpido, tudo é válido, viva a liberdade total etc.”

Topei participar da Copa porque via nela um belo fórum para provar – democraticamente, mas provar – justo o contrário. A saber:

1. Que precisamos reaprender a julgar, reencontrar uma linguagem comum para debater mérito. Devemos isso a nós mesmos e principalmente aos leitores. O preço do fracasso é a irrelevância.

2. Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.

3. Que existem, óbvio, fundamentos que alguns dominam, outros dominam mais ou menos e outros não passam sequer perto de vislumbrar. Nem todo mundo é escritor.

4. Que o discurso crítico é algo que, idealmente, deve ser desenvolvido muito acima da rede de alianças e amizades (ou inimizades!), por mais difícil que isso seja na prática.

5. Que a divergência continuará existindo, mesmo porque as estratégias para se chegar à meta serão sempre inumeráveis – como as próprias metas, aliás. O papel decisivo da subjetividade está garantido, sobretudo na “disputa” entre livros de qualidade semelhante. Mas isso não tem nada a ver com anomia babaca.

Como pode ver qualquer um que acompanhe isso aqui, a balbúrdia chegou a um ponto em que essas pretensões iniciais parecem definitivamente derrotadas. “Perdeu, perdeu.” Reconhecer a derrota é parte fundamental do jogo.

Mas continuo achando que a idéia era boa. Quem sabe um dia.

Abraços.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

44 comentários para “Carta aberta aos leitores da Copa”

  1. Rafael Rodrigues disse:

    O problema, a meu ver, é que um dos pontos principais da Copa era mostrar, se é que não mudaram isso também, como funciona um prêmio literário em suas minúcias (nossa, falei certo? tanta gente falando bonito e cheio de pompa por aí que fico até com medo). Ou seja: mostrar porque tal livro foi escolhido e não o outro. Como boa parte das pessoas supõe, alguns jurados acabam favorecendo amigos, votando em livros que não leu e tal. A curadoria de um Portugal Telecom, por exemplo, não tem como controlar isso. Por isso é que colocam como jurados pessoas que têm uma certa reputação no meio. Mas, é claro, às vezes acaba acontecendo o voto por amizade. Acontece que, e isso eu pensei depois de ler o texto do Sant’Anna, pra quê isso, na Copa? Se quase todo mundo acha que tem voto por amizade no Jabuti, no PPT etc., a Copa não poderia ser um “prêmio” (entre aspas porque, pelo visto, os escritores participantes estão ganhando é dor de cabeça, bem como alguns jurados) que fugisse justamente disso? Ou seja: que fosse um torneio no qual os jurados escolheriam os livros que acharam melhores, fosse quem fosse o autor, com justificativas sensatas? Concordo com o Sérgio. Sobre a questão dos critérios, até o da moedinha tava valendo, no caso de um empate. Mas o “critério” do Sant’Anna é dose. E outra: esse negócio de “ah, o texto vale pelo debate que causou” é conversa fiada. Ou então, façamos assim: todo mundo sai falando os absurdos que quiser e vamos começar debater. Quer dizer, só se for debater como fizeram umas torcidas religiosas organizadas em Jerusalém, se não me engano.

  2. Rafael Rodrigues disse:

    Ah, nossa, esqueci de falar sobre o Tezza: se ele ganhou o Jabuti e o PPT, certamente não foi por favorecimento. O cara competiu com os queridinhos-mor da literatura e do jornalismo não só do Brasil, mas também de Portugal. Então, mesmo eu não tendo lido ainda o livro dele, não tenho medo de afirmar que as conquistas foram mais que merecidas. O Tezza, me parece, não é escritor-de-brinquedo. O cara leva a sério o que faz.

  3. A algaravia é tão grande lá que demorei a encontrar o Tiago A.

    Sim, é uma luz.

  4. JULIO disse:

    ” Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.”

    Isso que você escreve deveria ser traduzido para todas as línguas do mundo. Parabéns pela inteligência e intensa verdade no que escreve.
    Meus alunos terão de ler isto.

    Júlio

  5. André Sant'Anna disse:

    Sérgio, querido. A minha resenha não foi uma piada. Acho mesmo que a c’rítica literária brasileira carece de generosidade. Vocês, críticos sérios, passam a maior parte do tempo atacando as pessoas, procurando defeitos na obra dos outros. Creio que é para se sentirem importantes. A arte não é algo tão nobre assim. Já foi até, mas não é mais. E aqueles que querem alcançar uma posição “especial” na sociedade, fazendo arte, ou criticando arte, acabam sendo pernósticos a maior parte do tempo. Sim, não. é impossível dizer que um livro é melhor do que o outro. Mas ainda preciso entrar no site da Copa e ver o que está acontecendo. Mas fique tranquilo, querido, o seu livro é melhor do que o meu. Você ganhou de mim na Copa do ano passado. Com certeza, porque o juiz era alguém com critérios, muito diferente do juiz da fase seguinte, que eliminou o seu livro na fase seguinte e ainda deu uma sacaneada. De todo modo, não nasci para a crítica literária, embora eu tenha sido absolutamente sincero na minha resenha para a Copa. Mas continue lutando para salvar a arte…

    Abraço,

    André

  6. André, que surpresa vê-lo por aqui, depois de sua longa e sentida ausência lá na Copa. Mas agradeço a visita e fico contente de ver que você está disposto a uma conversa, coisa que, desculpe, sua “resenha” não sugeria.

    Não sou um crítico sério, meu caro. Acho que sou considerado um cara sério, até meio sério demais, e certamente gosto de me ver como um escritor e jornalista sério, mas crítico não. Sou um blogueiro que sempre evitou falar dos livros de que não gosta – mesmo que isso limite terrivelmente meus temas, sobretudo quando se trata de literatura brasileira contemporânea. Mas é evidente que discordamos, isso sim: levo a literatura mais a sério do que você. Até aí tudo bem.

    Seriedade ou não, devo dizer que achei contraditório você pregar a generosidade e depois fazer ironia com o sucesso e o insucesso de nossos livros na Copa passada, coisas irrelevantes que eu tinha deixado quietas. O que isso tem a ver, me diz? Já que o assunto foi levantado, sou obrigado a dizer que concordo com o juiz daquela partida que você parece não ter engolido até hoje: também acho o meu livro melhor que o seu. Mas a verdade é que o meu também não é lá grande coisa, o próximo é melhor. Mesmo assim, conheço algumas pessoas que preferem o seu, e isso é bem bacana. O jogo é esse, os juízos são infinitos. O problema é não ter juízo nenhum.

    O que me decepcionou no seu texto – e quando falo em decepção existe aí um elogio embutido em forma de expectativa, caso você não tenha percebido – foi o pouco caso, o desprezo, o desrespeito que ele traduz por esse ofício de escrever, de ler. Agora me explica: se não era piada, André, era o quê?

    Ou não explique, tudo bem. Se aparecer lá na Copa e resolver responder a todos, você terá trabalho suficiente para os próximos dias. Entenderei se não sobrar tempo para o Todoprosa.

    Mais uma vez obrigado por aparecer. Pode deixar que continuarei lutando aqui no meu canto – em vão, provavelmente – pelas coisas em que acredito. Isso deve soar meio ‘corny’ aos ouvidos de quem chama os críticos de “esses filha da puta”, mas fazer o quê. Sem esse tipo de honestidade eu não veria graça na fantástica roubada em que escolhemos trabalhar.

    Um abraço.

  7. Rafael Rodrigues disse:

    Sérgio, você vai me perdoar pelo trocadilho infame, mas o que é bem bacana é o paraíso, se ele realmente existir.

    Peço licença a André Sant’Anna para dirigir-lhe a palavra, já que não o conheço nem nunca tive contato com ele. André, a crítica não carece de generosidade. Os escritores contemporâneos é que sim. E carecem de qualidade também. Os críticos são generosos até demais. O que tem de livro-bomba sendo elogiado por aí não está no gibi. Acho que você está invertendo as coisas. A crítica literária brasileira, na minha humilde opinião, se não é benevolente demais (cadernos de cultura/suplementos literários/blogs literários), é complicada/hermética demais (acadêmicos). E, o pior, bem cegueta. Não consegue separar o joio do trigo nem achar alfinete em caixa de fósforo. Na verdade, não têm é paciência pra fazer isso. Aliás, acho que têm é muita preguiça. Poucos são os que se salvam.

    Os escritores fingem que escrevem algo que preste, a crítica finge que aquilo é bom, o leitor finge que gostou e danou-se. Poucos são os que levam a sério o que fazem, e foi justamente no calo desses que você pisou, com seu texto.

    Não sei se você fez isso por diversão ou se realmente tem contato com escritos que o fizeram enxergar as coisas do jeito que você dá a entender no seu texto, mas se aceita um conselho, tente mudar de ares. Ler coisas novas e tal. A crítica literária, quando é feita com responsabilidade e idoneidade, não traz lucro. Poucos são os que conseguem algum destaque, ou uma “posiçã ‘especial’ na sociedade”. Augusto Meyer, que estou descobrindo só agora, passou anos sem ser editado. José Castello encerrou a coluna “Cartas de um aprendiz” no Rascunho porque não aguentou a reclamação dos “jovens” autores.

    A literatura é a paixão de uma parcela pequena demais da sociedade. Inclusive, é uma paixão sua. Ela, coitada, não interfere em mais nada, só nas vidas de uns poucos que se dignam a escrever romances, críticar e ler livros por prazer. Concordo quando você diz que a arte não é tão nobre assim, que já foi mas não é mais. Mas do jeito que você falou, na Copa, foi um desrespeito, e isso não se pode fazer com a literatura – na minha opinião, claro.

  8. ed disse:

    Há mais de um ano fui incompreendido aqui por criticar essa tal “copa”: http://breviario.org/sententia/2007/07/26/do-lat-cuppa/

    sempre achei o negócio uma pasmaceira, e só não falei mais nada acerca porque pessoas que respeito, como você, vez ou outra participavam de alguma forma, nem que por meio de comentários.

    este seu post me alivia.

  9. Breno Kümmel disse:

    Eu concordo com o andré, esse negócio de críticos ficarem criticando não tem nada a ver…

  10. Chico disse:

    Achei a resenha do rapaz, filho do Sergio, desrespeitosa sim, pois das duas uma, ou estou perdendo meu senso critico, ou dizer que ambos autores seriam tao bons que um autor poderia escrever o livro do outro, eh no minimo deselegante!!

    Se isso nao eh desrespeito a tese de que o inferno esta cheio de compassivos dotados das mais boas intencoes procede.

    E concordo plenamente com o Rafael, uma critica bem escrita pode dignificar uma obra e po-la para dialogar em seu tempo.

    A proposito, Sindico, cortou meu comentario? Nao entendi! Juro que eu tinha mandado um comentario ontem, mas posso ter teclado errado. Mas tudo bem, o teu 4 paragrafo eh mais ou menos o resumo do que eu disse e tenho dito.

  11. Sérgio Rodrigues disse:

    Chico, nenhum comentário é cortado aqui, a não ser nos casos (raríssimos) em que eles incorrem no Código Penal. Mesmo assim, deixo lá uma frase comunicando a exclusão. O seu não chegou.

    Breno, cuidado: para usar ironia, segundo o Millôr, deve-se avisar com uma semana de antecedência.

  12. Chico disse:

    Sindico, desculpe, nem devo ter mandado.

    [off topic]
    Mas nao me venha com essa coisa de Codigo Penal pra cima de mim, pois a minha mensagem poderia incorrer em falso testemunho, seguido de falsidade ideologica e apologia a violencia literaria critica. Alem do mais, usuarios literarios sao apenas usuarios, e suas acoes nao devem ser criminalizadas!

    Tendo minha indigancao verbalizada, advirto-o, inopinado Sindico, que com esse papo de Codigo Penal podes me complicar a vida ja que pesam sobre minhas costas toda a sorte de calunias.
    Atenciosamente, D. Dantas.

    [on topic] Acho que o Todo Prosa deveria subir na lata de oleo Mazzolla e liderar uma campanha contra a torpeza literaria e faco minha as palavras do Fred Kling, do Milton Ribeiro e do Rafael.

    Essa coisa de escritores jovens, nominadamente o Andre e o Mirisola, encherem paginas e paginas com estorias cheias de palavroes, pode ser interessante, pode teh ser engracado, quando o leitor sabe que o autor tem 19 anos e escreve bem com esses recursos, mas o que me desanima eh o fato de que entre os primeiros livros e os ultimos destes, frescos no prelo, nao ha diferenca estilistica. Imagino que muitos destes autores ja andem pela casa 85 anos, mas continuam escrevendo como se ainda estivessem publicando no jornalzinho do Centro Academico da faculdade. E isso eh fauvista, eh empobrecedor, eh dose, meu amigo. Dose pra liaun.

  13. Rafael Rodrigues disse:

    Chico, rapaz, digo, D. Dantas! Manda uma graninha pra cá, o bicho tá pegando… hehehe

    Às vezes o comentário se perde mesmo. Já aconteceu comigo. Dou-te uma dica: antes de clicar em “enviar”, copia o comentário e salva em um documento de texto. E só deleta o .txt depois de conferir se o comentário foi ao ar!

    Sobre a campanha que você sugeriu, Chico, é uma boa. Mas não iria adiantar muito. Afinal, quem somos nós? Iriam nos chamar de românticos, puritanos – estou sendo otimista; iriam nos chamar é de coisa pior! Mas, enfim, sigamos adiante, tranquilos, sem se envolver demais com essas coisas, e deixemos os sabichões conversarem entre eles. Era o que eu deveria ter feito. Mas agora já comentei, fazer o quê.

  14. kurtz disse:

    Sergio, estou curioso pra saber o que vc achou do estupendo “Cordilheira”.

  15. Ademar Santos disse:

    André Santana escreveu:
    “é impossível dizer que um livro é melhor do que o outro.”

    Curioso ler tanta certeza da parte de quem louva o relativismo.

    Curioso.

  16. Pessoal, escrevendo um artigo sobre o The Golden Notebook Project, um interessante projeto on-line sobre o romance de Doris Lessing (mais detalhes no PONTOLIT, basta clicar o link no meu nome), me deparei — olhem só que coincidência — com o prefácio deste livro (no Brasil, O carnê dourado), postado no blog Opiário, de Saint-Clair Stockler, comentarista aqui do TP.

    Vale a pena ser lido, por todos. O texto traz a visão de Lessing (e já lá se vão 46 anos) sobre “Essa triste altercação entre autores e críticos, dramaturgos e críticos…”.

    Forte abraço!

  17. Kurtz, diferente de você, não vi nada de estupendo em “Cordilheira”. Mas é um livro interessante. Talvez escreva alguma coisa sobre ele em breve.

  18. Clara disse:

    Puxa, a gente passa um tempo fora e quando volta, percebe que pedeu muita coisa interessante!

    Grande abraço,

    Clara

  19. Pedro de Oliveira disse:

    Tá explicado, Fred. O problema é genético. Hitler adoraria tê-lo no time. Rá, te peguei!

  20. fred disse:

    Cuma?

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